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domingo, 6 de dezembro de 2020

DIGNIDADE SELETIVA

 


Este tema foi levantado, no início desta semana, pelo ministro francês da administração interna, Gerald Darmanin, quando atacou dois dos mais importantes jogadores da seleção gaulesa de futebol - Antoine Griezmann (Barcelona) e Kylian Mbappé (Paris Saint-Germain) por terem condenado veementemente (e bem) a  violenta ação da polícia francesa na prisão de um produtor musical negro e terem-se feito esquecidos quando 98 polícias ficaram feridos, ao tentar controlar um manifestação contra a nova lei de segurança, que o governo quer implementar.

O Racismo é a discriminação baseada na cor e não na cor negra. É tão digno um produtor musical negro como um polícia branco. E depois há a lei a ordem, que é preciso respeitar, mesmo que não concordemos com ela, até porque está assegurado o direito ao protesto, mas não à violência nem à dignidade seletiva.

Num país democrático até as leis são revertíveis, basta elegermos alguém que esteja disposto a isso. A violência é má. Não tem "mas", porque tem alternativa. A dignidade do ser humano é um bem absoluto. Não há dignidade negra nem branca ou amarela. Muito menos dignidade famosa ou anónima, rica ou pobre.

A maior tristeza que este Tempo me causa é a tendência para tomarmos atitudes cívicas ou públicas tendo como principal objetivo sermos notados, participarmos numa espécie de eleição de gente cool, preocupada, digna e decente. 

Não há mal nenhum em que a nossa posição seja pública, o que é perverso e egoísta é fazê-lo porque fica bem, porque queremos tirar dividendos disso. Seria bom que fosse público, quando fosse difícil de assumir para nós, e privado, quando a bendita da nossa imagem pudesse retirar disso qualquer benefício.

Esta preocupação com a imagem está a matar uma geração e um tempo tão capaz e tão inteligente, que dá pena ver tanta boa vontade e altruísmo cair aos pés da eterna vaidade.

Como diria Al Pacino no imortal "Advogado do Diabo", 

A Vaidade é o meu defeito predileto. 

sábado, 13 de junho de 2020

O QUE FAZER COM A HISTÓRIA QUE NOS DÓI?

    A História não pode ser reescrita. Foi o que foi e cada povo deve asumi-la, mas também enquadrá-la. Daqui a umas décadas acontecerá o mesmo connosco, pois aquilo que agora consideramos aceitável pode, muito bem, ser visto como abjeto, pelas próximas gerações.  
     

Assumir o que os portugueses fizeram em África, desde o século XV até ao final do século XX é um dever para com a verdade. 
  É verdade que alguns portugueses tiveram comportamentos racistas durante décadas, como é verdade que muitos (a maioria) não os tiveram. 
   A maneira como o mundo era visto nos séculos XVI ou XIX era muito diferente da atual visão dos comportamentos humanos aceitáveis, mas isso não justifica tudo o que de mal se fez. Há que fazer um ato de contrição e... avançar. 

  Assumir responsabilidades históricas não é ficar eternamente preso a um culpa cometida pelos nossos antepassados, mas assumir essa herança negativa porque se quer um mundo melhor, mais justo, mais harmonioso e pacífico.
     Pedir desculpa pelo passado não é aceitar a violência nem o ódio do presente! Quem fomenta o ódio e a vingança não quer construir nada de bom entre povos, nem quer aceitar qualquer pedido de desculpas, mas apenas vingar-se.
Destruir estátuas ou vandalizar monumentos relevantes para um povo que nos acolhe, porque, no passado, alguém desse povo foi racista não é fazer justiça, mas apenas fomentar a vingança, a discórdia e a guerra. 

   
O racismo não é só um problema de cor nem de contexto histórico. Infelizmente, ele perdura em muitas almas desumanas e arrogantes, que sempre se julgarão com mais direitos que outras.
     
