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domingo, 26 de janeiro de 2020

UMA VIDA ESCONDIDA



Tinha grandes expectativas em relação a este filme, mas elas saíram completamente goradas. 

Baseado em facto verídicos, o filme recorda a história de Franz Jägerstätter (August Diehl), um fazendeiro austríaco católico, que durante a II Guerra Mundial se recusou a fazer o juramento de lealdade a Hitler quando foi chamado pela segunda vez para o Exército, invocando objeção de consciência. O ato valeu-lhe, e à família, serem ostracizados pela maior parte dos habitantes da sua aldeia, e um conflito com a sua igreja. Imperturbável perante qualquer tentativa, violenta ou institucional, para o fazer voltar atrás na decisão, nem sequer sob pena de não voltar a ver os pais, a mulher (Valerie Pachner) e as filhas, Jägerstätter foi preso, julgado em tribunal militar, condenado à morte e executado, em Agosto de 1943. Em 1971, Alex Corti fez um filme sobre ele para a televisão austríaca. Em 2007, foi considerado mártir da Igreja Católica pelo Papa Bento XVI e beatificado. 

O filme é incompreensivelmente extenso (três horas), monótono e não questiona a atitude do protagonista como esperava que o fizesse. 
Lento e arrastado, a película centra-se num relato feito a meias entre Franz e a sua mulher de uma história inusitada, mas que merecia um forte debate sobre a dignidade humana, os objetores de consciência durante a guerra, a consciência do bem e do mal assim como a inutilidade de determinadas atitudes, que, por muito justificadas e heroicas que sejam, produzem mais sofrimento sobre os inocentes que lhe aliviam as dores. 

O realizador Terrence Malick absteve-se de discutir a atitude de Franz como se ela não merecesse discussão e merecia. Alongou um filme que não devia ir além de 90 minutos, deixou de traduzir ou até colocar em discurso direto importantíssimas falas, ao longo do filme, para se centrar em reflexões filosóficas repetitivas. 

Perdeu-se uma ótima oportunidade de discutir um assunto interessantíssimo como o dos sacrifícios inúteis - em guerra como na vida!





segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

WONDER – A BELEZA DE APRENDER A OLHAR O OUTRO


Olhar, não apenas ver. Olhar como quem vai além do rosto e invade a alma do outro, para o sentir, para o conhecer, para o entender.
Afinal de contas quantos rostos cruzam o nosso olhar e apenas os vemos com aquela venda quotidiana que nos mantém cegos para tudo o que é importante? 
Sim, é a velha lição do Principezinho -  “o essencial é invisível aos olhos”. E que outra coisa podemos nós buscar além do essencial?
«Wonder» é um filme de Natal, mas será um desperdício de tempo se o virmos apenas como tal. 
Auggie, o rapaz de 10 anos, que vai pela primeira vez à escola, após vinte e sete cirurgias que o puseram a respirar, mas não com um rosto agradável e normal, tem de ser mais do que uma história que nos põe a chorar e eleva os nossos níveis de bondade e compreensão. É preciso observar além da circunstância, do defeito, da peninha, do caso concreto.

O drama deste rapaz com deformações no rosto – síndrome de Treacher Collins – leva-me mais longe que a sensibilidade momentânea e específica perante o drama humano em questão. 
Acho essencial que aprendamos o olhar aqueles com quem nos cruzamos além do superficial. 
Estar atento ao ser humano que reside naquele corpo, ao que ele nos quer comunicar, e aos desafios que silenciosamente os seus olhos nos lançam é algo que fazemos pouco. Há imenso gente que cruza o nosso dia apressado, a quem podíamos ter dedicados uns míseros segundos de atenção, mas não quisemos saber.
Querer saber – apenas isso – é tão importante! Por vezes, decisivo. 

«Wonder» também é um filme que acusa esta insensibilidade coletiva, essa imaturidade que armazena orgulhosamente, mas desconhece a beleza dos embrulhos, porque simplesmente nunca os desembrulha. 
Todos os dias, à nossa frente, aparecem uma ou duas almas ávidas, que esperam desfaçamos o laço ou o nó de um olhar triste ou inquieto.

GAVB

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

OS CARNICEIROS TAMBÉM SE ABATEM



Estreou hoje nas salas de cinema portuguesas “O Homem do Coração de Ferro", filme de realizador francês Cédric Jimenez, que bem podia chamar-se O Carniceiro de Praga, cognome de Reinhard Heydrich.


