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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

INTIMIDADE INDECENTE



Uma grande vénia aos atores, à autora do texto, ao fabuloso momento teatral vivido recentemente no Teatro de Vila Real. 

“Intimidade Indecente” foi, provavelmente, o melhor espetáculo teatro que vi nos últimos meses, o que não é de estranhar, porque o espetáculo praticamente esgotou todas as salas portugueses por onde passou neste final de outono, apesar de já estar em cena há dezoito anos. 

A peça começa com uma discussão banal entre o casal, Roberta e Mariano. Aos 50 anos de idade e 20 de vida em comum, o casal fala sobre sexo e desejo. Roberta queixa-se que o marido já não a deseja sexualmente.

A justificação de Mariano vai direta ao coração do problema de muitos casais de cinquenta anos: perdera o «tesão» pela mulher e pela vida, apesar de amar ambas. Obviamente a discussão instala-se e no meio dela, o marido acaba por confessar um caso com a melhor amiga a da filha, uma jovem de dezassete anos, o que determina o divórcio do casal, já que Roberta o expulsa de casa. 


Dez anos depois, dá-se o primeiro reencontro. Roberta está vivendo com Lea, uma mulher mais jovem que a faz redescobrir os prazeres do sexo, entretanto adormecidos, nos últimos anos de um casamento monótono. Já Mariano fora abandonado pela jovem amiga da filha e trocado por outro homem bem mais novo – como seria de esperar. 

Outra década passa, entretanto, Roberta aparece sozinha, gozando apenas a companhia do seu caniche enquanto Roberto, visivelmente, mais velho, anuncia que vive na companhia de uma secretária / enfermeira, que, de quando em vez, o contempla com pequenos favores sexuais, ainda que ele tenha absoluta consciência que o interesse desta é materialista. 


Mais dez anos volvidos e o casal volta a reencontrar-se. O andar difícil e curvado e a perda constante de memória denunciam alguém que já passou a barreira dos oitenta. Mariano lamenta ter “um dia ter-se revelado a verdade”. Melhor teria sido manter a vidinha mediana e feliz de sempre. Seria? 
O lançamento da peça junto do público promete paixão, sexo, traição, companheirismo, abandono, amor, preconceito, solidão. É muito, mas não é tudo. Quem assiste à peça vê mais do que a interpretação de um fabuloso texto de Leilah Assumpção, que nos atira à cara a aquilo que já somos ou provavelmente poderemos vir a ser quando «o tesão» de viver murcha e tentamos, por meios errados recuperá-lo, como se houvesse elixir da juventude em qualquer pele ou sexo de um(a) jovem. 

Durante todo o espetáculo o humor está presente, como algo que esvazia o dramatismo de algumas conclusões cruéis que vamos assimilando, mas o principal é mesmo a emoção e a reflexão que o texto nos proporciona. 

E depois há a fabulosa interpretação de Marcos Caruso. Há quinze anos, na primeira apresentação da peça em Portugal, ele fez-se acompanhar de Irene Ravach. Desta vez, a parceria foi com Vera Holtz e não se pode dizer Vera não estivesse à altura da exigência e da comparação. 

O que mais me impressionou, do ponto de vista cénico, foi a maneira excecional como Caruso e Vera Holtz souberam envelhecer as suas personagens sem sair de cena, sem trocar de maquilhagem, sem mudar o cenário. Os atores vão dos 50 aos 80 anos apenas por meio de um primoroso trabalho corporal e vocal. A postura, o gestual, as manias, expressões...é impressionante! Tem-se mesmo a impressão de que temos personagens de diferentes idades em cena. 
Apesar da extrema qualidade da interpretação de Vera Holtz, Caruso é um ator à parte. Numa palavra: excecional. 
Como a peça! Como a vida, também…

sábado, 22 de dezembro de 2018

A Verdade


Patrícia e Paulo têm uma relação em segredo. Joana, a mulher e Paulo, suspeita de qualquer coisa, e faz-lhe perguntas cada vez mais embaraçosas.
Miguel, o marido de Patrícia, é o melhor amigo de Paulo, mas a franqueza entre os dois já não é o que era. À medida que os enganos se vão enredando, os dois casais perdem-se num laribirinto de quem disse o quê a quem.

