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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

EINSTEIN INCENTIVOU ROOSEVELT A CONSTRUIR A BOMBA ATÓMICA


Quatro semanas antes do início da Segunda Guerra Mundial, quando os políticos europeus mais experimentados sabiam que era impossível parar a sede de vingança e poder de Hitler, Einstein escreveu ao presidente dos Estados Unidos, F. Roosevelt, dando-lhe conta dos extraordinários avanços no mundo da Física - "talvez seja possível desencadear uma reação nuclear em cadeia, numa grande massa de urânio, ..." - que ajudariam na construção de uma bomba poderosíssima.

Einstein é bastante explícito: "Este novo processo conduziria à construção de bombas (...). Uma única bomba, transportada num barco e feita explodir num porto, pode destruir o porto por completo e uma parte da zona circundante.

Por muito distraído que Einstein pudesse ser (que não era...), ele tinha consciência da capacidade destruidora da bomba atómica ainda por nascer. Obviamente não o podemos condenar pelos efeitos radioactivos da bomba atómica, mas a carta que ele envia a Roosevelt mostra apenas um Einstein preocupado em ganhar a corrida do nuclear aos nazis e com o modo como seria transportada a pesada bomba, mas não com as pessoas. Um porto e arredores não são apenas barcos e instalações militares; quem destrói barcos e armazéns mais rapidamente destrói pessoas. 


Faltava um mês para começar a guerra e Einstein parecia mais certo dela do que o ingénuo Chamberlain, embora os EUA não fizessem parte dos planos de ataque inicial de Hitler. 

É verdade que o lançamento da bomba atómica alterou todo o pensamento do Homem sobre o nuclear assim como definiu as novas fronteiras do Medo, do Poder e da Chantagem, até aos dias de hoje.
Einstein arrependeu-se - "Se eu soubesse, teria sido relojoeiro!". Ele não sabia tudo (Nunca ninguém sabe...), mas sabia o suficiente para não jogar com o lado perverso do desenvolvimento científico. A bomba atómica e a energia nuclear fazem chantagem com a Humanidade, porque entre ela sempre haverá loucos e maldosos, e por isso continuo a pensar que "a reação nuclear em cadeia num grande massa de urânio" foi a mais infeliz conquista científica da História.
GAVB

terça-feira, 12 de junho de 2018

CIMEIRA COREIA DO NORTE - EUA: UMA GRANDE VITÓRIA DA CHINA



Há pouco mais de um ano escrevi que a China ia entregar a Coreia do Norte a Trump (https://setepecadosimortais.blogspot.com/2017/05/a-china-vai-entregar-coreia-do-norte.html

Um ano volvido, os inqualificáveis Donald Trump e Kim Joung-un assinaram um improvável tratado de paz e cooperação, que pressupõe a desnuclearização total da Coreia do Norte em troca de alguns prisioneiros. Parecia quase impossível isto acontecer, face à personalidade dos dois líderes e aos sucessivos falhanços anteriores.

Como foi isto possível? Penso que a China teve um papel fundamental. Com a escalada de ameaças entre coreanos e norte-americanos, os chineses perceberam que tinham um grande problema entre mãos, porque a Coreia é o seu brinquedo comunista de estimação, mas nos EUA estão enterrados os maiores investimentos chineses.
Como sair deste imbróglio sem perder a face, que neste caso passaria por obrigar a Coreia do Norte a capitular? Forçar um acordo, em que os americanos ganhassem em toda a linha, mas em que Kim mantivesse o poder. A sorte dos chineses foi a personalidade espalhafatosa de Kim Jong-un e Donald Trump, que viram neste acordo uma oportunidade única de fazer algo credível e com impacto mediático.

Provavelmente foram os chineses que fizeram ver a Kim Jong-un que a única maneira de se manter no poder seria fazer um acordo com Trump. 
A pouca relevância internacional de Kim permite que não seja muito ultrajante esta capitulação, até porque aquilo que ele fez é o correto.
O primeiro sinal deste desfecho foi dado pela reaproximação entre as duas Coreias. Depois, a diplomacia chinesa fez o resto, na sombra e com paciência.
O envolvimento chinês é tão óbvio que, poucas horas após a assinatura do acordo, já est a pedir a suspensão das sanções à Coreia do Norte.
Incrivelmente, são os chineses a liderar geopolítica mundial. Esperamos que os seus planos sejam contidos.
GAVB

terça-feira, 17 de abril de 2018

A IGNORÂNCIA AMERICANA



Desde que Donald Trump foi eleito presidente dos EUA comecei a suspeitar seriamente da inteligência dos norte-americanos. Afinal eles elegeram um burgesso para seu presidente. Ser presidente do país é o mais alto cargo da nação e para eleger um homem com aquele perfil psicológico, social, cultural e pessoal é preciso ser-se não se ter juízo nenhum.