Sob o ponto de vista puramente cinematográfico, o cineasta francês tinha condições para fazer melhor, pois ao seu dispor estavam atores da estirpe de Jason Clarke, o australiano que fez de Heuydrich, a bela Rosamund Pike (encarna o importante papel de mulher de Heydrich, começando muito bem, mas vai-se apagando com o decorrer do filme, o que é uma pena, pois o seu potencial é inegável), e os promissores Jack Renoir e Jack O´Connell, que vestiram a pele dos dois membros da resistência checa encarregues de assassinar o Carniceiro de Praga.

A grande força do filme está na personalidade hipnótica, desumana, cruel, assustadora de Heydrich, a quem o cognome de «carniceiro» assenta que nem uma luva.
Mais do que a resolução dos jovens checos em assassinarem um dos maiores ícones dos criminosos nazis, o que releva nesta película do Jimenez é a assustadora determinação do alemão em concretizar um plano de destruição total dos judeus (é de Heydrich e Müller a “Solução Final”, plano de assassínio em massa dos judeus, através dos campos de concentração e das câmaras de gás).

O filme começa com a cena decisiva – o momento do atentado, que ocorreu a 27 de maio de 1942, embora o alemão só venha a falecer uma semana depois.

Depois a película de Jimenez revela todo o percurso de ascensão de Reinhard Heydrich, desde o momento em que se casou com um dos membros do partido nazi até à altura em que se tornou numa figura incontornável dentro da elite nazi. 
No início nota-se a influência da mulher na sua personalidade, mas rapidamente a criatura ultrapassou o criador e até a sua mulher lhe ganha medo.
“O Homem do Coração de Ferro” mostra ao detalhe uma época, onde a disciplina alemã, o seu rigor e método estiveram ao serviço do mal.
Apesar de só agora chegar a Portugal, o filme já circulava pelas salas de cinema europeias há alguns meses. Entrou em Portugal agora para não coincidir com “Anthropoid”, de Sean Ellis, também focada no mesmo tema, mas o sucesso deste foi mínimo. Espera-se que o filme protagonizado por Jason Clarke tenha melhor sorte, até porque parece-me que este tem o condão de nos pôr a pensar até onde pode ir o ímpeto da alma humana quando se trata de ser… desumana.

GAVB

terça-feira, 13 de junho de 2017

CINEMA GOURMET


Apesar de ninguém o admitir abertamente, o cinema perde espectadores de forma acelerada um pouco por todo o mundo. Só o inusitado aumento do preço dos bilhetes tem permitido que as receitas vão cobrindo as vorazes despesas da indústria cinematográfica. No entanto, este truque não é sustentável por muito mais tempo e a chegada em força da Netflix ao mercado ao europeu bem como a disponibilização do streaming dos filmes mais recentes poucas semanas após a sua estreia ditarão o fim deste modelo de negócio.

Respondendo ao desafio, a Alamo Drafthouse, uma pequena cadeia de cinemas do Texas, inventou uma fórmula de atração de espectadores às suas sessões de cinema. Nas salas da Alamo não há lugares vazios e até há lista de espera.
E o que têm os filmes da Alamo Drafthouse que os outros cinemas não têm? Além do conforto das cadeiras e da qualidade do som, quem vai ver um filme na Alamo vai ver muito mais que um filme, porque a Alamo recriou o conceito de ida ao cinema, oferecendo um espetáculo total, que mistura cinema, teatro, comédia, networking.

Em cada sessão, instala-se na primeira fila o Master Pancake, que não é mais do que um trio de comediantes de rádio, que passam o filme a fazer comentários hilariantes às várias cenas e diálogos, produzem sons desconcertantes, substituem diálogos, criam uma alternativa aos momentos de silêncio, interrompem a exibição do filme e resolvem fazer um improvisado momento de comédia...
Apesar de um filme ser sempre o motivo central das intervenções, há espaços para oportunas conexões com a atualidade política, cultural ou social nacional ou local.

Claro que isto só pode ser feito por gente que conheça muito bem o filme, que não se alongue nas intervenções e saiba ser oportuno.
Obviamente que este conceito de Cinema Gourmet não é extensível a todos os filmes nem aplicável a estreias absolutas. Exige que já tenhamos visto o filme pelo menos uma vez, mas cria um mercado que julgávamos morto e atrairá muito mais gente às salas do cinema.