Num jogo de máscaras brilhantemente cruel,  A Verdade, do dramaturgo parisiense Florian Zeller, centra-se no microcosmos da vida conjugal para expor as hipocrisia da sociedade e problamatizar com humor as vantagens de ocultar a verdade e os inconvenientes de a revelar.

O encenador João Lourenço pegou no texto de Zeller e desafiou quatro atores conhecidos - Paulo Pires, Patrícia André, Miguel Guilherme, Joana Brandão (curioso como os atores emprestam o seu nome às personagens que interpretam) - a dar-lhe corpo cénico. Para o trabalho ficar completo os mesmo atores também levam à cena A Mentira. 

O resultado são dois espetáculos notáveis, intensos, bem-humorados, mas sobretudo altamente interpelativos para o espectador. O que custa mais a lidar? A Verdade ou a Mentir? A resposta está bem para além do óbvio e obriga-nos a uma reflexão sobre nós, a maneira como lidamos com a vida, com os outros e sobretudo connosco. 
Talvez o maior problema do perigoso e sedutor jogo entre a  Verdade e a Mentira seja a sombra de qualquer uma delas: a culpa.
Vi A Verdade no Teatro Aberto. Sala cheia. Plateia atenta, divertida, nervosa com o espelho vindo do palco. Também é para isto que o teatro serve e não apenas para passarmos uns bons momentos entre gargalhadas fúteis e sem história.

GAVB
 

domingo, 27 de maio de 2018

IMAGINARIUS




O Imaginarius é um Festival de Teatro de Rua e já vai na 18.ª edição. Realiza-se em Santa Maria da Feira, em Maio, e de ano para ano atrai cada vez mais público e tem aumentado exponencialmente a sua qualidade. Só para edição de este ano houve 295 candidaturas, provenientes de 48 países. Claro que com tantos interessados é possível criar um cartaz de grande qualidade.

Além do vencedor do ano passado, os suiços Ici’bas, com o seu Lonely Are The Lonely Roads, os cabeças-de-cartaz eram os holandeses Theatre Gajes com a sua Odyssee e os portugueses Teatro do Mar com o multidisciplinar Insomnio.
Já há alguns anos que não marcava presença neste evento e por isso foi uma agradável surpresa a qualidade dos espetáculos que ontem tive a oportunidade de assistir.

Teatro, circo, dança, mímica, acrobacias, músicas. De tudo um pouco se pôde ver neste Festival Internacional de Teatro de Rua, que decorreu em vários espaços da cidade. Saia-se de um local e logo estava a começar outro espetáculo noutra praça, noutra rua, noutro recanto. Do que vi na tarde do último dia, impressionou-me os franceses do Cirk Biz’Art, três jovens marselheses que me encheram as medidas com a sua performance, uma espécie de cabaret-circo irreverente, onde o tradicional se misturava com o bizarro e interagia de forma intensa com o público, durante setenta minutos.

Também fiquei agradavelmente surpreendido com os espanhóis Collectiu La Persiana que apresentaram a sua “Violeta”. Um espetáculo familiar, onde sete acrobatas disputavam a atenção do público ao som da música latina, testando os limites e as emoções, desafiando sentimentos.




O final de cada um dos três dias do certame ficou marcado por um fabuloso espetáculo de pirotecnia e música, dos franceses Les Commandos Percu, denominado Silence. Aquilo que podia ser apenas uma banal mistura de técnicas de percussão e pirotecnia transformou-se numa tempestade imponente e ousada de som e fogo capaz de nos tocar em diversos domínios.



O Imaginarius é um festival para a família, descontraído, bem organizado e com um baixo investimento, que devia e podia ser replicado noutras cidades portuguesas. A arte, o improviso, a ousadia, o convívio entre culturas e povos, o teatro, a música, o circo, a dança e acrobacia – tudo parece ser um excelente motivo para visitar Santa Maria da Feira no final de Maio, numa espécie de ensaio geral para a Viagem Medieval, o evento mais emblemático do concelho.
GAVB

sábado, 22 de abril de 2017

A ARTE DESISTIU DA CRÍTICA?



