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terça-feira, 8 de junho de 2021

A ARTE DE PERDER



A arte de perder não é nenhum mistério.
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta estupidamente.


A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por mais que pareça muito sério.

Elizabeth Bishop

sábado, 5 de junho de 2021

TRAGO TEU CORAÇÃO COMIGO



Trago o teu coração comigo (trago-o dentro do meu coração)
nunca estou sem ele
(onde eu vou tu vais, minha querida; e tudo o que seja feito por mim somente é um feito teu, meu amor)
não temo destino algum
(porque és tu o meu destino, doçura)
não desejo mundo algum
(porque tu, bela, és o meu mundo, a minha verdade)
e és tu o que quer que seja que a lua sempre tenha significado
e o que quer que seja que um sol cante para sempre és tu.
Eis o segredo mais fundo que ninguém sabe
(eis a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu da árvore chamada vida;
que cresce mais alto do que a alma pode esperar
ou a mente ocultar)
e esta é a maravilha que mantém as estrelas distantes
Trago o teu coração (trago-o dentro do meu coração).


Edward E. Cummings

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

ESCRE(VER)-ME

 Nunca escrevi


sou 

apenas um tradutor de silêncios


a vida

tatuou-me nos olhos

janelas

em que me transcrevo e apago


sou 

um soldado

que se apaixona

pelo inimigo que vai matar.


Mia Couto, 1985

terça-feira, 19 de maio de 2020

EU


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

EU QUASE AMEI A FORMA COMO TU MENTIAS


Eu quase amei a forma como tu mentias
limpando os pés ao meu sorriso
É claro que achas que eu não presto
É claro que achas que eu não sirvo








Eu quase amei a forma como tu me vias
logo eu amo outra pessoa
Eu não me importa se eu não presto
Eu tenho planos para lá de mim


E tu és só o que eu te empresto

Foi no teu amor que algo se perdeu
Foi no teu amor não no meu


Foi no Teu Amor, Manel Cruz 

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

EU DEIXAREI QUE MORRA EM MIM O DESEJO DE AMAR OS TEUS OLHOS



Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.


Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.

Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.


Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Ausência, Vinicius de Morais

domingo, 20 de outubro de 2019

MAIS QUE O TEU CORPO


Mais que o teu corpo quero o teu pudor
quero o destino e a alma e quero a estrela
e quero o teu prazer e a tua dor
o crepúsculo e a aurora e a caravela
para o amor que fica além do amor.


A alegria e o desastre e o não sei quê
de que fala Camões e é como água
que dos dedos se escapa e só se vê
quando o prazer se torna quase mágoa.



Estar em ti como quem de si se parte
e assim se entrega e dando não se dá
quero perder-me em ti e quero achar-te
como num corpo o corpo que não há.

Manuel Alegre

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O QUE HÁ EM MIM É SOBRETUDO CANSAÇO

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, 
ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas 
— Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, Íssimno, íssimo, íssimo, 

Cansaço... 

Álvaro de Campos, in "Poemas"

domingo, 21 de abril de 2019

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
sophia de mello breyner andresen

domingo, 3 de fevereiro de 2019

INVERNO

Apagou-se a fogueira.
Que frio na lareira
Do coração!
Neva
Na solidão
Da vida.
Como ardias outrora,
Nos dias de ventura.
Não me deixes assim
Nesta algidez de morte prematura.

 E o vento traz e leva
Um recado de eterna despedida.


Amor! Amor!
Sei ainda o teu nome redentor,
Chamo ainda por ti a cada hora!
Arde outra vez em mim
Miguel Torga, 
Coimbra, Janeiro, 1978

sábado, 19 de janeiro de 2019

MÃE SOLTEIRA




 Tive um filho que era teu
mas quando me abandonaste
o filho ficou só meu
fruto apenas de uma haste.
Por ele passei as passas
Que ninguém há de passar
andei ruas corri praças
e o meu filho e o meu filho
e o meu filho e o meu filho
por criar.



Lá porque sou mãe solteira
não me atirem o desdém
amei de muita maneira
com amor de pai também
fui operária do meu corpo
mulher homem a lutar
eu não quis um filho morto
e o meu filho e o meu filho
sabe andar.



Sabe andar de pés no chão
com o olhar de quem perdoa
a um pai que disse não
porque um não já não magoa
à mulher que eu soube ser
foi pelo filho que tive
e agora o que acontecer
é porque o meu filho vive.



Se tu hoje queres voltar
sou eu que digo não
eu também lhe soube dar
a força que os homens dão
mãe solteira mas inteira
mulher que soube parir
tu não estás à minha beira
e o meu filho e o meu filho
e o meu filho e o meu filho
sabe rir.



