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quarta-feira, 27 de junho de 2018

TU AQUI NÃO ENTRAS, PRETA DE MERDA!



Parece que Portugal quer receber os imigrantes do navio Lifeline, que navega há uma semana no Mediterrâneo, cheio de imigrantes, que Malta e Itália se recusam a receber. Quer fazer bonito, mas talvez não fosse má ideia começar por arrumar a sua própria casa antes disso. 
Na noite de São João, uma colombiana foi barbaramente agredida por um fiscal ao serviço dos S.T.C.P. (Serviços de Transporte Coletivos do Porto), numa manifestação de racismo, crueldade, desumanidade, que envergonha os STCP e o próprio país.
O relato da vítima, de algumas testemunhas, o vídeo a circular na internet deixam poucas dúvidas sobre o acesso de ódio racista que aquele funcionário da empresa de segurança 2045, a fazer serviço para os STCP, teve, na madrugada do dia 23 para 24 de junho.
“Tu aqui não entras, preta de merda!”; “Pretas, vão apanhar o autocarro para a vossa terra”, “Estes pretos não aprendem..” – foram estas algumas das frases do fiscal dos STCP enquanto agredia barbaramente uma jovem colombiana, até pôr os joelhos em cima dela como se de um troféu se tratasse.

A intervenção deste energúmeno surge na sequência de um desentendimento sobre a prioridade numa fila de espera do autocarro, no centro da cidade do Porto, durante a madrugada do dia de São João. Sem vergonha, sem nunca ser impedido por nenhuma das várias testemunhas, num misto de cobardia e medo, o segurança da 2045 exibiu toda a sua animalidade.

Infelizmente, passados três dias após este odioso crime, nem polícia, nem STCP, nem a empresa de segurança 2045 se dignaram a dar uma palavra, uma satisfação, um pedido de desculpa. O caso também não foi reportado pela imprensa sensacionalista, nem apareceram os famosos “Alerta CM”. 
Trump mete crianças imigrantes, pobres e de cor em jaulas; em Portugal, há alguma imprensa que mete o racismo que se faz no país, na secção das «não notícias» enquanto os dirigentes preferem passar o seu tempo entre um aperto de mão a Putin e outro a Trump.
Portugal e os portugueses são bem melhores que uns marginais racistas que usam indevidamente uma farda ou uns hipócritas que praticam a caridadezinha com o pretinho, coitadinho, ao bom estilo do Estado Novo.
GAVB

sábado, 17 de junho de 2017

BALÕES NO AR, AVIÕES EM TERRA


Nunca um balão se sentiu tão importante! Pela primeira vez, na história da aviação em Portugal, uma largada de balões vai parar um aeroporto. As operações no aeroporto Francisco Sá Carneiro estarão suspensas durante três horas (entre as 21 horas do dia 23 de junho e a 01 hora do dia 24 de junho), por causa da tradicional largada de balões da noite de São João. Durante esse tempo nenhum avião levantará ou aterrará no segundo maior aeroporto português.
Se não é algo de inédito, deve andar lá perto. Não me lembro que uma noite de São João alguma vez tenha parado o aeroporto, mas provavelmente este é o único modo dos pilotos chamarem a atenção de quem manda no espaço aéreo português para o perigo dos drones.

Estes pássaros telecomandos tornaram-se no divertimento preferido de muita gente que acha o máximo exibir o seu brinquedo nas imediações dos aeroportos. Notícias recentes referem incidentes graves evitados in-extremis, constantes alertas dos pilotos e… um absoluto silêncio desleixado das autoridades.
Quando Fernando Medina pensou em arborizar a Segunda Circular, em Lisboa, os pilotos insurgiram-se contra a ideia, pois o corredor de árvores traria ao espaço circundante do aeroporto lisboeta milhares de pássaros, o que aumentaria o perigo para aterragem e descolagem de aviões. E essa foi uma das razões que fez arrefecer a ideia do autarca lisboeta.


Já sobre os drones não há medidas nem intenção de as tomar. E seria fácil proibi-los, nas imediações de aeroportos, mas em Portugal as medidas mais óbvias demoram demasiado tempo. Enquanto o óbvio não acontece, vamos olhando os balões coloridos de São João à espera que um drone não nos faça cair um avião.

GAVB

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A SARDINHA DO SÃO JOÃO E A BOLA DA TELEVISÃO


A esta hora milhares de portuenses e bracarenses devem estar frente a frente com uma deliciosa sardinha assada enquanto deitam o olho ao bailarico e esperam pelo fogo-de-artifício. Provavelmente muitas conversas giram em torno do europeu do futebol, que por estes dias decorre em França, e da fraca participação da seleção portuguesa.
Hoje dei comigo a pensar nas rainhas esquecidas das duas festas: a sardinha e a bola do europeu (“Beau Jeu” – Joga Bonito). Sem elas não haveria jogo nem festa. E em dias de festa quase ninguém quer saber das mãos que as trouxeram ao palco de todas as atenções. Por isso proponho-vos um pequeno exercício de reflexão.


A bola da Adidas que Ronaldo, Iniesta ou Muller tratam de forma tão artística custa 140 euros no mercado europeu, mas é produzido manualmente em Sialkot, no Paquistão, onde o trabalho infantil é uma realidade e as empresas não pagam mais do que o salário mínimo local. Se um paquistanês quisesse comprar um Beau Jeu tinha de trabalhar um mês e meio para ter no bolso os 140 euros que a Adidas pede pela bola oficial do europeu 2016.


A sardinha que alguns agora têm na boca deve-lhes ter custado entre 1 euro a 1,50 euros. Dizem os entendidos que o cabaz das sardinhas sobe exponencialmente nestes dias. É verdade. Normalmente um cabaz de 400 sardinha pode custar, um mínimo, de 10 euros e, nesta altura, do ano o preço pode chegar (e chega) aos 100 euros. Mesmo tendo em conta o preço mais alto, pagamos quatro a seis vezes mais o preço a que a sardinha sai da lota. Imaginem ao preço que cada sardinha fica em lota, em época de menos procura… menos de cinco cêntimos a sardinha.


Ontem, o JN acompanhou um grupo de pescadores que passou a noite na pesca da sardinha. No final de 13 horas de faina, um pescador levou para casa 15 euros. Um euro e quinze cêntimos por hora foi tudo o que ele ganhou. Se por esta hora for à Ribeira e lhe pedirem quinze euros por meia dúzia de sardinhas, um copo de vinho e uns nacos de broa, é possível que perca toda a vontade de festejar o santo padroeiro da sua cidade e nem fique para ver o fogo sobre o rio. Cada martelada que apanhar dos foliões de ocasião terá o peso desta gigantesca injustiça social, fruto de um “sistema que nos consome e aleija”, como cantava Jorge Palma.


O cabaz da sardinha chega a 100 euros por estes dias, mas o pescador da reportagem do JN continua a receber como se ele tivesse custado 10 euros. Ele foi para o mar ontem. Arriscou a vida por uma dúzia de sardinhas. Para ele não há sonho nenhum desenhado no céu da Ribeira como não há sonho nenhum para as mulheres de Sialkot, que cosem as bolas da Adidas.
A europa continua como no tempo do Império Romano: pão e circo. A maioria de nós está nas bancadas, contentinho da vida, vendo os chutos na Beau Jeu, discutindo as birras do Ronaldo ou do Ibrahimovic, enquanto nas masmorras os escravos da era moderna engraxam as chuteiras dos novos gladiadores ou servem sardinhas nos santos populares.
Gavb