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domingo, 8 de junho de 2014

A LISTA DE SCHINDLER


 Depois de ter filmado o grande êxito “Jurassic Park",  que encheu as salas de cinema no verão de 1993, Spielberg assentou arraiais na Polónia e filmou um dos filmes que fará para sempre parte da história do cinema: A LISTA DE SCHINDLER.
             Spielberg mostrou uma inesperada faceta da sua genialidade, conseguindo algo que parecia impossível: realizar um épico histórico moralmente sério e esteticamente iconoclasta, ao mesmo tempo que se tornava hiper atrativo para audiências massivas.
           Apesar de se basear em factos (a enigmática história de Oskar Schindler, um alemão que colocava judeu em locais de trabalho, tornando-os necessários e inviabilizando a sua execução), A Lista de Schindler não é um filme histórico, nem a versão definitiva do Holocausto que muitos esperavam. É antes uma profunda reflexão sobre a natureza do heroísmo e das opções morais.
             Mago extraordinário da sétima arte, o realizador demonstra ter também um enorme talento para fazer trabalhos extremamente sérios (tal como o fizera em 1987 quando filmou "O Império do Sol"), rejeitando todas as pressões e limitações da politicamente correta indústria cinematográfica.
          Apesar da história dominar todo o filme, o dinamismo e o brilhantismo técnico do grande realizador americano reluz com grande intensidade. A razia no gueto de Cracóvia é tão dinâmica e primorosamente montada como qualquer cena do mítico "Os Salteadores da Arca Perdida" (1981), nada perdendo com a belíssima fotografia do polaco Janusz Kaminski.


                Outra das coisas notáveis neste filme é o facto de ter sido filmado com um elenco pouco conhecido, sem uma única grande estrela de Hollywood, o que não impediu que Liam Neeson e Ralph Fiennes fossem nomeados para os óscares de melhor ator e melhor ator secundário, respetivamente.
             A Lista de Schindler é um monumento à coragem daqueles cuja história é contada mas também à mestria dos que fizeram o filme.
          Na noite mágica de Hollywood arrebatou sete Óscares (filme, realizador, argumento adaptado, fotografia, direção artística, montagem, banda sonora), saídos dum total de doze nomeações que apenas atestaram aquilo que não precisava de qualquer confirmação.
                A Lista de Schindler mostra o triunfo da Humanidade sobre o maior ato de barbaridade que o século XX testemunhou. Revela, como no meio das trevas da maldade, há sempre uma luzinha de compaixão e humanismo que nunca se apaga.
 Gabriel Vilas Boas 

sábado, 15 de março de 2014

SPIELBERG

Spielberg é o realizador do povo.
O cineasta norte-americano, nascido um ano após o fim da II Grande Guerra Mundial, é responsável por alguns dos cem melhores filmes da História do Cinema.
Cineasta, argumentista, produtor, empresário, Spielberg é autor de grandes sucessos de bilheteira como "Tubarão"; "Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida"; "Indiana Jones e o Templo Perdido"; "Indiana Jones e a Última Cruzada"; "E.T. – Extraterrestres"; "Jurassic Park"; "O Resgate do Soldado Ryan"; "A lista de Schindler"; "Lincoln".
Spielberg não é um realizador genial, mas o seu talento é superlativo. Ele soube perceber que o cinema, no último quartel do século XX, se tinha transformado numa máquina de fazer dinheiro onde o marketing tinha um papel decisivo. O cinema dos anos 80 e 90, de que Spielberg é expoente máximo no campo da realização, deixou o purismo da arte pura para se tornar mais entretenimento. Por isso, os seus filmes são um compromisso entre a obra do artista e aquilo que o público deseja ver.
Esta fusão entre entertainer e artista está presente, por exemplo, em "E.T. Extraterrestres", onde o reconhecimento do público em nada diminui a mestria do filme.
Spielberg percebeu antes que qualquer outro que havia um enorme público interessado nas grandes produções (como é o caso da trilogia de Indiana Jones), onde os heróis fazem coisas espantosas e nunca vistas. Spielberg teve a sagacidade de as filmar usando o que de mais avançado havia de efeitos especiais. Ora isso exerceu um fascínio magnético sobre o público.
As melhores personagens de Spielberg são como versões elaboradas dos heróis das séries em que jovens aventureiros não têm medo do desconhecido. O seu herói mais comum gosta da descoberta e por isso a cena fulcral e mais típica, em muitos dos seus filmes, é a revelação das maravilhas que o herói descobriu. Isto é muito evidente em qualquer um dos seus filmes sobre Indiana Jones.
Além dum herói típico, os filmes de Spielberg têm também uma imagem-mestra, que exprime a maneira como o realizador vê a realidade. A imagem-mestra do autor do Resgate do Soldado Ryan é a luz que entra pela porta, o que sugere a ideia de brilho e mistério vindos do exterior. Isto é muito evidente nos filmes "Encontros Imediatos", "E.T. – Extraterrestres" e "Indiana Jones e o Templo Perdido", por exemplo. Ao contrário de muitos realizadores, o mistério não está na escuridão, mas na fonte de luz, pois para ele o mistério anuncia promessas em vez de ameaças.              
     O primeiro grande êxito de bilheteira de Spielberg, Tubarão (1975), revolucionou a História do cinema, na medida em que implicou um orçamento nunca visto, mas também lucros brutais. A partir daí, o cinema deixou de ser apenas a expressão da arte do cineasta conjugada com a maravilhosa evolução da técnica, para também passar a ser lucrativo negócio e entretenimento.
                Talvez porque os seus filmes fossem apenas vistos como sucessos de bilheteira, a Academia de Hollywood foi adiando o inevitável reconhecimento da sua obra cinematográfica. De tal modo que certa vez Spielberg gracejou: “Estou convencido que o envelope que continha a minha nomeação se perdeu!” Não perdeu em 1993, quando a sua Lista de Schindler ganhou sete óscares, onde estavam incluídos o de melhor realizador, melhor filme e melhor argumento. Cinco anos mais tarde, voltaria a triunfar na realização com "O Resgate do Soldado Ryan" e mais recentemente o seu "Lincoln" venceu a categoria de melhor ator. Além dum realizador do povo, Spielberg tornava-se num realizador de causas.
                Como referi no início, Spielberg é muito talentoso, mas não um génio. É possível detetar algumas imperfeições nos seus filmes: a montagem por vezes é muito rápida; não é muito bom na fotografia feminina; é intricado; gosta mais da câmara do que da história. No entanto as suas virtudes são claramente superiores: sabe mexer com o subconsciente do espetador, assegura sempre um alto nível de qualidade nos seus filmes e, quando os seus filmes funcionam, funcionam em todos os níveis a que um filme pode chegar.
                Spielberg é uma das figuras mais influentes do cinema dos últimos trinta anos. Fez filmes muito bons e outros menos bons. Se é certo que os seus piores filmes abusam dos efeitos especiais e apoiam-se em histórias superficiais, os melhores focam diretamente os nossos sonhos e o que de melhor o ser humano tem.

 Gabriel Vilas Boas.