Etiquetas

Mostrar mensagens com a etiqueta Brasil. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Brasil. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de março de 2019

ALUNOS E FUNCIONÁRIAS ASSASSINADOS EM ESCOLA BRASILEIRA


Uma dezena de mortos! É este o primeiro balanço (ainda provisório) dum inusitado ataque levado a cabo por dois jovens, numa escola brasileira, do Estado de São Paulo, no Brasil. 



Os dois assassinos, que eram ex. alunos da escola e tinham dezassete e vinte e cinco anos respetivamente, acabaram por cometer suicídio no final do seu tresloucado ato, que está a deixar a sociedade brasileira em estado choque e grande consternação. 
Ainda antes de chegar à escola, os jovens já tinham denunciado as suas intenções, ao atingir  o dono de um posto de lavagem automóveis, nas imediações do estabelecimento de ensino. 
Mal chegaram à escola, atiraram mortalmente sobre duas funcionárias; depois dirigiram-se ao pátio escolar, onde dispararam dezenas de tiros, matando quatro alunos e ferindo vários (dois viriam a falecer no hospital). A sangria só não prosseguiu porque alguns professores se refugiaram com os seus alunos nas salas de aula. Foi então que os assassinos resolveram pôr fim à próprio vida, deixando atrás de si um rasto de destruição e morte.

A tragédia da escola de Suzano é só mais um sintoma da guerra civil informal em que o Brasil vive há alguns anos, no entanto o crime não tinha ainda chegado à Escola. Chegou hoje! Mais uma barreira psicológica quebrada!

Numa escola brasileira há essencialmente crianças. Umas mais conscientes do que outras em relação à realidade negra que as cerca, mas todas inocentes, e para quem a vida ainda só havia escrito poucos parágrafos. Hoje tombarão cruelmente algumas.  
A resposta ao crime não é (nem nunca poderá ser) armar a população, como defende o presidente brasileiro. 
Estou curioso para perceber qual será a reação de Bolsonoro a este odioso crime!

GAVB

domingo, 30 de setembro de 2018

COMO É QUE O BRASIL PODE PENSAR EM BOLSONARO PARA PRESIDENTE?





"Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente que apareça com um bigududo por aí"
                                                                               Bolsonaro sobre a homossexualidade



“Pinochet devia ter matado mais gente” 

“O erro da ditadura foi ter torturado e não matar” 


“Não te estupro, porque você não merece” 
                                                                                   Bolsonaro para a deputada Federal Maria Rosário 



“Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados.”
  
Bolsonaro sobre o que faria se os seus filhos se casassem com uma negra ou um homossexual


“Mulher deve ganhar salário menor porque engravida.”

“Você é uma idiota. Você é uma analfabeta. Você está censurada.”
Declaração irritada de Bolsonaro, ao ser entrevistada pela jornalista Manuela Borges, que decidiu processar Bolsonaro.

A Polícia Militar devia ter matado 1000 e não 111.”
    Bolsonaro sobre o massacre de Carandiru

“Não vou combater nem discriminar, mas se eu vir dois homens se beijando na rua, eu vou bater.”

“Parlamentar não deve andar de ônibus” [autocarro]

Se o Brasil eleger Jair Bolsonaro, culpa não é de Bolsonaro, que só vale um voto, mas dos milhões que desprezam a democracia, a dignidade do ser humano, a liberdade e a igualdade de género e raça. Eleger Bolsonaro não é uma questão política, mas de falta de respeito pela história do Brasil e pelos direitos humanos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

OS ESTRANGEIROS ANDAM A SALVAR A ECONOMIA PORTUGUESA


Leio na imprensa que as "Universidades Privadas crescem com a inscrição dos estrangeiros". Eu diria antes que  as "salvaram" e não só as privadas. A Universidade de Coimbra, por exemplo, já tem 20% de alunos estrangeiros, com especial destaque para o exército de brasileiros que procuram Coimbra pela tradição e pelo estatuto proporcionado pela mais antiga universidade portuguesa. A universidade conimbricense foi também pioneira no aproveitamento turístico da Instituição e hoje cerca de 3% das suas receitas provêm do turismo.

As universidades portuguesas não fizeram mais que a restante população: aproveitaram o novo elixir da felicidade - pessoas em permanente trânsito pela Europa - para ultrapassar a grave depressão económica em que políticas ultrapassadas e corruptas nos deixaram.

Foram os estrangeiros e o turismo que estancaram a hemorragia de jovens a sair do país, permitindo a mais baixa taxa de desemprego dos últimos dezasseis anos.

