Etiquetas

Mostrar mensagens com a etiqueta Expressões Populares Portuguesas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Expressões Populares Portuguesas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

COMER COM OS OLHOS


Recorrentemente usamos certas expressões, cujo significado não conhecemos bem ou desconhecemos por completo. São expressões populares ou ditados que, através dos anos, permaneceram sempre iguais, significando exemplos filosóficos, morais e religiosos. 

Tanto os ditados como os provérbios constituem uma parte importante de cada cultura. Vários escritores e historiadores tentaram descobrir a origem desta riqueza cultural, mas nunca foi nada fácil esta tarefa.

Hoje debruço-me sobre a expressão COMER COM OS OLHOS.

De uma forma genérica, "comer com os olhos" significa apreciar de longe, sem tocar.

O investigador Câmara Cascudo diz que "certos olhares absorvem a substância vital dos alimentos".

Mas qual será a origem de tal expressão?

A explicação encontra-se na parte ocidental de África, onde os soberanos não consentiam testemunhas às suas refeições. Comiam sozinhos. 
Também na a Roma Antiga, uma cerimónia religiosa fúnebre consistia num banquete oferecido aos deuses em que ninguém tocava na comida. Apenas olhavam, “comendo com os olhos”.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

FICAR A VER NAVIOS


A expressão ficar a ver navios significar ficar à espera do que não veio, que acabou por não acontecer, ou não se teve. Há mais que uma explicação, mas vejamos as duas mais reproduzidas.
Ficar a ver navios terá sido o que aconteceu aos que esperavam nos lugares mais altos da cidade de Lisboa, na esperança de ver regressar a casa o rei Dom Sebastião, pois só viram navios e nada de el-rei…
Ainda que possa ser esta uma boa explicação, aquela que está relacionada com as invasões francesas parece ser mais plausível e mais consensual. Conta-se que por altura das ditas invasões francesas, que levou à fuga da família real para o Brasil, em Novembro de 1807, as tropas napoleónicas caminharam decididamente para Lisboa a fim de tomar o poder. Nos dias que antecederam a partida da família real, a azáfama no cais de Belém assim como o espalhafato foram tremendos e inusitados.
Passageiros, bens e mantimentos foram carregados para os barcos e seguiu-se uma correria contra o tempo porque os franceses estavam a chegar e a família real tinha de partir. Dela faziam parte Dona Maria I, a rainha louca, que recusava aos gritos a abandonar os súbitos, cheia de vergonha de fugir.

Após várias versões, uma investigação mais recente de José Dantas, veio esclarecer que entre família real e nobreza terão sido quase quinhentas as pessoas que partiram para o Brasil, em dezasseis embarcações, sem contar com a armada inglesa que fez escolta. O povo que ficou em terra ainda viu os barcos durante dois dias na barra do rio Tejo, à espera que os ventos os empurrassem para o mar.

A 29 de novembro, as tropas francesas entraram em Lisboa, ainda a tempo de verem a corte portuguesa já a caminho do Rio de Janeiro, a nova capital do reino. Os homens comandados pelo general Junot ficaram assim, literalmente, a ver navios!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

DAR-LHE UM AMOK


O que significa esta expressão? Algo parecido com “Passar-se da marmita”, mas se calhar ficamos na mesma.
Amok é uma síndrome (conjunto de sinais e sintomas que caracterizam determinada condição ou doença) psiquiátrica, que consiste numa súbita e espontânea explosão de raiva numa pessoa.

O nome surgiu a partir do termo malaio “meng-âmok”, que significa «atacar e matar com ira cega», e referia-se a uma forma de loucura passageira, em que uma pessoa mata outros indivíduos. Os malaios, assim como os indonésios, relacionavam o termo e o comportamento com questões espirituais. Acreditavam que o amok era provocado pelo espírito mau de um tigre que entrava no corpo de alguém e provocava a reação agressiva.

A palavra está associada a um fenómeno ancestral e sociocultural da Malásia: uma pessoa, quase sempre homem, sem historial de violência, agarra numa arma, tenta matar várias pessoas e depois comete suicídio. Já em 1770, o explorador James Cook descreveu casos semelhantes deste comportamento violento de pessoas malaias que, segundo os seus relatos, matavam pessoas um pouco à sorte.

