A frase da antiga secretária pessoal do presidente Mandela, Zelda La Grange, está cheia de convicção e... otimismo.
É verdade que Mandela deixou uma legado fortíssimo - Paz, Liberdade, Democracia, Perdão, União - mas também é verdade que todos os legados precisam de alguém que lhes dê continuação e isso está longe de acontecer, tanto na África do Sul como no resto do mundo.
Felizmente, o legado de Mandela é algo de concreto e bem definido, mas precisa de líderes políticos corajosos e sábios. Não os há. E, se no prazo de uma década não parecer com esse perfil e força, o legado de Mandela corre o riso de aninhar definitivamente nos livros de História e de Ciência Política.
Nelson Mandela não teve apenas um sonho; na verdade, ele construiu uma nação arco-íris e inspirou o mundo. Fê-lo o tempo suficiente para vermos como se faz, todavia não temos gente com a dimensão humana, ética e política deste enorme estadista.
Mandela não foi um milagre, mas convicção inabalável, persistência e coragem. Parecem todas coisas simples, terrenas e humanas, mas com baixas taxas de concretização, quando se fala de ação política.
Fazer coisas simples bem feitas é do mais complicado que há!
Com o objetivo de transformar a África
do Sul do apartheidna visão da Nação do Arco-Íris de Nelson Mandela, o bispo
anglicano da cidade do Cabo, Dsmond Tutu, criou a Comissão da Verdade e
Reconciliação (CVR) em 1995 para investigar muitos dos momentos mais sombrios
que o país viveu entre 1960 e 1994. Imbuída de um espírito de reconciliação cristã,
esta comissão propunha uma justiça regeneradora na qual as vítimas e as suas
famílias ficariam cara a cara com aqueles que as tinham magoado. Em troca da
revelação/confissão total do
envolvimento em atos de violência com motivações políticas e violações dos
direitos humanos, as testemunhas não seriam processadas criminalmente.
A CVR pôs a nu pormenores de muitas
atrocidades cometidas não só pelo sistema de segurança da minoria branca e por
extremistas pró-apartheid como também
por membros do Congresso Nacional Africano. No seu Prefácio ao meu muito
aguardado Relatório, publicado a 28 de outubro de 1998, Desmond Tutu enfrentou
os seus críticos e justificou o exercício como um elemento necessário à
regeneração. Como tal e apesar dos seus erros, o Relatório continuou a ser um modelo para a resolução dos conflitos
dentro da África do Sul.
Dada a relevância das palavras do bispo
do Cabo, cito um trecho do famoso Prefácio.
«Foi-nos
concedido um grande privilégio. Trata-se de um privilégio com elevados custos,
mas que não desejaríamos trocar por nada deste mundo. Alguns de nós já viveram
um stress pós-traumático e tornaram-se cada vez mais cientes de quão intensamente
feridos fomos todos; de quão feridos e esgotados estamos todos. O apartheid
afetou-nos a um nível muito mais profundo que alguma vez imaginaríamos. Nós, na
Comissão temos sido um microcosmos da nossa sociedade, refletindo a sua
alienação, suspeita e falta de confiança uns nos outros. As nossas primeiras
reuniões na Comissão foram muito difíceis e cheias de tensão. Deus foi bom ao
ajudar-nos a tornarmo-nos mais unidos. Talvez sejamos um sinal de esperança de
que, se as pessoas com um passado mais hostil conseguem unir-se como nós,
então existe na África do Sul a expectativa de que seremos capazes de nos unir.
Estando feridos, somos chamados a curar.»
No dia 11 de Fevereiro de 1990, Nelson Mandela agarrou a mão da mulher, Winnie, e com um enorme sorriso triunfal percorreu a passadeira da liberdade que o trouxesse de regresso a casa.
Para trás ficavam 27 anos duma prisão injusta, que, ao contrário de todas as expectativas, não o tornou num revoltado, mas num sábio, que haveria de guindar o seu povo à liberdade ansiada.
Embora tivesse estado preso quase três décadas (a maior parte do tempo na inexpugnável prisão de Robben Island), a sua coragem e dignidade garantiram-lhe o estatuto de autoridade moral do Congresso Nacional Africano (ANC) e do movimento anti apartheid.
Seis meses antes, o presidente sul-africano, F.W. de Klerk, anunciara o fim das políticas de apartheid, a legalização do ANC e o início de conversações para a transição dum poder branco para um poder negro, na África do Sul.
Na tarde do dia em que foi libertado, Mandela falou ao seu povo, com a serenidade, sabedoria e grandiosidade que só os grandes têm. Falou de paz, democracia e liberdade; analisou as opções do ANC no novo enquadramento político do país e apelou a uma África do Sul multirracional, onde haveria lugar para todos.