A busca do nosso país pelos estrangeiros permitiu a reabilitação urbana do Porto, Lisboa, Aveiro ou Braga. Também são os estrangeiros que continuam a executar os trabalhos deselegantes que os europeus não querem fazer. No entanto, na Europa cresce o apoio a partidos xenófobos e fecha-se a porta a quem é pobre e é islâmico, com a desculpa de que são potenciais terroristas.
Para sermos acolhedores não temos de ser permissivos, mas é indigno e estúpido ser preconceituoso.
O que acontece na Hungria, em algumas regiões da Itália e da Alemanha é a vitória do preconceito e da incompetência, além da falta de visão de futuro.
Gente incompetente prefere recusar o desconhecido antes de trabalhar uma ordenada incorporação de quem procura um recomeço de vida com urgência. 
É muito fácil dizer "Portugal para os portugueses" ou "A Hungria para os húngaros", mas depois queremos Lisboa cheia de turistas chineses, japoneses, árabes ou americanos e contratamos brasileiros e cabo-verdianos para servirem às mesas dos restaurantes, dezasseis horas por dia, pagando-lhes pouco mais que o ordenado mínimo.
Temos a mania da "xico-espertice" no sangue e também é por isso que crescemos de maneira disforme.
GAVB

quarta-feira, 16 de maio de 2018

BRASILEIROS EM FUGA PARA PORTUGAL



«Eu não sei onde Portugal vai colocar tanto brasileiro, porque é impressionante. Todos querem vir para cá.» Ângelo Horta, conselheiro permanente das comunidades portuguesas.
Não se trata apenas de jovens à procura do eldorado europeu através da porta portuguesa, mas igualmente gente de quarenta e cinquenta anos, completamente desencantada com um país «sem futuro», onde todos os presidenciáveis têm problemas graves com a justiça e o sentimento de insegurança é tão latente que parece que se tornou numa segunda pele.
Querem Portugal, em primeiro lugar, por causa da língua, mas também porque pensam que a vida no nosso país será mais fácil que noutro qualquer país europeu.
Portugal tem ainda lugar para todos aqueles que o procuram, embora seja hoje um país um pouco diferente da ideia clássica que o brasileiro faz do velho colonizador.

É um país seguro e talvez seja este um dos seus maiores trunfos, mas é já um país caro (sobretudo Lisboa, Porto e Algarve) para grande parte da classe média brasileira. O turismo colocou Portugal na moda e hoje comprar ou arrendar casa em Lisboa, Porto, Coimbra ou Aveiro é algo que não está ao alcance da esmagadora maioria dos portugueses e até de muitos europeus.
É preciso que quem pretende viver em Portugal perceba que o seu leque de escolha diminuiu, no que diz respeito à habitação, e ainda não é muito vasto no que diz respeito ao mercado de emprego.


Estamos a sair de uma traumática crise financeira e a recuperação de postos de trabalho ainda não foi totalmente alcançada. Por outro lado, ainda somos um país que procura defender a todo o transe os direitos mais elementares dos trabalhadores e por isso não é muito bem vista uma empregabilidade sem direitos.
Apesar destes óbices, Portugal é uma ótima escolha para os brasileiros, porque é uma excelente montra para outros voos, no continente europeu, e oferece uma excelente base de apoio para uma adaptação a uma nova cultura e estilo de vida, além de ser sempre um prazer ter entre nós um povo tão alegre, amigável e simpático como é o povo brasileiro.
GAVB  

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

LULA É INOCENTE OU INDECENTE?

Foto de Ueslei Marcelino / Reuters
Provavelmente nem uma coisa nem outra. Como seria de esperar, também Lula foi apanhado na mega operação da justiça brasileira contra a corrupção e lavagem de dinheiro, que incriminou a nata da classe política e empresarial brasileira. Lula foi condenado a mais de nove anos de prisão.
A resposta do antigo presidente brasileiro foi contundente: não só recorreu da sentença como quer concorrer à próxima eleição para presidente da República, que ocorrerá daqui a nove meses.

Ao contrário do que seria de esperar, Lula não perdeu popularidade entre os brasileiros e, apesar da sua condenação em primeira instância, é um fortíssimo candidato ao mais alto cargo da magistratura.
O que se passa hoje no Brasil já se passou em Portugal, embora a um nível mais baixo, com o presidente da Câmara de Oeiras.
A pergunta mais importante que qualquer brasileiro devia fazer é a primeira: Lula é inocente? Todos os dados e provas apontam no sentido da sua culpabilidade. Então, por que pensam reelegê-lo? Dizer que Temer é pior, que todos os políticos que se apresentam  como candidatos fizeram ou fazem o mesmo não é uma resposta aceitável.