 * Poema/letra de canção que José Carlos Ary dos Santos escreveu em 1981, para ser interpretado musicalmente por Maria Armanda.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

RECEITA DE ANO NOVO


Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe ou qualquer outra bebida

não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 

Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 27 de novembro de 2018

DEPOIS



Depois de sonhar tantos anos
De fazer tantos planos
De um futuro pra nós
Depois de tantos desenganos
Nós nos abandonamos 

como tantos casais
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também


Depois de varar madrugada
Esperando por nada
De arrastar-me no chão
Em vão
Tu viraste-me as costas
Não me deu as respostas
Que eu preciso escutar
Quero que você seja melhor
Hei de ser melhor também



Nós dois
Já tivemos momentos
Mas passou nosso tempo
Não podemos negar
Foi bom
Nós fizemos história
Pra ficar na memória
E nos acompanhar





Quero que você viva sem mim
Eu vou conseguir também
Depois de aceitarmos os fatos
Vou trocar seus retratos 

pelos de um outro alguém
Meu bem
Vamos ter liberdade
Para amar à vontade
Sem trair mais ninguém



Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também
Depois

                                                                                                                                                                                     Marisa Monte

sábado, 12 de maio de 2018

E POR VEZES



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos   E por vezes


encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes


ao tomarmos os gosto aos oceanos
só o sarro das noites   não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos



E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes 
num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira



segunda-feira, 31 de julho de 2017

COMO SERÁ ESTAR CONTENTE?



Como será estar contente?
Lançar os olhos em volta,
moderado e complacente,
e tratar com toda a gente
sem tristeza nem revolta?
Sentir-se um homem feliz,
satisfeito com o que sente,
com o que pensa e com o que diz?
Como será estar contente?




Deve haver qualquer mecânica,
Qualquer retesada mola
Que se solta e desenrola
no próprio instante preciso,
para que um homem de carne,
de olhos pregados no rosto,
para olhar e rir com gosto
sem estranhar o som do riso.



Na minha tosca engrenagem,
De ferrugenta sucata,
Há qualquer mola de lata
Que não se distende bem,
Qualquer dessorada glândula
Ou nervo que não se enfeixa,
Qualquer coisa que não deixa 
Deflagrar essa girândola 
De timbres que o riso tem.




Não ter riso e não ter casa,
Nem dinheiro nem saúde,
Não se conta por virtude
Que a miséria é ferro em brasa. 





Mas ter casa, ter dinheiro,
Ter saúde e não ter riso,
Flagelar-se o dia inteiro
Como se o sangrar primeiro
Fosse um tormento preciso,
Tê-lo sempre forte e vivo,
espantando a todo o momento,
Isso sim, será motivo 
De Grande contentamento.

António Gedeão 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

GOSTO DAS MULHERES QUE ENVELHECEM


Gosto das

mulheres que envelhecem,

com a pressa das suas rugas, os cabelos

caídos pelos ombros negros do vestido,

o olhar que se perde na tristeza

dos reposteiros. Essa mulheres sentam-se

nos cantos das salas, olham para fora,

para o átrio que não vejo, de onde estou,

embora adivinhe aí a presença de

outras mulheres, sentadas em bancos

de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem

sentem que as olho, que admiro os seus gestos

lentos, que amo o trabalho subterrâneo

do tempo nos seus seios. Por isso esperam

que o dia corra nesta sala sem luz,

evitam sair para a rua, e dizem baixo,

por vezes, essa elegia que só os seus lábios

podem cantar.

Nuno Júdice

domingo, 4 de junho de 2017

PEDRO, LEMBRANDO INÊS


Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: 

ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua 
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,


subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.
Nuno Júdice

quinta-feira, 25 de maio de 2017

IMPRESSÃO DIGITAL



Os meus olhos são uns olhos,

E é com esses olhos uns

que eu vejo no mundo escolhos

onde outros, com outros olhos,

não vêem escolhos nenhuns.




Quem diz escolhos diz flores.

De tudo o mesmo se diz.

Onde uns vêem lutos e dores

uns outros descobrem cores

do mais formoso matiz.


Nas ruas ou nas estradas

onde passa tanta gente,

uns vêem pedras pisadas,

mas outros, gnomos e fadas

num halo resplandecente.





Inútil seguir vizinhos,

querer ser depois ou ser antes.

Cada um é seus caminhos.

Onde Sancho vê moinhos

D. Quixote vê gigantes.


Vê moinhos? São moinhos.

Vê gigantes? São gigantes.



António Gedeão
In Movimento Perpétuo (1956)



quarta-feira, 8 de março de 2017

A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO


Estás tão bonita hoje. 

Quando digo que nasceram 

flores novas na terra do jardim, quero dizer 

que estás bonita.

Entro na casa, entro no quarto, abro o armário,

abro uma gaveta, abro uma caixa onde está 

o teu fio de ouro.



Entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 


Há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro  de mim. 



Estás tão bonita hoje. 
Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

Estás dentro de algo 
que está dentro 
de todas as  coisas,
 a minha voz nomeia-te 
para descrever a beleza. 


Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

De encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão" 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

HAVIA UMA ILHA EM TI


Houve uma ilha em ti que eu
Conquistei.
Uma ilha no mar da solidão.
Tinha um nome de ilha onde morei:
Chamava-se Coração.

Que saudades do tempo que passei,
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já não sei.
Também não sei da ilha, não sei, não.

Só sei da mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra do recordar.

A ilha que eu amei já não existe
Agora amo o céu quando estou triste
Por não saber do coração do mar.


Joaquim Pessoa