A ideia nascida no Texas chegará a Los Angeles daqui a um ano e estou certo que fará furor na Europa. Voltaremos a ir ao cinema para ver aquilo que temos guardado em DVD ou em ficheiros do computador, na esperança de perceber a transformação que os olhos do espetador/comentador fizeram daquele objeto artístico.
GAVB

terça-feira, 23 de maio de 2017

ROGER MOORE LIVES IN HEAVEN


No ano em que nasci, Roger Moore começava a sua saga como um dos agente mais conhecido do mundo do cinema ao serviço de Sua Majestade: James Bound, aquele agente secreto inglês que resistiu ao fim da guerra fria e levou milhões às salas de cinema de todo o mundo.
Hoje, a saga do «Santo» chegou ao fim, num hospital suíço, depois uma curta e inglória luta contra o monstro do cancro. Viveu muito e bem, o ator britânico que a Rainha Isabel elevou à categoria de Cavaleiro do Império, em 1999, devido às suas ações humanitárias, que o levaram também a embaixador da Unicef.
Durante doze anos, Moore vestiu a pele de James Bound e nesse papel angariou grande parte da sua fama enquanto ator. No entanto, seria injusto não destacar também o extraordinário desempenho em «O Santo» no papel de Simon Templar.

Num tempo em que a sofisticação técnica ainda tinha que disputar lugar ao encantador charme do ator, Moore soube fixar o seu lugar na nossa memória coletiva. Talvez hoje em dia os filmes de James Bound tenham de ser arrumados num certo tempo do século passado, mas Moore permanecerá para além deles como um ícone de uma saga que se soube sempre reinventar.
Por mim, dedico-lhe os últimos versos daquele mítico “Living Dayliths”:
“Set your hopes up way too high
The living´s in the way we day”
E, segundo a família, ele morreu rodeado de muito amor e ternura. Como merecia!

GAVB

sábado, 22 de abril de 2017

A ARTE DESISTIU DA CRÍTICA?



Sabem por que Gil Vicente sobreviveu à poeira dos anos? Porque analisou critica e magistralmente a sua época. Sabem por que Picasso é famoso?  Porque Guernica não é apenas um excelente objeto estético, mas um documento histórico único, um grito de revolta potente que atravessou fronteiras e gerações.
A esperança de liberdade, nos tempos da ditadura salazarista, esteve muito mais nos poemas de Manuel Alegre, nas canções de Adriano Correia de Oliveira e Zeca Afonso do que nos grãos de areia que o PCP tentou pôr na engrenagem do regime.
A arte ganha uma dimensão transcendental quando se “mete” com o poder, quando o questiona e o critica. A arte derrubou muros e regimes; a arte formou consciências, a arte desmascarou e corrigiu injustiças.

E o que faz hoje a arte?

Não está para se maçar! Come pipocas no cinema, provoca apenas através da banalização do sexo, grita umas palavras de ordem contra os corruptos e ditadores e vai de férias para as praias da Califórnia ou do sul de França.

Estou em crer que muita da inércia popular, muita da cedência ao populismo descarado e xenófobo a que assistimos, radica na desistência da arte em assumir uma crítica estruturada e coerente ao status quo.

Faltam aos povos poetas do concreto, músicos comprometidos, filósofos pragmáticos. E falta também alguém que una a cadeia, porque carneirada há em abundância. 
Talvez seja difícil, num tempo tão subjetivo, tão partido e individualista apelar a uma arte comprometida, solidária e coerente, mas é bom perceber que muitas das conquistas coletivas de que deliciosamente desfrutamos estão realmente em perigo.
GAVB


quinta-feira, 2 de março de 2017

MANCHESTER BY THE SEA

Manchester by the Sea é um filme do cineasta estadunidense Kenneth Lonergan, que estreou em janeiro de 2016 no Festival de Cinema de Sundance, tendo sido desde então indicado para vários dos mais prestigiados prémios de Hollywood, como os Globos de Ouro e os Óscares (nomeadamente na categoria de “Melhor Filme”).
         Casey Affleck, que muito recentemente foi galardoado com o Óscar de “Melhor Ator”, veste a pele de Lee Chandler, personagem em torno da qual o filme se centraliza. Desde os minutos iniciais da película, o espetador perceciona Lee como um homem que sofrera um processo de desenvolvimento psicológico extremado, que coloca a fragmentação do seu “eu” num panorama dicotómico: o personagem que se movimenta nas analepses com alegria e uns certos traços pueris situa-se nos antípodas do caráter frio, inexpressivo e agressivo da atualidade.
        
 A sua vida frugal, enquanto porteiro em Boston, é interrompida pela morte do irmão, que o obriga a regressar a Massachusetts. Esta de viagem de regresso implicará toda uma digressão pelo seu passado, despoletando gradualmente o conhecimento do personagem através de recuos na narrativa.
         Inesperadamente, o solitário Lee Chandler descobre que o irmão o escolhera para tutor do seu filho menor, Patrick Chandler (interpretado por Lucas Hedges), um adolescente que, apesar da angústia, está conformado com a morte do pai, uma vez que este fora vítima de uma doença cardíaca rara prolongada. Patrick recusa-se a ir viver com o tio para Boston e a permanência deste naquele que um dia fora o seu lar provoca o inevitável confronto com sombras do passado, em simultaneidade com o retrato um pouco cómico de cenas triviais do quotidiano, que não diluem a angústia intrínseca a toda a narrativa.
        