Lula lutou, acendeu, governou, asneirou e caiu em desgraça. Não são os erros de Temer que o fazem melhor. O tempo de Lula passou. Há que agradecer-lhe tudo o que de bom fez pelo Brasil; julgá-lo, com justiça, pelos seus erros e... seguir em frente. Escolher alguém limpo, alguém minimamente competente e que traga novamente a esperança ao Brasil.
Não acho que Lula seja indecente, até porque ele também é o resultado de um caldo cultural nefasto de corrupção, compadrio e nepotismo que domina muitas sociedades e não apenas a brasileira.
No entanto, recandidatar-se, usando as emoções daqueles que sempre o amaram para tentar fugir à justiça é indecente. Todavia, maior indecência seria ter a noção que Lula é culpado e reelegê-lo. Nessa altura, cada brasileiro dever-se-ia perguntar: e cada um de nós é inocente ou culpado da situação que o país atravessa?

A inocência ou a culpa pode estar na política, mas a decência cabe em primeiro lugar ao povo que vive em democracia.
Como diria um amigo meu, povo que elege corrupto não é vítima, é conivente.
GAVB

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

OS BRASILEIROS QUEREM O REGRESSO DA PENA DE MORTE?



Há mais de 150 anos que nenhum homem-livre é condenado à pena de morte em solo brasileiro, embora ainda há pouco mais de dois anos dois brasileiros tenham sido executados, na Indonésia, e a abolição  da pena capital em território brasileiro só tenha acontecido em 1889.
Tudo isto faria parte da História se entre a sociedade brasileira não crescesse o desejo de restauração da pena de morte. Atualmente 57% dos brasileiros é favorável à pena de morte. 

Este sentimento tão forte e inquietante tem, certamente, justificação no desencanto que os brasileiros sentem em relação ao seu sistema político e judicial.

O desejo da restauração da pena capital é lamentável, mas não me parece um regresso à idade das trevas, mas antes a confissão do desalento e impotência dos brasileiros para travar a onda de crimes que fazem do Brasil um dos países mais inseguros da América Latina.
Há uns anos, o ex-ministro Paulo Portas dizia que ou a Europa tomava medidas sérias e enérgicas contra o crime organizado e o terrorismo ou em poucos tempos estaríamos a discutir o regresso à pena de morte. Pelos vistos, isso já está na ordem do dia no Brasil.
O que acontece no Brasil é um sinal de alerta amarelo para a Europa, pois os brasileiros têm liberdade de expressão, vivem em democracia e são pessoas esclarecidas. O problema é que já não acreditam na eficácia do seu sistema judiciário, como elemento regenerador da sociedade.
Por outro lado a violência de certos crimes, a perfídia com que são preparados e o não arrependimento dos criminosos atiram as sociedades para soluções radicais, perigosas e desumanas.
A eficácia da justiça pode ser aferida de vários modos: justiça das decisões, proporcionalidade das penas face aos crimes, rapidez das decisões, imunidade das decisões dos tribunais face ao poder político e económico e capacidade de dissuadir comportamentos agressivos e violentos.

O papel da Justiça em cada sociedade vai muito para além das decisões quotidianas dos tribunais. Cada juiz, cada procurador, cada advogado, cada polícia deve perceber que as suas ações, decisões e omissões constroem um caldo cultural e mental que nos fazem sentir mais seguros ou asfixiados pelo medo, insegurança e desencanto.
GAVB

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

SENHORA, SEJA BEM APARECIDA

Hoje é feriado no Brasil. É dia de Nossa Senhora Aparecida, rainha e padroeira do Brasil. Oficialmente desde 1980, a santa preferida dos brasileiros é um fenómeno de fé que dura há 300 anos e orienta a vida espiritual, afetiva e a social de milhões e milhões de brasileiros.
A história remonta ao início do século XVIII e dá conta da surpreendente pesca de uma imagem de Nossa Senhora, por uns pescadores ávidos de boa pescaria, que rapidamente deu origem a uma pescaria soberba e abundante.

Ao longo dos séculos, a padroeira dos rios e dos mares, do ouro e do mel, foi ganhando devotos e dando corpo à fé dos brasileiros, que são, como bem sabemos, um povo místico.
Devido à dimensão humana do Brasil e à devoção que o seu povo sempre teve por Nossa Senhora Aparecida, o seu santuário tornou-se num dos santuários marianos mais visitados do mundo a par de Lourdes, Fátima ou Guadalupe; em certo sentido, até os ultrapassa, pois é um fenómeno religioso mais antigo e profundamente enraizado na alma brasileira.