E houve! Ao contrário de todas as expectativas, a transição de poder foi genericamente pacífica, de tal maneira que, em 1993, De Klerk e Mandela haveriam de ganhar, merecidamente, o prémio Nobel da Paz. Em 27 de Abril de 1994, Mandela tornou-se no primeiro presidente negro do país e, não menos significativo, o primeiro líder sul-africano eleito por sufrágio universal.
11 de Fevereiro – uma data memorável para África e para a humanidade. Passaram vinte e cinco anos, mas a beleza e relevância desse dia continuam intactas, porque Mandela as soube honrar e ilustrar.
Quando penso em todas as emoções que Mandela viveu e fez viver nesse 11 de fevereiro de 1990, vem-me à memória uma extraordinária canção de Jorge Palma, inspirada num livro de Herberto Hélder, que passou a citar:
“Quando o sol chegou aos subúrbios da cidade
Anunciando mais um dia igual aos outros
Ele acordou e pressentiu
Que hoje o seu dia ia ser diferente
Sentiu nos lábios o sabor
Dum sorriso finalmente triunfante
Escorregou da cama
E contemplou o espelho sorridente
Acabou-se a incerteza dos seus passos em volta
De um sentido que ele nunca encontrou
Pela primeira vez tinha o destino nas mãos
Desta vez ele não duvidou
Sentiu-se invadir por uma estranha lucidez
Que o conduzia pelas calhas do passado
Serenamente descobriu
Que afinal tudo tinha o seu sentido
Levou o olhar á janela
Lá em baixo a rua estava abandonada
Levantou o fecho
E de repente alcançou a liberdade
Acabou-se a angústia dos seus passos em volta
Dum amor com que ele apenas sonhou
Pela primeira vez tinha o futuro nas mãos
Abriu a janela e voou”
Ontem fez vinte anos que Nelson Mandela assumiu pela primeira vez a presidência da África do Sul. O líder sul-africano é um dos grandes heróis da humanidade do século XX. Após vários anos de um cativeiro injusto, Mandela teve a grandeza das grandes almas e derrotou o ódio e o racismo duma única vez ao promover a impensável reconciliação do povo sul-africano quando este lhe confiou a presidência do país.
Madiba dirigiu o seu povo como um sábio, guiando-o pelos caminhos da reconciliação, da paz e da prosperidade.
No final de 2009, Clint Eastwood realizou INVICTUS, dedicado ao grande líder africano.
O roteiro do filme “Invictus” é baseado no livro “Playing the Enemy”, de John Carlin, que focaliza um momento particular na reconciliação da África do Sul pós-apartheid: a realização do Campeonato Mundial de Râguebi, que o país venceu, contra todos os prognósticos. A vitória serviu como elemento de união nacional. A autobiografia “Longo Caminho para a Liberdade” lançada na década de 1990 pelo próprio Nelson Mandela, foi preterida por Clint Eastwood, pois ele achava que a adaptação do livro ao cinema não atingiria a profundidade da história de Nelson Mandela.
Morgan Freeman interpreta fabulosamente Nelson Mandela (sugestão do próprio Mandela) e Matt Damon faz de capitão da seleção sul-africana de râguebi. Inesperadamente, o caminho das duas personagens vai cruzar-se numa "aliança" decisiva para o momento de viragem que a África do Sul vivia. Em 1994, quando Nelson Mandela assume a presidência, apenas quatro anos depois de ter sido libertado da prisão onde permanecera três décadas, o país preparava-se para receber o Mundial de râguebi e aquele evento foi aproveitado por Mandela para unir o seu país e dar uma lição de humanidade, união e capacidade de perdoar ao mundo, que orgulhou todo o continente africano. Quando brancos e negros esperavam que Nelson Mandela executasse uma limpeza dos brancos dos lugares chave do poder, o novo Presidente surpreendeu, sobretudo, pela estratégia utilizada para promover a união entre brancos e negros.
A selecção nacional de râguebi era um dos grandes símbolos da nação para os sul-africanos brancos, o que a tornava automaticamente alvo de ódio dos negros. Apesar de todos os graves problemas sociais, económicos e políticos, Mandela arranjou tempo para se empenhar numa desejada, mas improvável, vitória da África do Sul no Mundial que viesse a ser celebrada por todos os sul-africanos.
A película do veterano Clint Eastwood mostrou como o desporto pode unir um povo, destruindo barreiras sociais e étnicas, derrubando ódios.
INVICTUS é um filme sobre a reconciliação dum povo. É um filme sobre a infinita capacidade do ser humano de se regenerar e perdoar. Nele, o racismo é derrotado duma forma inteligente e cabal por um homem tenaz e invencível porque nunca se deu por vencido. Como Henley bem escreveu e Mandela recordou nos piores momentos do seu cativeiro, enquanto um homem for o capitão da sua alma, será sempre o senhor do seu destino.