 Pessoalmente, penso que este filme conquistou quer a crítica, quer o público, pela facilidade com que a generalidade dos espetadores se deixa influenciar e dominar pelo lirismo e pelas emoções exacerbadas. O drama psicológico e emocional de Lee Chandler é intenso e extravasa os limites do grande ecrã, levando o espetador a vivenciar as suas dores. Todavia, não consigo deixar de percecionar esta tragicidade inerente ao personagem de Affleck como uma presença obsessiva e exorbitante que demarca a lonjura entre um retrato realista e esta longa-metragem.
        
 Segundo a minha ótica, as desgraças que se sucedem numa torrente caudalosa fazem com que o protagonista apresente múltiplas similitudes com o típico herói romântico da literatura: uma homem que, vítima das suas escolhas e de um destino funesto, vive uma vida recolhida, de penitência, não permitindo a si próprio a criação de vínculos emocionais ou afetivos que suprimam a sua dor constante, dadas as barreiras que experiências passadas criaram.
        
Enquanto película da Sétima Arte, todos os instrumentos se encontram ao serviço da taciturnidade desta existência: a presença constante do Inverno, com uma paleta cromática reduzida a tons frios ou escuros, em conformidade com o estado de alma do protagonista; a banda sonora de Lesley Barber, que acentua em vários momentos o dramatismo; a existência de planos bastante longos, que surtem um efeito encantatório, introduzindo o espetador na triste monotonia de um homem que vive sem esperança.
         Em suma, na minha opinião, Manchester by the Sea não entrará na minha lista de filmes prediletos, devido ao papel quase exclusivo da emoção na formatação do pensamento do pathos, carecendo de substância ou conteúdo. Para mim, a experiência fílmica, enquanto espetadora, deverá desafiar-me de um ponto de vista emocional, aliado ao racional e intelectual, e não deverá cercear o sentido crítico da audiência com a abundância de dramatismo.
                                                                                                       Carina Lopes


terça-feira, 8 de novembro de 2016

ACCOUNTANT - ACERTO DE CONTAS


É certo que ver Ben Affleck com problemas no relacionamento interpessoal é algo estranho, mas é o que acontece em Accountant – Acerto de Contas, o prestigiado ator americano interpreta o papel de um contabilista eficaz e muito apreciado por clientes cheio de dinheiro, mas ligado ao mundo do crime.
Christian Wolff (Bem Affleck) fora uma criança a quem fora diagnosticado autismo em criança mas cujo pai recusou tratamento médico adequado, para o ensinar, de uma maneira muito sua, a defender dos vários ataques que sofreria durante a vida.


Ao longo do filme, haverá vários momentos em que o realizador mostrará a relação sofrida que Wolff teve com o pai, o sofrimento que foi ver a mãe partir e as consequências do autismo no seu comportamento. Christian sempre teve noção clara para quem fazia contabilidade criativa, aproveitando os furos da lei e por isso se protegia. Não era o dinheiro que o movia, mas o prazer da matemática que nele funcionava com uma anormalidade encantadora.
Quando percebe que está a ser investigado por um agente da Divisão Criminal da Divisão do Tesouro, o protagonista aceita um trabalho aparentemente mais limpo – descobrir um erro na contabilidade da insuspeita Living Robotics. Wolff descobre onde estava a origem da fraude, mas foi despedido. Inexplicavelmente sucedem-se várias mortes, como se alguém quisesse encobrir aquilo que Christian tinha descoberto.


A sua ânsia de proteger os inocentes apanhados neste fogo cruzado de interesses acabará por levá-lo ao reencontro consigo, com a sua família, com os seus traumas de infância, fazendo o espectador refletir muito mais no problema do autismo do que na trama da história.

Accountant não é um filme para levar a família, mas é um filme intenso, por vezes algo violento, inquietante e muito bem protagonizado por Bem Affleck, um ator que já só faz aquilo que quer fazer no mundo do cinema. E nem todo o tipo de filmes lhe interessa. Depois da grande realização em «Argo» segue-se Accountant, um filme a ter em conta. 
Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 1 de novembro de 2016

DES HOMMES ET DES DIEUX


«Des hommes et des dieux» é uma longa-metragem francesa, dirigida pelo cineasta Xavier Beauvois. Baseada em factos verídicos, foi premiada no festival de Cannes de 2010 e, no mesmo ano, foi a representante do cinema gaulês nos Óscares.
A narrativa projeta o espetador diretamente para a simplicidade deslumbrante do ventre montanhoso argelino, em plena década de 90, onde sete monges beneditinos vivem em comunhão com a comunidade muçulmana local. A sua vida quotidiana é pautada pela frugalidade e pela dedicação subserviente aos mais necessitados, detendo um papel motriz fulcral junto da população carenciada do norte da Argélia. Cristianismo e Islamismo coexistem, interrelacionam-se pacificamente, evidenciando um comportamento claro de abertura ao diálogo e ao debate.