    No final de 2019, Angela Merkel esteve em Auschwitz para assumir, em nome da Alemanha, a responsabilidade pelo holocausto. Vergonha e mágoa, mas também a consciência de que assumir a dor e a vergonha do passado é o caminho para seguir em frente, construindo um futuro melhor.
    Os povos e as pessoas precisam de seguir em frente e quem quer seguir em frente, construindo a paz entre povos, não tem interesse em estar constantemente em processos de vingança e ajustes de contas.
    É verdade que muitos povos europeus têm de prestar contas pelo seu passado, mas também é verdade que muitos povos africanos têm de prestar contas pelo seu presente e passado recente. Que sociedades construíram eles depois da descolonização? África é hoje um exemplo de igualdade, democracia e paz? Não há racismo nem ódio em África ou na Ásia? 
Quando se perde tempo e energia a destruir, não sobra força nem arte para construir paz, igualdade, respeito pelo ser humano. 

     O grande problema do Racismo é que ele não faz apenas parte do passado. Ele está impregnado em muitas almas infelizes, doentias e malévolas. Combatê-lo é um luta diária, que terá de ser vencida sem ódio, sem violência, sem ceder à provocação.  
GAVB

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

DIZER QUE SE É CONTRA O RACISMO NÃO BASTA

Depois dos graves incidentes racistas, durante o jogo de futebol entre as seleções da Bulgária e da Inglaterra, no início da semana, todos se mostraram indignados, chocados - como é costume. 
Como é costume, essa indignação afrouxará em breve e, como é costume, algo de parecido acontecerá outra e outra vez. 

O que não é (era) costume era ver conhecidos adeptos do Benfica, como Ricardo Araújo Pereira, pedir ao seu clube, em carta aberta, que dê bons exemplos, e se demarque publicamente de André Ventura, recém-eleito deputado da nação, pois este defende abertamente ideias xenófobas e racistas. 
Como quase todos, o Benfica é contra o racismo. Gosta de o dizer e gosta que se saiba disso. Todavia, os dirigentes encarnados não acham necessário que o clube se demarque de André Ventura, conhecido sócio benfiquista, e que provavelmente deve parte da sua eleição ao protagonismo mediático que teve à custa de "representar", sem procuração para tal, o clube do seu coração num programa televisivo. 

Combater o racismo exige que nos demarquemos dos racistas porque, de contrário, estamos a emprestar-lhes a nossa dignidade e a 'normalizá-los'. Isto é tanto mais perverso quanto, muitas vezes, eles usam a nossa imagem para se projectarem.

Se o Benfica se demarcasse publicamente de André Ventura, isso teria um efeito enorme no combate ao racismo e aos racistas. 
A carta aberta de Ricardo Araújo Pereira e outros benfiquistas é uma pista importante que devemos seguir, para perceber como os adeptos de futebol podem aumentar o grau de exigência sobre a responsabilidade social dos seus clubes. Afinal, não se dizem eles instituições de utilidade pública?

No entanto, o facto de grande parte dos adeptos do Benfica (e porque não dizê-los da maioria dos portugueses também) se estar a marimbar para a resposta da direção do Benfica, dá-nos uma pista ainda mais precisa do imenso trabalho que há para fazer em Portugal sobre o combate ao racismo e aos racistas.
GAVB

terça-feira, 16 de julho de 2019

NOVO 007 É MULHER E É NEGRA


Bound continuará James Bound, que é como quem diz Daniel Craig, mas OO7 passará a ser uma mulher e negra, que é como quem diz Lashana Lynch, uma bonita atriz britânica, que, segundo Daily Mail, vestirá o papel de de agente 007, repartindo o protagonismo com Daniel Craig,

Esa cisão entre James Bound e 007 talvez seja um importante momento da longa saga de filmes sobre o espião mais conhecido do mundo, mas o que chama a atenção neste notícia do jornal inglês é o sexo e a cor da nova protagonista.

Uma cedência ao politicamente correto? Uma provocação social e política quando a América é governada pelo misógene e racista Donald Trump?
Sempre achei importante que a arte interpele a sociedade, que não fuja das questões políticas e ideológicas, assim como é bom que as sequelas dos filmes mais icónicos têm de saber reinventá-los e não repetir uma fórumla comercialmente segura. Todavia...
Parece-me esta escolha muito mais um golpe de mercado do que uma vontade de provocar consciências e afrontar políticas e políticos. 

