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quarta-feira, 2 de março de 2016

MACBETH, de Shakespeare


Escrita entre 1605 e 1606, esta tragédia, esta tragédia só foi publicada muitos anos mais tarde, por volta de 1623. Para escrevê-la, Shakespeare inspirou-se na “Crónica da História da Escócia” de Raphael Holinsted, na qual a figura principal, Lady Macbeth, embora mencionada só tem uma fala.
Enquanto Shakespeare escrevia Macbeth, Londres estava cheia de escoceses que tinham vindo para assistir à festa da coroação de Jaime I, e isso permitiu ao poeta ouvir, dos mais cultos forasteiros, pormenores interessantes da história da Escócia.
Os temas da tragédia são a ambição do poder e a culpa.

A tragédia conta a história de Macbeth, general escocês, que volta de uma batalha onde lutou valorosamente em defesa do seu rei (o seu primo Duncan) e consegue uma importante vitória. De regresso ao seu país, Macbeth tem um premonitório encontro com três feiticeiras que que lhe predizem que será rei. Para facilitar o cumprimento da profecia e instigado pela sua mulher, Macbeth aproveita-se de o rei Duncan ser seu hóspede e apunhala-o, durante a noite, culpando do assassínio os guardas aos quais também mata, fingindo uma grande indignação.
Assustados, os filhos de Duncan fogem para Inglaterra, o que torna ainda mais fácil a realização das ambições de Macbeth.
Já rei da Escócia, Macbeth tudo faz para assegurar a posse do trono e procura exterminar Banko, pois as feiticeiras haviam profetizado a Banko que ele seria a origem de uma dinastia de reis.

Sicários a soldo de Macbeth matam de facto Banko, mas o filho deste consegue escapar da morte. Na mesma noite em que é cometido o crime, Macbeth oferece um banquete, durante o qual o lugar do rei é ocupado pela sombra de Banko. Apavorado, o criminoso – que é o único a ver a sombra – pronuncia palavras que quase denunciam os seus crimes. Então, a sua mulher, mais serena, dá por terminado banquete e faz com que os convidados saiam.
As feiticeiras previnem Macbeth contra Macduff, e o usurpador decide exterminar também este e a sua família. Nessa ocasião, Macduff escapa com vida, mas morrem a sua mulher e os seus filhos. Macduff, que se refugiara a tempo em Inglaterra, consegue convencer Malcom, filho do assassinado rei Duncan, a atacar o traidor Macbeth e a derrubá-lo do trono.
As tropas de Malcom combatem as do usurpador e este perece às mãos de Macduff, que lhe corta a cabeça. O filho de Duncan é então proclamado rei da Escócia.
Lady Macbeth, atormentada pelos remorsos, endoidece e suicida-se, poucos dias antes da morte do marido.

Representei, no papel de Macbeth, e encenei partes desta peça com um conjunto de jovens alunos. Em ambas as situações constatei a complexidade e profundidade da obra de Shakespeare. É verdadeiramente desafiante todo o papel do protagonista, cuja alma é escrutinada em várias dimensões. A nobreza da luta, a ambição do poder absoluto, a crueldade com que mata o primo, os remorsos incomportáveis que o abalam, a culpa que o consome. O sucesso de qualquer representação está, em absoluto, na maneira como o ator agarra toda a complexa personagem de Macbeth. Através dele, Shakespeare representou as enomes contradições do ser humano e a maneira, ironicamente amarga, como a vida estabelece-se uma espécie de justiça poética sobre as ações do Homem. 

GAVB

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

REI LEAR, de Shakespeare

 Shakespeare escreveu esta tragédia por volta de 1606, mas só a publicou dois anos mais tarde. As suas fontes de inspiração foram a tragédia “Verdadeira História do Rei Lear E Das Suas três Filhas”, de autor desconhecido e “Crónica” de Holinshed.


O argumento é simples e sobejamente conhecido: o rei Lear, já velho e desejoso de descansar, decide dividir o reino entre as suas três filhas (Regan, Goneril, Cordélia), mas antes quer convencer-se dos sentimentos delas em relação a ele. As duas primeiras, hipocritamente, fingem dedicar ao progenitor um amor ardente; mas a mais nova, embora seja a única que verdadeiramente ama o pai, não consegue exprimir-se da maneira artificiosa e bonita como as suas sabidas irmãs mais velhas. Cordélia só consegue dizer ao pai que o ama muito, o que para Lear parece pouco. O monarca, pensando que Cordélia não tem por ele qualquer tipo de afeto, amaldiçoa-a e expulsa-a do palácio. É o rei de França que a acolhe e protege.