A intriga rapidamente se adensa, o ambiente inicialmente imperturbável começa a desvendar gradativamente toda a problemática inerente a uma Argélia em plena guerra civil. Crimes de ódio, que espelham uma ambiência de preconceito e intolerância religiosa, proliferam, culminando no brutal assassinato em massa de trabalhadores croatas por uma fação terrorista.
Perante a eminência do perigo, a violência ameaça desmoronar o edifício moral de Christian e dos restantes monges. Sucessivamente, são acometidos por dilemas morais que os colocam perante as suas fragilidades, medos e instintos mais profundos. De modo processual, são confrontados consigo próprios, no desenrolar de uma intriga que revela ser nada mais do que a demanda da autognose individual de cada um daqueles homens devotos e posterior reconhecimento da sua existência enquanto corpo coletivo que trilha a jornada de uma mesma vocação.


É neste conceito-chave que reside todo o magnetismo desta obra vencedora do prémio de Cannes. As dúvidas que dificultam o quotidiano da comunidade monacal humanizam o filme e extravasam os limites dos grande ecrã, proporcionando no espetador o sentimento de empatia e interpelação de quem experiencia com intensidade o depurar da essência daqueles que são o centro daquela pequena vila argelina.
Ficar ou partir. O cerne de tudo e para o qual todas as decisões convergem. Ficar com a certeza de um martírio ou partir para um local mais seguro, abandonando a população aos rebeldes.


Reunidos em plenário, o grupo assume posições divergentes. Christian, o líder, revela-se um exemplo de serenidade, tolerância e resiliência perante os desafios. Sem adotar, em momento algum, uma postura dogmática, este consegue aceder, em uma das cenas mais comoventes, à cedência e ao respeito do grupo fundamentalista que, no decurso da noite de Natal, invadira e ameaçara o mosteiro em busca de medicamentos. Com a mesma atitude, sub-repticiamente, Christian guia o grupo em busca da sua Verdade e mantém o mosteiro uma célula à margem de organismos interesseiros como o Governo francês, assegurando a autonomia moral de todas as decisões tomadas quanto ao futuro.
No desfecho, todos assumem conscientemente a decisão de permanecerem. No derradeiro jantar dos monges, cena que constitui uma profunda e comovente alusão à última ceia de Jesus Cristo, é notória a emoção na assunção da liberdade, enquanto seres que não receiam o destino, mesmo que esse implique a morte. Revelam amizade, cumplicidade e, especialmente, felicidade que advém da fidelidade a Deus que, apesar de lúcidos do sofrimento que os espera, os une e acalenta na convicção da sua fé e vocação, mantendo-os firmes.

Acabam por ser assassinados pelo grupo extremista, à exceção de Amédée e Jean-Pierre que, humanamente fragilizados pelo medo, se escondem, salvando-se. Existe um claro contraste entre o fundamentalismo suicida que destrói e procura a morte em nome do fanatismo e o martírio, em nome da fidelidade, realizado por aqueles que evitam a morte mas não a temem.
«Des hommes et des dieux» é uma obra cinematográfica de excelência que merece um lugar de honra no panorama da Sétima Arte pela universalidade com que aborda uma problemática ilusoriamente tão distante e peculiar. Na minha opinião, a película em si adquire a condição ascética dos Homens que retrata, devido ao modo como refere temáticas de outros domínios, como o político, sem descurar a primazia indelével do drama humano vivido, inspirando e movendo o espetador a debruçar-se reflexivamente sobre a Vocação e sobre os motivos pelos quais valem a pena entregar a vida.
Carina Lopes


terça-feira, 25 de outubro de 2016

CAFÉ SOCIETY


O outono trouxe um misto de sentimentos aos amantes do cinema. Se “Uma rapariga no Comboio” desiludiu em toda a linha, ficando a léguas daquilo que o livro prometia, o “Inferno” de Tom Hanks cumpre os mínimos sem deslumbrar e por isso não ficará na memória. Há mais de um mês nas salas de cinema, “Snowden” de Oliver Stone é um filme magnífico, mas o público das pipocas não tem paciência para tanta elaboração conspirativa de Oliver Stone e, por isso, a película já se despediu da esmagadora maioria das salas de cinema do país.


