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terça-feira, 20 de setembro de 2016

O TEMPLO DE OURO, em Quioto

A antiga Heian, hoje Quioto, foi a residência da corte real nipónica durante onze séculos (794 a 1868). Foi aí que, por volta do ano 1000, Murasaki Shikibu, dama de honor da corte, escreveu uma das mais belas obras da literatura japonesa e mundial – Ditos de Genji.
Trata-se de uma crónica da vida da corte, célebre pela fina psicologia dos retratos, que tornaram Shikibu a primeira romancista da história.

Quioto foi um local com uma vida refinada e fulgor artístico, mesmo durante os anos de instabilidade política.
 O Pavilhão do Ouro, construído no final do século XIV (1397), pelo xógun (uma espécie de primeiro-ministro e líder militar) Ashikaga Yoshimitsu comprova-o.


Após a morte do xógun, o pavilhão foi transformado em templo budista. Este templo, com mais de seis séculos de existência, possui uma enorme beleza arquitectónica, que acabou por ser reconhecida pela Unesco ao torná-lo património da humanidade.
Este belíssimo edifício foi construído segundo o estilo shoin com tatamis, paredes e divisórias móveis que foram reproduzidas em vários edifícios.
O Pavilhão (templo) do Ouro é composto por três andares de diferentes estilos, mas que se articulam magnificamente, formando um todo harmonioso.
O andar térreo tem uma estrutura em madeira e gesso, contrastando com os andares superiores. O segundo andar exibe uma fachada em estilo Bukke, típica dos castelos samurais e o terceiro andar inspira-se no salão chinês. No topo do templo é possível observar uma fénix em ouro.
Infelizmente, os visitantes não podem visitar o templo, mas podem-no observar com toda a minúcia e atenção do exterior e vislumbrar, através da varanda do primeiro andar, as estátuas budistas que existem no seu interior.

A fineza e subtileza da arte japonesa influenciaram bastante o mundo ocidental, especialmente no final do século XIX, com o surgimento da Arte Nova e depois da Art Déco, cuja estética se inspira na peculiar maneira de observar a arte pelos nipónicos. 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O UMBIGO DO MUNDO – Ruínas de Delfos


“Ele haveria de arrasar um grande império quando atravessasse o rio fronteiriço, Halys”

No século VI a.C., Creso, o rei dos Lídios, decidiu dar ouvidos a esta profecia dos oráculos de Delfos, na esperança de vencer a inimiga Pérsia. O oráculo cumpriu-se, mas não de acordo com a suposição do rei lídio, porque foi Creso a perder o seu reino para os persas!
Tais ambiguidades dos oráculos, parcialmente anunciados em versos pelos sacerdotes do templo de Apolo não eram uma raridade, até porque a interpretação das palavras dos sacerdotes ficava a cargo dos… visitantes, pois “o senhor a quem pertence o oráculo de Delfos nada diz e nada esconde, apenas dá sinais”. A necessidade de tais sinais, como orientação e garantia para as ações futuras, já era muito importante na Antiguidade e por isso o santuário de Apolo tornou-se no mais importante santuário da Grécia.

Visitantes individuais ou enviados de Corinto, Eubeia e Rodes vinham até aqui, em peregrinação, em busca de um bom conselho.
A fundação do duplo reino de Esparta ficou a dever-se ao oráculo de Delfos tal como a destruição da armada persa em Salamina, no ano de 480 a.C., devido a um violento temporal.
O consulente que, nestes tempos, subia o caminho sagrado do oráculo, passava por grupos de esculturas, oferendas consagradas e casas de tesouro, doadas por visitantes, reconhecidos, a quem também não era alheio o desejo de mostrar glória e poder. Restos destas construções - como o baixo-relevo da Casa do Tesouro de Sikyon, o friso jónico da Casa do Tesouro de Sifnos, a Casa do Tesouro dos atenienses – sobreviveram até aos nossos dias e documentam a influência de Delfos,  a qual se aplicava na colonização, nas guerras, na fundação de cidades, na elaboração de leis fundamentais.

