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sábado, 13 de junho de 2020

O QUE FAZER COM A HISTÓRIA QUE NOS DÓI?

    A História não pode ser reescrita. Foi o que foi e cada povo deve asumi-la, mas também enquadrá-la. Daqui a umas décadas acontecerá o mesmo connosco, pois aquilo que agora consideramos aceitável pode, muito bem, ser visto como abjeto, pelas próximas gerações.  
     

Assumir o que os portugueses fizeram em África, desde o século XV até ao final do século XX é um dever para com a verdade. 
  É verdade que alguns portugueses tiveram comportamentos racistas durante décadas, como é verdade que muitos (a maioria) não os tiveram. 
   A maneira como o mundo era visto nos séculos XVI ou XIX era muito diferente da atual visão dos comportamentos humanos aceitáveis, mas isso não justifica tudo o que de mal se fez. Há que fazer um ato de contrição e... avançar. 

  Assumir responsabilidades históricas não é ficar eternamente preso a um culpa cometida pelos nossos antepassados, mas assumir essa herança negativa porque se quer um mundo melhor, mais justo, mais harmonioso e pacífico.
     Pedir desculpa pelo passado não é aceitar a violência nem o ódio do presente! Quem fomenta o ódio e a vingança não quer construir nada de bom entre povos, nem quer aceitar qualquer pedido de desculpas, mas apenas vingar-se.
Destruir estátuas ou vandalizar monumentos relevantes para um povo que nos acolhe, porque, no passado, alguém desse povo foi racista não é fazer justiça, mas apenas fomentar a vingança, a discórdia e a guerra. 

   
O racismo não é só um problema de cor nem de contexto histórico. Infelizmente, ele perdura em muitas almas desumanas e arrogantes, que sempre se julgarão com mais direitos que outras.
     
    No final de 2019, Angela Merkel esteve em Auschwitz para assumir, em nome da Alemanha, a responsabilidade pelo holocausto. Vergonha e mágoa, mas também a consciência de que assumir a dor e a vergonha do passado é o caminho para seguir em frente, construindo um futuro melhor.
    Os povos e as pessoas precisam de seguir em frente e quem quer seguir em frente, construindo a paz entre povos, não tem interesse em estar constantemente em processos de vingança e ajustes de contas.
    É verdade que muitos povos europeus têm de prestar contas pelo seu passado, mas também é verdade que muitos povos africanos têm de prestar contas pelo seu presente e passado recente. Que sociedades construíram eles depois da descolonização? África é hoje um exemplo de igualdade, democracia e paz? Não há racismo nem ódio em África ou na Ásia? 
Quando se perde tempo e energia a destruir, não sobra força nem arte para construir paz, igualdade, respeito pelo ser humano. 

     O grande problema do Racismo é que ele não faz apenas parte do passado. Ele está impregnado em muitas almas infelizes, doentias e malévolas. Combatê-lo é um luta diária, que terá de ser vencida sem ódio, sem violência, sem ceder à provocação.  
GAVB

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

QUEM ACABOU COM A ESCRAVATURA NO IMPÉRIO PORTUGUÊS?




Oficialmente a escravatura foi abolida em 23 de Fevereiro de 1869 em todo o império português, embora em Portugal continental ela já não fosse permitida desde o alvará do Marquês do Pombal, mais de cem anos antes.
Naqueles cento e oito anos (1761-1869), infelizmente, os escravos continuaram a ser um negócio muito lucrativo e que tanto desdignificou Portugal. 
É já em pleno século XIX, que um homem bom, um verdadeiro herói da nossa história coletiva, empreende uma cruzada pela abolição da escravatura nas colónias portuguesas de África, pois o Brasil tinha-se tornado independente. Esse herói foi Sá da Bandeira. 

Uma das figuras mais marcantes da guerra civil portuguesa entre D. Miguel e D. Pedro e líder da esquerda liberal portuguesa assume o fim total da escravatura como desígnio pessoal. Em finais de 1836, faz publicar um decreto que proíbe a exportação e importação de escravos de e para as colónias portuguesas.
Os indignos portugueses que comerciavam em negros fizeram-lhe uma oposição tenaz, mas Sá da Bandeira não vacilou e usou todo o seu prestígio político para implementar as reformas abolicionistas que tinha em mente. 
Em 1854, o Conselho Ultramarino decretou a libertação de todos os escravos pertencentes ao Estado e dois anos mais tarde foram as Câmaras e as Misericórdias a libertar os seus escravos. Incrivelmente, organizações ligadas à Igreja tinham ao seu dispor os filhos dos escravos. No entanto, Sá da Bandeira só descansou quando a escravatura foi totalmente abolida em território português.