Paralelamente, o conde de Gloucester, por sua vez, enganado pelo seu filho bastardo, o hipócrita Edmundo, declara-se contra o filho legítimo, Edgar, que vai refugiar-se num bosque para escapar à injustificada cólera paterna.

Já o rei Lear, vexado e ridicularizado pelas suas duas filhas mais velhas, nos palácios destas, endoidece e vagueia em plena tempestade, sem outra companhia que não seja a do seu jogral. É então que o conde de Gloucester se compadece de Lear e procura ajudar o seu rei, mas o seu próprio filho Edmundo entrega-o ao ódio de Regan e do marido desta, que lhe arrancam os olhos e o deixam abandonado. Seu outro filho, Edgar, sai-lhe ao encontro e, fingindo ser um pobre demente, serve-lhe de guia. 
Edmundo é desejado por Goneril e Regan. Depois de morrer o marido da segunda, esta deseja casar-se com Edmundo, despertando assim os ciúmes da sua irmã e rival.

Cordélia, ao saber da situação de seu pai, acorre com as tropas francesas, com o objetivo de recolocar o pai no trono e dar-lhe assim algum consolo. Unidas contra ela, Regan e Goneril e o exército destas aprisionam o rei Lear e Cordélia e esta, por instigação de Edmundo é estrangulada. Não podendo suportar a sua dor ao ver a filha morta, o rei Lear morre sobre o corpo de Codélia.
 Entretanto as infâmias de Edmundo são descobertas e, num duelo, o vilão é mortalmente ferido por Edgar. Antes de morrer, Edmundo confessa ter dado origem a que matassem o rei Lear e Cordélia. Ao ouvir isto, Edgar corre em socorro do velho rei e da filha, mas inutilmente.
Goneril envenena a irmã, mas acaba por morrer também apunhalada. A partir de então, só ficam para restabelecer a ordem no rei, o marido de Goneril, o duque da Albânia, que sempre quis bem ao rei Lear; Kent (um dos mais leais servidores do rei Lear) e Edgar.

O Rei Lear é um das tragédias mais sublimes da literatura mundial. Lê-la, relê-la é um prazer para qualquer espírito, no entanto, só nos apercebemos de toda a sua complexidade e tragicidade quando a vemos em palco, representado por atores de craveira. É isst que espera ver ainda este ano, quando passam 400 anos sobre a morte do melhor dramaturgo de todos os tempos. Já vai sendo hora...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

HAMLET, de Shakespeare



Esta tragédia foi escrita por volta de 1602 e publicada, ainda que de modo fraudulento, no ano seguinte. Para escrevê-la, Shakespeare, provavelmente, inspirou-se na História Dinamarquesa de Saxo Grammaticus e em Histórias Trágicas de Belleforest, nas quais figura a lenda de Hamlet.
Nesta famosa tragédia, Shakespeare conta que Cláudio, rei dinamarquês, casou com a viúva do seu irmão, poucas semanas depois de o ter assassinado para subir ao trono.
Hamlet, filho do defunto rei, ao regressar da universidade alemã, onde estivera a estudar, surpreende-se dolorosamente com o novo casamento da mãe. Pouco depois, aparece-lhe o espectro do pai, que lhe conta como foi assassinado por Cláudio.


Perturbado por esta revelação, Hamlet sente-se torturado entre o desejo de vingar o pai e o sentimento de impotência para castigar o tio.
Resolve fingir-se doido para os seus propósitos e num drama que faz representar por cómicos ambulantes na corte, recorda a Cláudio o crime cometido por este.
A rainha, obrigada por Cláudio, chama Hamlet aos seus aposentos. Nesse encontro, Hamlet descobre que, por detrás da cortina, se esconde alguém que o observa e escuta. Por isso decide continuar a fingir-se louco, pois está convencido que é o tio que o espia. Entretanto toma a decisão repentina de ferir com a espada o “espião” que se encontra entre os cortinados. Desafortunadamente quem o escutava era Polónio, pai da sua amada Ofélia.


