Etiquetas

Mostrar mensagens com a etiqueta a banalidade do mal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta a banalidade do mal. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

ESCRAVOS DA MALDADE

Há poucas horas, folheando um jornal fui abalroado por esta notícia: “Em 2014 havia 35 milhões de escravos no mundo; Índia, China e Rússia lideram o ranking”.
Li com atenção o corpo da notícia e levei mais uns quantos socos na minha alegria quotidiana. Tudo me parecia tão monstruoso quanto irrealista e absurdo, considerando o grau de desenvolvimento humano atingido em grande parte do planeta.
Só num ano (2014), o número da ignomínia cresceu seis milhões de seres humanos. Não consigo digerir tais factos, mas não é por isso que eles deixam de existir. Olho e volto a olhar para a notícia. Simples, fria, por ela abaixo escorria todo a banalidade do mal de que falava Hannah Arendt. E parece bem mais difícil lutar contra a banalidade do mal do que contra a própria maldade. A indiferença perante a injustiça absoluta ou a indignidade total é mortífera porque destrói o ânimo das vítimas.
Pego outra vez no jornal, procuro os donos do inferno e encontro potências económicas como a Rússia, a China e a Índia. Não consigo ganhar asco aos seus cidadãos nem me revolta a sua inação, pois conheço como há décadas são subjugados por tiranias e ditaduras. Ainda que continue chocado, ainda que me pergunte vezes sem conta como “Como é possível?!”, a História do século XX ensinou-me que Direitos Humanos foi um conceito banido do dicionário dos governos chinês, indiano e russo.

Não, não acho que a absurda ansiedade de poder e riqueza explique o que quer que seja, nesta atitude animalesca de fazer um semelhante escravo. Também não penso que os russos, os chineses ou os indianos sejam o pior que a humanidade tem para mostrar. O problema é mesmo da cultura e mentalidade política dos sucessivos governos destes países. Não sei se alguma vez mudarão o suficiente, mas pressinto que será um trabalho enorme no conteúdo e no tempo.
No entanto, o que mais me abale é pensar que todos os dias fazemos negócios com eles, que andamos a suspirar pelas encomendas dos russos, pelos negócios com os chineses, pelas calças de ganga produzidas na Índia. Sim, somos nós, os portugueses, os franceses, os ingleses, os dinamarqueses, os belgas, os italianos, os alemães que nos declaramos ao lado da liberdade e da democracia, que apertamos a mão que agrilhoa seres humanos e os escraviza vinte e quatro horas por dia.
Acho que sempre soubemos que eles faziam isso. Antes faziam-no com os próprios compatriotas, hoje fazem-no com emigrantes. A maldade é a mesma ou até pior, mas nós começámos por fingir que não víamos. E fingimos tão convictamente que hoje nenhuma notícia, por mais cruel que seja, nos perturba. Por vezes, tenho a sensação que a civilização ocidental é uma fraude, um simulacro de humanidade.  

Gabriel Vilas Boas

sábado, 24 de janeiro de 2015

AMERICAN SNIPER



Estreou há dois dias nas salas de cinema portuguesas “American Sniper”, de Clint Eastwood e aquilo que mais me intriga neste película do renomado realizador e ator americano é como é que este filme conseguiu arrecadar seis nomeações para os Óscares, entre as quais o de melhor filme, melhor ator e melhor argumento adaptado.
O filme baseia-se na história verídica de Chris Kyle, um lendário sniper norte-americano da guerra do Iraque, um soldado que matou mais de duzentas pessoas e se tornou uma lenda por nunca falhar o alvo.
E começa aqui o primeiro tiro falhado do filme do consagrado Eastwood. O filme valoriza a arte de matar! Não há nada de mais errado, civilizacionalmente. Kyle recebeu condecorações, foi tratado como um herói americano porque pôs o seu extraordinário dom de atirador ao serviço da morte. Isso não me atrai, pelo contrário, repugna-me. Esta banalização do mal, da morte alheia, como se matar fosse bom, cria um tipo de mentalidade humana que torna o ser humano vazio, infeliz, antissocial. É por isso, que o herói americano não sabe o que há de fazer quando não tem de matar.



Não é a velha história do trauma de guerra, do homem que larga a guerra, mas, coitadinho, a guerra não o larga a ele, que o filme tenta vender. No meu entendimento, é toda uma mentalidade tão tipicamente americana e tão tipicamente conservadora que explica o falhanço pessoal na vida deste” herói” da morte.
Bradley Cooper teve um desempenho competente na interpretação duma personagem banal. O herói da guerra do Iraque tinha uma história de vida igualzinha à de muitos americanos que acham que é muito patriótico matar os maus que afrontam a grande América, estejam eles no Vietname ou no Iraque: cresceu com o modelo do cowboy que conhece uma rapariga num bar noturno; assiste ao 11 de setembro pela TV, alista-se na marinha e vai para o Iraque salvar a honra da América matando em série.



Clint Eastwood prometera ao pai de Kyle que faria um filme que não mancharia a sua reputação. Bradley Cooper comprou os direitos de autores da “Autobiografia do Atirador Mais Letal da História” com o fito de vestir a pele do protagonista, tentando legendar-se na tela como o seu herói se tornou famoso no Iraque a matar gente. Os americanos adoram heróis à Rambo, porque na América republicana e conservadora o patriotismo também se mede pela quantidade de balas que se enfia no peito do inimigo. De facto, há uma parte dos EUA que ainda não saiu do tempo dos índios e cowboys, o que é uma pena.


Desgraçadamente, este filme é muito real e usa muito pouco a ficção. Bradley chegou mesmo a afirmar com orgulho bacoco “Não tivemos de criar nada com a nossa imaginação, literalmente nada”. Por vezes, a verdade é muito insípida para o cinema e por isso quase nunca ela serve o drama.  
O problema deste herói é que ele tinha muito pouco de humano. Quando em contexto de paz, quando em família ou entre amigos, ele era banal.
Tenho muita pena que Clint Eastwood não tenha abordado esta insipidez pelo ângulo que me parece mais óbvio, à luz do mundo que queremos livre, solidário, fraternal: a arte de matar mata a humanidade que existe em cada um dos nossos mais nobres sentimentos.

                                                                                                                Gabriel Vilas Boas