O que faz um cético ou um agnóstico quando observa toda esta devoção? Tem a tentação de racionalizar, de criticar, de contrapor, de expor as suas contradições, mas devia tentar outra abordagem.
Pensar como é importante a fé na vida de milhões de pessoas e como ela se tornou na força motriz das suas vidas. Tentar perceber como, apesar de todas as críticas e evidências racionais, uma devoção, uma crença, uma fé é tão necessária ao ser humano.

GAVB

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

UMA DESGRAÇADA HERANÇA PORTUGUESA


Collor de Mello, Dilma, Temer, Lula… - o desfile no Palácio do Planalto sucede-se e a doença da corrupção parece cancerígena. Não é um problema da presidência, porque muitos outros políticos brasileiros sofrem do mesmo problema de pele. Diria até que não é um problema dos políticos brasileiros, pois eles são eleitos democraticamente, escolhidos pelo povo e muitos regressam a cargos públicos, porque voltam a ter a confiança da população. O problema está, obviamente, no povo brasileiro que é muito tolerante com aquilo que é intolerável.

A corrupção é intolerável, visto que é uma traição absoluta à Confiança
O argumento que o outro faz igual, que todos fazem o mesmo é um péssimo argumento, porque não resolve o problema e ainda por cima é mentiroso.
A corrupção será sempre um atraso civilizacional e um forte travão ao desenvolvimento económico de um país. Não há nenhum país rico e poderoso que tenha na corrupção um problema estrutural.
De nada vale investir em infraestruturas, saúde ou educação se não destruirmos uma mentalidade alicerçada no favorzinho.

Saímos do Brasil e chegamos a Angola e temos o mesmo problema. Angola podia ser isto e aquilo, mas na verdade é apenas um país subdesenvolvido, poluído de ricos que sugaram os vastos recursos naturais do país e preferem gastar o seu excessivo dinheiro em compras no Chiado e na Avenida da Liberdade.
Cabo Verde e São Tomé poucas ruas alcatroadas têm, as suas crianças andam descalças e o sistema de saúde e educação são rudimentares, no entanto são países independentes há mais de quarenta anos e lá ficam alguns dos resorts mais procurados pela elite portuguesa. A Guiné-Bissau é, provavelmente, a mais importante plataforma africana de tráfico de pessoas, droga e diamantes. Uma autêntica offshore do crime a céu aberto.

O que é que há de comum nesta desgraça africana e sul-americana? Portugal. Pior do que um fraco desenvolvimento económico e social, pior que uma desorganização congénita, foi esta mentalidade pobre e desgraçada que tolera a corrupção, que deixamos como herança.

É verdade que disfarçamos melhor quer os brasileiros ou os angolanos, mas é só isso. Os anos passam e pouco muda. Também é por causa disto que os mais capacitados dos jovens portugueses almejam mostrar competências no estrangeiro; também é por causa disto que há pouco investimento estrangeiro em Portugal. 
GAVB

quinta-feira, 18 de maio de 2017

JÁ ERA DE TEMER O PIOR


Não foi preciso esperar muito tempo para vermos aquilo que quase todos temiam: também o presidente Temer seria apanhado nas teias da corrupção. Ontem, o Globo divulgava uma gravação, onde o presidente brasileiro foi apanhado a autorizar o pagamento de um suborno ao ex-deputado Eduardo Cunha.
Toda a gente sabe como Temer chegou ao poder – destituição da presidente Dilma – e com que bases formou o seu governo. Temer não ganhou eleições, Temer não inspirava confiança, Temer apenas se aproveitou das circunstâncias políticas lamentáveis e degradantes a que chegou o PT de Lula e Dilma para se apoderar do cargo mais importante da nação. Foi uma tomada de poder legal mas ilegítima.

Claro que Temer podia ter aproveitando para formar um governo exemplar, privilegiando a correção de procedimentos administrativos, a lisura política, mas o seu passado indicava quase um regresso ao tempo do coronéis em que não se tinha pejo em usar a corrupção, o poder discricionário, o nepotismo para fazer vingar ideias e projetos injustos e negativos para a generalidade da sociedade.


Temer foi apanhado numa cilada porque um homem que tem poder tem inimigos, mas também porque o seu ADN é este mesmo. Temer não percebeu que a sociedade da informação aberta e instantânea não permite filtros nem protege ninguém, por mais poderoso que seja. Por isso, poucas horas depois da delação se ter tornado pública já o Supremo Tribunal Brasileiro confirmava a abertura de um inquérito por corrupção ao presidente do Brasil.
É provável que Temer caia como Dilma caiu e Lula também recolheu ao aquário. 
A desgraça do Brasil, no entanto, está muito para além de Temer, Lula, Dilma ou Collor de Mello; a desgraça do Brasil é que parece que a corrupção no país é endémica. Desmascarar, punir, prender é muito mais fácil do que mudar uma mentalidade enraizada durante séculos. Mais uma triste herança portuguesa que o sol ampliou.