O racismo e a misoginia não se combatem apenas nem essencialmente com escolhas simbólicas. Importante era o mundo do cinema saber criar e promover um filme cujo argumento, produção e representação soubessem expor toda a falta de humanidade, toda a boçalidade racista e xenófoba que grassa em muitos dirigentes políticos de topo, do dito mundo civilizado. 
Não é uma missão para um espião, mas para toda uma indústria como a cinematográfica.

GAVB


segunda-feira, 15 de julho de 2019

A CEGUEIRA DO ÓDIO

Começam a faltar palavras para descrever os constantes atropelos de Donald Trump às mais elementares regras da democracia e da civilização. Desta vez, o presidente dos Estados Unidos da América lançou-se num feroz ataque contra quatro congressistas progressistas democratas, que tiveram o desplante de criticar a sua política de imigração.

O alvo do ataque foram a congressista Alexandria Ocasio-Cortez, de origem porto-riquenha, lhan Omar, nascida na Somalia, Rashida Talib, de origem palestiniana e Ayanna Pressley, afro-americana.


Sem tento nem papas na língua, como é seu hábito, Trump mandou-as "voltar para os seus países" e "resolveram os problemas desses locais corruptos e infestados de crime". 


O problema é que três delas nasceram nos EUA. Na cegueira do ódio contra todos aqueles que o criticam, Trump esqueceu-se de que as visadas do seu ataque abertamente racista são tão norte-americanas como ele  e que "resolver os problemas do seu país" é precisamente o que elas tentam fazer ao criticar as políticas xenófobas, discriminatórias e desrespeitadores dos mais básicos direitos humanos da sua administração.

Ricardo Ramos, jornalista, CM.

terça-feira, 25 de junho de 2019

VIOLADA NA ONU

Phyllis Chesler foi violada na ONU. Proeminente feminista, buscou apoio no seu movimento e contou à líder, Gloria Steinem. Empurraram-na para o silêncio. O violador era um diplomata da Serra Leoa e mulher branca não acusa homem negro: o labéu do racismo mancharia o feminismo. Só as mulheres negras beberam a bica com ela. 

O feminismo caiu na armadilha de outro racismo. É anti-semita e camufla o sofrimento das mulheres islâmicas.Recomendaram a Phyllis a mordaça.
O feminismo ocidental só luta se o adversário for branco, de preferência de direita. Cala-se se o caso mete minorias étnicas.
«É cobarde», diz Phyllis, sua heroica militante. 

Manuel S. Fonseca 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

TU AQUI NÃO ENTRAS, PRETA DE MERDA!



Parece que Portugal quer receber os imigrantes do navio Lifeline, que navega há uma semana no Mediterrâneo, cheio de imigrantes, que Malta e Itália se recusam a receber. Quer fazer bonito, mas talvez não fosse má ideia começar por arrumar a sua própria casa antes disso. 
Na noite de São João, uma colombiana foi barbaramente agredida por um fiscal ao serviço dos S.T.C.P. (Serviços de Transporte Coletivos do Porto), numa manifestação de racismo, crueldade, desumanidade, que envergonha os STCP e o próprio país.
O relato da vítima, de algumas testemunhas, o vídeo a circular na internet deixam poucas dúvidas sobre o acesso de ódio racista que aquele funcionário da empresa de segurança 2045, a fazer serviço para os STCP, teve, na madrugada do dia 23 para 24 de junho.
Tu aqui não entras, preta de merda!”; “Pretas, vão apanhar o autocarro para a vossa terra”, “Estes pretos não aprendem.. – foram estas algumas das frases do fiscal dos STCP enquanto agredia barbaramente uma jovem colombiana, até pôr os joelhos em cima dela como se de um troféu se tratasse.

A intervenção deste energúmeno surge na sequência de um desentendimento sobre a prioridade numa fila de espera do autocarro, no centro da cidade do Porto, durante a madrugada do dia de São João. Sem vergonha, sem nunca ser impedido por nenhuma das várias testemunhas, num misto de cobardia e medo, o segurança da 2045 exibiu toda a sua animalidade.

