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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

PRECONCEITO SEXUAL



- Não concordo com a homossexualidade!
- Mas tu és gay?
- Não!
- Então, o que é que tu tens a ver com a sexualidade dos outros?

-Ah, é que vai destruir a família!
- A tua família?
-Não! A minha não!
- Então, o que é que tu tens a ver com a sexualidade dos outros?

- É que não é natural!
-Humm ... Tu és biólogo?
- Não!
-Tu és antropólogo?
- Também não.
- Então, o que é que tu tens a ver com a sexualidade dos outros?

- É que Jesus disse que é uma aberração!
- Tu estavas lá quando Jesus disse isso?
- Não! Mas estás escrito na Bíblia.
-Mas foi Jesus que colocou isso na Bíblia?
- Não.
- Então, o que é que tu tens a ver com a sexualidade dos outros?


- EU NÃO GOSTO!
- Ah, então o problema não é a família, não é natureza das coisas nem os astros, nem a descendência nem a suposta "opinião" de Jesus... O problema é que TU não gostas, certo?
-É! Eu não gosto!
-  MAS ENTÃO, O QUE É QUE TU TENS A VER COM A SEXUALIDADE DOS OUTROS?


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

TUDO ISTO É TRISTE TUDO ISTO É FADO


Há dias, a fadista portuguesa Gisela João recebeu, do crítico de música do “New York Times”, um rasgado elogio ao seu último concerto, considerando-o “luminoso”. O jornalista referiu-se ainda ao fado em termos muito positivos, desfazendo o mito de canção triste, comparando-o à vida, na maneira intensa e apaixonada como deve ser vivida.

João Braga (um dos mais antigos, conhecidos e polémicos fadistas portugueses) podia ter aproveitado a embalagem para “puxar” pelo fado, amplificando, nas redes sociais, este concerto da jovem fadista, mas preferiu atrair a atenção sobre si escrevendo sobre… cinema. Não para perorar sobre a qualidade artística de um determinado filme ou demonstrar a injustiça de determinado Óscar. Limitou-se a vomitar um insulto racista e homofóbico sobre o filme do ano para a Academia de Hollywood, Moonlight.

João Braga está no seu pleno direito ao não gostar de Moonlight ou de o achar menor, mas a sua frase sobre a noite dos Óscares – Basta ser preto ou gay para ganhar os Óscares – revela que as suas opiniões são muito mais baseadas em preconceitos do que em factos. O que revolta João Braga não é Moonlight ter ganho, mas ter sido um negro gay a ganhar. Ora, é isso que é triste e revoltante.
Durante anos, João Braga e o fado tiveram de lidar com o preconceito que grande parte da sociedade portuguesa tinha contra o fado. João Braga foi, muitas vezes, incisivo contra essa maneira vil e tonta de amesquinhar aquilo que se conhece mal, só porque não é moderno.
Passaram anos e João Braga ainda não entendeu que a discriminação não existe apenas quando é cometida sobre nós ou daqueles de quem gostamos. Ao contrário do que o fadista pensa, não basta ser gay nem preto para se ganhar Óscares, como o atestam os outros prémios que o filme Moonlight foi arrecadando. Já para deixar de ser preconceituoso e racista é necessário ser civilizacionalmente evoluído. Os artistas costumam sê-lo, mas João Braga parece que só sabe cantar fado, porque de cinema percebe muito pouco.
gavb


sábado, 16 de janeiro de 2016

TAKE ME TO CHURCH, de Hozier


TAKE ME TO CHURCH deu a conhecer o irlandês Hozier ao mundo. Nos últimos dois anos as rádios do planeta têm tocado este belo tema do jovem irlandês que em 2014 merecia ter ganhado o prémio de melhor canção do ano.
Take Me To Church foi arrancada às entranhas do cantor, pois Hozier admitiu, numa das entrevistas em que falou sobre este tema, que escreveu a letra depois do rompimento amoroso com a sua primeira namorada, em 2013. Através de uma metáfora, Hozier compara um amante com a religião, sugerindo a força e humanidade do Amor em contraposição com a hipocrisia da Igreja Católica.

Logo no início da música, o cantor começa por elogiar a coragem da sua namorada que ri inconvenientemente nos funerais e recolhe a reprovação de todos. Lamentando não a ter venerado mais cedo (ela era o seu paraíso, a sua igreja, a sua religião), Hozier foca a sua atenção na crítica à hipocrisia da Igreja Católica, ou não estivéssemos a falar de um irlandês, para quem culturalmente a questão religiosa é sempre determinante.
Tendo aprendido à sua própria custa que amar é, em certo sentido, uma morte e um renascimento, Hozier não pode aceitar que a Igreja fale em Amor como um valor primordial e absoluto e depois condene o amor homossexual. 