Hoje, quando passeamos pela famosa rua do Porto ou assistimos a uma peça no Teatro Sá da Bandeira, poucos são aqueles que sabem o fundamental papel que este homem teve na abolição da escravatura em Portugal. E até na placa da rua se refere apenas “Militar e Estadista”. Na verdade, ele foi mais do que isso e a cidade do Porto bem como o teatro que tem o seu nome deviam explicá-lo de modo veemente aos milhares de portugueses e estrangeiros que visitam diariamente a cidade portuense.
GAVB

sábado, 24 de junho de 2017

MUSEU EUROPEU DO ANO


NOTÁVEL, DESLUMBRANTE, INOVADOR – foram três dos adjetivos encontrados pelo Fórum Europeu dos Museus para eleger o Memorial ACTe, em Guadalupe, França, como o Museu Europeu de 2017.

A decisão foi tomada no final de 2016, mas foi apenas anunciada no mês passado. O Memorial ACTe é dedicado à memória da escravatura. Apesar de ter sido concebido como um memorial, rapidamente este museu se tornou num lugar vivo, onde o visitante pode compreender como era feito o tráfico de escravos entre a Europa, África e a América, ao mesmo tempo que reflete sobre essa época tenebrosa da humanidade, em que a escravatura era parte fundamental da economia dos principais países mundiais.

Inaugurado há dois anos (Maio de 2015), o Memorial ACTe tem uma forte ligação com a comunidade local, um bairro pobre de Carénage, porque houve a preocupação de recrutar e dar formação à população local, para que esta sentisse o museu com seu.

Quem visita este Memorial não pode deixar de se interrogar sobre como foi possível o ser humano viver tanto tempo numa indignidade tão aviltante como a da escravatura, que, apesar de abolida em grande parte dos países, ainda subsiste de forma encoberta, mesmo em países desenvolvidos. 

Quando observamos fenómenos socais como o racismo, a exclusão social, as desigualdades sociais gritantes e injustificadas, a violação dos direitos humanos não podemos deixar de nos interrogar se aquilo que vemos em Guadalupe já faz mesmo parte da História.
Ainda que a alma escureça durante o tempo que passamos no Memorial ACTe, é necessário conhecer, pressentir essa dor de séculos para que ela permaneça apenas nos livros de História.

GAVB  

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A ESCRAVATURA É UMA CHAGA AINDA POR FECHAR



A 14 de Abril de 1865, Abraham Lincoln acabou assassinado, poucos dias depois de ter conseguido completar a mais bela obra da sua presidência e uma das mais importantes da história da humanidade: o fim da guerra civil americana e a consequente derrota do esclavagismo.
A vitória de Lincoln foi o princípio do fim da escravatura entre os povos civilizados, porque um povo tão poderoso e tão jovem cerrava as grilhetas de uma mentalidade ignóbil.
Lentamente a escravatura foi acabando, mas a História sempre a tratou com pinças. Nunca houve uma clara condenação dos povos que construíram os seus impérios, as suas supremacias, as suas glórias, com base no trabalho escravo. 

Há poucos dias, observei no Museu Nacional de Arte, a exposição Lisboa Cidade Global, onde duas telas gigantes retratam a vida, em Lisboa, em pleno século XVI, época alta dos Descobrimentos. É evidente nos quadros a presença de um homem negro acorrentado, não restando dúvidas que se trata de um escravo. Os guias descreveram o quadro, falaram elogiosamente do período áureo da História de Portugal, mas passaram com absoluta indiferença sobre o facto de esse tempo ter sido construído sob alicerces esclavagistas.

Ora, nem Portugal nem nenhuma das potências europeias da época reconhece isso. Dir-me-ão que é fruto da mentalidade da época. Não acho. Não devemos esquecer que estávamos em pleno Renascimento, onde todas as verdades dogmáticas foram postas em causa. A escravatura não foi, é verdade, mas o problema não foi a limitação psicológica do ser humano…
Talvez por isso esta chaga civilizacional tenha demorado muito tempo a desaparecer da Lei e continue a ser precariamente condenada pela História.
A escravatura precisa de ser discutida, dissecada, apresentada com a crueza com que existiu, às gerações mais novas, porque corremos o sério risco de ela regressar sob o disfarce da xenofobia que cresce em muitos corações. E essa chaga abre um pouco mais a cada dia que passa.

