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segunda-feira, 6 de junho de 2016

O RESGATE DO SOLDADO RYAN, DA EUROPA E DA HUMANIDADE


O dia 6 de junho de 1944 será sempre recordado como um dos dias mais luminosos da história do século XX, com o desembarque dos Aliados na Normandia, iniciando o resgate da Europa, até então nas mãos do tenebroso III.º Reich de Hitler.
Mais de meio século mais tarde, um dos melhores realizadores de cinema de sempre, Spielberg imortalizou esse momento através do filme “O Resgate do Soldado Ryan”, que devíamos ver e rever com atenção, especialmente aquela impressionante meia hora inicial, onde o momento do desembarque está retratado com uma impressionante e cruel fidelidade.
O resgate da europa e de uma ideia decente de civilização passou pela coragem daqueles homens que resolveram ser literalmente carne para canhão, de modo a permitir que aqueles que as balas alemãs não conseguiam atingir chegassem a posição segura nas praias francesas e desencadeassem o assalto final ao nazismo.


Ver a parte inicial de “O Resgate do Soldado Ryan” é fundamental para perceber o esforço, a generosidade, a perfeita consciência de que se ia morrer em prole de um guerra que não se quis travar, mas teve que se travar.
O filme deriva depois para o resgate de um soldado anónimo, James Francis Ryan, cujos irmãos haviam falecido em combate e cuja vida os comandantes determinaram o resgate para aplacar a dor de um mãe, prestes a ser confrontada com a notícia da morte de três dos seus quatro filhos.
Para resgatar James Ryan, um grupo de experientes e valentes soldados aliados lutará bravamente contra ferozes alemães, perdendo vidas e equipamentos, mas cumprindo a sua missão.


Vencer a Segunda Grande Guerra Mundial foi resgatar a europa do totalitarismo nazi, mas sobretudo resgatar o mundo de uma ideia perniciosa de humanidade, onde não havia lugar para judeus nem aleijados nem doentes.
Spielberg metaforizou esse resgate da humanidade no resgate do soldado Ryan. Era preciso devolver àquela mãe, pelo menos, um dos filhos que ela emprestou a um ideal de sociedade. E nesse sentido todos os esforços são justificáveis, porque a vida de um soldado é uma preciosidade, apesar de estar inteiramente à disposição da guerra e da morte.
Por momentos, recordei a famosa frase de Estaline – “Uma morte é uma tragédia! Um milhão de mortes é uma estatística!”. Retirei-lhe toda a fria hipocrisia e desumanidade com que o nefasto líder comunista a proferiu e sorri para a história de James Ryan. Todos nós somos um bocadinho herdeiros daquele Ryan resgatados às trincheiras inimigas; todos nós temos um eterno obrigado a dizer aqueles bravos soldados aliados que no dia 6 de junho de 1944 desembarcaram na Normandia e permitiram mais de setenta anos de paz e liberdade na europa ocidental.

Gabriel Vilas Boas 

sábado, 15 de março de 2014

SPIELBERG

Spielberg é o realizador do povo.
O cineasta norte-americano, nascido um ano após o fim da II Grande Guerra Mundial, é responsável por alguns dos cem melhores filmes da História do Cinema.
Cineasta, argumentista, produtor, empresário, Spielberg é autor de grandes sucessos de bilheteira como "Tubarão"; "Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida"; "Indiana Jones e o Templo Perdido"; "Indiana Jones e a Última Cruzada"; "E.T. – Extraterrestres"; "Jurassic Park"; "O Resgate do Soldado Ryan"; "A lista de Schindler"; "Lincoln".
Spielberg não é um realizador genial, mas o seu talento é superlativo. Ele soube perceber que o cinema, no último quartel do século XX, se tinha transformado numa máquina de fazer dinheiro onde o marketing tinha um papel decisivo. O cinema dos anos 80 e 90, de que Spielberg é expoente máximo no campo da realização, deixou o purismo da arte pura para se tornar mais entretenimento. Por isso, os seus filmes são um compromisso entre a obra do artista e aquilo que o público deseja ver.
Esta fusão entre entertainer e artista está presente, por exemplo, em "E.T. Extraterrestres", onde o reconhecimento do público em nada diminui a mestria do filme.
Spielberg percebeu antes que qualquer outro que havia um enorme público interessado nas grandes produções (como é o caso da trilogia de Indiana Jones), onde os heróis fazem coisas espantosas e nunca vistas. Spielberg teve a sagacidade de as filmar usando o que de mais avançado havia de efeitos especiais. Ora isso exerceu um fascínio magnético sobre o público.
As melhores personagens de Spielberg são como versões elaboradas dos heróis das séries em que jovens aventureiros não têm medo do desconhecido. O seu herói mais comum gosta da descoberta e por isso a cena fulcral e mais típica, em muitos dos seus filmes, é a revelação das maravilhas que o herói descobriu. Isto é muito evidente em qualquer um dos seus filmes sobre Indiana Jones.
Além dum herói típico, os filmes de Spielberg têm também uma imagem-mestra, que exprime a maneira como o realizador vê a realidade. A imagem-mestra do autor do Resgate do Soldado Ryan é a luz que entra pela porta, o que sugere a ideia de brilho e mistério vindos do exterior. Isto é muito evidente nos filmes "Encontros Imediatos", "E.T. – Extraterrestres" e "Indiana Jones e o Templo Perdido", por exemplo. Ao contrário de muitos realizadores, o mistério não está na escuridão, mas na fonte de luz, pois para ele o mistério anuncia promessas em vez de ameaças.              
     O primeiro grande êxito de bilheteira de Spielberg, Tubarão (1975), revolucionou a História do cinema, na medida em que implicou um orçamento nunca visto, mas também lucros brutais. A partir daí, o cinema deixou de ser apenas a expressão da arte do cineasta conjugada com a maravilhosa evolução da técnica, para também passar a ser lucrativo negócio e entretenimento.
                Talvez porque os seus filmes fossem apenas vistos como sucessos de bilheteira, a Academia de Hollywood foi adiando o inevitável reconhecimento da sua obra cinematográfica. De tal modo que certa vez Spielberg gracejou: “Estou convencido que o envelope que continha a minha nomeação se perdeu!” Não perdeu em 1993, quando a sua Lista de Schindler ganhou sete óscares, onde estavam incluídos o de melhor realizador, melhor filme e melhor argumento. Cinco anos mais tarde, voltaria a triunfar na realização com "O Resgate do Soldado Ryan" e mais recentemente o seu "Lincoln" venceu a categoria de melhor ator. Além dum realizador do povo, Spielberg tornava-se num realizador de causas.
                Como referi no início, Spielberg é muito talentoso, mas não um génio. É possível detetar algumas imperfeições nos seus filmes: a montagem por vezes é muito rápida; não é muito bom na fotografia feminina; é intricado; gosta mais da câmara do que da história. No entanto as suas virtudes são claramente superiores: sabe mexer com o subconsciente do espetador, assegura sempre um alto nível de qualidade nos seus filmes e, quando os seus filmes funcionam, funcionam em todos os níveis a que um filme pode chegar.
                Spielberg é uma das figuras mais influentes do cinema dos últimos trinta anos. Fez filmes muito bons e outros menos bons. Se é certo que os seus piores filmes abusam dos efeitos especiais e apoiam-se em histórias superficiais, os melhores focam diretamente os nossos sonhos e o que de melhor o ser humano tem.

 Gabriel Vilas Boas.