Sabem por que Gil Vicente sobreviveu à poeira dos anos? Porque analisou critica e magistralmente a sua época. Sabem por que Picasso é famoso?  Porque Guernica não é apenas um excelente objeto estético, mas um documento histórico único, um grito de revolta potente que atravessou fronteiras e gerações.
A esperança de liberdade, nos tempos da ditadura salazarista, esteve muito mais nos poemas de Manuel Alegre, nas canções de Adriano Correia de Oliveira e Zeca Afonso do que nos grãos de areia que o PCP tentou pôr na engrenagem do regime.
A arte ganha uma dimensão transcendental quando se “mete” com o poder, quando o questiona e o critica. A arte derrubou muros e regimes; a arte formou consciências, a arte desmascarou e corrigiu injustiças.

E o que faz hoje a arte?

Não está para se maçar! Come pipocas no cinema, provoca apenas através da banalização do sexo, grita umas palavras de ordem contra os corruptos e ditadores e vai de férias para as praias da Califórnia ou do sul de França.

Estou em crer que muita da inércia popular, muita da cedência ao populismo descarado e xenófobo a que assistimos, radica na desistência da arte em assumir uma crítica estruturada e coerente ao status quo.

Faltam aos povos poetas do concreto, músicos comprometidos, filósofos pragmáticos. E falta também alguém que una a cadeia, porque carneirada há em abundância. 
Talvez seja difícil, num tempo tão subjetivo, tão partido e individualista apelar a uma arte comprometida, solidária e coerente, mas é bom perceber que muitas das conquistas coletivas de que deliciosamente desfrutamos estão realmente em perigo.
GAVB


domingo, 20 de novembro de 2016

DO BOSQUE PARA O MUNDO

Foto da Agência Lusa APS

Do Bosque Para O Mundo é uma peça de teatro para crianças sobre o drama dos refugiados, que estreia daqui a 48 horas, no Teatro São Luís, em Lisboa.
A iniciativa da dupla Inês Baranhona (texto) e Miguel Fragata (encenação) é extremamente interessante, porque concentra a atenção no público-jovem, convidando-o à reflexão do problema humanitário, social e político mais importante dos nossos tempos.

Para que tal aconteça, Inês Baranhona criou uma história protagonizada por duas crianças afegãs, Farid e Reza, enviadas para Londres pela mãe, mas que serão separadas durante o percurso.

Ciente que a peça se destina a um público muito jovem, Miguel Fragata socorreu-se de algumas estratégias cénicas inventivas para contextualizar conceitos fundamentais como “refugiado”, “asilo”, “traficante”, “regras dos países europeus”.
Mais difícil de explicar será, certamente, a razão da forçada separação de dois irmãos, as dificuldades em obterem autorização para entrar em Inglaterra, a impossibilidade de terem a companhia dos pais. Há coisas que uma criança não entende e que um adulto também não deveria entender: a maldade, a desumanidade, o horror a tudo o que é estrangeiro…

Quer dramaturga quer encenador confiam que as crianças portuguesas, que verão esta peça, consigam encontrar pontos comuns com as personagens e sejam capazes de refletir no drama de Farid e Reza como algo que deve ser evitado, no futuro, mas que lhes pode acontecer.

A ideia de criar uma peça de teatro, sobre o tema dos refugiados, para crianças é muito interessante e pedagógica, pois fornece às crianças e jovens uma interpretação mais ampla e mais humana das notícias em que reparam desleixadamente e ajuda-os a formar uma consciência cívica sobre um assunto que, infelizmente, também lhes diz respeito.

Depois de Lisboa, espero que a peça possa percorrer outras cidades do país, de maneira a que mais público juvenil veja esta primeira abordagem teatral de um tema que faz sangrar a sociedade europeia.

Gabriel Vilas Boas 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

O ARTISTA É UM FINGIDOR?


Fernando Pessoa escreveu no poema Autopsicografia que o poeta é um fingidor. Todo o escritor precisa de o ser! E também o ator, o pintor, o cineasta… O artista precisa de fingir para criar! A realidade é notícia, é história e, sobretudo, é, muitas vezes, aborrecida.