GAVB 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O ADEUS DE JÔ SOARES


Aos 78 anos Jô Soares, o popular humorista e entrevistador brasileiro, retira-se de cena.
Milhares de pessoas passaram pelo divã do “Gordo”, respondendo às suas perguntas: umas vezes provocatórias, outras incisivas, algumas paternalistas, muitas vezes “normais”.
Dos programas de Jô, o povo brasileiro esperava sempre o sumo doce de uma boa entrevista regada com humor. E normalmente, Jô Soares dispunha bem os seus convidados e o seu público.


No meio de mais de quinze mil entrevistas algumas correram mal. Nem sempre o humor corre bem aos humoristas e o público acha que “as suas piadas não tiveram graça” ou o entrevistado sentiu-se menosprezado. É um risco que o humorista corre, especialmente quando se mantém largos anos frente à câmara e todos os dias tem que “inventar a roda”, que é como quem diz criar a magia necessária que os faça rir, até da própria desgraça.
Jô Soares marcou um tempo e gerações, no Brasil do final do século XX. Um pouco à imagem do que aconteceu com Herman José, ele foi o “regime”, o status quo do humor e da entrevista no país do samba, do carnaval e do futebol.
Como seria natural o Brasil transformou-se. Talvez as piadas de Jô já não produzam o efeito do passado, mas é inegável a sua importância social e cultural, dentro da sociedade brasileira. Através dele, os brasileiros ouviram os seus ídolos, os seus presidentes, os seus artistas e desportistas e até figuras mundiais como Gorbachev. Ninguém seduziu tanto o povo como ele.
Agora que o caminho acabou, é obrigatório dizer-lhe “Muito Obrigado Jô, foi uma honra, um prazer tê-lo por companheiro estes últimos trinta anos!”
Gavb  




quinta-feira, 16 de junho de 2016

FAVELA: COMO NASCER FLOR ENTRE O ENTULHO?


Dos dezasseis milhões de cariocas, um sexto (cerca de dois milhões) vive nas 500 favelas do Rio de Janeiro, que desde meio do século passado conheceram uma grande expansão e se tornaram o berço de uma violenta e incontrolada delinquência.
Agarrados, na sua maioria, aos flancos das colinas, estes bairros pobres e subequipados sofrem, regularmente, mortais deslizamentos de terras, durante as chuvadas.
Paralelamente, a jusante das favelas, as classes médias e ricas da cidade maravilhosa (cerca de 20% da população do Rio) ocupam zonas residenciais à beira-mar.



Este contraste social reflete a realidade brasileira no seu conjunto, em que 10% da população controla a maior parte da riqueza e aproximadamente metade da população vive abaixo do limiar da pobreza.
Em todo o Brasil, cerca de 12 milhões de pessoas vivem em favelas.
Nascer numa favela pode ser inevitável, mas não permanecer lá para sempre. A favela não é uma condenação perpétua. 

Por mais que os encantos da grande cidade seduzam, por mais fácil que seja um estilo de vida onde o dinheiro parece nascer na ponta da arma, a dignidade do ser humano exige a cada um uma opção de vida diferente.
A realidade já provou aos favelados que a sua degradação não incomoda aqueles que vivem em condomínios fechados, junto à praia, nem aqueles que detêm o poder. 
Não partirá destes o desmantelamento das megaestruturas sociais, onde a vida segue acorrentada à droga, à delinquência e à miséria.
Cada um terá que limpar a favela da sua vida, renascendo noutro local, onde viver faça mais sentido e tenha mais dignidade. Por mais bela que seja a flor que nasça na favela, ela será sempre soterrada pelo entulho acumulado encosta acima.
Todos os dias, dos morros do Rio e de São Paulo, escorrem vidas entre a lama e o entulho, quando apenas deviam nascer flores.

Gavb

sexta-feira, 18 de março de 2016

O BRASIL TOMA O FUTURO NAS MÃOS


O Brasil está envolvido numa luta titânica pela defesa da sua democracia, da sua dignidade política, do seu futuro identitário.
A desesperada nomeação do ex-presidente Lula da Silva para ministro da Casa Civil, outorgando-lhe uma quase imunidade judicial, tornou tudo mais claro: de um lado a justiça, grande parte do povo brasileiro, a vontade de estripar da administração pública do país os enormes tentáculos da corrupção instalada; do outro lado um sistema político-partidário comprometido, corrupto, desesperado, capaz de lançar mão de toda e qualquer estratégia para se furtar ao escrutínio da justiça.