Cláudio envia Hamlet para Inglaterra acompanhado de dois cortesãos que levavam consigo uma carta onde estava inscrita a ordem de assassínio de Hamlet. Subvertendo as coordenadas do destino, Hamlet apodera-se da missiva de Cláudio, descobre a conspiração e substitui a carta por outra, antes de fugir e regressar à Dinamarca.
Pouco antes do regresso de Hamlet, Ofélia (a quem a morte do pai deixara louca) afoga-se num rio. Laertes, irmão de Ofélia, ao saber do assassínio do pai e do suicídio da irmã, resolve vingar-se de Hamlet, a quem Cláudio denuncia como culpado.

O odioso rei propõe um combate entre os dois jovens e faz com que Laertes impregne a sua espada com um veneno violento e letal. Como é próprio de qualquer tragédia, o Destino resolve entrar em cena e durante um dos combates, Laertes e Hamlet trocam ocasionalmente de espada. O irmão de Ofélia morre devido ao veneno destinado ao opositor. Morre também a rainha envenenada por uma taça que Cláudia preparara para Hamlet e este trespassa o rei com a sua espada, pouco antes de ele morrer, em consequência de uma ferida causada pela arma envenenada de Laertes.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

JÚLIO CÉSAR, de Shakespeare


«Júlio César» é a primeira das tragédias que Shakespeare escreveu inspiradas na história de Roma, baseando-se, sobretudo, numa tradução de “Vidas Paralelas” de Plutarco.
No entanto, embora toda a obra gire em torno do assassínio de Júlio César, pode considerar-se que é Bruto o verdadeiro protagonista pela profundidade com que é feita o estudo do seu carácter.

Bruto, o grande amigo de César, é aquele que o trai mais profundamente. Shakespeare coloca na sua obra todos os elementos clássicos da tragédia: indícios, afunilamento da ação, concurso negativo de determinadas circunstâncias, mas a verdade é que a morte de César não ocorre por “culpa do destino”, mas por ação objetiva dos homens que arquitetam um plano para matar Júlio César, dado que não podiam suportar todo o seu poder e o amor que o povo lhe tinha. No fundo não conseguiam «encaixar» a sua superioridade.
Bruto é o elemento central desta tragédia, pois não tinha motivos para matar César nem o trair, até porque era sincera a amizade entre ambos. Bruto acabou por ser traído pela sua vaidade, pelo cerco de adulação que Cássio lhe monta. O trágico, que ao mesmo tempo funciona como uma espécie de justiça poética, é que Bruto acaba por ser ultrapassado pelo hábil Marco António, que lhe deu a beber o mesmo veneno que César tomara: a ingenuidade perante os amigos.

Através de Bruto, o Judas de Roma, Shakespeare talvez queira lembrar-nos que a vaidade é a maior tragédia humana.    
Trata-se também de uma das obras do grande poeta em que o seu estilo melhor mantém um tom constante de nobre naturalidade, sem os contrastes habituais.

Na véspera dos idos de Março, Júlio César entra triunfante em Roma (neste ponto Shakespeare comete mais um dos seus famosos erros históricos) e no Senado é-lhe oferecida três vezes uma coroa, que ele recusa três vezes.
Cássio convence Marco Bruto a entrar numa conspiração que tem por finalidade derrubar Júlio César. Bruto, que tem por César uma viva amizade, acredita que é preciso sacrificar essa amizade em benefício do bem público de Roma e desse modo libertar a capital do império da crescente tirania com que César governa.
Um adivinho previne César contra os perigos que o ameaçam e até a sua mulher, Calpúrnia, o convence a permanecer em casa em vez de se deslocar ao Senado, mas um dos conjurados (Décio) consegue levá-lo e, então, antes de entrar no Capitólio, os traidores abeiram-se de Júlio César, sob o pretexto de lhe apresentar uma petição, a qual é negada, e, um após outro, cravam os seus punhais no peito de César, que morre depois de reconhecer Bruto entre os seus assassinos.
Segue-se uma confusão geral e Marco António, com hábeis palavras, consegue que Bruto lhe permita prestar honras fúnebres ao cadáver. Bruto sobe à tribuna e explica ao povo os motivos do assassínio; contudo, depois, Marco António, num habilíssimo discurso faz com que o povo se revolta contra Cássio, Bruto e restantes conjurados de tal maneira que estes têm de fugir de Roma.  
Constituídos em triunvirato, Marcos António e Otávio, marcham à frente de um poderoso exército ao encontro dos republicanos que se haviam refugiado nas províncias gregas. Trava-se a batalha na província de Filipos. Aí as forças de Cássio são derrotadas e este suicida-se. Bruto consegue uma ligeira vantagem sobre Otávio, mas é vencido por uma vez e também pede ao seu escravo que segure a espada enquanto ele se precipita sobre a sua lâmina. António o Otávio honram as suas virtudes, ordenando funerais dignos de um grande soldado. 

