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terça-feira, 28 de outubro de 2014

AH, OS DIAS FELIZES





Domingo à tarde. O sol tornava-se morno e o Porto ganhava lentamente os tons de outono. Entro apressado no Teatro Nacional de S. João, pois a peça já estava a começar. Na plateia, não mais de quatro dezenas de apaixonados do teatro aguardam pacientemente o começo da peça. Mal no sento, as luzes apagam-se e o pano sobe. 

Ao centro da cena, Emília Silvestre vai dar corpo a uma das mais famosas peças do renomado dramaturgo irlandês, Samuel Beckett: AH, OS DIAS FELIZES. Sabia muito pouco sobre a peça, no entanto, os nomes de Beckett (autor) Nuno Carinhas (encenador) e Emília Silvestre (protagonista) atraiam-me. 

A peça é um longo monólogo de noventa minutos, divididos em dois atos, sem intervalo. A protagonista –Winnie - passa o primeiro ato, enterrada até à cintura, no alto de um monte, a falar sozinha. Com palavras e gestos banais, Winnie enche o vazio com as memórias dum passado feliz. (“Ah, os dias felizes”). A sua existência, presa a um monte, é infeliz e muito condicionada. O seu companheiro, ainda que presente em cena, não lhe responde. Ela fala sozinha… horas e horas a recordar, a conjeturar, a tentar vencer o vazio da existência. 




Mas Winnie não se dá por vencida. É admirável a sua capacidade de luta e de sobrevivência, a sua resistência ao tempo e às circunstâncias adversas. 

Admirável é também o trabalho da atriz Emília Silvestre. Um trabalho duma exigência enorme, não só pela quantidade de texto que tem de decorar, como pela condição em que a protagonista se encontra. Além disso, Emília Silvestre “constrói” uma mulher que está numa situação extrema e que continua a acreditar no amor, a lutar contra o tempo e a ocupar o espaço com a linguagem. 

À medida que a peça avança, o título não deixa de ecoar no pensamento dos espetadores: “ah, os dias felizes”. Muitos de nós lembram-se dos momentos difíceis que passamos, e suspiram por um passado feliz e cada vez mais longínquo. Talvez seja por isso que muitos críticos de Beckett dizem que ele é eterno ou intemporal…

Entretanto, entramos no segundo ato. A condição da protagonista degrada-se: agora ela está enterrada até ao pescoço, mas isso não altera o seu ânimo. Continua a falar, a falar de tudo o que se pode, a encher esse vazio que derrota e amesquinha qualquer um.

Será assim até ao final, quando o público sublinha a satisfação pelo trabalho dos atores João Cardoso e Emília Silvestre com genuínas e longas palmas. 

Saiu do teatro a pensar no vazio de muitas existências que me rodeiam e imagino a angústia que as invade. Percebo como é preciso ser forte, especial, único para continuar a lutar, a resistir, a amar, quando as circunstâncias nos sufocam e oprimem. 

Novamente na rua, agora já sem pressa, observo os vendedores de castanhas e de gelados. Ambos fazem bom negócio. Pode parecer absurdo como num texto qualquer de Beckett, mas profundamente real. O vazio de muitas existências também é um pouco assim…


Gabriel Vilas Boas

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