O que mais me impressiona é que ninguém parece fugir à parte que lhe toca no guião de uma luta feroz e sem quartel. Governantes, ex-governantes, deputados, empresários comprometidos com o sistema corrupto lançam mão de influências, chantageiam, aproveitam os pontos de fuga das leis laboriosamente criadas durante anos para situações de emergência como esta, fazem nomeações absurdas para cargos públicos com imunidade judiciária. Os juízes, a comunicação social, o povo em geral contrapõem com a abertura de um processo de destituição da Presidente Dilma Rousseff, com a tentativa de anulação jurídica da nomeação de Lula da Silva, com a divulgação dos telefonemas comprometedores dos principais líderes políticos e económicos do país, com manifestações gigantescas nas principais cidades brasileiras contra Dilma, contra Lula, contra a corrupção congénita que lhes come a alma.

O povo brasileiro decidiu tomar nas suas próprias mãos o futuro, dando força e coragem a quem tem a dificílima missão de atacar gente muito poderosa com meios modestos, mas com uma convicção profunda que que cumprem uma missão nobre. Admiro aquela gente! Souberam superar o trauma de ver o seu herói fraquejar e não hesitaram na hora de escolher: estão com aqueles que escolheram a liberdade, a democracia, a decência pública. Não foram eles que falharam, não são eles que têm motivos para fugir ou esconder-se.
Pode demorar algum tempo, mas este jogo só pode ter um resultado…


GABRIEL VILAS BOAS

quarta-feira, 16 de março de 2016

LULA VOLTOU PARA O AQUÁRIO


Lula da Silva, ex-presidente brasileiro, resolveu aceitar o convite da Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, para assumir a pasta de ministro da Casa Civil.
Quando as notícias que envolvem o ex-presidente brasileiro no megaprocesso de corrupção denominado Operação Lava Jato são cada vez mais insistentes, a dupla Lula/Dilma reage da pior maneira, engendrando um esquema que passa por fazer de Lula da Silva ministro à pressa com a intenção clara de o proteger de uma possível acusação de corrupção que estaria iminente.

Ninguém quer saber qual a pasta que Lula vai ocupar, mas ao que parece nem é a mais indicada para a figura de um ex-presidente da república. O que parece claro é que quer Lula quer Dilma estão assustados e querem proteger Lula, já que o cargo de ministro apenas permite ao Supremo Tribunal Federal investigar Lula da Silva, retirando o líder histórico do PT do radar do juiz Sérgio Moro.

O jovem juiz brasileiro tem sido uma agradável surpresa. Firme, bem preparado, imune a pressões, Sérgio Moro parece ter conseguido aprisionar o enorme polvo da corrupção brasileira. O que mais me impressiona neste juiz é a sua preparação jurídica. A maneira segura como formulou as acusações e determinou algumas das penas revela um homem que sempre quis levar o seu trabalho até ao fim. Ao contrário do que acontece, por exemplo, em Portugal, a investigação contra as mais altas figuras políticas e económicas não esperou que os poderosos caíssem em desgraça para os atacar. Por outro lado, nota-se que a acusação se baseia em dados sólidos e isso permitiu ao juiz Sérgio Moro fazer justiça sem que o povo brasileiro ficasse com dúvidas.
Lula também parece não ter dúvidas: volta para o aconchego do aquário da imunidade ministerial. Dilma só podia fazer-lhe a vontade, pois a sua posição seria insustentável sem o apoio do PT toda a gente sabe que o Partido dos Trabalhadores ainda está na mão de Lula. Ambos parecem desesperados. Talvez se tenham beijado mortalmente.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

CENTRO HISTÓRICO DE SÃO SALVADOR DA BAHIA


O maior e o mais valioso (do ponto de vista arquitetónico) conjunto barroco da América Latina é simultaneamente um baluarte da música afro-americana. Mas a terra que viu nascer Jorge Amado é muito mais que isso: é um local exótico, mágico, depravado como nenhum outro do país do carnaval.
São Salvador da Bahia, mais propriamente o seu centro histórico, é  Património da Humanidade há trinta anos. Ninguém o descreveu de maneira tão certeira e naturalista como Jorge Amado como também ninguém o cantou com tanto humor como Dorival Caymmi
“Quem não gosta de samba
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente de pé.”