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O MERCADOR DE VENEZA, de Shakespeare


Há 420 anos Shakespeare levou à cena uma das suas mais brilhantes comédias: O Mercador de Veneza. Mais do que fazer rir o público, Shakespeare consegue escrever um texto sobre a força do amor, da amizade, da honra, ao mesmo tempo que critica, sem piedade, a rapacidade (avidez) absurda dos judeus.
Na peça de Shakespeare, encontramos Pórcia, a rica herdeira de Belmonte (povoação italiana perto de Veneza), que está preste a casar e ricos pretendentes não lhe faltam. No entanto, para obterem a sua mão, estes deviam adivinhar em qual dos três potes (ouro, prata, chumbo) estava escondido o retrato de Pórcia. Diversos pretendentes fracassam na prova, mas não Basânio, que está enamorado de Pórcia e escolhe o pote de chumbo. No entanto, o amado de Pórcia, antes de comparecer para a prova e no desejo de se apresentar convenientemente, pediu dinheiro ao amigo António (o Mercador de Veneza), o qual, não dispondo da soma necessária na ocasião, a pede emprestada ao agiota judeu Shylock.

O vilão da peça impõe como condição que, se António não pagar no prazo estipulado, teria de lhe entregar uma libra da sua própria carne. Na data do vencimento do empréstimo, António vê-se impossibilitado de pagar e é detido e encerrado na prisão.
Ao ter conhecimento da notícia, Basânio corre em socorro do amigo e oferece ao cruel judeu o triplo da dívida de António, mas o judeu não aceita e, no seu ódio por António, exige ao tribunal de Veneza o cumprimento do contrato.
Desejosa de salvar o amigo do noivo, Pórcia apresenta-se em tribunal sob o disfarce de um advogado e declara que Shylock tem o direito a receber a libra de carne, mas deve ser ele a cortar o corpo de António, ao mesmo tempo que o avisa que só poderá receber a carne se não derramar gota de sangue. Desta forma confunde o judeu que, além de se ver privado da vingança, vê confiscados todos os bens.

Ainda sob disfarce, Pórcia rejeita os três mil ducados que António e Basânio querem dar-lhe como retribuição dos seus serviços, mas pede a este último o anel que ela própria lhe havia dado. Sem nunca reconhecer a sua noiva, Basânio hesita, mas acaba por aceder ao pedido por insistência de António.
De novo em Belmonte, Pórcia pede ao amado o anel que lhe havia dado e que ele prometera nunca largar, e este confessa a sua falta. Cena semelhante passa-se com outro par romântico: Nerissa (criada de Pórcia) e Graciano (amigo de Basânio). Apesar da aparente fúria das duas belas mulheres tudo acaba a contento do amor. É então que Jéssica, a filha do judeu Shylock que havia fugido com o namorado Lorenzo, se vê perdoada e nomeada herdeira – decisão à qual Shylock se obrigou, em tribunal, por imposição de Pórcia.


É verdade que a peça de Shakespeare é feroz com a avidez e maldade dos judeus, destacando o desejo de vingança de Shylock. Para destacar esta maldade em estado puro, Shakespeare coloca Shylock a recusar o triplo do pagamento do contrato, mas fora de prazo, preferindo a libra de carne de António.