Agora, um estudo da Jetcost, um site de viagem, sobre o grau de conhecimentos culturais, geográficos e linguísticos do turista norte-americano, ou seja, aquele que viaja e por isso supostamente conhece mais que os que nunca saíram da América, revela quanta ignorância prolifera em terras de Trump.

uma americana a indicar a Coreia do Norte no mapa
Algumas conclusões deviam fazer parte de um livro de anedotas sobre americanos, mas soam terrivelmente plausíveis.
Metade dos inquiridos acha que África é um país e não um continente.
Um em cada cinco americanos inquiridos (e foram mais de quatro mil) pensa que a França faz parte do Reino Unido e que em Portugal se fala espanhol. Cerca de 40% acredita que o Polo Norte não existe e 26% julga que a Escócia se situa no Equador.

Um em cada seis pândegos americanos pensa que a grande Muralha da China, afinal, fica no Japão e cerca de 14% dos entrevistados afiança que as Filipinas são um estado chinês.
Partindo do princípio que as entrevistas foram feita a gente sóbria, este resultado, ainda que seja apenas uma amostra, não deixa de pôr em cheque o modelo educacional norte-americano, muito baseado em testes de Verdadeiro e Falso. Quando olhamos para os resultados de um sistema educativo também temos de olhar para o seu produto final e não apenas para as taxas de sucesso e insucesso. 
O modelo americano produziu a eleição de Trump e uma enorme quantidade gente que motivaria a criação de uma história e geografia mundiais do disparate.
GAVB

sexta-feira, 13 de abril de 2018

A GUERRA FRIA ESTÁ DE REGRESSO?


António Guterres declarou, há pouco, no Conselho de Segurança da ONU, a propósito de mais um ataque químico ao povo sírio, que a Guerra Fria está de volta.
Percebo as afirmações do secretário-geral da ONU, o seu sentimento de impotência, raiva, medo em relação ao que se passa na Síria e a dificuldade em engolir o cinismo, a desumanidade, o descaso dos principais responsáveis mundiais. No entanto, a Guerra Fria foi (e é) outra coisa. Para haver Guerra Fria, tal como aconteceu quando o conceito nasceu, a informação não circulava com a facilidade com que hoje circula, os povos não estavam tão bem informados como hoje estão nem as opiniões públicas eram tão poderosas como as da atualidade. Por outro lado, o nível cultural, social, político e estratégico dos principais líderes mundiais era superior e não roçava a infantilidade como hoje acontece, em alguns casos. Talvez por isso o mundo corra mais riscos agora do que no passado.

A Guerra Fria foi um tempo em que os espiões eram determinantes e o jogo tático e estratégico, a nível político e militar, era altíssimo. Hoje nada disso acontece. Há reações por impulso, de gente absolutamente impreparada, assim como há vários líderes mundiais que não detêm o poder de outrora, apesar de os seus países continuarem a ser considerados muito importantes.
Por outro lado, em meados do século XX, época áurea da Guerra Fria, o poder estava concentrado nos políticos e nos militares; hoje em dia, quem manda na economia, quem detém bancos, seguradoras, multinacionais, empresas cotadas em bolsa exerce uma força muito maior sobre presidentes e primeiros-ministros.

Isso deixa-nos descansados quanto a uma possível nova guerra mundial? Não, mas, a acontecer, ela terá lugar em moldes bem diferentes dos do passado: num qualquer território pobre, abandonado, sem grandes hipóteses de se estender aos territórios das forças beligerantes. Algo parecido com aquilo que se passa hoje na Síria, onde todos parecem mais interessados em experimentar o seu armamento militar, químico, quiçá atómico, numa demonstração canibal de força, do que em devolver aos que restam daquele povo o seu território esfrangalhado.
Não é a Guerra Fria que está de volta, mas os jogos de guerra, transferidos do computador e da televisão para a realidade, e jogados por líderes irresponsáveis como Trump, cínicos como Putin ou maquiavélicos como Bashar al-Assad e Erdogan.
GAVB

