Etiquetas

Mostrar mensagens com a etiqueta Nuno Júdice. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nuno Júdice. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de julho de 2017

GOSTO DAS MULHERES QUE ENVELHECEM


Gosto das

mulheres que envelhecem,

com a pressa das suas rugas, os cabelos

caídos pelos ombros negros do vestido,

o olhar que se perde na tristeza

dos reposteiros. Essa mulheres sentam-se

nos cantos das salas, olham para fora,

para o átrio que não vejo, de onde estou,

embora adivinhe aí a presença de

outras mulheres, sentadas em bancos

de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem

sentem que as olho, que admiro os seus gestos

lentos, que amo o trabalho subterrâneo

do tempo nos seus seios. Por isso esperam

que o dia corra nesta sala sem luz,

evitam sair para a rua, e dizem baixo,

por vezes, essa elegia que só os seus lábios

podem cantar.

Nuno Júdice

domingo, 4 de junho de 2017

PEDRO, LEMBRANDO INÊS


Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: 

ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua 
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,


subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.
Nuno Júdice