Outro elemento fundamental da comédia do dramaturgo inglês é a vitória do amor sobre as barreiras sociais, económicas, legais. Não é por acaso que ele personifica o amor nos jovens, pois eles trazem a ousadia, a determinação, a coragem que compõem o código genético de quem ama.
Devemos ainda destacar, nesta peça, a defesa de valores nobres como a amizade, o cumprimento da palavra dada, a coragem.
Todo o texto é uma lição de vida, escrito numa linguagem elegante e bem-disposta. O rendilhado das palavras de Shakespeare pode parecer excessivo, mas é apenas epocal e adequado ao elevado nível social e moral da maioria das personagens.
Com mestria, Shakespeare consegue arquitetar um peça, onde a progressão temática acompanha a tensão dramática em crescendo e habilmente importantes indícios são semeados, em aparente descuido, para o espectador/leitor.
Ao ver ou ao ler esta peça, ficamos com muito mais que um sorriso nos lábios, ficamos com a alma cheia de humanidade.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 7 de outubro de 2014

AS OBRAS COMPLETAS DE WILLIAM SHAKESPEARE EM 97 MINUTOS



    
         Desilusão! Este foi o sentimento que me percorreu no final da tarde de domingo quando saia do teatro Sá da Bandeira, no Porto, depois de ver a representação de “As obras completas de William Shakespeare em 97 minutos”, encenada por Juvenal Garcês e representada pelas atores André Nunes, António Machado e Tiago Ramalho.
     Tinha uma grande expectativa em ver esta peça, pelo êxito alcançado, na anterior digressão, pelo sucesso que fez em vários países, pela curiosidade de ver como os britânicos Adam Long, Daniel Singer e Jess Borgeson conseguiram “criar” uma peça a partir das peças de Shakespeare.  
     Os autores criaram um texto hilariante, cómico e bem estruturado, feito para pôr o público a rir e desmistificar a obra do grande dramaturgo inglês. Percebo a intenção, reconheço mérito ao texto, mas a interpretação/encenação que dele fez Juvenal Garcês dececionou-me. Em primeiro lugar, porque não faz jus à extraordinária obra de Shakespeare, dando uma ideia absolutamente errada do estilo, temas e qualidade literária e dramática do escritor inglês.


     Quem não conhece a obra shakespeariana (a esmagadora maioria dos espectadores deste representação) jamais sentirá inclinação por ler qualquer obra deste autor, pois julgará que o valor que lhe é atribuído foi amplamente empolado. A ligeireza com que as peças são retratadas, golpeadas, ridicularizadas transmite ao espectador uma ideia absolutamente errada sobre a qualidade cénica das obras de Shakespeare.
Obviamente que a peça de Long, Singer e Borgeson pretende fazer rir, glosando as principais obras shakespearianas, mostrar o lado trágico-cómico de algumas tragédias, revelar a maneira abusiva como Shakespeare cavalgou fórmulas de sucesso nas comédias, o excessivo rendilhado de alguns diálogos, mas não pretende ridicularizar as obras nem humilhar o seu autor.


É bom que os atores interajam com a plateia, que façam inferências para a atualidade, mas é dispensável que o façam a despropósito, que tornem o texto base um acessório dispensável da representação, de tal modo que o nome de Shakespeare se torne apenas um engodo, um isco para atrair público e não o eixo fundamental do trabalho dos atores e encenador.
Os atores Tiago Ramalho, António Machado, e André Nunes têm um valor inquestionável, amplamente demonstrado noutros trabalhos, mas a sua interpretação de “As obras completas de William Shakespeare em 97 minutos” pareceu-me apressada, atabalhoada, sem ritmo nem alma. Houve largos momentos, em que não percebi longos trechos de texto tal a rapidez com que eram debitados. Eram as partes referentes aos trechos das peças de Shakespeare. Como poderá um espectador avaliar a riqueza literária dos diálogos shakespearianos ou o anacronismo da sua linguagem, se não percebe o que ouve, tal a velocidade e desleixo com que são ditas? Por momentos ainda pensei que fosse uma questão de gestão do tempo de representação, mas não! A peça demorou cerca de duas horas e houve momentos em que foi penoso o passar dos minutos. Por outro lado, “sobraram” dezenas de minutos para fazer pequenas brincadeiras cénicas com o público, como se estivessem todos ali a matar o tempo. Não me parece que foi para isso que o público comprou bilhete.