Não é por isso de espantar que muitas guerras se tivessem travados pelo domínio de Delfos nem que os tesouros que o templo guardava fossem objeto de inúmeras tentativas de pilhagem.
A profecia em si mesmo tinha lugar no Templo de Apolo. Logo na porta de entrada podia ler-se nas paredes as sentenças dos “sete sábios”, tais como: “Nada em excesso”, “Conhece-te a ti mesmo”.

 A cerimónia profética era certamente um espetáculo impressionante. Logo de início, o desejo devia ser proferido em voz alta. A suma sacerdotiza ou pítia anunciava, então, a vontade de Zeus: sentava-se na trípode sobre uma fenda aberta na terra, da qual saiam inebriantes vapores que faziam a eleita entrar em transe.
Durante o processo a pitonisa tocava a chamada pedra umbilical, centro primitivo do mundo, tal como fora apurado por Zeus, plano de interseção entre a terra e o céu.
A interpretação e exegese das profecias eram então efetuadas pelos oficiantes do sexo masculino do santuário.
Graças a estas profecias, Delfos converteu-se no centro espiritual do mundo grego e os seus patronos dispunham de uma ascendência considerável sobre a cultura e a política em todo o mediterrâneo oriental.

Reza o mito que, na fonte sagrada de Delfos, já desde os tempos muito remotos, se realizavam cultos dedicados à mãe-terra, Gaia. Conta-se que, mais tarde, Apolo se apossou do santuário depois de ter matado a serpente Píton, guardiã do oráculo, sem contudo ter reprimido completamente o antigo culto de Gaia e do seu esposo Poseidon. Até mesmo o deus Diónisos manteve o seu lugar no santuário; daí que durante os meses de inverno, quando Apolo abandonava o seu centro de culto, fossem celebradas festas em honra de Diónisos.

Desde o princípio que, no local do oráculo, se realizavam festivais, os chamados Jogos Píticos, onde a par de competições de ginástica e de música, passou, mais tarde, a existir representações de tragédias. Nestas festas participavam cidadãos de todo o mundo grego de então, depois dos enviados do santuário de Delfos terem previamente anunciado um “trégua sagrada” em todo o país.

A importância do santuário de Delfos para a humanidade foi reconhecida em 1987, quando a Unesco declarou o Templo de Apolo, o Oráculo de Delfos, o Teatro, a Fonte de Castália, o Gymnasium e o Santuário de Atena Pronaia como Património Cultural da Humanidade.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

CENTRO HISTÓRICO DE SÃO SALVADOR DA BAHIA


O maior e o mais valioso (do ponto de vista arquitetónico) conjunto barroco da América Latina é simultaneamente um baluarte da música afro-americana. Mas a terra que viu nascer Jorge Amado é muito mais que isso: é um local exótico, mágico, depravado como nenhum outro do país do carnaval.
São Salvador da Bahia, mais propriamente o seu centro histórico, é  Património da Humanidade há trinta anos. Ninguém o descreveu de maneira tão certeira e naturalista como Jorge Amado como também ninguém o cantou com tanto humor como Dorival Caymmi
“Quem não gosta de samba
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente de pé.”

Uma das peculiaridades arquitetónicas de São Salvador são as suas 170 igrejas, uma boa parte delas pré-fabricadas em Portugal. Isto acontecia porque os galeões que viajavam de Portugal em direção à terra de Vera Cruz seguiam quase vazios de mercadorias e por isso os blocos de pedra cuidadosamente numerados e as estátuas de mármore eram bem acolhidos a bordo.
Mesmo ao lado dos embarcadouros do porto, ainda hoje pitorescos, encontra-se uma pérola arquitetónica – a Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia, com as suas duas torres e uma invulgar pintura do teto, usando a técnica do trompe l’oeil. A uma distância de poucos metros deparamo-nos com outro chamariz da Cidade Baixa – o Mercado Modelo, hoje gigantesca feira de artesanato. Nas imediações e ao longo do dia, jovens negros fazem demonstrações de capoeira, empolgante dança marcial criada pelos primeiros escravos trazidos para o Brasil, a fim de se defender da prepotência dos feitores e da polícia.
Íngremes ladeiras levam-nos à Cidade Alta, zona mais atraente, e onde se situam museus e palácios, mas quase todos os turistas preferem usar o “Elevador Lacerda”, inaugurado em 1930, e dirigir-se para o Largo do Pelourinho, construído em plano inclinado, e cujo nome vem dessa estaca de pedra onde se acorrentavam escravos. Nele eram açoitados e expostos durante dias inteiras por ofensas de pouca monta.
Quando, nos dias de hoje, as famosas bandas afro-brasileiras Oludum ou Timbalada, com os seus oitenta ou mais percussionistas, fazem vibrar noite adentro, o vizinho Museu Jorge Amado, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e outras mansões coloniais, quase poderíamos pensar que estávamos num qualquer lugar de África.

