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segunda-feira, 13 de junho de 2016

O ARTISTA É UM FINGIDOR?


Fernando Pessoa escreveu no poema Autopsicografia que o poeta é um fingidor. Todo o escritor precisa de o ser! E também o ator, o pintor, o cineasta… O artista precisa de fingir para criar! A realidade é notícia, é história e, sobretudo, é, muitas vezes, aborrecida.

No entanto, ao contrário do leitor, do espetador, do ouvinte, o artista não pode ser um fingidor amador. Fingir é a sua arte, fingir é a sua profissão e todo o seu encanto está em fazer, por momentos, os outros acreditar na verosimilhança do seu poema, da sua atuação, da sua pintura futurista. Para isso, ele precisa de viver a personagem que criou, de sorver a sua personalidade, de entrar dentro dela e fazê-la caminhar num palco ou numa folha de papel. É ele que lhe dá vida, que lhe empresta personalidade, comportamentos e sentimentos.
Quando o consegue plenamente, será que podemos afirmar que continua a fingir? Quem representa, quem escreve com frequência ou até quem pinta com regularidade e alguma qualidade sabe perfeitamente quão doloroso é o processo criativo. A dor não é nenhum fingimento. O amor, o ódio, a alegria, a revolta, a compaixão, o medo que poeta ou ator expelem das suas personagens foram vividos, muitas vezes sofridos.


É comum os escritores falarem de experiências traumáticas de escrita como é recorrente vários atores falarem com assombro das experiências que viveram (não fingiram viver) ao representar determinada peça.
Claro que essas experiências passam e os atores partem para outra história, como cada um de nós o faz com as diversas experiências por que passa na vida.
Escrever, representar, criar qualquer objeto artístico é tão sério e tão “verdadeiro” como outra coisa qualquer. Ninguém diz de um economista que tem um “jeitinho” para as contas, nem que faz uns cálculos para desenfastiar do aborrecimento da vida; ninguém desdenha da arte de um pasteleiro ou de uma cozinheira como um ócio tolo de quem tem muito tempo para desperdiçar, apesar dos bolos fazerem mal à saúde.
O artista sente a dor que finge, transmutando-se em várias personalidades, num trabalho incansável que alimenta o espírito daqueles que precisam de algo mais do que a intragável mesmice.

gavb    

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O PINTOR: À LUA, de Marc Chagall


Sucede na pintura o que muitas vezes acontece na poesia: tanto os pintores como os poetas elegem como assunto a sua própria criação – o poeta e a poesia, o pintor e a pintura. Seguindo esta ordem de ideias, o quadro de Chagall intitulado O Pintor: à Lua tem a vantagem de aproximar o pintor ao poeta.
A associação que este quadro sugere entre o pintor e o poeta começa desde logo na coroa de louros, que, como se sabe, era usada tradicionalmente pelo poeta tocado pelas asas da fama.
Ao primeiro olhar, o que ressalta no quadro de Marc Chagall é a figura do pintor que flutua no espaço azul e que contempla a lua. A mão esquerda segura a paleta e os pincéis, com o braço estendido longitudinalmente. A mão direita, alçada, toca a parte inferior do rosto e dos lábios configurando uma atitude de espanto, de admiração.
O pintor encara o céu, o alto. Em baixo, repousa um aglomerado de casas. Olhando mais atentamente, discerne-se, no fundo azul, duas formas esféricas. Na cultura grega o círculo era a forma da perfeição. Parece, assim, que a arte casa com a perfeição e que o pintor se encontra predestinado à harmonia das esferas, muito por cima e muito para além do mundo doméstico e chão do homem comum.
Note-se também na extremidade do lado direito do quadro, o que parece ser uma cortina ou um reposteiro com motivos florais, o que indica uma janela ou um balcão. A dedução impõe-se: o pintor saiu da habitação terrestre, catapultado pelo sonho, seduzido pelo sortilégio da lua… O tema do quadro é, portanto, a inspiração artística.

Ora, segundo muitas correntes de pensamento, o poeta é um privilegiado, um ser excecional, nascido para um destino superior: o de dizer ou mostrar ao homem comum o que está oculto. Assim, não é despropositado ligar esta ideia com o espírito do quadro e com a figura do pintor, levitado, atraído pela lua, muito acima do mundo.