Infelizmente, passados três dias após este odioso crime, nem polícia, nem STCP, nem a empresa de segurança 2045 se dignaram a dar uma palavra, uma satisfação, um pedido de desculpa. O caso também não foi reportado pela imprensa sensacionalista, nem apareceram os famosos “Alerta CM”. 
Trump mete crianças imigrantes, pobres e de cor em jaulas; em Portugal, há alguma imprensa que mete o racismo que se faz no país, na secção das «não notícias» enquanto os dirigentes preferem passar o seu tempo entre um aperto de mão a Putin e outro a Trump.
Portugal e os portugueses são bem melhores que uns marginais racistas que usam indevidamente uma farda ou uns hipócritas que praticam a caridadezinha com o pretinho, coitadinho, ao bom estilo do Estado Novo.
GAVB

sábado, 6 de maio de 2017

O RACISMO É QUASE SEMPRE UM PROJETO POLÍTICO


A frase é do investigador e historiador Francisco Bethencourt, organizador da exposição Racismo e Cidadania, patente a partir de hoje, no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa.
O professor do King’s College defende que o racismo não é inato e resulta da combinação do preconceito quanto à descendência étnica e ação discriminatória.


O que mais me surpreendeu nas breves palavras Francisco Bethencourt ao Expresso foi a ideia que o racismo é muitas vezes desencadeado por projetos políticos. Nunca tinha observado a questão desse prisma, mas ela faz sentido.
Nem a xenofobia nem o racismo são inatos, mas frequentemente eles são “trabalhados” por determinados partidos políticos que apostam em insuflar esses sentimentos nos eleitores quando sentem que a sociedade livre, igualitária e democrática tem dificuldade em responder às crises económicas que ciclicamente desafiam as sociedades modernas.
Em muitas pessoas há, adormecido, o vírus da intolerância e do preconceito, mas a verdade é que este é também muito bem desenvolvido por gente sem escrúpulos e que se aproveita das fragilidades do instinto humano para capitalizar politicamente.

É possível que hoje não fique bem alguém dizer-se racista, mas o discurso do nacionalismo exacerbado contra os imigrantes é uma espécie de racismo sem cor, e esse passa lindamente.


Como se luta contra isto? Denunciando o aproveitamento político, desmontando ideias erradas de que somos donos da terra apenas porque nascemos em determinado país, antecipando os momentos de depressão económica, de maneira a manter a enferrujar o animalesco instinto de sobrevivência que existe em muitos de nós.

Mais do que um truque de baixa e miserável política, o racismo é uma vitória do animal sobre o racional.
GAVB

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

TUDO ISTO É TRISTE TUDO ISTO É FADO


Há dias, a fadista portuguesa Gisela João recebeu, do crítico de música do “New York Times”, um rasgado elogio ao seu último concerto, considerando-o “luminoso”. O jornalista referiu-se ainda ao fado em termos muito positivos, desfazendo o mito de canção triste, comparando-o à vida, na maneira intensa e apaixonada como deve ser vivida.

João Braga (um dos mais antigos, conhecidos e polémicos fadistas portugueses) podia ter aproveitado a embalagem para “puxar” pelo fado, amplificando, nas redes sociais, este concerto da jovem fadista, mas preferiu atrair a atenção sobre si escrevendo sobre… cinema. Não para perorar sobre a qualidade artística de um determinado filme ou demonstrar a injustiça de determinado Óscar. Limitou-se a vomitar um insulto racista e homofóbico sobre o filme do ano para a Academia de Hollywood, Moonlight.

João Braga está no seu pleno direito ao não gostar de Moonlight ou de o achar menor, mas a sua frase sobre a noite dos Óscares – Basta ser preto ou gay para ganhar os Óscares – revela que as suas opiniões são muito mais baseadas em preconceitos do que em factos. O que revolta João Braga não é Moonlight ter ganho, mas ter sido um negro gay a ganhar. Ora, é isso que é triste e revoltante.
Durante anos, João Braga e o fado tiveram de lidar com o preconceito que grande parte da sociedade portuguesa tinha contra o fado. João Braga foi, muitas vezes, incisivo contra essa maneira vil e tonta de amesquinhar aquilo que se conhece mal, só porque não é moderno.
Passaram anos e João Braga ainda não entendeu que a discriminação não existe apenas quando é cometida sobre nós ou daqueles de quem gostamos. Ao contrário do que o fadista pensa, não basta ser gay nem preto para se ganhar Óscares, como o atestam os outros prémios que o filme Moonlight foi arrecadando. Já para deixar de ser preconceituoso e racista é necessário ser civilizacionalmente evoluído. Os artistas costumam sê-lo, mas João Braga parece que só sabe cantar fado, porque de cinema percebe muito pouco.
gavb