Após vasta operação de restauro nesta praça, brota no Pelourinho uma espécie de revolução cultural afro-brasileira: cultos e ritos oriundos de África como o candomblé e a umbanda animam o seu quotidiano. Muito visitada é também a catedral erguida no século XVII, assim como a antiga Igreja do Colégio dos Jesuítas, com os altares laterais e pinturas sacras de minucioso labor. Aqui, o espaço interior transmite uma sensação de austeridade e frieza, contrastando com a vizinha Igreja dos Franciscanos. Nesta, a talha integralmente revestida a ouro e uma infinidade de anjinhos nus e figuras de santos fazem dela a mais exuberante igreja barroca brasileira.
“Toda a sensualidade do barroco encontra aqui a sua expressão”, constata o especialista salvadorenho, Carlos Ott, “e não era fácil pregar a moderação nos púlpitos.” 
Grandes murais de azulejos ilustrando temas religiosos, mas também filosófico-éticos ornamentam o claustro do Convento do Franciscanos. Neste monumento de arte sacra não se podem ignorar os aforismos latinos sobre os valores e a moral, a inconstância e a paixão.

A mais popular e mais celebrada igreja de Salvador é a Igreja de Nosso Senhor Bom Jesus do Bonfim, à noite iluminada com colorido de gosto duvidoso e destino de uma procissão sempre realizada em princípios de janeiro, à qual acorrem dezenas de milhar de pessoas. Nessa altura, mulheres vestidas de branco lavam a escadaria da igreja com água perfumada: o Senhor do Bonfim é, para os negros da Bahia, Oxalá, o deus da fecundidade e é apenas em sua honra que inúmeros habitantes se vestem de branco à sexta-feira. O que acontece à volta desta igreja faz frequentemente lembrar um parque de diversões. O que se ouve não são corais devotos mas ritmos quentes de algumas bandas de samba. No espaço à direita, ao lado do portal, todos aqueles a quem o Senhor contemplou com um milagre deixaram ficar fotografias ou presentes. 

sábado, 1 de agosto de 2015

CENTRO HISTÓRICO DE FLORENÇA


Florença é a cidade italiana que mais me apaixona e a primeira que visitarei. Desde 1982 que a Unesco classificou o seu centro histórico como Património da Humanidade, pois a cidade da Toscânia é um símbolo do renascimento. “Cittá d´Arte”, com o seu Baptistério, as suas icónicas igrejas (Santa Maria Del Fiore, San Miniato, Santa Croce), os mauoléus dos famosos filhos da terra e, claro, o Palazzo Pitti, que guarda obras-primas de Giotto,Botticelli e Michelangelo. No entanto, Florença não é uma cidade fácil. A aristocracia traz beleza e distanciamento.
Dante, impedido de voltar à sua cidade natal, nem sequer foi autorizado a aí encontrar repouso. Só tardiamente a pátria o homenageou com uma lápide em Santa Crocice. Na basílica gótica dos franciscanos, encontram-se os túmulos do pintor Michelangelo, do astrónomo Galileo Galilei, do teorizador político Niccolò Macchiavelli e do compositor Giochino Rossini: um panteão digno da capital do país.


Mas para Florença, tal como para Turim, foi impossível manter esse estatuto. Apesar de tudo, a transferência do rei para Roma em 1871, não provocou uma rutura no desenvolvimento da metrópole toscana como a ocorrida seis antes na cidade de Piemonte. Como uma sólida consciência de si própria, Florença é inabalável.