sábado, 20 de janeiro de 2018

O DIA EM QUE A AMÉRICA SE ENCONTROU COM A HISTÓRIA E TEVE UM PRESIDENTE NEGRO


A História dos EUA está umbilicalmente ligada à luta dos negros pela igualdade de direitos face aos brancos. Essa luta, que também é a luta do ser humano contra um dos seus demónios mais persistentes, teve vários momentos importantes entre os quais está a eleição de Barack Obama em 2008.
A 20 de janeiro de 2009, Obama tornou-se oficialmente o primeiro negro a ocupar o cargo de Presidente dos EUA. A longa marcha dos negros americanos chegava ao fim, mas o desafio de Obama era outro: transformar em atos os bonitos discursos que marcaram a sua ascensão política. Ainda que não tenha desiludido, Obama não encantou, até porque o tempo era de lenta recuperação económica e a dura realidade dos números não permitia heroísmos de outros célebres presidentes.
Recupero hoje parte do seu discurso, porque a América que elegeu Trump precisa de o ouvir outra vez.

«Ao reafirmar a grandeza da nossa nação, compreendemos que sua grandeza nunca é um dado adquirido. Ela tem de ser conquistada. O nosso percurso nunca foi de atalhos nem de nos contentarmos com pouco. Não foi o percurso dos timoratos – dos que preferem o ócio ao trabalho ou procuram apenas os prazeres dos bens materiais e da fama. […]

Porque sabemos que o nosso legado heterogéneo é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus – e não de crentes. Fomos moldados por todas as línguas e culturas, trazidos de todos os cantos desta terra; …»

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

PROPOSTA DIABÓLICA E INDECENTE


Há propostas, entendimentos, pensamentos que só podem nascer de mentes diabólicas e maldosas. Erdogan, o terrível presidente turco, propôs a Trump um troca direta de dissidentes políticos, que, por acaso, são clérigos.
Nos EUA está refugiado Fethullah Gulen, a quem o presidente turco acusa de estar na origem do golpe de estado falhado, em Outubro de 2016, enquanto na Turquia se refugiou o pastor evangélico Andrew Brunson e que a justiça norte-americana quer ver repatriado.
Nas últimas horas, Erdogan sugeriu uma possível troca direta entre estes dois clérigos, dizendo que os EUA estão a pressionar Ancara para extraditar Brunson e não são capazes de um gesto de igual medida.
O que Erdogan não diz é que a morte espera Gulen na Turquia. Quanto a Trump põe-se de tal modo a jeito com os seus patéticos tiques de autoritarismo mimado que até uma figura do calibre de Erdogan se acha tão democrata como ele.

Erdogan humilha todos os dias o seu povo, retirando-lhes a liberdade de expressão política; ao sugerir esta troca, pretextando-a como admissível, está a colocar Trump no mesmo patamar e, indiretamente, o povo americano, pois a maioria apoia o presidente.
As atitudes de Trump levam a desplantes deste género e outros se seguirão. É muito pouco provável que o presidente dos EUA aceite o repto, mas só facto de ele ter existido já é suficientemente mau. No fundo, Erdogan acha-se um democrata ao estilo Trump. Os mais básicos princípios da democracia, o Estado de Direito e os próprios direitos humanos só existem quando lhe são convenientes.
A devastação do estatuto internacional dos EUA, levada a cabo pela administração TRump, é tão profunda que demorará anos a restabelecer.
Como se sentirão os diplomatas americanos quando têm de conversar com gente cordata, com princípios e valores? Afinal de contas, era essa a sua gente…

GAVB

domingo, 22 de janeiro de 2017

POR QUE É QUE ESSAS PESSOAS NÃO VOTARAM?


A frase é de Donald Trump e talvez seja das melhores coisas que disse ultimamente. Donald Trump referia-se às enormes manifestações que pontuaram a sua tomada de posse.
Donald Trump tem absoluta razão! A grande manifestação do povo são as eleições. É aí que as pessoas manifestam a sua suprema vontade sobre quem os irá governará. Criticar quem é eleito democraticamente (ainda que as regras sejam diferentes de país para país) é criticar a própria democracia; soa a mau perder.

É ótimo vivermos num sistema social e político que não nos coíbe de manifestarmos a nossa repulsa até com uma eleição democrática, mas é bom termos a noção do que fazemos e como estamos a dar trunfos a quem prefere as ditaduras às democracias. Millor Fernandes dizia, com graça, que “Democracia é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim.” O tempo da informação total e sem filtro trouxe-nos uma certa infantilidade de pensamento, em que parece que só queremos brincar quando somos os reis do jogo.
O que se está a passar na América de Trump é uma espécie de birra de crianças mimadas ou de má consciência com os seus amuos de Novembro de 2016 e que agora não querem reconhecer o grande erro que cometeram.