No entanto, ao contrário do leitor, do espetador, do ouvinte, o artista não pode ser um fingidor amador. Fingir é a sua arte, fingir é a sua profissão e todo o seu encanto está em fazer, por momentos, os outros acreditar na verosimilhança do seu poema, da sua atuação, da sua pintura futurista. Para isso, ele precisa de viver a personagem que criou, de sorver a sua personalidade, de entrar dentro dela e fazê-la caminhar num palco ou numa folha de papel. É ele que lhe dá vida, que lhe empresta personalidade, comportamentos e sentimentos.
Quando o consegue plenamente, será que podemos afirmar que continua a fingir? Quem representa, quem escreve com frequência ou até quem pinta com regularidade e alguma qualidade sabe perfeitamente quão doloroso é o processo criativo. A dor não é nenhum fingimento. O amor, o ódio, a alegria, a revolta, a compaixão, o medo que poeta ou ator expelem das suas personagens foram vividos, muitas vezes sofridos.


É comum os escritores falarem de experiências traumáticas de escrita como é recorrente vários atores falarem com assombro das experiências que viveram (não fingiram viver) ao representar determinada peça.
Claro que essas experiências passam e os atores partem para outra história, como cada um de nós o faz com as diversas experiências por que passa na vida.
Escrever, representar, criar qualquer objeto artístico é tão sério e tão “verdadeiro” como outra coisa qualquer. Ninguém diz de um economista que tem um “jeitinho” para as contas, nem que faz uns cálculos para desenfastiar do aborrecimento da vida; ninguém desdenha da arte de um pasteleiro ou de uma cozinheira como um ócio tolo de quem tem muito tempo para desperdiçar, apesar dos bolos fazerem mal à saúde.
O artista sente a dor que finge, transmutando-se em várias personalidades, num trabalho incansável que alimenta o espírito daqueles que precisam de algo mais do que a intragável mesmice.

gavb    

sexta-feira, 29 de abril de 2016

DANÇA



A par do Teatro e da Música, a Dança é uma das três artes cénicas da antiguidade e comemora hoje o seu Dia Mundial.
Já no Antigo Egipto ou na Grécia, encontramos diversas formas de utilização do corpo quer através de movimentos previamente definidos (coreografias), quer através de movimentos improvisados na própria altura (dança livre), integradas nos mais diversos espetáculos.
No entanto, já na Pré-história o Homem apresentava manifestações que se poderiam considerar como Dança, uma vez que efetuava batimentos com os pés no chão. Com o passar dos tempos descobriu que poderia passar a utilizar outro tipo de percussões corporais, tais como as palmas. A Dança que por esta altura servia como uma forma de comunicar com uma Divindade que o Homem não entendia muito bem, mas que estava bem presente na sua vida, rapidamente deixou de ter apenas esse papel de “meio de comunicação”, para ter também uma componente lúdica.

Ballet, é o nome dado a um estilo de dança que nasceu nas cortes da Itália renascentista durante o século XV e que se desenvolveu ainda mais na Inglaterra, Rússia e França, como uma forma de dança de concerto. As primeiras apresentações diante da plateia eram feitas com o público sentado em camadas ou galerias, disposto em três lados da pista de dança. Eram realizadas, principalmente, com o acompanhamento de música clássica.
O Ballet é um tipo de dança que possui uma forma altamente técnica e um vocabulário próprio. É um género de dança muito difícil de dominar e que requer muita prática. Ele é ensinado em escolas próprias em todo o mundo, servindo a sua técnica como a base fundamental para todos os tipos de dança.