Uma das peculiaridades arquitetónicas de São Salvador são as suas 170 igrejas, uma boa parte delas pré-fabricadas em Portugal. Isto acontecia porque os galeões que viajavam de Portugal em direção à terra de Vera Cruz seguiam quase vazios de mercadorias e por isso os blocos de pedra cuidadosamente numerados e as estátuas de mármore eram bem acolhidos a bordo.
Mesmo ao lado dos embarcadouros do porto, ainda hoje pitorescos, encontra-se uma pérola arquitetónica – a Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia, com as suas duas torres e uma invulgar pintura do teto, usando a técnica do trompe l’oeil. A uma distância de poucos metros deparamo-nos com outro chamariz da Cidade Baixa – o Mercado Modelo, hoje gigantesca feira de artesanato. Nas imediações e ao longo do dia, jovens negros fazem demonstrações de capoeira, empolgante dança marcial criada pelos primeiros escravos trazidos para o Brasil, a fim de se defender da prepotência dos feitores e da polícia.
Íngremes ladeiras levam-nos à Cidade Alta, zona mais atraente, e onde se situam museus e palácios, mas quase todos os turistas preferem usar o “Elevador Lacerda”, inaugurado em 1930, e dirigir-se para o Largo do Pelourinho, construído em plano inclinado, e cujo nome vem dessa estaca de pedra onde se acorrentavam escravos. Nele eram açoitados e expostos durante dias inteiras por ofensas de pouca monta.
Quando, nos dias de hoje, as famosas bandas afro-brasileiras Oludum ou Timbalada, com os seus oitenta ou mais percussionistas, fazem vibrar noite adentro, o vizinho Museu Jorge Amado, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e outras mansões coloniais, quase poderíamos pensar que estávamos num qualquer lugar de África.

Após vasta operação de restauro nesta praça, brota no Pelourinho uma espécie de revolução cultural afro-brasileira: cultos e ritos oriundos de África como o candomblé e a umbanda animam o seu quotidiano. Muito visitada é também a catedral erguida no século XVII, assim como a antiga Igreja do Colégio dos Jesuítas, com os altares laterais e pinturas sacras de minucioso labor. Aqui, o espaço interior transmite uma sensação de austeridade e frieza, contrastando com a vizinha Igreja dos Franciscanos. Nesta, a talha integralmente revestida a ouro e uma infinidade de anjinhos nus e figuras de santos fazem dela a mais exuberante igreja barroca brasileira.
“Toda a sensualidade do barroco encontra aqui a sua expressão”, constata o especialista salvadorenho, Carlos Ott, “e não era fácil pregar a moderação nos púlpitos.” 
Grandes murais de azulejos ilustrando temas religiosos, mas também filosófico-éticos ornamentam o claustro do Convento do Franciscanos. Neste monumento de arte sacra não se podem ignorar os aforismos latinos sobre os valores e a moral, a inconstância e a paixão.

A mais popular e mais celebrada igreja de Salvador é a Igreja de Nosso Senhor Bom Jesus do Bonfim, à noite iluminada com colorido de gosto duvidoso e destino de uma procissão sempre realizada em princípios de janeiro, à qual acorrem dezenas de milhar de pessoas. Nessa altura, mulheres vestidas de branco lavam a escadaria da igreja com água perfumada: o Senhor do Bonfim é, para os negros da Bahia, Oxalá, o deus da fecundidade e é apenas em sua honra que inúmeros habitantes se vestem de branco à sexta-feira. O que acontece à volta desta igreja faz frequentemente lembrar um parque de diversões. O que se ouve não são corais devotos mas ritmos quentes de algumas bandas de samba. No espaço à direita, ao lado do portal, todos aqueles a quem o Senhor contemplou com um milagre deixaram ficar fotografias ou presentes. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

BRASIL, by Cazuza


O Brasil completa hoje 497 anos de liberdade. O famoso grito do Ipiranga tornou um dos mais maravilhosos povos do planeta dono do seu destino. Hoje o Brasil procura novo e definitivo grito libertário, que lhe devolva o sonho. Hoje o Brasil luta contra a corrupção, contra o abuso do poder, contra o engano. É uma luta dolorosa porque é feita contra alguns dos filhos mais queridos da nação brasileira.
Neste dia tão especial para todo o brasileiro, escolhi uma música do falecido e polémico roqueiro Cazuza, “Brasil”.
A música composta em parceria com Nildo Romero e George Israel, em 1988, é um irónico protesto contra a hipocrisia da política e da elite brasileira. O tema tornou-se num dos grandes sucessos do cantor e foi reinterpretado por Gal Costa para a telenovela “Vale Tudo”.