sábado, 25 de junho de 2016

EU SOU O TEU CARVÃO


Hoje Moçambique completa 41 anos de vida. 
Quatro décadas de uma caminhada difícil, mas saborosa, tendo a liberdade como guia.
 A terra de Eusébio produziu excelentes pensadores como Mia Couto e Craveirinha. Ambos escreveram textos de uma beleza e profundidade enormes que nos tocam a alma e nos ajudam a perceber a essência do ser humano à luz de um pensamento tão puro como o do africano.  
Hoje proponho-vos um poema de Craveirinha - Grito Negro. Nele, o primeiro autor africano a vencer o Prémio Camões (1991) recorda os tempos em que o africano era tratado por "carvão" pelo colono português, numa alusão ao seu tom de pele, mas também à sua pouca importância. No entanto, o maior poeta de Moçambique mostra como o negro era a fortuna ("mina") do seu senhor ("patrão") e lamenta a exploração indigna de que o negro era vítima. Felizmente deixamos de procurar aquela mina sem riqueza e deixamos que o carvão ganhasse a forma de diamante. O calor daquele sorriso livre e puro é a maior riqueza que Moçambique nos pode dar. 
Esse carvão já não vive no chão, esse carvão já não precisa de arder em mágoa e revolta,  esse carvão é um diamante que aquece qualquer coração.

Grito Negro
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
                                                          até não ser mais a tua mina, patrão.

Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

Craveirinha

sábado, 4 de abril de 2015

MARTIN LUTHER KING


A par de Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King é uma das grandes figuras do século XX. Há 47 anos foi assassinado em Menphis, aonde se tinha dirigido para apoiar uma greve dos trabalhadores dos serviços sanitários.
Os seus discursos são autênticos tratados de oratória moderna, mas a força de Luther King vinha das suas ações. Ativista político, o pastor evangélico que nasceu em Atlanta, tornou-se no mais sublime defensor dos direitos das mulheres e dos negros, nos EUA.
Luther King dedicou a sua breve vida a combater o preconceito e o racismo, adotando uma atitude pacífica mas determinada e ativa. Ele achava que o amor, a fraternidade entre os homens era a chave para alcançar um bem inegociável: a igualdade de direitos sociais e económicos.  
Martin Luther King era inspirador no discurso e mobilizador na ação. A sua vida tinha coerência, por isso foi conseguindo resultados.
O homem que costumava começar os seus discursos pelo celebérrimo “I have a dream”, ensinou-se que os sonhos foram feitos para se concretizarem. No entanto, advertiu que estes não se fazem por obra do acaso. Nesse sentido, alertou as suas gentes para a necessidade de ter um ideal por que lutar: “Se um homem não descobrir algo por que morrer, não está preparado para viver.”
Ter um ideal de vida é a melhor maneira de fugir ao conformismo, que deixa que os outros decidam a nossa vida. Antes de apontar aos inimigos, Martin Luther King mobilizava os amigos: “o que mais me preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem carácter, dos que não têm ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons”.

  Apesar de visceralmente pacifista, o pastor norte-americano não virava a cara à luta nem se intimidava quando estava em minoria. Certo dia chegou mesmo a declarar que são as minorias que transformam as sociedades. No entanto, estas precisam duma estratégia e dum líder. E para Martin Luther King um líder não era aquele que buscava o consenso a todo o custo. Para ele, o líder deve moldar o consenso aos ideais que pretende atingir e não abdicar deles por causa dum falso consenso.
            O líder dos negros norte-americanos buscava a justiça e tinha uma linha de ação para as situações de conflito que procurava seguir criteriosamente: “Um ser humano deve desenvolver, para todos os conflitos, um método que rejeite a vingança, a agressão e a retaliação. A base para esse tipo de método é o Amor.”
            Um homem tão superior e sábio tinha de granjear ondas de paixão, mas também de ódio. Com determinação foi transformando a sociedade em que vivia sem nunca se deixar intimidar. A sua ação política e social ajudou ao derrube de muitas leis segregacionistas, que vigoravam nos EUA a meio do século XX.
Em 1964, recebeu o Prémio Nobel da Paz, pois a sua ação na defesa dos direitos cívicos dos negros era já reconhecida pela comunidade internacional. Morreu antes do tempo, mas viveu o suficiente para nos iluminar o caminho com o seu exemplo, a sua coragem, os seus valores.
Gabriel Vilas Boas   