Conforme foi anteriormente referido, o Ballet surgiu no século XV (durante a Renascença) nas cortes italianas, embora o seu desenvolvimento tenha sido maior nas cortes francesas, no século XVII, durante o reinado de Luís XIV, facto que se refletiu diretamente no vocabulário que ainda hoje é utilizado no Ballet – os nomes dos passos são em francês. Apesar das grandes reformas de Noverre no século XVIII, o Ballet entrou em declínio na França depois de 1830, continuando no entanto a ser aperfeiçoado na Dinamarca, Itália e Rússia.
Às vésperas da Primeira Guerra Mundial este gênero de dança foi reintroduzido na Europa Ocidental por uma companhia russa – os Ballets Russes de Sergei Diaghilev, que veio a ser influente em todo o mundo. A companhia de Diaghilev rapidamente se tornou no destino de muitos dos bailarinos russos treinados que fugiam da fome e da agitação que se seguiu à revolução bolchevique. Estes bailarinos trouxeram muitas das inovações coreográficas e estilísticas que tinha florescido com os czares, de volta ao seu lugar de origem.

No século XX, o Ballet continuou a desenvolver-se e teve uma forte influência sobre a chamada dança de concerto. Por exemplo, nos Estados Unidos, o coreógrafo George Balanchine desenvolveu o que hoje é conhecido como Ballet Neoclássico. Os desenvolvimentos posteriores mais conhecidos incluem o chamado Ballet Contemporâneo (entre outros), visto no trabalho de coreógrafos como William Forsythe ou Pina Bausch, apenas para citar alguns.
O Ballet Clássico é o mais metódico dentre todos os estilos de dança e também é o que mais adere às técnicas de dança tradicionais. Existem algumas variações em relação à área de origem deste género, entre elas, o Ballet russo, francês, italiano e dinamarquês.

Os estilos mais conhecidos de Ballet são o método russo, o método italiano, o método dinamarquês, o método Balanchine ou método New York City Ballet e os métodos Royal Academy of Dance e Royal Ballet School, derivados do método Cecchetti.
As primeiras sapatilhas de Ballet tinham as pontas terrivelmente pesadas para permitir que a bailarina ficasse na ponta dos pés facilmente e aparentasse leveza. Mais tarde ela foi convertida na atual constituição, onde uma “caixa” abriga a ponta dos pés da bailarina e lhe dá suporte para manter o equilíbrio.
O Ballet Contemporâneo é uma forma de dança influenciada pelo Ballet Clássico e pela dança moderna. Utiliza a técnica e o trabalho nas pontas dos pés vindos do Ballet Clássico, muito embora se permita uma maior amplitude de movimentos que não são comuns nas escolas tradicionais de Ballet. Muitos de seus conceitos vêm de ideias e inovações ocorridas na dança moderna do século XX.
Seja como for, dançar seja qual for o estilo – e hoje em dia há-os para todos os gostos – é algo que faz bem ao corpo e à mente. De forma profissional, de forma lúdica, seja rigoroso naquilo que faz e exigente consigo próprio. Procure profissionais devidamente habilitados para o efeito porque, como em muitas áreas da sociedade atual, o que mais não falta são “artistas habilidosos” que se fazem passar por professores altamente competentes e que mais não fazem do que vender “gato por lebre”.

Por isso, aceite novamente o meu conselho, e hoje em particular – dance!!!
Paulo Santos Silva

sábado, 23 de abril de 2016

CERVANTES E SHAKESPEARE - DOIS GÉNIOS DA LITERATURA


Entre 22 e 23 de abril de 1616, há precisamente 400 anos, o mundo despedia-se de dois enormíssimos escritores: o espanhol Miguel Cervantes e o inglês William Shakespeare. Nunca mais Espanha e Inglaterra tiveram escritores tão extraordinários.
Miguel Cervantes deixou-nos Dom Quixote De La Mancha, que alguns críticos literários consideraram a melhor obra de ficção de todos os tempos, enquanto Shakespeare legou-nos textos dramáticos imortais como Romeu e Julieta, Macbeth, Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, Rei Lear, Hamlet. As salas de teatro e de cinema tornaram a obra do inglês mais imortal e universal, porque o dramaturgo cria diamantes em bruto que os encenadores e os atores lapidam até à perfeição.