O desafio lançado pelo cantor – “Brasil mostra a tua cara” – parece finalmente aceite pelos seus conterrâneos que parecem totalmente disponíveis para se confrontarem, para conhecer as feias entranhas do poder.
A coragem com que confrontam os seus dirigentes, até aqueles que serviram de ídolos, é uma grande prova de maturidade e humildade.


Cazuza perguntava há mais de vinte e cinco anos “Brasil qual é o teu negócio?”, e hoje a resposta parece evidente: liberdade, democracia, mas acima de tudo verdade.
Acho soberba e cheia de significado a última estrofe da canção:
“Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
(Eu vou te trair)”
Relevo duas ideias: o amor do brasileiro à sua pátria. Inquestionável, forte, eterno. A antítese entre “grande” e “desimportante”, sugerindo que não é o tamanho que torna um povo relevante, mas a clareza e limpidez do seu caminho politico, económico e social.
Hoje resolvi lembrar Cazuza porque este polémico e ácido cantor brasileiro amava tanto o seu povo que era incapaz de lhe esconder as feridas do corpo.
A grandeza de um país também se mede pela amplitude da alma e dos valores dos seus filhos.   
Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O FIM DA ESCRAVATURA NO BRASIL


A 13 de maio de 1888, finalmente, foi promulgada a lei que aboliu a escravatura no Brasil. A Lei Aurea foi um marco importante na história do Brasil, de tal modo que o dia de hoje foi feriado nacional até 1930, altura em que Getúlio Vargas, qual déspota iluminado, a retirou do calendário oficial.
A questão que me assaltou de imediato quando reparei na data da lei foi: por que demorou tanto o Brasil a abolir a escravatura? Não é admissível que só seis décadas depois do grito de Ipiranga os brasileiros tenham libertado o seu amado país de uma das mais ignominiosas “leis” que regeram povos e mais povos ao longo dos séculos.

Afinal, a escravatura não era apenas um pecado original dos povos colonizadores. A escravatura foi (e nalguns pontos do globo ainda continua a ser) um vírus que se instalou na alma de muitos homens e mulheres que não assimilaram corretamente o que significa “dignidade” e como este valor é indissociável do de “humanidade”.
O Brasil demorou tempo, mas conseguiu chegar a um tempo em que se pôde olhar ao espelho sem sentir vergonha e isso é uma vitória civilizacional que deve ser assinalada.

Esta libertação da escravidão foi um processo gradual, o que foi uma pena. Primeiro, proibiu-se o tráfico, depois libertou-se os filhos dos escravos e, finalmente, arranjou-se coragem, que faltou durante séculos, para devolver a plena condição de pessoas a 720 mil escravos que seres sem qualificação usavam como objetos.
Nessa altura, os escravos representavam 5% da população brasileira, mas umas décadas atrás eram o dobro, e os políticos brasileiros não tiveram a coragem nem a força para afrontar os ricos e poderosos fazendeiros do país. Os mesmos que construíram a sua riqueza e poder à custa do trabalho e do esforço dos escravos.
Quando esta lei entrou em vigor, estes “senhores” ainda tiveram a distinta lata de pedir uma indemnização por lhes retirarem mão-de-obra que trabalhava gratuitamente. Na verdade, o correto seria eles pagarem àqueles homens e mulheres tudo o que lhes ficaram a dever durante décadas e indemnizá-los pela maneira indigna como dispuseram das suas vidas.

O que se passou no Brasil inseriu-se num amplo movimento de libertação de escravos no continente americano, que teve os EUA como epicentro mais mediático. No entanto, só no final do século XX, a América ficou completamente livre da doença esclavagista.
Quando olhamos para trás, muitos interrogam-se “Como foi possível?”, outros questionam-se somente “como foi possível esperar tanto tempo?”, mas, talvez tenhamos de concluir que a escravatura não é ainda um vírus erradicado, mesmo entre países que aboliram esta monstruosidade há mais de um século. As ervas daninhas que sustentaram este cancro civilizacional ressurgem aqui e ali, especialmente em momentos de crise económica, em que alguns seres humanos (???) não vislumbram outra maneira, para solucionar a sua impotência, que não seja usar o seu semelhante como objeto. Vemos isso em algumas propostas de trabalho, vemos isso em algumas teorias económicas, vemos isso em alguns discursos políticos.
A solução é mantermo-nos vigilantes e dar luta a todas as tentativas dissimuladas de implementar algo que se assemelha à escravatura.
Os homens e mulheres verdadeiramente livres e dignos não podem permitir que a humanidade seja escrava de ideias tão ignóbeis.

Gabriel Vilas Boas