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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

MIGUEL TORGA CHORA A MORTE DE FERNANDO PESSOA


“Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era.”


Miguel Torga, in Diário I (3-12-1935)


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O QUE HÁ EM MIM É SOBRETUDO CANSAÇO

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, 
ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas 
— Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço, 
Este cansaço, 
Cansaço. 

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado? 
Para eles a vida vivida ou sonhada, 
Para eles o sonho sonhado ou vivido, 
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... 
Para mim só um grande, um profundo, 
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, 
Um supremíssimo cansaço, Íssimno, íssimo, íssimo, 

Cansaço... 

Álvaro de Campos, in "Poemas"

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O QUE MAIS TE ASSUSTA: A FÚRIA DESCONTROLADA DA NATUREZA OU A INDIFERENÇA DA HUMANIDADE?


A Reuters selecionou mais de três centenas de fotos que marcaram o ano de 2018. Vi algumas e escolhi esta, porque os incêndios cravaram a morte na nossa história coletiva e porque me doeu, mais uma vez, aquela indiferença desumana dos jogadores de golfe.

Não é uma indiferença filosófica, própria de quem aproveita os prazeres da vida até à última, sabendo que em breve perecerá. Aquele descaso é com o Outro, com a infeliz sorte que o momento lhe trouxe. Traz à mistura o pensamento tonto que será imune ao infortúnio, como se a fúria da natureza enganada pelo ser humano tivesse que se sujeitar a qualquer código de etiqueta social.
A maneira como maltratamos a natureza é uma boa metáfora da desconsideração que temos para com aquele que partilha este planeta connosco. Não me revolta a estupidez, mas a insensibilidade, porque, apesar de tudo, os sentimentos são aquilo que nos distingue e dá coerência.

Ricardo Reis já tinha dedicado um belíssimo poema (http://www.citador.pt/poemas/os-grandes-indiferentes-ricardo-reisbrheteronimo-de-fernando-pessoa) a este desprezo pela Vida e hoje verifico que os seus "Grandes Indiferentes" saem do poema e passeiam pelo mundo.

Volto à foto. Sobre a esquerda, um casal admira as chamas como se de um quadro assombroso se tratasse. Eu olho a foto novamente e o único assombro que encontro é na indiferença de quem continua a jogar golfe como se as labaredas não estivessem descontroladas e a poucos metros de distância.
No verão que passou, tive muitas vezes a sensação que aqueles que escolhemos para nos governar fizeram demasiado tempo o papel dos jogadores de golfe.

GAVB

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE

Trata-se de uma expressão que nos habituamos a ouvir e a ler nos mais variados contextos, mas nem todos saberão as suas nobres origens. O seu criador foi Fernando Pessoa, mas o célebre poeta não a inseriu em nenhum poema ilustre, mas antes a transformou em slogan publicitário para a Coca-Cola.
É verdade, além de poeta, filósofo, jornalista, Fernando Pessoa também trabalhou como criador publicitário. Na década de 1920, ao serviço da agência “Hora” criou este “Primeiro Estranha-se, Depois Entranha-se”, que se tornaria num dos slogans publicitários mais conhecidos do século XX em Portugal.
No entanto, a Coca-Cola não viria a tirar grande partido deste momento de inspiração do poeta dos heterónimos, porque rapidamente ficou interdita no nosso país, por alegadamente se tratar de um produto suscetível de criar habituação.

O médico Ricardo Jorge (esse mesmo que deu o nome ao Instituto Ricardo Jorge), na qualidade de Diretor de Saúde de Lisboa, mandou apreender todas as garrafas de coca-cola que já circulavam no mercado. Para o doutor Ricardo Jorge, o grande problema da coca-cola é que tinha coca no nome e “coca” era a planta donde se extraía a cocaína.
A proibição da coca-cola baseava-se em dois argumentos algo contraditórios: o refrigerante não podia ser vendido porque podia intoxicar os consumidores…. Por outro lado, se o produto não tinha coca (como defendiam os seus vendedores), então anunciá-lo com essa palavra no nome seria, no mínimo, publicidade enganosa. Para quem mandava, estas eram razões mais do que suficientes para impedir que a coca-cola fosse comercializada.
O slogan de Fernando Pessoa ficou, no entanto, para a posterioridade, passando a ser usado em diversas ocasiões com propriedade e elegância literária. No fundo, Pessoa só antecipou o êxito que a coca-cola teve em Portugal, quando a 4 de julho de 1977, foi finalmente permitida em garrafas de vidro de 20 cl.
Não sabemos ao certo se ao escrever “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, o poeta se referia à bebida ou à cocaína que supostamente conteria, mas o que é certo é que a expressão se aplica ainda hoje a tudo o que, causando primeiro uma estranheza, depressa se torna familiar… mas não obrigatoriamente uma dependência.