No entanto, a história de Dom Quixote e do seu fiel escudeiro Sancho Pança é muito mais do que o lado B de um romance de cavalaria, onde Cervantes satiriza os preceitos que regiam as histórias fantasiosas daqueles heróis de pacotilha vigentes na época. O mais icónico romance de Cervantes ensina-nos que a utopia e a loucura fazem tão parte da vida quanto a mais concreta realidade, havendo sempre protagonistas para qualquer uma delas. Quatro séculos depois, por cada dez Sanchos encontraremos pelo menos um Dom Quixote que verá gigantes onde os outros vêem apenas moinhos. E como cada um precisa do outro para viver.
O teatro também precisou de Sir William Shakespeare para se reinventar. Desde os enormes Sófocles, Eurípides, Ésquilo que a humanidade não conhecia alguém tão dotado para pôr o Mundo no palco. Felizmente que logo depois apareceu Molière, mas a Felicidade não é dada a generosidades excessivas. 

Quatrocentos anos depois ainda não saímos de cena porque há sempre um Hamlet, um Lear, um Romeu ou uma Julieta que nos habitam de uma maneira tão intensa e profunda que se torna impossível não amar as peças daquele bardo que fazia sonetos e peças de teatros com a mesma sublime categoria. Acresce ainda que o mais conhecido cidadão de Stratford-upon-Avon encantava o seu público com uma linguagem barroca, virtuosamente trabalhada, tão espirituosa quanto sábia. As suas personagens de alta estirpe social eram modelos de linguagem, encantando quer pela forma quer pelo conteúdo.
Cervantes e Shakespeare não podem ficar fechados nas páginas dos livros, evocados numa qualquer nota biográfica de calendário nem apreendidos à pressa em frases célebres postadas nas redes sociais. Precisamos que se entranhem em nós através de espetáculos memoráveis, atuações sublimes e encenações/produções inovadoras.
Precisamos tanto que nos inquietem a vida… outra vez!

Gabriel Vilas Boas 

terça-feira, 29 de março de 2016

LIMA DUARTE - VIDA, PAIXÃO E "MORTE" DE UM CABOCLO


Lima Duarte é daqueles atores que prende o espectador ao ecrã só para apreciar a sua atuação. Com ele aprendemos a gostar de telenovelas, porque personagens como Zeca Diabo, Sinhozinho Malta, ou Sassá Mutema entranharam-se na nossa memória afetiva para sempre.
Uma personagem pode ser muito mais ou muito menos do que aquilo que o argumentista/dramaturgo projetou para ela – cabe ao ator torná-la inesquecível ou redundante. Normalmente, Lima Duarte tornava uma telenovela inolvidável e tudo parecia girar à volta da sua personagem. Os grandes atores são assim: não esperam os papéis importantes, constroem-nos.

Lima Duarte começou desde cedo a colocar a máscara de ator, quando aos dezasseis anos decidiu que havia de vingar com um nome diferente do seu. Pôs de lado aquele inenarrável Ariclenes Venâncio Martins e recebeu como bênção materna o bendito “Lima Duarte”.
Entretanto passaram setenta anos e uma enormidade de excelentes trabalhos no cinema, no teatro e em televisão, que tornaram  Lima Duarte num dos melhores atores brasileiros de sempre.
Lima Duarte conseguia ser o bruto mais doce, o assassino profissional mais humano, o analfabeto mais eloquente, um comediante que nos fazia rir como perdidos e arranjava sempre maneira de nos surpreender.

Representou imenso, ensinou bastante. Não tanto como gostava e muitos vezes sentindo a injustiça de ser mal dirigido por gente que notoriamente sabia menos de direção de atores. 
Há seis meses correu a notícia que Lima Duarte tinha falecido, mas tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto que o autor aproveitou para fazer humor: "Não tenho pressa". Nós também não! 
Lima Duarte não foi embora; ficou e permanece como uma dádiva de talento e generosidade bem para além dos oitenta. Hoje está de parabéns aquele que sabe que é o nosso “Bem-Amado”, “Pai Herói” ou simplesmente um Sassá Mutema feito de sonho e vontade de aprender e de se dar - a perfeita metáfora daquela Brasil que nunca deixaremos de amar.
Gabriel Vilas Boas

domingo, 27 de março de 2016

O PAPEL DA TUA VIDA





No teatro da vida
Segues… representando.
Entalado entre a certeza e a dúvida
Uma verdade se acentua:
Esta peça não é tua.