Trump venceu com os votos dos seus apoiantes e sobretudo com a ausência dos naturais apoiantes do Partido Democrático. Foi uma dura lição para as elites políticas americanas e para uma certa arrogância da América instruída e com acesso aos media. Havia outra América, a América que votou convictamente em Trump, e que sempre nos procuraram esconder. Agora ela está bem à vista.
A eleição de Trump, o modo como ele ocorreu, deve servir de lição para outras realidades – nos momentos importantes não devemos amuar e exercermos a nossa vingançazinha, mas antes votar em consciência, afirmar a nossa cidadania, perceber a importância do que está em jogo e decidir em consciência sobre o que é melhor e mais justo para a maioria, ainda que façamos parte da minoria.
Se Trump, no discurso da tomada de posse, tivesse tido a coragem e a inteligência de se dirigir aos manifestação e corajosamente lhe tivesse perguntado “Se me detestam tanto, por que não foram votar, em vez de terem ficado em casa?”, talvez tivesse havido uns segundos de silêncio em memória de muitas más consciências.

Gabriel Vilas Boas 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A LONGA MARCHA SAUDITA PARA A IGUALDADE DE GÉNERO




Quase quinze mil sauditas pediram ao rei Salman o fim do sistema de tutela das mulheres, que as obriga a pedir autorização a um homem para estudar, casar, trabalhar ou sair do país.
Na Arábia Saudita as mulheres não são tratadas como cidadãs de pleno direito, submetendo-se por completo a leis indignas que as aproximam muito mais da escravidão do que da cidadania.
Num dos países mais ricos e influentes do mundo, as mulheres estão proibidas de conduzir e têm sempre de ter um elemento masculino (pai, irmão, marido, tio) que as tutele, para realizar coisas tão simples como exercer uma profissão, viajar, frequentar uma escola.
A petição, que ainda não foi aceite pelo rei, pede coisas elementares, mas que para as mulheres sauditas serão grandes conquistas. Também seriam para qualquer mulher de outra nacionalidade, porque qualquer dos elementos que definem a dignidade humana é essencial.

Estas quinze mil pessoas que tiveram a coragem de assinar esta petição querem continuar a dar força a uma lenta mudança de mentalidades naquele país do médio oriente. Em 2011, as mulheres sauditas puderam votar pela primeira vez em eleições municipais. Agora, com esta petição, esperam que o rei comece por definir a partir de que idade a mulher é considerada adulta e, por consequência, responsável pelos seus atos.
Será uma luta longa, porque a mentalidade machista do mundo árabe é das ervas daninhas mais resistente da humanidade, mas uma luta a que outros povos se podem associar, tornando o sofrimento e humilhação destas muçulmanas o mais breve possível. As opiniões públicas dos países mais poderosos têm a obrigação de pressionar os seus governos a não negociar com os dirigentes sauditas. Bem sei que a Arábia Saudita é um dos maiores produtores de petróleo a nível mundial, um país riquíssimo, capaz de aguentar um embargo por longo tempo, mas a força de um país como os EUA, por exemplo, também se mede na forma como lida com ditadores deste calibre.
Agora que estamos em campanha eleitoral para as eleições presidenciais americanas, seria bom que a senhora Clinton dissesse qual será a sua posição política, como possível próxima presidente dos EUA, se a Arábia Saudita continuar a tratar as mulheres como cidadãs de segunda, na absoluta dependência dos apetites dos homens.

Gabriel Vilas Boas 

sábado, 7 de novembro de 2015

MAGIC JOHNSON



Há precisamente 24 anos, o basquetebolista norte-americano “Magic” Johnson anunciava em Los Angeles que se retirava do desporto por ser portador do vírus HIV.
“Magic” foi um dos melhores basquetebolistas de sempre da história deste desporto, um verdadeiro herói americano. A sua alcunha – Magic – dizia tudo: ele fazia magia e carregava o orgulho de uma cidade tão glamourosa como Los Angeles num dos desportos mais populares em toda a América.

Nos anos 80 fiquei tardes inteiras a ver jogos da NBA, passados em diferido na RTP2, para o ver jogar contra os “meus” Celtic de Boston de Lary Bird ou os Chicago Bulls de Michael Jordan. Foi com jogadas impossíveis, maravilhosas, únicas como as que ele fazia que aprendi a adorar o basquetebol, que era mesmo faaantástico como dizia o Carlos Barroca, que comentava o magazine semanal sobre a NBA na televisão pública.
“Magic” jogou durante 13 épocas, entre 1979 e 1991, na mais famosa liga do mundo de basquetebol. Encantou para sempre sucessivas gerações de fãs, empolgou uma rivalidade sadia com Michael Jordan que se entendia para lá das fronteiras dos EUA. Muitas vezes pensava que assistia a um bailado ou então a uma demonstração de sincronismo entre o movimento do homem, da bola e um lançamento ao cesto. 