GAVB

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

ESCRAVOS DA MALDADE

Há poucas horas, folheando um jornal fui abalroado por esta notícia: “Em 2014 havia 35 milhões de escravos no mundo; Índia, China e Rússia lideram o ranking”.
Li com atenção o corpo da notícia e levei mais uns quantos socos na minha alegria quotidiana. Tudo me parecia tão monstruoso quanto irrealista e absurdo, considerando o grau de desenvolvimento humano atingido em grande parte do planeta.
Só num ano (2014), o número da ignomínia cresceu seis milhões de seres humanos. Não consigo digerir tais factos, mas não é por isso que eles deixam de existir. Olho e volto a olhar para a notícia. Simples, fria, por ela abaixo escorria todo a banalidade do mal de que falava Hannah Arendt. E parece bem mais difícil lutar contra a banalidade do mal do que contra a própria maldade. A indiferença perante a injustiça absoluta ou a indignidade total é mortífera porque destrói o ânimo das vítimas.
Pego outra vez no jornal, procuro os donos do inferno e encontro potências económicas como a Rússia, a China e a Índia. Não consigo ganhar asco aos seus cidadãos nem me revolta a sua inação, pois conheço como há décadas são subjugados por tiranias e ditaduras. Ainda que continue chocado, ainda que me pergunte vezes sem conta como “Como é possível?!”, a História do século XX ensinou-me que Direitos Humanos foi um conceito banido do dicionário dos governos chinês, indiano e russo.

Não, não acho que a absurda ansiedade de poder e riqueza explique o que quer que seja, nesta atitude animalesca de fazer um semelhante escravo. Também não penso que os russos, os chineses ou os indianos sejam o pior que a humanidade tem para mostrar. O problema é mesmo da cultura e mentalidade política dos sucessivos governos destes países. Não sei se alguma vez mudarão o suficiente, mas pressinto que será um trabalho enorme no conteúdo e no tempo.
No entanto, o que mais me abale é pensar que todos os dias fazemos negócios com eles, que andamos a suspirar pelas encomendas dos russos, pelos negócios com os chineses, pelas calças de ganga produzidas na Índia. Sim, somos nós, os portugueses, os franceses, os ingleses, os dinamarqueses, os belgas, os italianos, os alemães que nos declaramos ao lado da liberdade e da democracia, que apertamos a mão que agrilhoa seres humanos e os escraviza vinte e quatro horas por dia.
Acho que sempre soubemos que eles faziam isso. Antes faziam-no com os próprios compatriotas, hoje fazem-no com emigrantes. A maldade é a mesma ou até pior, mas nós começámos por fingir que não víamos. E fingimos tão convictamente que hoje nenhuma notícia, por mais cruel que seja, nos perturba. Por vezes, tenho a sensação que a civilização ocidental é uma fraude, um simulacro de humanidade.  

Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O FIM DA ESCRAVATURA NO BRASIL


A 13 de maio de 1888, finalmente, foi promulgada a lei que aboliu a escravatura no Brasil. A Lei Aurea foi um marco importante na história do Brasil, de tal modo que o dia de hoje foi feriado nacional até 1930, altura em que Getúlio Vargas, qual déspota iluminado, a retirou do calendário oficial.
A questão que me assaltou de imediato quando reparei na data da lei foi: por que demorou tanto o Brasil a abolir a escravatura? Não é admissível que só seis décadas depois do grito de Ipiranga os brasileiros tenham libertado o seu amado país de uma das mais ignominiosas “leis” que regeram povos e mais povos ao longo dos séculos.

Afinal, a escravatura não era apenas um pecado original dos povos colonizadores. A escravatura foi (e nalguns pontos do globo ainda continua a ser) um vírus que se instalou na alma de muitos homens e mulheres que não assimilaram corretamente o que significa “dignidade” e como este valor é indissociável do de “humanidade”.
O Brasil demorou tempo, mas conseguiu chegar a um tempo em que se pôde olhar ao espelho sem sentir vergonha e isso é uma vitória civilizacional que deve ser assinalada.

