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sábado, 4 de outubro de 2014

OLIVER STONE, O CONSPIRATIVO



     Há uma semana, o realizador americano Oliver Stone passou por Portugal e pelo Porto, a convite sexta edição do festival Douro Film Harvest. A Câmara Municipal do Porto aproveitou a ocasião para entregar a medalha de honra da cidade ao polémico realizador americano, que não deixou o nosso país sem falar do seu novo projeto, o livro The Untold History of the United States, escrito em co-autoria com o historiador Peter J. Kuznick e que irá dar lugar a uma série televisiva homónima, um documentário em doze episódios, narrados pelo próprio cineasta, que revê numa perspetiva crítica alguns momentos cruciais da história americana, desde a guerra hispano-americana de 1898 até ao presente.

     Goste-se muito ou pouco, Oliver Stone é um realizador incontornável na História do cinema americano, porque ele “trata” a história política americana do século XX nos seus filmes mais marcantes. Apresenta uma visão muito crítica da intervenção americana no Vietname e da maneira como a CIA e o FBI espiam amigos e inimigos dos EUA. Ataca a administração Bush de modo violento no seu filme “W.”, mostra o selvagem mundo do dinheiro através de “Wall Street – o dinheiro não dorme” (2010), mas antes já tinha abordado a mesma temática em “Wall Street” (1987) e revelado a sua perspetiva sobre a administração Nixon, num filme com o mesmo nome.



No entanto, para mim, o filme mais marcante de Oliver Stone foi “JFK. Nele, Stone demonstrou, a meu ver, que John Kennedy foi assassinado pelos poderosos americanos que temiam as reformas que o empático jovem governante preparava. Com ele, o realizador nova -iorquino ganhou muitos admiradores e outros tantos detratores que o acusaram de estar sempre a efabular teorias da conspiração. Em “JFK”, a teoria de Oliver Stone pareceu-me muito realista. No entanto, não foi com este filme que Stone conquistou Hollywood. Isso aconteceu uns anos antes com “Expresso da Meia-Noite” (1978) – Óscar de melhor argumento; “Platoon – Os Bravos do Pelotão” (1986) e “Nascido a 4 de julho” (1989) – ambos com o Óscar de melhor realizador.

Stone nasceu em 15 de setembro de 1946, mas só começou a fazer cinema a sério aos vinte e sete anos quando escreveu, realizou e montou o filme de terror “Seizure” (1974). Quatro anos mais tarde assinou o argumento de “O Expresso da Meia-Noite” (1978) que lhe valeu um Óscar e muitas críticas. No início da década de oitenta, Oliver Stone tinha uma fama horrível: machista, violento e racista.

Quando era visto como argumentista de filmes de direita, Stone surpreendeu o meio cinéfilo com o filme “El Salvador” (1986), onde criticou a intervenção norte-americana na América Latina. É do mesmo ano o incontornável “Platoon – os Bravos do Pelotão” que questiona a guerra do Vietname. Logo ele que lá combateu como voluntário, ganhando mesmo uma condecoração! Oliver Stone tinha mudado muito de ideias…




Em “Nascido a 4 de julho” (1989), que lhe valeu a segunda estatueta enquanto realizador, contou a história verídica de um veterano do Vietname. A experiência pessoal naquele país asiático permitiu-lhe ver o outro lado da guerra. Em 1993 surgiu “Quando o Céu e a Terra mudaram de lugar”, que foi filmado da perspetiva de uma mulher asiática.

Oliver Stone centrou a sua filmologia na política americana do Séc. XX, mas não esqueceu outros fenómenos, ainda que com menos brilhantismo. Em “As Vozes da Ira” (1988), refletiu sobre o poder da Rádio, enquanto em “The Doors” (1991) homenageou o seu ídolo de juventude Jim Morrison.

Quando Rui Moreira lhe entregou a medalha de honra da cidade do Porto referiu que o realizador americano daria um bom candidato a Presidente da República. Não acho. Oliver Stone é o típico anti status quo. Ele interroga o poder, expõe-lhe as contradições, mas, como diria José Régio, só sabe que "não vai por aí." 

Gabriel Vilas Boas

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