Como explicou numa entrevista ao “New York Magazine”, a sexualidade e a orientação sexual (independentemente da orientação) são coisas naturais, profundamente humanas e por isso ele não pode conceber que uma organização tão preponderante como a Igreja Católica declare que o amor entre dois homens é um pecado que ofende a Deus.
Como é fácil de perceber, Take Me To Church não é apenas mais uma canção entre tantas outras. A profundidade dos temas suscitados pela sua letra obrigam-nos a considerá-la mais além do mero entretenimento e elevam a consideração de Hozier no panorama artístico musical.

Frustrado e irritado com o mundo hipócrita em que cresceu, Hozier escreve uma canção sobre a afirmação de si próprio e da recuperação da sua humanidade através de um ato de amor. Não um amor teórico e ideal, mas um amor tangível, experimentado, que valha a pena ser vivido.
Take Me To Church não é um ataque à religião, mas à hipocrisia da Igreja Católica que se cala perante a homofobia desenfreada, reinante em muitos países, como por exemplo acontece na Rússia.

Canção de amor, de afirmação pessoal, de denúncia da hipocrisia da Igreja Católica e de crítica da homofobia, TAKE ME TO CHURCH pretende abanar consciências e colocar novamente a música na vanguarda da transformação social, mental e cultural.
Gabriel Vilas Boas 

domingo, 24 de maio de 2015

HOMOFOBIA


Há dois dias, o povo irlandês aprovou, em referendo, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, alargando para cerca de duas dezenas os países onde a união entre casais homossexuais é permitida.
Lentamente os diversos povos do planeta vão tratando de pôr em lei um direito vedado a muitos milhões de pessoas em todo o mundo, no entanto ainda há um largo caminho a percorrer, sobretudo ao nível das mentalidades, para que a homofobia não seja um problema sério das sociedades modernas.

Facilmente reconhecemos que todo o ser humano tem direito à sua personalidade e dignidade e que a sua orientação sexual não deve ser motivo para discriminá-lo, mas, na prática, muitos de nós continuam a discriminar, ridicularizar e impedir que casais homossexuais vivam conforme a sua orientação sexual. E isso é absolutamente inaceitável! Em certos momentos torna-se indigno e desumano, pois a maneira como certos homossexuais são tratado é de tal forma humilhante e degradante que devia envergonhar toda e qualquer sociedade que pactua com este tipo de realidade.

E este não é um problema a que não somos alheios. No mesmo dia em que os irlandeses repunham alguma justiça às suas leis, uma aluna minha escolhia o tema da homofobia como tema da sua oral. No breve diálogo que manteve no final com os colegas, referiu que tinha de ponderar bem uma putativa assunção da condição homossexual, pois tinha fundadas dúvidas sobre a reação dos colegas. Ela não estava disponível para suportar discriminações e humilhações e por isso achava que poderia ser melhor manter discreta uma relação homossexual.
Como esta jovem pensam milhares de pessoas em Portugal, o que se demonstra que a homofobia existe e está longe de ser residual.

É uma arrogância inútil, mas perigosa, queremos decidir a vida privada dos outros. Absurdo invocar argumentos culturais ou tradicionais quando em causa está um bem maior, como o direito de personalidade e dignidade.
A imposição de padrões morais é ilógica, pois em todo o mundo homens e mulheres relacionam-se de diferentes modos. O importante é respeitar os direitos fundamentais do ser humano e não permitir que aqueles que têm uma visão egocêntrica da vida voem como uma ave de rapina sobre os direitos humanos. Mesmo que a maioria seja heterossexual tem o dever de zelar pelos direitos daqueles que não o são. E zelar é não discriminar, nas pequenas e nas grandes coisas.
Muitas vezes, argumenta-se que a homossexualidade é anti natural e que atenta contra a reprodução. Curiosamente, no passado, já lhe chamaram  uma doença, mas, com o tempo, foram polindo as garras e tornaram-se aparentemente mais controlados nas objeções.
Ora cabe dizer que os homossexuais não têm nada a opor à existência de heterossexuais, simplesmente têm uma orientação sexual diferente e querem-na afirmar sem receios. Os homossexuais fazem perigar tanto a reprodução humana como os padres, as freiras ou todos aqueles que livremente decidem não ter filhos. Ultimamente o número tem crescido entre os heterossexuais… 
Além disto, o ser humano não se afirma apenas pelo instinto reprodutor. Os domínios cognitivo e afetivo são património inalienável da humanidade, que não autorizam argumentos homofóbicos baseados na alegada não naturalidade da homossexualidade.
A sociedade portuguesa como a generalidade da sociedade ocidental ainda tem um largo caminho a percorrer para expurgar a homofobia dos comportamentos sociais. Acho que a atitude correta não pode ser não tocar neste assunto por ser polémico, mas, pelo contrário, trazê-lo para o debate público.
Gabriel Vilas Boas