Esta libertação da escravidão foi um processo gradual, o que foi uma pena. Primeiro, proibiu-se o tráfico, depois libertou-se os filhos dos escravos e, finalmente, arranjou-se coragem, que faltou durante séculos, para devolver a plena condição de pessoas a 720 mil escravos que seres sem qualificação usavam como objetos.
Nessa altura, os escravos representavam 5% da população brasileira, mas umas décadas atrás eram o dobro, e os políticos brasileiros não tiveram a coragem nem a força para afrontar os ricos e poderosos fazendeiros do país. Os mesmos que construíram a sua riqueza e poder à custa do trabalho e do esforço dos escravos.
Quando esta lei entrou em vigor, estes “senhores” ainda tiveram a distinta lata de pedir uma indemnização por lhes retirarem mão-de-obra que trabalhava gratuitamente. Na verdade, o correto seria eles pagarem àqueles homens e mulheres tudo o que lhes ficaram a dever durante décadas e indemnizá-los pela maneira indigna como dispuseram das suas vidas.

O que se passou no Brasil inseriu-se num amplo movimento de libertação de escravos no continente americano, que teve os EUA como epicentro mais mediático. No entanto, só no final do século XX, a América ficou completamente livre da doença esclavagista.
Quando olhamos para trás, muitos interrogam-se “Como foi possível?”, outros questionam-se somente “como foi possível esperar tanto tempo?”, mas, talvez tenhamos de concluir que a escravatura não é ainda um vírus erradicado, mesmo entre países que aboliram esta monstruosidade há mais de um século. As ervas daninhas que sustentaram este cancro civilizacional ressurgem aqui e ali, especialmente em momentos de crise económica, em que alguns seres humanos (???) não vislumbram outra maneira, para solucionar a sua impotência, que não seja usar o seu semelhante como objeto. Vemos isso em algumas propostas de trabalho, vemos isso em algumas teorias económicas, vemos isso em alguns discursos políticos.
A solução é mantermo-nos vigilantes e dar luta a todas as tentativas dissimuladas de implementar algo que se assemelha à escravatura.
Os homens e mulheres verdadeiramente livres e dignos não podem permitir que a humanidade seja escrava de ideias tão ignóbeis.

Gabriel Vilas Boas      

quarta-feira, 4 de março de 2015

ABRAHAM LINCOLN, O PRÍNCIPE DA HUMANIDADE


O dia 4 de março é um dia marcante na história dos Estados Unidos da América e na história da luta contra a escravatura: Abraham Lincoln tornou-se no décimo sexto presidente dos EUA. Unanimemente considerado um dos três mais importantes presidentes da história dos EUA, Lincoln é um verdadeiro príncipe da humanidade.
Haveria de pagar com a própria vida a “ousadia” de ser um ser presidente excecional para quem o princípio de que todos os homens nascem iguais era sagrado, pois morreu assassinado em 15 de abril de 1865.

Lincoln foi presidente extremamente americano e visceralmente universal, pois o seu mandato ficou marcado pela busca da União entre todos os Estados que compunham a nação americana e igualmente pela luta pela abolição da escravatura. Para atingir os seus objetivos lançou mão de todos os instrumentos possíveis, jogando com a sua capacidade de persuasão – era um orador emérito -, com o seu poder enquanto presidente, com a sua empatia junto de congressistas, militares e povo; com a lei e com o tempo. A propósito da luta pela abolição da escravatura, Lincoln aplicou divinalmente aquele princípio de Maquiavel: “O fim justifica os meios”.


Lincoln era um homem determinado, um político astuto, um ser humano ímpar. Tinha o dom da oratória, como se comprova pelos debates que levou a cabo em 1858, por toda a América, explicando aos seus concidadãos que a escravatura era um ato indigno. É desse ano o celebérrimo discurso da Casa Dividida, baseado no evangelho de S. Marcos: "Uma casa dividida contra si mesma não pode permanecer. Eu acredito que este governo não pode suportar, permanentemente, ser metade escravo e metade livre. Eu não espero a dissolução da União, eu não espero ver a casa cair, mas espero que deixe de ser dividida. Terá que se tornar inteiramente algo uno, ou todo de outra forma."

Mais tarde, em 1863, teria outro assumo oratório que ficou na História com o Discurso de Gettysburg, proferido quatro meses depois da batalha com o mesmo nome, que se revelou decisiva na Guerra de Secessão. Este discurso, com menos de trezentas palavras, teve um impacto enorme, além de ser recorrente na cultura americana, é um hino à liberdade e à igualdade.