Lançado no mercado português há duas semanas, Café Society  é um filme de qualidade, que convém ver antes que se vá. Para não variar, tem a marca de um grande cineasta, o octogenário Woody Allen. Allen propõe-nos uma viagem até à Hollywood dos anos 30, quando a grande fábrica dos sonhos começava a consolidar o cinema sonoro.
E por que razão nos leva, Woddy Allen a Hollywood dos anos trinta, sendo ele um amante de Nova Iorque e tão crítico da  meca do cinema? Precisamente para estabelecer a diferença entre as duas grandes cidades americanas. Nova Iorque lambia as feridas do crash, Hollywood era a capital do glamour.  Allen coloca o nova-iorquino Jesse Eisenberg à procura do sucesso nas paisagens da Califórnia ao mesmo tempo que vai mostrando, com uma ironia quase cruel, o lado negro da fábrica dos sonhos de Hollywood. 


A beleza do filme está na maneira como o realizador americano combina na perfeição banda sonora, diálogos, “décors”, reconstituição de época, história, qualidade de interpretação dos atores. Essa mistura certeira de ingredientes cinematográficos apenas está ao alcance de grandes realizadores como Woddy Allen e isso fica bem patente em Café Society.
Além da reconstituição nostálgica de um época marcante na história de Hollywood e da dicotomia que o realizador quer estabelecer com a sua amada Nova Iorque, o filme de Woddy Allen permite ao espectador uma viagem reflexiva e melodramática aos encantos e desencantos dos impulsos amorosos. É isso que podemos retirar do envolvimento de Jesse Eisenberg com a secretária Kristen Stewart.
Mas o melhor é passar uma vista de olhos pelo trailer e depois decidir-se por uma escapadela a um cinema perto de si, porque o filme de Allen é de qualidade.
Gabriel Vilas Boas  



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

CARTAS DE GUERRA


“Amo-te tudo, meu amor!”

Cartas de Guerra de Ivo Ferreira é realmente um filme fabuloso e extraordinário, que nos fará gostar muito mais de António Lobo Antunes, mesmo sem o ter lido muito, mesmo que nem sempre gostemos da sua repetitiva temática.
É antes de mais um filme sobre a guerra colonial portuguesa vista a partir do íntimo de um jovem médico-soldado (António), que se desnuda através de belíssimas e apaixonadas cartas poéticas que escreve à jovem esposa.

O filme é importante porque enfoca a final da guerra colonial portuguesa em Angola da perspetiva certa e é apaixonante, porque as cartas que Lobo Antunes escreveu à mulher e que servem de narrativa à película de Ivo Ferreira mostram um Amor tão puro, tão sincero e arrebatador que sensibiliza e comove qualquer espectador.
Nada no filme é feito ao acaso. Cada situação, cada pormenor (e como eles são cuidados!) são emblemáticos e referem-se a aspetos importantes que muitos soldados sentiram durante os longos meses que passaram nas matas africanas.
Sobre a guerra colonial, o filme reforça o pensamento de Lobo Antunes: tratava-se de um conflito absurdo (os soldados portugueses davam-se bem com os negros e ganhavam facilmente afeição a velhos e crianças); o quanto custava aos nossos soldados o afastamento das famílias, sob todas as perspetivas, embora o lado afetivo e sexual seja o mais vincado; a noção que o tempo passava exasperadamente devagar, dado por uma narrativa lenta; a certeza que a guerra transforma todos sem exceção (“Uma coisa tenho como certa: saírem daqui uma pessoa completamente diferente daquela que cheguei!”); as dúvidas sobre a manutenção do amor das esposas, já que o tempo de tropa era longo.

Sobre a perspetiva técnica, Ivo Ferreira recria na perfeição a atmosfera do início dos anos setenta: o preto e branco lembra o tempo em que não havia televisão a cores; os relatos de futebol do Benfica, o discurso de Marcelo Caetano, as músicas que lembravam a saudade de casa, os jogos de cartas nas casernas para matar os tempos mortos, as ciladas na mata, a fabulosa beleza de África, filmada do céu, invadindo a nossa alma.

