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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

COMER COM OS OLHOS


Recorrentemente usamos certas expressões, cujo significado não conhecemos bem ou desconhecemos por completo. São expressões populares ou ditados que, através dos anos, permaneceram sempre iguais, significando exemplos filosóficos, morais e religiosos. 

Tanto os ditados como os provérbios constituem uma parte importante de cada cultura. Vários escritores e historiadores tentaram descobrir a origem desta riqueza cultural, mas nunca foi nada fácil esta tarefa.

Hoje debruço-me sobre a expressão COMER COM OS OLHOS.

De uma forma genérica, "comer com os olhos" significa apreciar de longe, sem tocar.

O investigador Câmara Cascudo diz que "certos olhares absorvem a substância vital dos alimentos".

Mas qual será a origem de tal expressão?

A explicação encontra-se na parte ocidental de África, onde os soberanos não consentiam testemunhas às suas refeições. Comiam sozinhos. 
Também na a Roma Antiga, uma cerimónia religiosa fúnebre consistia num banquete oferecido aos deuses em que ninguém tocava na comida. Apenas olhavam, “comendo com os olhos”.

domingo, 13 de novembro de 2016

UM ESTRANHO E FELIZ AMOR


Provavelmente a melhor notícia que li hoje: 44 mil alunos senegaleses estudam o português como segunda língua!
Se fosse quatro mil já seria excecional, mas 44 mil é um número absurdamente belo. No mundo inteiro apenas 80 mil pessoas estudam o português como segunda ou terceira língua, inserida nos currículos oficiais.
No meio de África, perto da Guiné e de Angola, reafirma-se este estranho e feliz amor à língua portuguesa. Obviamente que é estranho para nós, portugueses, mas não para os senegaleses, que há mais de cinquenta anos que têm o português como opção curricular. O investimento, como o amor, é deles, mas devia servir de exemplo e inspiração para o ministérios da educação, dos negócios estrangeiros e da cultura de Portugal.

Levar a nossa língua a países como a China, a Bulgária, a Polónia, a Roménia, a Hungria, a Rússia ou a Croácia é dos melhores investimentos que podemos fazer no estrangeiro. Quem conhece a língua fica a saber a História, a cultura, os costumes. Rapidamente, essa semente se multiplicará e em poucos anos teremos mais gente pouco óbvia a interessar-se pelo português.
Foi uma semente semelhante, deixada a meio do século XX em Dakar, que produziu este intenso amor em 44 mil alunos senegaleses, que sabem quem é Camões, Torga, Vasco da Gama, Sophia de Mello Breyner.
Obviamente que não devemos descurar a nossa obrigação: levar o português onde estão as comunidades portuguesas (EUA, França, Alemanha, Suíça) e onde o português é língua oficial (Angola, Guiné, Moçambique, São Tomé, Cabo Verde, Timor) assim como à Guiné Equatorial. N entanto, paralelamente não podemos descurar o investimento, porque histórias como a do Senegal provam que ele produz frutos. A própria CPLP têm aqui uma bela fonte de inspiração para a sua ação.
Talvez um dia destes comece a ser chique falar português. Ia ter a sua graça…

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 10 de maio de 2016

O ACORDO ORTOGRÁFICO TORNOU-SE IRREVERSÍVEL?


Receio bem que sim!
Recentemente o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa lançou timidamente o debate, sugerindo que poderíamos voltar atrás quanto à implementação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, no entanto não o fez de uma maneira firme, decidida, de maneira a reabrir o debate. Foi por atitudes titubeantes como esta que o AO foi avante e entrou em vigor há sete anos.
Já todos percebemos que o AO se tornou um objeto inútil por duas grandes razões: não é respeitado descaradamente por quem o mais devia fazer; não aproximou significativamente a grafia entre os falantes da Língua Portuguesa, já que continuam e continuarão a existir diferenças de escrita entre o português do Brasil, de África ou da Europa.

Através do AO substituímos um critério etimológico na grafia das palavras por um critério fonológico, aproximando a escrita ao som. Enquanto professor de português, com formação clássica, isso desgostou-me bastante, pois a história das palavras vai sendo soterrada com a passagem do tempo e daqui a poucos anos quase nenhum dos meus alunos descobrirá, com facilidade, a origem latina ou grega de muitas palavras portuguesas. No entanto, esse era um caminho inevitável, que só podíamos retardar.
A escrita comunicacional que hoje fazemos em smartphones, tablets, computadores privilegia a escrita fónica das palavras em detrimento da correção ortográfica. Ora é bom lembrar que uma língua viva pertence aos falantes e o uso que fazemos dela acaba por impor-se. Pode demorar décadas, mas impõe-se. Reparem, por exemplo, na palavra «Aveiro». Lemo-la como esdrúxula, apesar dela ser grave. Continuaremos a escrevê-la sem acento, mas usamo-la conscientemente transgredindo a norma gramatical.

Com o passar dos anos, serão aqueles que sempre escreveram segundo o AO de 1990 (reparem bem, foi há 26 anos – um quarto de século) que formarão o grosso da população e não aqueles, como eu, que aprenderam segundo uma grafia antiga. A cada ano que passa engrossa a fileira daqueles que só conheceram esta “nova” grafia e diminuirá a fileira dos irredutíveis defensores da escrita de 1945. 
Claro que nos custa mudar, claro que não havia razões para tal, mas o mal está feito há mais de vinte e cinco anos e tivemos quase duas décadas para o evitar, mas nenhum governo, nenhum parlamento, nenhuma aliança democrática ou geringonça o fez. Seria até interessante perguntar, onde esteve Marcelo durante estes últimos vinte anos? Na TVI, fazendo comentário político, social, económico, cultural. Lembram-se de uma posição firme contra o AO? Eu não me lembro.

Entre 1990 e 2000, poucas foram as vozes públicas que se levantaram contra o acordo. Com relevância, lembro-me de Vasco Graça Moura, que apesar de ser do PSD e muito amigo de Cavaco Silva jamais o conseguiu demover da decisão de promulgar a lei. Esperou-se muito tempo por um movimento cívico, cultural, político e nada surgiu.
Acho que a maioria do povo fez o que sempre faz sobre assuntos relevantes para o país: deixou andar, achando que isto era coisa pequena e que não era para cumprir. E na verdade não cumprem. O problema é que agora há uma legião de miúdos que só escrevem e só conhecem a nova grafia, que os envergonha todos os dias lá em casa, nos cafés, nos textos na internet, nos jornais. 
E quando apertados, os quarentões atiram: “Sou contra o AO! Recuso-me a escrever segundo as suas regras!”. Então os ditos miúdos replicam: “Mas não estás a incumprir uma lei? O que aprendemos na escola não é para cumprir? Cada um escreve como lhe apetece?”. Nessa altura, os pais percebem que não podem (não devem) questionar a lei da escola. Espumam de raiva pela inação e laxismo dos últimos vinte anos e mudam de canal.

O tempo de discutir o acordo foi no século passado. Que nos sirva de lição para debates futuros, para não nos queixarmos sempre de sermos constantemente enganados e os últimos a saber.
GAVB