Há cenas que te angustiam,
Outras apenas te entediam.
Há alegria, há amor e… dor!
Encenação ou verdade?
Não te importas e sorris: és ator.
Essa é a inconveniente verdade!

Fazes de bom, fazes de mau…
Herói, figurante ou vilão
Querido, proeminente, importante
Sobes escadas, desces o degrau.
Pensas ser o centro da ação?
És apenas circunstancial comediante…
Para uns arrogante, para outros brilhante.



Tem coragem de mudar:
Transformar-te em drama, em texto
 E sem lamentares o contexto
Deixa a tua vida sobrevoar
A morada secreta dos sonhos,
Onde mil e uma histórias
Esperam qu’ as convertas em vitórias
Sobre os teus fantasmas medonhos.





No palco único do teu futuro
Aceita somente ser protagonista.
Nada receies, não fiques inseguro
É a hora de te assumires como artista.
Dessa peça emocionante e preciosa
Em que uma personagem fabulosa
Enfrenta a traiçoeira tragédia
Rejeita a insignificante comédia
Apresentando-se à vida à sua maneira.


Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 14 de março de 2016

AS RAPOSAS, uma peça de teatro sempre atual


Mais uma ida ao TNJS para assistir a uma peça encenada por João Lourenço e de cujo elenco faziam parte figuras como João Perry, Virgílio Castelo, Marco Delgado, Luísa Cruz, Sofia Cabrita. A peça era As Raposas da judia Lillian Hellman, escrita em 1939. O texto foi adaptado à realidade portuguesa tornando-o mais próximo do espectador.
As Raposas expõe uma história de três irmãos que lutam pelo controlo do negócio familiar. Neste combate há quem olhe a meios e quem olhe aos fins, quem se adapte ao presente e quem se agarre ao passado, quem vença pela força e quem espere o momento certo, quem seja pragmático e quem escute a voz do coração.
A versão de João Lourenço, estreada no verão de 2015, transporta para os nossos dias a ação de As Raposas, salientando as paixões desencadeadas pela ânsia de poder e dinheiro e questionando os valores do mundo em que vivemos.

Atualmente, reina a economia. Ela impõe-se no discurso político, social e no quotidiano das pessoas, cada vez mais reduzido a quadros, tabelas e gráficos. De fora ficam outras vivências e outras atividades que escapam a esses critérios.
Com As Raposas, Lillian Hellman propõe um olhar diferente sobre o mundo dos negócios: pensar as negociações, as paixões, as motivações das partes envolvidas, os seus sentimentos e argumentos.
A adaptação de João Lourenço à realidade portuguesa faz-se deslocando a ação para os nossos dias e para uma região nortenha indefinida, no campo. Os campos de algodão do sul dos EUA foram substituídos por vinhas, a construção de uma fábrica por um projeto de enoturismo (característica das atuais tendências de negócio); os criados negros deram lugar a uma empregada jovem, eficiente e discreta; os dólares aos euros; as carruagens puxadas por cavalos transformaram-se em carros, comboios e aviões.

Quando a ação começa está-se num ponto de viragem para uma nova era; propõe-se a mudança do velho estado de coisas para um negócio inovador que promete mais lucro, mais prosperidade e mais felicidade. É a altura de se formular três desejos (como nos contos de fadas), mas que no fundo se podem reduzir a dois: o regresso ao paraíso perdido do passado feliz e aconchegante e a descoberta do mundo novo, desconhecido, mas que existe algures no futuro, representado pela grande Nova Iorque.
Apresentando-se, a um primeiro olhar, como forças destrutivas, as raposas mesquinhas revelam-se também como forças criativas que impulsionam o progresso. Se a mudança ocorre de uma forma feroz e brutal, a responsabilidade não pertence aos destemidos impulsionadores que não manifestam quaisquer escrúpulos nem olham a meios para se atingir os fins, mas sim a todos os que permanecem passivos, sem intervir, sem lhes contrapor uma dinâmica diferente, como muito bem anota a personagem Benjamim Hilton (interpretada por Virgílio Castelo), um dos irmãos-raposa.