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

ANTÓNIO GEDEÃO


Até 1996 conhecia mal António Gedeão. Como a maioria dos portugueses, sabia que tinha escrito a “Pedra Filosofal”, esse extraordinário poema sobre o sonho feito vida, que Manuel Freire transformou em canção e deu a conhecer aos outros 99% que não se interessam por poesia.
Nesse ano final de ano de 1996, resolvi escolher a poesia de António Gedeão para a minha primeira avaliação de estágio profissional e lancei-me na extraordinária aventura de descobrir este poeta. E foi uma descoberta maravilhosa.
O magnífico professor de Físico-Química, Rómulo de Carvalho, foi poeta ainda mais valeroso. Entre 1956 e 1967, António Gedeão (pseudónimo literário do professor Rómulo de Carvalho) escreveu poemas de grande qualidade poética, literária e humanidade.


Logo em “Movimento Perpétuo” (1956) declara acerca do Homem

“É inútil definir este animal aflito
Nem palavras
Nem cinzéis
Nem acordes,
Nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão,
Pincelada de zarcão
Desde mais infinito a menos infinito.”

E acrescenta em “impressão Digital”

Os meus olhos são uns olhos
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde os outros com outros olhos
 não veem escolhos nenhuns”

para nos explicar que somos diferentes e por isso temos diferentes interpretações duma mesma realidade, sendo que a nossa interpretação não é melhor nem pior do que a do outro. Mais do que afirmar a “impressão digital” de cada personalidade, acho que António Gedeão quis provar que o respeito perante o outro é uma atitude sábia e justa.

Ainda neste primeiro livro de poemas, António Gedeão deixou a sua pedra poética mais preciosa e famosa: Pedra Filosofal. É um poema longamente belo, onde o professor de Física e de Química utiliza as duras palavras da ciência para provar quanto ela reluzem dentro do poema.
Quando Manuel Freire o transformou em música, toda a gente pode perceber o magnífico trabalho poético feito por António Gedeão e rapidamente a canção foi adotada como um hino de todos aqueles que almejavam o regresso da liberdade em Portugal.



Em 1958, António Gedeão publica “De Teatro do Mundo” que contém, entre outros, o poema Calçada de Carriche, onde António Gedeão chama a atenção para o corre-corre extenuante de muitas mulheres do povo que viviam a mil à hora, desdobrando-se em múltiplas tarefas, diariamente, sem nunca desfrutarem duma folga, dum momento de descanso. A chave do poema é o ritmo. Feito de versos curtos e repetições, se declamado apropriadamente, a impressão que causa no leitor é a sensação extenuante duma vida pesada, vivida por muitas mulheres portuguesas. Cinquenta anos de depois, este poema continua a fazer muito sentido.
A década de sessenta do século passado dará à luz mais dois livros de poemas do autor de "Pedra Filosofal". No primeiro – Máquina de Fogo – destacam-se dois poemas: Lágrima de Preta e Dia de Natal.
“Lágrima de Preta” é a mais bela demonstração científica da estupidez do racismo. Aprendemos este poema nos bancos da escola, mas a sua mensagem, infelizmente, ainda não foi captada por todos.

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
(…)
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.



O poema "Dia Natal" é um exercício irónico sobre a hipocrisia de muitos pseudo bons sentimentos de pacotilha.

“Hoje é dia de ser bom
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças
De falar e de ouvir com mavioso tom
De abraçar toda a gente e de oferecer lembranças”

No quatro livro publicado – Linhas de Força (1967) – António Gedeão brinda-nos com “Poema para Galileu”, de quem falei há dias. Trata-se de mais um poema longo, que relata a história de Galileu e a paciência do velho matemático e astrónomo com a intolerância humana quando vê ameaçado o seu irrisório poder. 


