Depois de sonhar tantos anos De fazer tantos planos
De um futuro pra nós
Depois de tantos desenganos
Nós nos abandonamos como tantos casais
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também
Depois de varar madrugada
Esperando por nada
De arrastar-me no chão
Em vão
Tu viraste-me as costas
Não me deu as respostas
Que eu preciso escutar
Quero que você seja melhor
Hei de ser melhor também
Nós dois
Já tivemos momentos
Mas passou nosso tempo
Não podemos negar
Foi bom
Nós fizemos história
Pra ficar na memória
E nos acompanhar
Quero que você viva sem mim
Eu vou conseguir também
Depois de aceitarmos os fatos
Vou trocar seus retratos pelos de um outro alguém
Meu bem
Vamos ter liberdade
Para amar à vontade
Sem trair mais ninguém
Há quinze anos, Carlinhos Brown escrevia para Marisa Monte “Amor I Love You”, muito provavelmente, o maior êxito da cantora brasileira.
O tema acabou por se tornar um ícone moderno duma declaração de amor à moda antiga, inserindo-se no álbum “Memórias, Crónicas e Declarações de Amor”.
Claro que Marisa Monte empresta à letra de Mr. Brown toda a sedução e sensualidade que brota naturalmente da sua voz e a criação musical, encontrada para o tema, corrobora a estilo dengoso de Marisa Monte, mas o mais belo e extraordinário deste tema é a letra.
Esta letra tem o condão de unir épocas e estilos diversos de fazer uma declaração de amor. A escolha do refrão em inglês é duma grande felicidade, transmitindo à canção aquilo que melhor caracteriza a língua inglesa: simplicidade, intemporalidade e universalidade.
Ao moderno refrão inglês, a dupla Marisa Monte/Carlinhos Brown junta “aquele jeito” tão brasileiro de introduzir doçura nas palavras, fazendo poesia a partir dum discurso coloquial
Deixa eu dizer que te amo
Deixa eu pensar em você
Isso me acalma, me acolhe a alma
Isso me ajuda a viver
Hoje contei pras paredes
Coisas do meu coração
Passei no tempo, caminhei nas horas
Mais do que passo a paixão
É um espelho sem razão
Quer amor, fique aqui
No entanto, aquilo que dá um toque verdadeiramente especial à música de Marisa Monte é aquele maravilhoso trecho do Primo Basílio de Eça de Queirós:
“Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”
Um belo “bilhete-postal” do estilo queirosiano, que combinou na perfeição com o resto da letra e tornou a música de Marisa Monte algo perto do sublime, que é, afinal, como deve ser qualquer declaração de amor.