Tudo parecia tão fácil e belo que só podia ser Magic. O n.º 32 dos L.A. voava para o cesto como a graciosidade dum bailarino, a força dum atleta e depositava a bola no cesto com a simplicidade de uma criança. Ou então atirava certeiro de uma distância superior a seis metros do cesto com uma pontaria dum sniper que ninguém ficava indiferente à sua classe.
Cinco vezes campeão da NBA, três vezes considerado o melhor jogador da competição, campeão olímpico, em Barcelona, em 1992, com o famoso "Dream Time”, Magic viu o mundo desabar-lhe sobre a cabeça quando soube que tinha Sida.
Como mais tarde confessou, nunca soube ter os básicos cuidados de saúde nas diversas relações íntimas que manteve e, no seu caso, o vírus não entrou por uma questão de azar, mas de descuido. Mas Magic soube reagir como um campeão que sempre foi, utilizando toda a fama, prestígio e dinheiro que angariou numa carreira de sucesso para se tornar num ativista a favor da saúde humana, impulsionando grande parte dos tratamentos alternativos para os portadores do vírus do HIV.

Magic passou jogar noutro campeonato, onde a magia se fazia de conquistas diárias e alertas permanentes que o tornassem, desta vez, um exemplo a não seguir.

A vida de Magic Johnson teve luz e teve sombra, mas em todas as alturas ele foi um campeão, um exemplo de garra de determinação de que os vencedores são feitos.
Gabriel Vilas Boas




domingo, 4 de outubro de 2015

THEY CAN´T STOP THE GUNS


«Estamos a embrutecer. Brutal violência como esta não há noutros países desenvolvidos. Somos o único país desenvolvido da Terra que vive estes assassínios em massa a cada par de meses.»
Estas palavras duras, desoladas, magoadas de Barack Obama não têm muitas horas e foram proferidas após mais um ataque de mais um tresloucado americano que decidiu matar dez jovens sem razão aparente.
Pela 15.ª vez no seu mandato, Barack Obama foi obrigado a fazer uma declaração de pesar e dor perante mais um acontecimento negro da história quotidiana americana. Como muito bem referiu o presidente dos EUA «De alguma forma isto tornou-se rotina, como rotina se tornou a minha resposta.». Obama sente que as suas desculpas, as suas preces, em nome da grande nação americana soam a falso perante o mundo inteiro, pois ninguém percebe como os americanos continuam com uma lei de armas tão permissiva. Como muito bem destacou Ricardo Araújo Pereira, no “Governo Sombra” desta semana há um Estado norte-americano onde dois cegos podem comprar legalmente uma arma se lhes apetecer, mas dois homossexuais não podem casar se for essa a sua vontade, ou seja, nesse estado é mais perigoso dois homossexuais aos beijos na rua que dois cegos a disparar no parque.

Os americanos têm um grave problema legal, mental e social com o uso das armas. As suas leis são despudoradamente permissivas. Qualquer um pode ter uma arma para uso pessoal sem ter que preencher nenhum requisito especial para tal. Obama tentou desde o início do seu mandato mudar esta situação, mas os dois maiores partidos, o Congresso, o poderoso lobby das armas, o National Rifle Association, impediram que Obama conseguisse aprovar uma lei das armas que nem era nada de especial: os vendedores deviam verificar o cadastro e o estado de saúde mental daqueles a quem vendiam armas, antes de procederem à venda. Foi recusado!

Entendo perfeitamente toda a frustração de Obama. O homem que pôs os pobres no Serviço Nacional de Saúde, o homem que impediu que milhões de ilegais fossem deportados desde já, o homem que reatou relações com Cuba, não conseguiu impedir que loucos, cadastrados, Serial Killers comprem as armas que lhes apetecer, com calibres só ao alcance de forças militares, de uma forma tão simples como adquirem uma coca-cola.
A National Rifle Association diz que está na Constituição que qualquer americano pode ter uma arma para defesa pessoal. Obviamente a Constituição americana anda a precisar de mais uma emenda! Não é admissível que os americanos gastem milhões na luta contra o terrorismo e depois permitam que todos os meses um terrorista qualquer elimine dez ou vinte inocentes.
Os norte-americanos têm definitivamente que perceber que não vivemos já no faroeste e que o tempo dos cowboys há muito que acabou.

Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

ESTÁTUA DA LIBERDADE


Um dos monumentos que mais admiro é a Estátua da Liberdade. Pelo que ela representa, pela importância que um povo como o americano dá à liberdade, pela imponência do edifício, pela ligação que a sua construção permitiu entre França e EUA, dois bastiões da Liberdade.
A Estátua da Liberdade, oficialmente intitulada “A Liberdade Iluminando o Mundo”, foi construída para comemorar o centenário da declaração de Independência dos EUA.
A sua construção ficou a cargo dos franceses que conceberam uma colossal escultura em bronze. Foi pedido a Gustave Eiffel, autor da célebre Torre Eiffel, que criasse um enorme pilone de ferro e um esqueleto de suporte. Embora permanecesse fixa à sua armação em aço, a estrutura poderia mover-se ao vento. E foi o que aconteceu: desde a sua criação já foram registados ventos na ordem do 80km/hora e sabe-se que a estátua consegue oscilar até 7,6 cm sob pressão.
O pedestal, em que assenta a Estátua, de arenito escocês, foi esculpido nos Estados Unidos. O pedestal é suportado por dois conjuntos de traves de ferro ligados a vigas de ferro que se prolongam até à própria estátua, criando uma ligação forte desde o solo.
Após este ter sido erigido, a estátua foi montada meticulosamente durante quatro meses, peça a peça, como se de uma construção da lego se tratasse. Foram enviadas de França 350 peças individuais, embaladas em 24 caixotes, que formariam a mais célebre monumento à Liberdade do universo.
Com uma altura de 46 metros e um peso de 204 toneladas, a Estátua da Liberdade atrai todos os anos milhões de turistas de todo o mundo que procuram conhecer as entranhas, a história e o simbolismo deste magnífico monumento.
Subindo os seus 354 degraus, chegamos à plataforma de observação, que se situa no topo da estátua e tem espaço para trinta pessoas. Este local fornece uma magnífica vista sobre a lha Liberty, através das 25 janelas da coroa.
Na sua mão direita a Liberdade exibe um facho. Não se trata já do facho original (que se encontra em exposição na entrada), pois em 1986 substituiu-se o antigo facho por um facho iluminado por grandes holofotes que projetam um reflexo assombroso no seu revestimento dourado. Na mão esquerda, a deusa da Liberdade tem a Placa da Lei, na qual está gravada o dia da Independência dos EUA (4-7-1776), em numeração romana.
A Estátua da Liberdade é um dos grandes símbolos dos Estados Unidos e do mundo ocidental, na medida em que elege a Liberdade como um bem essencial e não negociável, que todos devemos respeitar e defender.
Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 25 de março de 2015

A LUTA PELO DIREITO DE VOTO


A História não é só feita de guerras, cataclismos naturais, decisões históricas, acasos célebres que mudam o rumo da vida coletiva de milhões de pessoas. Os discursos, a arte de convencer através da palavra, sempre tiveram um lugar de destaque na galeria dos momentos decisivos que mudaram o curso à História. Há precisamente cinquenta anos, Martin Luther King produziu um desses momentos, no Alabama, EUA.
O discurso de Martin Luther King, Jr, dirigido aos manifestantes em prol dos direitos cívicos foi escutado por milhares de pessoas que haviam marchado desde Selma, Alabama, para a capital do Estado, Montgomery, exigindo que os afro-americanos pudessem exercer o seu direito legal de voto.

Os protestos duravam havia três semanas, mas tinham esbarrado na obstrução das autoridades do Alabama. Na primeira marcha, a 7 de março de 1965, os manifestantes foram atacados pela polícia estadual com bastões e gás lacrimogénio. Uma segunda marcha, uns dias depois, foi impedida por ordem do tribunal, mas passada uma semana, o direito a marchar foi confirmado por um juiz federal e entre 21 e 25 de março, os manifestantes conseguiram organizar a sua marcha. Cinco meses mais tarde, o presidente Lyndon B. Johnson promulgou a Lei do Direito de Voto para garantir o registo nacional de eleitores independentemente da cor de pele.
Mas o melhor, talvez seja recordar parte desse famoso discurso de Martin Luther King.


“No domingo passado, mais de oito mil de nós iniciaram uma marcha pujante, em Selma, Alabama. Atravessamos vales desolados e transpusemos montes penosos. (…)
Sei que perguntam hoje: «Quanto tempo irá demorar?» 

