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domingo, 27 de junho de 2021

QUE MÚSICA ESCUTAS TÃO ATENTAMENTE QUE NÃO DÁS POR MIM ?

 


Não sei como vieste,

mas deve haver um caminho

para regressar da morte.


Estás sentada no jardim,

as mãos no regaço cheias de doçura,

os olhos pousados nas últimas rosas

dos grandes e calmos dias de setembro.


Que música escutas tão atentamente

que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?

Ou é dentro de ti

que tudo canta ainda?


Queria falar contigo,

Dizer-te apenas que estou aqui,

mas tenho medo,

medo que toda a música cesse

e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio

com que teces os dias sem memória.


Com que palavras

ou beijos ou lágrimas

se acordam os mortos sem os ferir,

sem os trazer a esta espuma negra

onde corpos e corpos se repetem,

parcimoniosamente, no meio de sombras?


Deixa-te estar assim,

ó cheia de doçura,

sentada, olhando as rosas,

e tão alheia

que nem dás por mim.


Eugénio de Andrade, in 'Antologia Poética

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 21 de março de 2019

FANATISMO



Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.

Meus olhos andam cegos de te ver.

Não és sequer razão do meu viver

Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...

Passo no mundo, meu Amor, a ler

No mist'rioso livro do teu ser

A mesma história tantas vezes lida!...

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa...

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:

"Ah! podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca

sábado, 8 de setembro de 2018

NÃO TE RENDAS


Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.


Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viagem,
perseguir os teus sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu. 

Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,
porque o quiseste e eu te amo,
porque existe o vinho e o amor,
porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
tirar os ferrolhos,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos,
abrir as asas
e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito. 



Não te rendas, por favor, não cedas:

mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, porque eu te amo. 

Mario Benedetti

quinta-feira, 12 de julho de 2018

NÃO TE QUERO



Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

Pablo Neruda

segunda-feira, 17 de julho de 2017

QUE PERFEITO É O TEU CORAÇÃO


Para a Sofia


Quando uma gaivota me acordou
E me trouxe o céu de Lisboa
No belo desenho do seu voo
Pude ver o céu do teu olhar.
Ele é uma asa que voa
E se estende até ao mar.




Que perfeito coração
Trazes no teu peito!
O Meu amor na tua mão
Sente-se completo e satisfeito
Porque é perfeito o teu coração.


Se um qualquer sonhador
Daqueles que sabem tão bem
As leis da dor e do amor
Outro sonho me prometesse
Dir-lhe-ia que os deuses não sabem
Que o sonho já acontece
E todos os dias me enternece.



Que perfeito coração
Trazes no teu peito!
O Meu amor na tua mão
Sente-se completo e satisfeito
Porque é perfeito o teu coração.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O FAROLEIRO APAGOU A LUZ



O faroleiro apagou a luz
E foi-se embora,
Talvez não mais regresse...
Cansado de tanta demora.

No longo silêncio do Oceano
O marinheiro estende a sua tristeza
Sobre a calmaria das águas.
Está cansado de remar,
De emitir sinais,
Do auxílio que não vem…

A luz apagou-se.
Um frio assassino invade-lhe a alma.
E deixa-o sem reação.
Nenhum porto seguro o seduz
Como a razão sem razão
Daquela luz.
Gavb

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

AMO-TE


 Amo-te de uma maneira inexplicável,
de uma forma inconfessável,
de um modo contraditório.
Amo-te, com meus estados de ânimo que são muitos
e mudar de humor continuadamente
pelo que você já sabe
o tempo,
a vida,
a morte.



Amo-te, 
com o mundo que não entendo

com as pessoas que não compreendem
com a ambivalência de minha alma
com a incoerência dos meus atos
com a fatalidade do destino
com a conspiração do desejo
com a ambiguidade dos factos



ainda quando digo que não te amo, amo-te
até quando te engano, não te engano,
no fundo, levo a cabo um plano
para amar-te melhor
Amo-te, sem refletir, inconscientemente
irresponsavelmente, espontaneamente
involuntariamente, por instinto
por impulso, irracionalmente
de fato não tenho argumentos lógicos
nem sequer improvisados
para fundamentar este amor que sinto por ti
que surgiu misteriosamente do nada
que não resolveu magicamente nada
e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada,
melhorou o pior de mim.
Amo-te



Amo-te 
com um corpo que não pensa
com um coração que não raciocina
com uma cabeça que não coordena.
Amo-te incompreensivelmente
sem perguntar-me porque te amo
sem importar-me porque te amo
sem questionar-me porque te amo

Amo-te
simplesmente porque te amo
eu mesmo não sei porque te amo…

Pablo Neruda

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

LABIRINTO




Por quê continuar a sonhar?
Por quê imaginar esse mundo
Que no Fundo
É só Brincar?
Essa Felicidade
Cheia de ilusão
Que fazes parecer verdade
Na imaginação.





