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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

ESCRE(VER)-ME

 Nunca escrevi


sou 

apenas um tradutor de silêncios


a vida

tatuou-me nos olhos

janelas

em que me transcrevo e apago


sou 

um soldado

que se apaixona

pelo inimigo que vai matar.


Mia Couto, 1985

terça-feira, 18 de junho de 2019

HEI-DE INVENTAR UM VERSO QUE VOS FAÇA JUSTIÇA

Companheiros


quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho


e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados



deixo

a paciência dos rios
a idade dos livros



mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver



hei-de inventar
um verso que vos faça justiça
por ora
basta-me o arco-íris


em que vos sonho

basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros



Mia Couto, no livro “Raiz de Orvalho”

terça-feira, 31 de julho de 2018

MELHORAR O QUE ESTÁ BEM E CORRIGIR O QUE ESTÁ MAL


"Preocupa-nos que os nossos estudantes entrem para universidade com fraco desempenho académico, mas eu acho mais preocupante ainda que os nossos jovens cresçam sem referências morais. Estamos empenhados em assuntos como o empreendedorismo como se todos os nossos filhos estivessem destinados a serem empresários. Ocupamos em cursos de liderança como se a próxima geração fosse toda destinada a criar políticos e líderes. 

Não vejo muito interesse em preparar os nossos filhos em serem simplesmente boas pessoas, bons cidadãos do seu país, bons cidadãos do mundo.



Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido..,) . 


Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações. E esse modelo está bem patente nos vídeo-clips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem.

É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros."

Mia Couto