Entre os vários psiquiatras que aplicam o termo amok a atitudes explosivas e violentas, está o psiquiatra americano Joseph Westermeyer. O clínico usou o termo para se referir a um ataque no Laos, em 1972, como um exemplo desta síndrome, que está classificada oficialmente como condição psiquiátrica desde 1849.
Os contornos de um ataque destes são muito semelhantes aos dos massacres contemporâneos, se pensarmos, por exemplo, nos casos de jovens ou adultos que entram armados em escolas e disparam indiscriminadamente. O massacre no liceu de Columbe, nos EUA, em 1999, é um dos mais conhecidos.

No entanto, o significado violento da palavra amok foi sendo amenizado ao longo dos anos. Hoje em dia, usamos a expressão para nos referimos a alguém que teve uma reação mais intempestiva, imprevisível, ou a uma situação de confusão. Todavia sem a carga dramática e trágica que ela tem sobre o seu sentido original.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

CAIR O CARMO E A TRINDADE


As palavras Carmo e Trindade referem-se aos conventos do Carmo e da Trindade, que ficavam a poucos metros um do outro, no Chiado, em Lisboa. Aliás a zona tinha muitos conventos que acabaram por desaparecer, primeiro com o terramoto e depois com a extinção das ordens religiosas no nosso país em 1834. No fundo, o Chiado passou de conventual e comercial, mas não estamos a falar de doces.
Outras tragédias haveriam de marcar esta zona nobre da cidade de Lisboa que literalmente renasceu das cinzas e hoje atrai milhares de pessoas às suas ruas, entre lisboetas e turistas.


No entanto, temos de recuar ao fatídico 1 de novembro de 1755. No dia do grande terramoto estes dois conventos foram dos mais afetados e destruídos da cidade de Lisboa. Perante a desgraça, alguém terá exclamado: “caiu o Carmo e a Trindade!” e a frase ficou para sempre como uma manifestação de catástrofe e horror.
Na verdade foi a localização do convento do Carmo que ditou a sua destruição. De frente para a colina do castelo, num lugar cimeiro e com vista privilegiada, este convento foi mandado erigir pelo Condestável, Nuno Álvares Pereira. Dedicado a Nossa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo, viu as primeiras pedras serem colocadas no final do século XIV e demorou trinta anos a ser construído devido às dificuldades levantadas pela localização.

No dia do sismo, a estrutura não resistiu aos abalos e as velas que no interior do convento estavam já acesas para a festa de todos os santos acabaram por provocar um incêndio que consumiu o resto.
Das ruínas ainda se aproveitaram alguns espaços: é aqui que fica hoje o Quartel do Carmo, o Comando-Geral da GNR, onde em 1974, o presidente do Conselho do Estado Novo, Marcello Caetano, se refugiou dos militares da revolução de 25 de abril, num cerco liderado pelo capitão Salgueiro Maia. A GNR partilha os antigos espaços do convento do Carmo com o Museu Arqueológico.
Já o Convento da Santíssima Trindade estava parcialmente onde hoje funciona a Cervejaria Trindade. Foi fundado na Idade Média, sofreu um grande incêndio em 1708, mas foi o terramoto de 1755 que o destruiu completamente.

Depois da extinção das ordens religiosas em Portugal, demoliu-se o que restava do convento para se fazer novas ruas, mas o antigo refeitório do convento, com os seus magníficos azulejos, pintados por artista Luís Ferreira, manteve-se de pé até hoje, transformado no salão grande da Cervejaria da Trindade. Os painéis do Ferreira das Tabuletas dão fama ao restaurante, num caso em que se poderia dizer: do convento para a cervejaria.  

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE

Trata-se de uma expressão que nos habituamos a ouvir e a ler nos mais variados contextos, mas nem todos saberão as suas nobres origens. O seu criador foi Fernando Pessoa, mas o célebre poeta não a inseriu em nenhum poema ilustre, mas antes a transformou em slogan publicitário para a Coca-Cola.
É verdade, além de poeta, filósofo, jornalista, Fernando Pessoa também trabalhou como criador publicitário. Na década de 1920, ao serviço da agência “Hora” criou este “Primeiro Estranha-se, Depois Entranha-se”, que se tornaria num dos slogans publicitários mais conhecidos do século XX em Portugal.
No entanto, a Coca-Cola não viria a tirar grande partido deste momento de inspiração do poeta dos heterónimos, porque rapidamente ficou interdita no nosso país, por alegadamente se tratar de um produto suscetível de criar habituação.