No final da peça, quando descia, desconsolado, as escadarias do velho teatro portuense, ouvi um curto diálogo entre um casal que mostravam ironicamente o seu desagrado com aquilo que viram. Pouco minutos antes, o público presente tinha despedido atores e encenador com vigorosos aplausos. Riram, interagiram, passaram um bom bocado, mas acho que riscaram para sempre Shakespeare das suas prioridades literárias.
Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 2 de setembro de 2014

KEANU REEVES


 Keanu Reeves faz hoje cinquenta anos. Um momento especial, num ator e, sobretudo, num homem muito especial. Das origens à carreira, passando pela história de vida e terminando no modo como lida com a fama, tudo neste homem nos diz que estamos perante uma pessoa fora do comum.
Nasceu em Beirute, no Líbano, mas tem nacionalidade canadiana. Filho duma stripper e dum traficante de droga, encaixou muito bem os revezes iniciais da fortuna e procurou o seu próprio caminho.
A sua carreira cinematográfica começou aos vinte anos e atinge a fama aos trinta quando filma “Speed – Perigo Em Alta Velocidade”, com a belíssima Sandra Bullock. Daí para cá tem somado êxitos e participado em filmes emblemáticos como “O Advogado do Diabo” com Al Pacino, ou Matrix e respetivas sequelas.

Embora a relevância e fama deste cinquentão que aparenta ter pouco mais de trinta, provenham do cinema, dois aspetos fora do mundo de Hollywood me chamaram atenção: em primeiro lugar a sua simplicidade e filantropia, que em nada me parecem fingidas; e em segundo lugar, as suas paixões de juventude: o hóquei no gelo e o teatro. O guarda-redes de hóquei que era conhecido como "a parede", por ser muito difícil marcar-lhe golos, amava Shakespeare e Hamlet. O teatro era a sua paixão. E isso ficou bem evidente quando a sua carreira cinematográfica dava os primeiros passos e o irreverente Keanu decidiu dar corpo ao “seu” projeto de sonho: fazer “Hamlet" de Shakespeare.


Foi uma produção pequena, na cidade de Winnipeg, no Canadá, sob a direção de Lewis Baumander, onde Reeves contracenou com vários atores desconhecidos. Os bilhetes esgotaram-se em poucos dias. Os fãs do ator fizeram questão de estar presentes vindos de toda a parte, o que tornou a peça uma atração turística na cidade. Críticos canadianos, americanos e até ingleses, deslocaram-se a Winnipeg para ver Keanu. Conta-se que os seus agentes, além de desaconselhá-lo veementemente a empreender tal façanha se recusaram a ir vê-lo, temendo uma humilhação pública deste ator de personalidade tão forte. Na estreia, Keanu Reeves esteve nervoso na estreia e recebeu algumas críticas negativas, mas isso não o demoveu e procurou melhor a sua atuação até convencer um dos mais renomados críticos ingleses de teatro, Roger Lewis, que declarou que Keanu foi um dos três melhores Hamlets que ele já vira. Lewis explicou que Keanu "era Hamlet": "Keanu personificou a inocência, a fúria esplêndida, a graça animal e a violência emocional que compõem o Príncipe da Dinamarca. Ele é um dos três melhores Hamlets que já vi, por uma simples razão: ele é Hamlet".



Atualmente, Reeves é uma dos atores mais respeitados e admirados em Hollywood, não apenas pela qualidade dos seus desempenhos, mas também pela sua conduta cívica. Tem uma fundação que financia hospitais oncológicos e equipas de cientistas que procuram incessantemente uma cura para o flagelo do cancro; apoia financeiramente instituições de caridade, e fez questão de várias vezes vivenciar o dia-a-dia dos sem-abrigo.
As suas ações não são teatrais nem pretendem constituir um golpe publicitário que melhore a sua imagem, pois muitas vezes aqueles que lhe são próximos ou até os seus agentes são surpreendidos pela ação deste libanês que o Canadá adotou.
Keanu Reeves é sem dúvidas um ser extraordinário, ”uma verdadeira brisa fresca sobre as montanhas” da vida, como indica o seu próprio nome. 