E por cima disso tudo, o poderoso amor que brotava da prosa poética das cartas do protagonista para a sua amada.
Só por isso vale a pena ir ver o filme, mas o resto também é soberbo.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O RESGATE DO SOLDADO RYAN, DA EUROPA E DA HUMANIDADE


O dia 6 de junho de 1944 será sempre recordado como um dos dias mais luminosos da história do século XX, com o desembarque dos Aliados na Normandia, iniciando o resgate da Europa, até então nas mãos do tenebroso III.º Reich de Hitler.
Mais de meio século mais tarde, um dos melhores realizadores de cinema de sempre, Spielberg imortalizou esse momento através do filme “O Resgate do Soldado Ryan”, que devíamos ver e rever com atenção, especialmente aquela impressionante meia hora inicial, onde o momento do desembarque está retratado com uma impressionante e cruel fidelidade.
O resgate da europa e de uma ideia decente de civilização passou pela coragem daqueles homens que resolveram ser literalmente carne para canhão, de modo a permitir que aqueles que as balas alemãs não conseguiam atingir chegassem a posição segura nas praias francesas e desencadeassem o assalto final ao nazismo.


Ver a parte inicial de “O Resgate do Soldado Ryan” é fundamental para perceber o esforço, a generosidade, a perfeita consciência de que se ia morrer em prole de um guerra que não se quis travar, mas teve que se travar.
O filme deriva depois para o resgate de um soldado anónimo, James Francis Ryan, cujos irmãos haviam falecido em combate e cuja vida os comandantes determinaram o resgate para aplacar a dor de um mãe, prestes a ser confrontada com a notícia da morte de três dos seus quatro filhos.
Para resgatar James Ryan, um grupo de experientes e valentes soldados aliados lutará bravamente contra ferozes alemães, perdendo vidas e equipamentos, mas cumprindo a sua missão.


Vencer a Segunda Grande Guerra Mundial foi resgatar a europa do totalitarismo nazi, mas sobretudo resgatar o mundo de uma ideia perniciosa de humanidade, onde não havia lugar para judeus nem aleijados nem doentes.
Spielberg metaforizou esse resgate da humanidade no resgate do soldado Ryan. Era preciso devolver àquela mãe, pelo menos, um dos filhos que ela emprestou a um ideal de sociedade. E nesse sentido todos os esforços são justificáveis, porque a vida de um soldado é uma preciosidade, apesar de estar inteiramente à disposição da guerra e da morte.
Por momentos, recordei a famosa frase de Estaline – “Uma morte é uma tragédia! Um milhão de mortes é uma estatística!”. Retirei-lhe toda a fria hipocrisia e desumanidade com que o nefasto líder comunista a proferiu e sorri para a história de James Ryan. Todos nós somos um bocadinho herdeiros daquele Ryan resgatados às trincheiras inimigas; todos nós temos um eterno obrigado a dizer aqueles bravos soldados aliados que no dia 6 de junho de 1944 desembarcaram na Normandia e permitiram mais de setenta anos de paz e liberdade na europa ocidental.

Gabriel Vilas Boas 

segunda-feira, 30 de maio de 2016

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS, de Jorge Amado

Dona Flor e Seus Dois Maridos é um dos melhores romances de Jorge Amado e de toda a literatura brasileira. Nele Jorge Amado relata as aventuras de Dona Flor e seus dois maridos, Vadinho e Teodoro. O romance está dividido em cinco partes. A primeira e a segunda partes tratam da morte de Vadinho em pleno Carnaval baiano e do seu velório, onde as amigas, mais ou menos chegadas, de dona Flor trataram de pôr a nu o passado e o presente salafrário, libertino, jogador, gozador, malandro, e amante da farra, de Vadinho. Ao lado desta fama negativa, nasceu a boa recordação das histórias de um homem companheiro e tremendamente safado, memorizada em pequenas histórias ilustrativas do seu carácter e do amor que o unia à esposa. Em todas essas histórias ressalta a alegria, a ternura, a malandragem, o vício pelo jogo e pelas mulheres bonitas.
           

Em paralelo surge uma plêiade de personagens secundárias, mas relevantes para a definição de certos aspetos da vida baiana: os hábitos e ambições duma pequena burguesia mais assemelhada com o povo. Nessas personagens características e pitorescas nota-se o contrate cómico e ridículo entre a aparência e a essência tão próprias dos brasileiros. Esse contrate está presente na luta entre a defesa da moral e dos bons costumes que convive com a «sem vergonhice» das traições de mulheres e homens, do império do desejo, do vício do jogo, do desejo de riqueza.
  

Nestas personagens, na sua maneira de ser e de agir ou falar, está representado o viver da Baía, mas sobretudo do brasileiro (porque não do Homem?) que o autor pretende mostrar alegre, brincalhão, exagerado, safado, algo irresponsável, por vezes libertino, um pouco hipócrita, mas sempre cheio de ternura, sempre amigo, sempre amigo, sempre apaixonado.

Desde logo, há que realçar como traço primordial do romance e da protagonista a escola de culinária “Sabor e Arte”, que serve para vincar a excelente cozinheira que dona Flor era e o prazer que os seus pratos únicos repercutiam no paladar de cada um que teve o prazer de os provar. Este motivo da escola de culinária sancionou as receitas tipicamente baianas de dona Flor, deixadas no início de cada parte do romance, funcionando tal estratagema como uma espécie de homenagem à excelente comida da Baia.