O médico Ricardo Jorge (esse mesmo que deu o nome ao Instituto Ricardo Jorge), na qualidade de Diretor de Saúde de Lisboa, mandou apreender todas as garrafas de coca-cola que já circulavam no mercado. Para o doutor Ricardo Jorge, o grande problema da coca-cola é que tinha coca no nome e “coca” era a planta donde se extraía a cocaína.
A proibição da coca-cola baseava-se em dois argumentos algo contraditórios: o refrigerante não podia ser vendido porque podia intoxicar os consumidores…. Por outro lado, se o produto não tinha coca (como defendiam os seus vendedores), então anunciá-lo com essa palavra no nome seria, no mínimo, publicidade enganosa. Para quem mandava, estas eram razões mais do que suficientes para impedir que a coca-cola fosse comercializada.
O slogan de Fernando Pessoa ficou, no entanto, para a posterioridade, passando a ser usado em diversas ocasiões com propriedade e elegância literária. No fundo, Pessoa só antecipou o êxito que a coca-cola teve em Portugal, quando a 4 de julho de 1977, foi finalmente permitida em garrafas de vidro de 20 cl.
Não sabemos ao certo se ao escrever “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, o poeta se referia à bebida ou à cocaína que supostamente conteria, mas o que é certo é que a expressão se aplica ainda hoje a tudo o que, causando primeiro uma estranheza, depressa se torna familiar… mas não obrigatoriamente uma dependência.  

domingo, 20 de setembro de 2015

AMIGO DE PENICHE



Regresso hoje a um tema que me agrada muito: as expressões idiomáticas do português.
Hoje resolvi explorar “Amigo de Peniche”. Como muitos saberão o “amigo de Peniche” é um amigo falso, traiçoeiro, em que não se pode confiar.
Obviamente, os naturais de Peniche não têm lá muita simpatia por esta expressão, que tem tanto de histórica como de injusta.

Em 1579, o rei D. Sebastião desapareceu na batalha de Alcácer Quibir, em Marrocos, e deixou o reino sem sucessor. O parente mais próximo era o cardeal D. Henrique (tio do desaparecido) que foi aclamado rei dias depois. Todavia, o cardeal já tinha uma idade muito avançada e vínculo religioso, ou seja, não tinha filhos nem maneira de os arranjar, o que criava um grave problema à sucessão, como se veria um ano depois. Em 1580, o cardeal morreu e vários candidatos perfilaram-se à sucessão, mas a disputa resumiu-se a três candidatos: Filipe II (rei de Espanha e neto de D. Manuel I de Portugal), Dona Catarina de Bragança (neta de D. Manuel I) e D. António Prior do Crato (também neto de D. Manuel I). D. Filipe II ganhou vantagem e arrebatou a coroa, depois da invasão do exército castelhano ter aberto o caminho para o trono.
D. António ficou furioso e pediu ajuda a Isabel, a suposta rainha virgem de Inglaterra. Isabel emprestou uma armada de cerca de vinte mil homens e cento e sessenta navios. Aos comandos desses navios, o general John Norris desembarcou na praia sul de Peniche a 26 de maio de 1589. Começou então a marcha terrestre rumo a Lisboa, ao mesmo tempo que a esquadrada que desembarcara em Peniche navegava rumo a Cascais.
As notícias chegaram depressa a Lisboa: «Vêm aí os nossos amigos… os amigos que desembarcaram em Peniche». Ou seja, os amigos que libertariam os portugueses do jugo dos espanhóis.
O problema foi que D. António Prior do Crato acabou traído pelo avanço do exército britânico em direção a Lisboa e que durante essa viagem acabou por devastar e pilhar as terras por onde passava. Foram recebidos pelos canhões do Castelo de São Jorge…. John Norris ficou muito surpreendido porque ninguém lhe tinha falado em combates, mas antes em grandes festejos pela chegada dos ingleses. Após várias mudanças de acampamento, o grupo de soldados britânicos retirou-se de Lisboa. Dentro das muralhas, a incógnita cresceu e todos perguntavam: “Mas, afinal, quando chegam os nossos amigos de Peniche?» Acabariam por nunca chegar, desapontando D. António e os seus apoiantes.
Afinal, os amigos de Peniche não nasceram em Peniche, mas em Inglaterra, mas ninguém resolve esta “falsidade” aos de Peniche!