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 20 de maio de 2014

SHAKESPEARE


Shakespeare é considerado, muito justamente, o maior dramaturgo mundial. Este inglês nascido em Strafford-upon-Avon notabilizou-se na dramaturgia e no teatro. Na arte dramática escreveu 38 peças, onde se incluem as comédias e tragédias mais afamadas de sempre. Os seus textos dramáticos são encenados frequentemente, um pouco por todo o mundo, o que mostra a universalidade e intemporalidade dos temas das suas obras e, sobretudo, a qualidade artística das suas peças de teatro. 

A vida de Shakespeare está cheia de acontecimentos curiosos (nasceu e morreu no mesmo dia – 21 de abril) e polémicos.
O que não oferece qualquer dúvida é a qualidade de textos como “Romeu e Julieta”, “Hamlet”, “Rei Lear”, “Macbeth” ou “Sonho de uma noite de verão”.

Ainda vivo, Shakespeare já era um escritor admirado e respeitado, mas foram os românticos (século XIX) que o tornaram num ídolo das letras, aclamando a sua genialidade. No século XX, a sua obra foi redescoberta por diversos encenadores que a reinterpretam constantemente. Por isso, vemos frequentemente peças suas a serem encenadas em diversos pontos do globo ou a serem transformadas em filme ou a servirem de inspiração a dramaturgos contemporâneos. 

Grande parte da obra shakespeariana situa-se entre 1590 e 1613. Durante este período encontramos três fases. De 1590 a 1594, escreve sobretudo comédias de influência italiana, onde sobressai o gosto por acontecimentos e personagens históricos. 

“Romeu e Julieta”, em 1595, marca o início da segunda fase que se prolonga até 1599, ano em que escreve “A Tragédia de Júlio César”. Apesar de este período começar e terminar com uma tragédia, estes cinco anos são marcados pela escrita de… comédias. Realço “O Mercador de Veneza”, de que gosto particularmente. 

A terceira fase (1600 – 1608) produz três das suas mais imponentes obras: Hamlet, Rei Lear e Macbeth. Três tragédias soberbas que passados séculos continuam a ser encenadas e a suscitar a admiração e o aplauso do público.

O período seguinte é marcado pela escrita de romances e tragicomédias que não alcançaram a fama das obras anteriores. São desta fase obras como “Cimbelino”, “A Tempestade” e “Péricles, príncipe de Tiro”. São obras menos sombrias que as tragédias do período anterior, mas comédias mais graves e sérias que aquelas que escreveu na sua primeira fase literária. Há quem veja aqui uma mudança de estilo de Shakespeare, refletindo um período mais sereno na sua vida pessoal. 

Se há algo que distingue as obras de Shakespeare é o refinado tratamento que ele faz das suas personagens. As personagens shakespearianas são complexas. Elas alternam entre o cómico, o dramático e o trágico. Dessa forma, Shakespeare expande e enriquece a identidade das suas personagens. 
Tomemos por exemplo o período dourado da criação literária do dramaturgo inglês (1600-1608), altura em que escreveu Hamlet, Rei Lear ou Otelo.

Se o autor da famosa frase “To be or not to be” era um herói pensativo, reflexivo e ponderado, em Otelo e Rei Lear encontramos heróis imprudentes e precipitados. Por exemplo, na tragédia Rei Lear, este comete o erro de abdicar dos seus poderes, provocando acontecimentos que conduziram ao assassínio da sua filha e à tortura e cegueira do Conde Glósester. Em Macbeth, a incontrolável ambição de Macbeth e sua esposa, Lady Macbeth, levam ao assassínio do rei e à usurpação do trono. Contudo, a culpa, que ambos sentem, faz com que os dois se destruam. Talvez por isso seja Hamlet a personagem shakespeariana mais admirada. Hamlet é inteligente, observador, sábio. 

Em conclusão, podemos concluir que as peças teatrais do dramaturgo britânico são densas, misteriosas e peculiares e nelas ressalta um fundo psicológico admirável. Uma das qualidades do trabalho de Shakespeare foi justamente a sua capacidade de individualizar todos seus personagens, fazendo com que cada um se tornasse facilmente identificado. Vários filósofos e psicanalistas de renome como Goethe, Freud ou Schopenhauer estudaram atentamente as grandes peças de Shakespeare e todos detectaram a riqueza psicológica e existencial das suas personagens. Não deve ter sido por acaso! 


Gabriel Vilas Boas