Alguém pergunta: «Durante quanto tempo é que o preconceito cegará os homens, turvará o seu discernimento e afastará a sabedoria inteligente do seu trono sagrado?» Alguém pergunta: «Como é que a justiça ferida que jaz prostrada nas ruas de Selma e Birmingham e nas comunidades do sul, sairá desta vergonha humilhante e reinará, suprema, entre os filhos dos homens?» Alguém pergunta: «Quando é a que a irradiante estrela da esperança mergulhará no seio noturno desta noite solitária, arrancada das almas exaustas com correntes de medo e algemas de morte? Durante quanto tempo será a justiça crucificada, com a verdade a suportá-la?»

Venho dizer-vos, esta tarde, que, por muito difícil que seja o momento, por muito frustrante que seja a hora, ela não se fará esperar porque a «verdade esmagada no chão renascerá.» Durante quanto tempo? Não muito, porque «nenhuma mentira pode durar sempre». Durante quanto tempo? Não muito, porque «colheis o que semeais». Durante quanto tempo? Não muito, porque o arco do universo moral é longo, mas inclina-se para a justiça.”  
Martin Luther King, 25-03-1965

quarta-feira, 4 de março de 2015

ABRAHAM LINCOLN, O PRÍNCIPE DA HUMANIDADE


O dia 4 de março é um dia marcante na história dos Estados Unidos da América e na história da luta contra a escravatura: Abraham Lincoln tornou-se no décimo sexto presidente dos EUA. Unanimemente considerado um dos três mais importantes presidentes da história dos EUA, Lincoln é um verdadeiro príncipe da humanidade.
Haveria de pagar com a própria vida a “ousadia” de ser um ser presidente excecional para quem o princípio de que todos os homens nascem iguais era sagrado, pois morreu assassinado em 15 de abril de 1865.

Lincoln foi presidente extremamente americano e visceralmente universal, pois o seu mandato ficou marcado pela busca da União entre todos os Estados que compunham a nação americana e igualmente pela luta pela abolição da escravatura. Para atingir os seus objetivos lançou mão de todos os instrumentos possíveis, jogando com a sua capacidade de persuasão – era um orador emérito -, com o seu poder enquanto presidente, com a sua empatia junto de congressistas, militares e povo; com a lei e com o tempo. A propósito da luta pela abolição da escravatura, Lincoln aplicou divinalmente aquele princípio de Maquiavel: “O fim justifica os meios”.


Lincoln era um homem determinado, um político astuto, um ser humano ímpar. Tinha o dom da oratória, como se comprova pelos debates que levou a cabo em 1858, por toda a América, explicando aos seus concidadãos que a escravatura era um ato indigno. É desse ano o celebérrimo discurso da Casa Dividida, baseado no evangelho de S. Marcos: "Uma casa dividida contra si mesma não pode permanecer. Eu acredito que este governo não pode suportar, permanentemente, ser metade escravo e metade livre. Eu não espero a dissolução da União, eu não espero ver a casa cair, mas espero que deixe de ser dividida. Terá que se tornar inteiramente algo uno, ou todo de outra forma."

Mais tarde, em 1863, teria outro assumo oratório que ficou na História com o Discurso de Gettysburg, proferido quatro meses depois da batalha com o mesmo nome, que se revelou decisiva na Guerra de Secessão. Este discurso, com menos de trezentas palavras, teve um impacto enorme, além de ser recorrente na cultura americana, é um hino à liberdade e à igualdade.

Cito apenas uma pequena parte:
«Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais. (..)
Cumpre-nos, antes, a nós os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insignemente adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente – que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da terra.»

Lincoln convencia quando discursava, entusiasmava quando liderava, alcançava o que pretendia na ação política. Ganhará a guerra pela União contra os Confederados e sobretudo soube conduzir em paralelo a abolição da escravatura. Lutou, com astúcia e determinação, por dois bens que pareciam difíceis de alcançar ao mesmo tempo e venceu, porque era um homem e um político superior. Em 1962, deu-se, no meu entender, o momento decisivo do seu mandato com a Proclamação da Emancipação, lei que entrou em vigor no primeiro dia de 1963 e que abolia a escravatura em todo o território confederado ainda em guerra civil. Com este pequeno grande passo, ficava a porta aberta para aquilo que Lincoln arquitetou: a XIII.ª Emenda Constitucional

“Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado.” 