Cito apenas uma pequena parte:
«Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais. (..)
Cumpre-nos, antes, a nós os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insignemente adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente – que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da terra.»

Lincoln convencia quando discursava, entusiasmava quando liderava, alcançava o que pretendia na ação política. Ganhará a guerra pela União contra os Confederados e sobretudo soube conduzir em paralelo a abolição da escravatura. Lutou, com astúcia e determinação, por dois bens que pareciam difíceis de alcançar ao mesmo tempo e venceu, porque era um homem e um político superior. Em 1962, deu-se, no meu entender, o momento decisivo do seu mandato com a Proclamação da Emancipação, lei que entrou em vigor no primeiro dia de 1963 e que abolia a escravatura em todo o território confederado ainda em guerra civil. Com este pequeno grande passo, ficava a porta aberta para aquilo que Lincoln arquitetou: a XIII.ª Emenda Constitucional

“Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado.” 


Com Lincoln os EUA não ficaram mais ricos monetariamente nem chegaram à Lua primeiro que qualquer outro povo, no entanto a humanidade ganhou uma dignidade que ainda hoje não é imaculada. 
Gabriel Vilas Boas

sábado, 6 de dezembro de 2014

12 ANOS ESCRAVO



Passam hoje 149 anos sobre a data em foi ratificada a mais importante emenda à Constituição dos Estados Unidos da América: a décima terceira. Com essa emenda os EUA tornaram-se, finalmente, um país civilizado e digno, pois aboliram, definitivamente, a escravidão no seu território. Há maldades tão profundas e desumanas que é verdadeiramente surpreendente verificar quem as defenda, quem lute por elas… No entanto, esta maldade existiu e continua a existir duma maneira dramática.

O cinema remonta histórias verdadeiramente extraordinárias, que nos fazem viver emoções profundas de júbilo e repulsa diante de algo tão indigno como o racismo. Num dia tão relevante para a luta contra o Racismo, recordo o melhor filme do ano de 2013 para a Academia de Hollywood – "12 anos Escravo".
Visionei o filme pouco depois de estrear em Portugal e guardo muitas memórias e emoções desse dia. De facto uma grande produção, onde a força do argumento (adaptado) e a qualidade do filme se impõem ao desempenho dos atores. Até nisso o filme cumpriu os seus objetivos.


A história remonta a 1841, quando um negro livre, que vivia um existência feliz,  em Nova Iorque, com a mulher e duas filhas, aperfeiçoando os dotes violinista e carpinteiro, aceita um convite de dois homens para fazer parte duma digressão musical. Rapidamente os lucros e a glória prometidos tornam-se num horrível pesadelo que durou doze anos. Solomon Northup é raptado e transformam-no no escravo Platt. É comprado pelo dono duma plantação do Louisiana, onde será submetido a todo o tipo de indignidades e trabalhos forçados, durante mais duma década.
O filme de Steve McQueen procurou aprofundar a história da escravatura nos EUA e tratá-la duma perspetiva mais realista, pois usou factos verídicos.
Para mim, foi importante enquanto documento e como lição da História que procuro aprender. Gosto do cinema que vai além do entretenimento, que lembra as falhas do passado para que as sementes do mal não voltem a germinar.

Grande desempenho da mexicana Lupita Nyong'o que arrebatou o Óscar de Melhor Atriz Secundária  

As peripécias daqueles doze anos de escravidão, que o filme relata com um estupendo poder de análise, são importantes para interiorizarmos a humilhação, a dor, o sofrimento que as ideias racistas infligiram e, nalguns pontos do nosso planeta, continuam a infligir a milhões de pessoas.
“12 anos Escravo” está a terminar o seu reinado hollywoodesco e talvez seja boa ideia ocuparmos duas horas deste nosso fim-de-semana gelado de dezembro a rever esta interessante película. Se sobrar tempo e sensibilidade, recomendo uma olhadela a "Lincoln", que triunfou no ano anterior ao de “12 anos Escravo”, na categoria de melhor ator, entre outras. É um filme complementar deste e dá-nos uma dimensão mais completa e coerente da luta dos americanos contra o Racismo, nem que para isso se tenham de pôr uns contra os outros.  Talvez seja por isso que são um povo evoluído – são muito decididos a enfrentar os seus problemas e colocam-se em questão até encontrar a forma certa de viverem em sociedade.
Gabriel Vilas Boas