Cansas-te a arquitectar,
A tentar surpreender
A razão,
Nessa busca constante
De prazer,
De Emoção.
De algo que te prende
E enoja.
Que te esgota
E não se rende.
……..
Continuas a correr,
A procurar no escuro…
Sem perceber
Que o que procuras

És tu!

domingo, 27 de março de 2016

O PAPEL DA TUA VIDA





No teatro da vida
Segues… representando.
Entalado entre a certeza e a dúvida
Uma verdade se acentua:
Esta peça não é tua.




Há cenas que te angustiam,
Outras apenas te entediam.
Há alegria, há amor e… dor!
Encenação ou verdade?
Não te importas e sorris: és ator.
Essa é a inconveniente verdade!

Fazes de bom, fazes de mau…
Herói, figurante ou vilão
Querido, proeminente, importante
Sobes escadas, desces o degrau.
Pensas ser o centro da ação?
És apenas circunstancial comediante…
Para uns arrogante, para outros brilhante.



Tem coragem de mudar:
Transformar-te em drama, em texto
 E sem lamentares o contexto
Deixa a tua vida sobrevoar
A morada secreta dos sonhos,
Onde mil e uma histórias
Esperam qu’ as convertas em vitórias
Sobre os teus fantasmas medonhos.





No palco único do teu futuro
Aceita somente ser protagonista.
Nada receies, não fiques inseguro
É a hora de te assumires como artista.
Dessa peça emocionante e preciosa
Em que uma personagem fabulosa
Enfrenta a traiçoeira tragédia
Rejeita a insignificante comédia
Apresentando-se à vida à sua maneira.


Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 24 de novembro de 2015

PRENDA DE ANIVERSÁRIO


A Mulher
Mais bonita do mundo
É a minha Mãe!

Nela habita o sorriso
Doce da ternura,
Que ainda hoje perdura,
E aparece quando é preciso.

O seu abraço acolhe e conforta
Sempre que a tristeza bate à porta.
Ensinou-me a ser e a viver com alegria
E a suportar os infortúnios com sabedoria.

Porque dotada d’alma imensa,
Enfrenta a saudade e a dor
Com a força dum grande amor,
Pois conhece a sua recompensa:
Ver os filhos crescidos
Com a certeza que estão unidos!



Recordo o seu ralhar terno e doce
De quem tudo vê com muita atenção.
E as vezes em que disse sim, dizendo não,
Apagando cada falha, como se nada fosse.

Mãe assim nunca envelhece!
Constrói, cada dia, aquilo que sou.
Por isso é eterna e permanece
Única e bela como no dia em que me criou!


Gabriel Vilas Boas

sábado, 31 de outubro de 2015

AINDA QUE MAL, de Carlos Drummond de Andrade




Ainda que mal pergunte, 
ainda que mal respondas; 
ainda que mal te entenda, 
ainda que mal repitas; 
ainda que mal insista, 
ainda que mal desculpes; 
ainda que mal me exprima, 
ainda que mal me julgues; 
ainda que mal me mostre, 
ainda que mal me vejas; 
ainda que mal te encare, 
ainda que mal te furtes; 
ainda que mal te siga, 
ainda que mal te voltes; 
ainda que mal te ame, 
ainda que mal o saibas; 
ainda que mal te agarre, 
ainda que mal te mates; 
ainda assim te pergunto 
e me queimando em teu seio, 
me salvo e me dano: amor. 