A importância dessa dinâmica diferente surge no final da peça, na figura feminina mais jovem da família que toma consciência do legado que o seu pai lhe deixou.

A maior riqueza guardada no cofre é a coexistência de dois tempos e dois sistemas de valores simbolizados nos objetos guardados: as ações e libras de ouro para investir no mundo dos negócios, na mudança e no futuro; e um sapatinho de bebé e um pedaço de um violino velho – valores sentimentais – para recordar o mundo da música e dos afetos.

No fundo o cofre guardava um sentido mais profundo:  os vestígios do espírito da grande utopia – um mundo melhor e mais justo. 

quarta-feira, 2 de março de 2016

MACBETH, de Shakespeare


Escrita entre 1605 e 1606, esta tragédia, esta tragédia só foi publicada muitos anos mais tarde, por volta de 1623. Para escrevê-la, Shakespeare inspirou-se na “Crónica da História da Escócia” de Raphael Holinsted, na qual a figura principal, Lady Macbeth, embora mencionada só tem uma fala.
Enquanto Shakespeare escrevia Macbeth, Londres estava cheia de escoceses que tinham vindo para assistir à festa da coroação de Jaime I, e isso permitiu ao poeta ouvir, dos mais cultos forasteiros, pormenores interessantes da história da Escócia.
Os temas da tragédia são a ambição do poder e a culpa.

A tragédia conta a história de Macbeth, general escocês, que volta de uma batalha onde lutou valorosamente em defesa do seu rei (o seu primo Duncan) e consegue uma importante vitória. De regresso ao seu país, Macbeth tem um premonitório encontro com três feiticeiras que que lhe predizem que será rei. Para facilitar o cumprimento da profecia e instigado pela sua mulher, Macbeth aproveita-se de o rei Duncan ser seu hóspede e apunhala-o, durante a noite, culpando do assassínio os guardas aos quais também mata, fingindo uma grande indignação.
Assustados, os filhos de Duncan fogem para Inglaterra, o que torna ainda mais fácil a realização das ambições de Macbeth.
Já rei da Escócia, Macbeth tudo faz para assegurar a posse do trono e procura exterminar Banko, pois as feiticeiras haviam profetizado a Banko que ele seria a origem de uma dinastia de reis.

Sicários a soldo de Macbeth matam de facto Banko, mas o filho deste consegue escapar da morte. Na mesma noite em que é cometido o crime, Macbeth oferece um banquete, durante o qual o lugar do rei é ocupado pela sombra de Banko. Apavorado, o criminoso – que é o único a ver a sombra – pronuncia palavras que quase denunciam os seus crimes. Então, a sua mulher, mais serena, dá por terminado banquete e faz com que os convidados saiam.
As feiticeiras previnem Macbeth contra Macduff, e o usurpador decide exterminar também este e a sua família. Nessa ocasião, Macduff escapa com vida, mas morrem a sua mulher e os seus filhos. Macduff, que se refugiara a tempo em Inglaterra, consegue convencer Malcom, filho do assassinado rei Duncan, a atacar o traidor Macbeth e a derrubá-lo do trono.
As tropas de Malcom combatem as do usurpador e este perece às mãos de Macduff, que lhe corta a cabeça. O filho de Duncan é então proclamado rei da Escócia.
Lady Macbeth, atormentada pelos remorsos, endoidece e suicida-se, poucos dias antes da morte do marido.

Representei, no papel de Macbeth, e encenei partes desta peça com um conjunto de jovens alunos. Em ambas as situações constatei a complexidade e profundidade da obra de Shakespeare. É verdadeiramente desafiante todo o papel do protagonista, cuja alma é escrutinada em várias dimensões. A nobreza da luta, a ambição do poder absoluto, a crueldade com que mata o primo, os remorsos incomportáveis que o abalam, a culpa que o consome. O sucesso de qualquer representação está, em absoluto, na maneira como o ator agarra toda a complexa personagem de Macbeth. Através dele, Shakespeare representou as enomes contradições do ser humano e a maneira, ironicamente amarga, como a vida estabelece-se uma espécie de justiça poética sobre as ações do Homem. 

GAVB