Com Lincoln os EUA não ficaram mais ricos monetariamente nem chegaram à Lua primeiro que qualquer outro povo, no entanto a humanidade ganhou uma dignidade que ainda hoje não é imaculada. 
Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

BARACK OBAMA




Faz hoje seis anos que Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos da América. Naquele frio dia de outono, a América de George Washington,  Luther King, Roosevelt e Lincoln elegia o primeiro presidente negro da sua História e terminava com mais um tabu que a fazia corar de vergonha perante o mundo de quem quer ser exemplo moral.
Eleito sob o lema “Yes, We Can”, Obama representava o orgulho da população negra americana, e também da branca, que queria eleger um presidente negro para matar definitivamente a acusação de preconceito racional de que subliminarmente era acusada.
Obama era o ideal. Liberal q.b., como qualquer Democrata, ele era o sedutor das massas, o mago da oratória, que trazia a confiança no discurso e prometia fazer regressar os soldados americanos do Iraque e do Afeganistão e fechar Guantánamo. Prometia recuperar a economia, criando emprego, travando a recessão ao mesmo tempo que garantia aos pobres o regresso do sistema nacional de saúde e educação.


Qualquer analista mediano diria que Obama era um lírico, mas a América é a terra dos sonhos e o ser humano adora histórias, onde os heróis fazem as coisas mais improváveis. Por isso, em todo o mundo se acreditou que “they can”, embora todos soubéssemos que não havia garantia nenhuma que isso acontecesse.
Um dos fatores que ajudou a eleger Obama foi a crença, justa, que ele não era um radical. Obama tinha e tem bom senso e por isso decidiria racionalmente o que era melhor para a América.
Em poucos meses, o Presidente despertou brutalmente para a realidade. Havia que tirar os EUA da recessão que a bebedeira bolsista em que a Era Bush tinha afundado o país. Obama foi ao Bank of China pedir um empréstimo a longo prazo, a juros de amigo, que salvassem o velho oeste. Como garantia ofereceu a credibilidade americana e uma governação que não afrontaria o capital. Não tinha outra solução.
Entretanto, os americanos descobriam que o seu presidente falava bem, mas isso não lhes enchia os bolsos nem lhes permitia passar férias fora de casa. Não haveria truque mágico, mas todas as promessas seriam para cumprir… se possível! Ora como acontece com qualquer homem normal (e Obama é um homem normal) cumpriu-se o que se pôde!
Talvez por isso, seis anos depois da primeira eleição, haja uma indisfarçável sensação de desilusão e desencanto, não só na América como no mundo. Obama é um presidente bem-intencionado, determinado, convincente, mas não é um homem extraordinário como as circunstâncias da América o exigiam. E mesmo que fosse, não era certo que conseguisse vencer a maioria dos trabalhos de Hércules com que se deparava.

Curiosamente, acho que Obama teve pior na política externa do que na política interna, ainda que os americanos lhe cobrem mais por aquilo que não fez no país do que aquilo que fez mal internacionalmente.
Nas relações internacionais, Obama esteve péssimo! Pôs os serviços secretos a espiar os velhos aliados europeus, minando a relação de confiança existente, e deixou que o Estado Islâmico crescesse e aparecesse a degolar americanos como sobremesa dos telejornais. Saiu do Iraque como prometera, mas teve de continuar no Afeganistão, porque não se acaba uma intervenção militar naquela zona do globo como se apaga a luz do escritório no final de mais uma jornada de trabalho. Obama permitiu que os militares egípcios colocassem no poder a Irmandade Muçulmana, o que ainda vai causar muitas aflições aos ocidentais, no futuro. Barack Obama ordenou uma intervenção militar na Líbia, mas isso em nada resolveu o problema da região e apenas contribuiu para aumentar a ideia de impotência da política externa da administração Obama, até porque a Rússia e o Irão continuam a rir-se das ineficazes sanções económicas dos EUA.
Em resumo, e para ser simpático, na política externa, Obama foi naif e inábil.


Dentro de portas, Barack Obama foi apenas razoável, quando a expectativa era enorme. Conseguiu devolver dignidade a muitos compatriotas, levando em frente o seu projeto de saúde pública para todos, conhecido como “Obamacare”. Foi corajoso quando se mostrou favorável à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Foi coerente, na tentativa, ainda não conseguida, de legalizar onze milhões de clandestinos através duma nova lei da imigração.
O problema de Obama foi que a classe média não recuperou qualidade de vida e hoje não sai do patamar de “remediada”. Todos esperavam que Obama fosse o novo herói americano, que o presidente não foi, não é nem nunca será. Obama fez dois mandatos esforçados, honestos e razoáveis.

Talvez seja tempo da América e do mundo perceberem que o século XXI será daqueles que enfrentarem os desafios e as dificuldades coletivamente, pensando resolver os seus problemas com união, trabalho e paciência.
Obama tinha dito “we can”, mas os americanos acharam que ele ia fazer o trabalho sozinho, but he can’t.

Gabriel Vilas Boas