"(…)
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,

por isso era teu coração cheio de piedade,

piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos

a quem Deus dispensou de buscar a verdade. 

Por isso estoicamente, mansamente, 

resististe a todas as torturas, 

a todas as angústias, a todos os contratempos, 

enquanto eles, do alto incessível das suas alturas, 

foram caindo, 

caindo, 

caindo sempre, 

e sempre, 

ininterruptamente, 

na razão direta do quadrado dos tempos. "



Pouco depois de ter conhecido tudo isto e muito mais, António Gedeão deu por finda a sua longa viagem no planeta Terra. Foi a 19 de fevereiro de 1997. E eu fiquei extremamente grato a quem me obrigou a tropeçar em mais que uma pedra filosofal, o que mudou para sempre a minha consideração por este excecional poeta.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 11 de maio de 2014

INVICTUS



"Sou eu o senhor do meu destino

Sou eu o capitão da minha alma."
William Ernest Henley

    Ontem fez vinte anos que Nelson Mandela assumiu pela primeira vez a presidência da África do Sul. O líder sul-africano é um dos grandes heróis da humanidade do século XX. Após vários anos de um cativeiro injusto, Mandela teve a grandeza das grandes almas e derrotou o ódio e o racismo duma única vez ao promover a impensável reconciliação do povo sul-africano quando este lhe confiou a presidência do país. 
    Madiba dirigiu o seu povo como um sábio, guiando-o pelos caminhos da reconciliação, da paz e da prosperidade. 
      No final de 2009, Clint Eastwood realizou INVICTUS, dedicado ao grande líder africano.
     O roteiro do filme “Invictus” é baseado no livro “Playing the Enemy”, de John Carlin, que focaliza um momento particular na reconciliação da África do Sul pós-apartheid: a realização do Campeonato Mundial de Râguebi, que o país venceu, contra todos os prognósticos. A vitória serviu como elemento de união nacional. A autobiografia “Longo Caminho para a Liberdade” lançada na década de 1990 pelo próprio Nelson Mandela, foi preterida por Clint Eastwood, pois ele achava que a adaptação do livro ao cinema não atingiria a profundidade da história de Nelson Mandela.



     Morgan Freeman interpreta fabulosamente Nelson Mandela (sugestão do próprio Mandela) e Matt Damon faz de capitão da seleção sul-africana de râguebi. Inesperadamente, o caminho das duas personagens vai cruzar-se numa "aliança" decisiva para o momento de viragem que a África do Sul vivia. Em 1994, quando Nelson Mandela assume a presidência, apenas quatro anos depois de ter sido libertado da prisão onde permanecera três décadas, o país preparava-se para receber o Mundial de râguebi e aquele evento foi aproveitado por Mandela para unir o seu país e dar uma lição de humanidade, união e capacidade de perdoar ao mundo, que orgulhou todo o continente africano. Quando brancos e negros esperavam que Nelson Mandela executasse uma limpeza dos brancos dos lugares chave do poder, o novo Presidente surpreendeu, sobretudo, pela estratégia utilizada para promover a união entre brancos e negros. 


     A selecção nacional de râguebi era um dos grandes símbolos da nação para os sul-africanos brancos, o que a tornava automaticamente alvo de ódio dos negros. Apesar de todos os graves problemas sociais, económicos e políticos, Mandela arranjou tempo para se empenhar numa desejada, mas improvável, vitória da África do Sul no Mundial que viesse a ser celebrada por todos os sul-africanos.



    A película do veterano Clint Eastwood mostrou como o desporto pode unir um povo, destruindo barreiras sociais e étnicas, derrubando ódios.
      INVICTUS é um filme sobre a reconciliação dum povo. É um filme sobre a infinita capacidade do ser humano de se regenerar e perdoar. Nele, o racismo é derrotado duma forma inteligente e cabal por um homem tenaz e invencível porque nunca se deu por vencido. Como Henley bem escreveu e Mandela recordou nos piores momentos do seu cativeiro, enquanto um homem for o capitão da sua alma, será sempre o senhor do seu destino. 

Gabriel Vilas Boas