Carlos Drummond de Andrade faria hoje 113 anos. Aniversário improvável, mesmo numa época em que a longevidade humana bate recordes. Escolhi este poema para o homenagear, em primeiro lugar porque gosto muito dele; depois porque o texto do poeta brasileiro demonstra como a repetição consegue criar beleza, ritmo e não menoriza o conteúdo.
Neste poema, Drummond de Andrade trabalha a partir da repetição duma expressão longa e nada poética – “ainda que mal” -, contudo, através dela aproxima-nos da poesia, revelando que as minudências do quotidiano também são elegíveis para a pena do poeta.
A repetição cria o ritmo acelerado de um diálogo inexistente para o escritor brasileiro revelar que a força do amor triunfa sobre um extensa lista de pequenas grandes contrariedades. A vida sempre esteve cheia de “emboras”, de “mas” e muitos “ainda que mal”, a questão é como reagir a eles. Com a força do amor, tudo parece mais fácil, porque sem ele, “ainda que bem” faça quase tudo, o resultado sabe sempre a derrota.

Há tantas maneiras e formas de amar que, ainda que “mal nos pareça”, emperramos a vida por culpa própria, querendo tirar os mas e os embora do caminho, quando eles estão lá, precisamente, para tornar mais saborosa a nossa vitória. 
Gabriel Vilas Boas



domingo, 25 de outubro de 2015

SACRIFÍCIO



Sacrifício, sacrifício, sacrifício,
Quase sempre uma opção
Quando a forte ambição
Desejava maior benefício.

Culpavam-se os deuses,
Culpava-se o destino,
Mas era o humano desatino
Que propunha troca interesseira
Vergonha da humanidade inteira.

Ganhámos o habito do negócio,
Mas perdemos a dimensão
Do lucro e do prejuízo.
Criámos uma mentalidade,
Uma razão sem razão,
Que se impôs como verdade
Que não oferecia contestação.

O Sacrifício faz parte da vida,
Mas não é a própria vida,
Porque assim a negaria.
Quase sempre um escolha,
Deixamo-lo ser dominador
Encher a nossa vida de dor,
Como quem se encolhe
Num medo absurdo
Do Futuro.

Chamam-lhe responsabilidade,
Recusa de egocentrismo…
Não será antes conformismo
Disfarçado de inevitabilidade?

Tantas vezes uma pacto suicida,
Que fizemos com os deuses,
Com os outros ou com a vida.
Se não o conseguirmos vencer
Tornar-se-á castigo sem crime,
Verdadeiro desperdício sublime,
De tempo e vidas deitadas a perder.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 18 de outubro de 2015

SOLIDÃO


SOLIDÃO
Apenas soube que existes
No dia em que me atingiste!
É quase sempre assim…
Agora que sei o teu nome,
Conheço o teu ADN e a tua fome
De te juntares a mim,
Reconheço que sempre
Estiveste por perto.
Dizem-te parceira dos velhos,
Dos Deserdados e desamados
E tu sorris, sorris como um esperto
Que adora convenientes enganos!

Visitas-nos desde tenra idade.
Vejo-te nos putos presos na rua,
Esfomeados do carinho dos pais;
Revejo-te nos alunos alheados e tristes
Sentados à porta das salas de aula
Sem saber o que fazer com os intervalos.
Mas deles tens comiseração…
Ou então é apenas esperteza. Já nem sei…
Um like a tlintar no smartphone,
Os headphones nos ouvidos,
Um beijo furtivo e quente…
E adias a tua apresentação!




Abomino é o que fazes aos velhos!
Massacra-los com memórias 
que não voltam,
Não lhes dá nem a visita piedosa dum neto,
Entropeces-lhes a vontade.
Detesto-te, porque não havia necessidade!
Eles já perderam o suficiente,
Tu já ganhaste mais do que merecias.



Agora nós!
Fomos apresentados num dia qualquer,
Em que olhei ao espelho além da roupa
E te vi a troçar de satisfação.
Acho que foi num daqueles dias
Em que a lucidez triunfou sobre a vaidade,
Em que o telefone não tocou e as SMS não chegaram.
Ou então os silêncios se prolongaram
E os abraços não traziam calor.


Nesse dia marcaste tantos golos
Que te fartaste!
Noutras alturas, ganhaste, claramente, o jogo…
Mas o nosso campeonato 
nem a meio vai!
Dar-te-ei sempre luta!
Não viverás mais
À custa do meu egoísmo!

Outro dia senti saudades…
E senti-te também por perto.
Não sei se me dizias adeus 
ou olá…

Por mim, dizia-te adeus
 e olá à outra pessoa.
Quanto ao nosso campeonato,
Apenas tenho uma certeza:
VAIS PERDER.
No jogo da Vida, quem vence sou Eu!

Gabriel Vilas Boas