A terceira parte fala da viuvez de dona Flor. Como foi difícil esquecer Vadinho, principalmente a falta que fazia na cama, onde sempre foi rei. Como crescia o seu desejo ardente de fêmea que só o seu primeiro marido soube explorar; ao mesmo tempo que aumentava o número de pretendentes ao seu belo corpo de jovem viúva.
            
A luta de dona Flor foi imensa. Entre o fogo do desejo sexual cada vez mais intenso e a sua integridade moral. Uma luta destinada a ser vencida pela matéria, mas vestida como coisa humana e não como indecência.
A luta entre desejo e moral, entre corpo e matéria é uma dicotomia de sempre do ser humano que ganha maior ênfase no brasileiro. Jorge Amado pretende desmistificar esta luta que trespassa todo o romance, atribuindo ao desejo carnal da mulher e do homem (mesmo quando há a moral e o matrimónio) o distintivo de humano, tendência natural e nunca degenerescência psicológica. É o combate à hipocrisia social que Jorge Amado faz através de personagens como dona Gisa, mostrando o ridículo e o cómico das «xeretas» da Baía, como dona Dinorá ou dona Rosilda.
Nesta terceira parte é ainda traçada a grandiosidade e mediocridade da raça humana. Grandiosidade, bondade e humanidade em dona Norma, que entende as ânsias sexuais de dona Flor; mediocridade nos aproveitadores pretendentes de dona Flor de que o «Príncipe», o senhor Aluísio é legítimo e infeliz representante.

A quarta parte trata do segundo casamento de dona Flor. Flor casa com o farmacêutico Teodoro. Homem discreto, honrado, de razoáveis posses, dedicado, sensível, honesto, apaixonado e respeitador. Uma segurança, enquanto marido. Incapaz das canalhices do primeiro, muito menos dos seus vícios. Sem deixar de ter aspeto jovem e agradável. Ele permite a dona Flor a segurança económica, a respeitabilidade, a organização dos sentimentos e a garantia da satisfação sexual, estatuto social e dedicação.

A quinta parte é a mais saborosa e fantástica do romance. É aquela em que Vadinho regressa do além e, mostrando-se só para dona Flor, a convence a fazer novamente amor com ele. A princípio cheia de escrúpulos, ela acaba por ceder. Aprende a lição que o amor é um profundo sentimento de alma e de corpo. Sem deixar de amar Teodoro, ele percebe que precisa de Vadinho para responder à parte fogosa, sensual, material de que também é constituída. Percebe que não trai ninguém porque ambas são manifestações do seu Amor.
É neste ponto que entra todo o fantástico e misticismo da obra, pois é através de poderes sobrenaturais que Vadinho regressa, aparece e faz amor com dona Flor para todo o sempre. É esse mesmo poder que o faz inclinar a roleta ou as cartas viciadas para os palpites sugeridos pelos amigos. É esse misticismo e fantástico tão brasileiros que surge m nas evocações de rituais e crendices que os brasileiros foram beber na sua costela africana e americana, onde os ritos, superstições, macumbas e crendices se cruzam e integram com as personagens e com o fluir da história.
Obviamente, dona Flor fica com os dois maridos: um Vadinho malandro e jogador, mas amoroso, ternurento e, sobretudo, competente em negócios de cama; e Teodoro, calmo, organizado, delicado, sensível, apaixonado e respeitador.
          
Neste romance, Jorge Amado retrata o baiano, mas também o brasileiro: o seu desejo de amor, mais carnal que espiritual, mais desejo que moral; a sua ânsia de estatuto social; a sua vontade de fazer tudo perfeito; a sua fome de conhecimento; a sua intenção de crescer intelectualmente. Contudo, no final, a sua eterna concessão ao jogo, ao Carnaval, ao samba, ao riso, à «malandragem», à «safadeza» da pequena traição, ao desejo e à falha.
O brasileiro místico, mas humano, hipócrita, todavia compreensivo, ambicioso, no entanto nobre e sempre alegre. O riso é a sua alma e a sua força e também seu eterno fascínio.
Tudo isto conta Jorge Amado com palavras de cristal, onde a beleza sorridente e comovente nasce do calão, do neologismo, do registo familiar, mas também da variedade e da exatidão com que fixa emoções, caracteres, paisagens (excelente descrição do mar da Baia), mas sobretudo a extraordinária maneira de nas suas palavras e criações (como este romance) fazer ressoar a própria vida.
Gabriel Vilas Boas