A cidade que, apesar da abundância de beleza, não é calorosa nem aberta, também não possui a ambição de Milão, que em muitos domínios procura fazer frente a Roma.
Para muitos fiorentini, a sua cidade, inegavelmente esplendorosa e autosuficente, continua a ser a capital secreta de Itália. Este orgulho manifesta-se de forma insuperável nos eventos culturais, como o festival anual “Maggio Musicale”, ou em ocasiões extraordinárias de colóquios internacionais em que a cidade ativa toda a magnificência dos Médicis. Quando, por ocasião de uma festa nos jardins iluminados de Boboli, junto do Palazzo Pitti, o centro da cidade, na outra margem do Arno, a um nível um tanto inferior, brilha à luz dos archotes e até mesmo o Palazzo Vechio causa uma impressão amigável. Florença, orientada para a europa como centro do Renascimento, gosta de se celebrar, por isso parece ser de somenos que a capital efetiva do país se tenha mantido em Roma. 

Em noites quentes, os degraus da igreja renascentista do Santo Spirito, com a sua fachada extravagante, estão cheios de gente como cadeiras de uma casa de espetáculo com lotação esgotada. Um teatro insólito porque atores e espetadores são uma e a mesma coisa. Ver e ser visto, discorrer e dar à língua, estar sentado e ir-se embora – não se passa nada de especial. Mas é assim que a cidade é habitada, ocupada, como se as pessoas se sentissem seres especiais por fazerem parte dela. O mesmo acontece noutros pontos de Florença, como por exemplo a Piazza Santissima Annunziata com os estudantes da vizinha Universidade e a Academia de Arte.
Florença é cumulada de superlativos. Em que outro sítios podemos encontrar tantas atrações turísticas no estreito espaço de rígidos quadrados que atestam a origem clássica (romana) do planeamento urbano? Em que outro lugar foram contratados tantos artistas de excelência para tomar parte na obra de outros artistas de excelência e a concluir?
A Catedral Santa Maria del Fiore, imponente entre ruas menos grandiosas domina, de longe, o perfil da cidade, quer seja vista de fora quer contemplada do terraço da Piazzale Michelangelo. A grandiosa cúpula de Fillippo Brunelleschi parece ser a resposta arquitetónica às colinas na orla da cidade. Mesmo defronte da catedral, que nasceu lentamente entre o estilo gótico e renascentista, o campanile de Giotto e as portas de bronze da autoria da Ghiberti provocam a nossa atenção.
Os ricos senhores da cidade não se deram por satisfeitos ao criar a beleza ou incubir alguém de a fazer. A sua febre de colecionar era proverbial e, aparentemente, ilimitada. Com um mecenato tão vaidoso, muitos curiosos foram atraídos a Florença. Fica alguma coisa deste excesso de beleza? Terá o espectador capacidade de absorção? Ou será a que a cidade pode levar à doença como escreveu Thomas Mann há mais de um século em “Morte em Veneza” ou dar a volta ao juízo, como anotou o francês Stendhal há quase dois séculos?

Após duas semanas na cidade, o poeta alemão Rainer Maria Rilke escreveu: “Florença não se abre com quem passa, como é o caso de Veneza.” Palazzi sombrios, lojas elegantes e caras, o dinamismo do artesanato já antigo, mas sobretudo uma esforçada atividade  de verrestauro são indícios de que Florença não é uma cidade calorosa. Nesta civilização reina o sentido da medida, da racionalização, mas este rigor é atenuado pela omnipresente ironia toscana.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

MONTE SAINT-MICHEL



No norte de França, mais propriamente na Normandia, mora um dos grandes tesouros arquitetónicos e culturais da humanidade: o Monte Saint-Michel e a sua baía circundante.
Desde de 1979 que a UNESCO considera aquele “rochedo cristão no meio da ressaca” uma obra de arte integral, no estilo gótico, bem adaptada a uma localização pouco comum.
O Monte de Saint-Michel compreende o Mosteiro com fortificações em forma de caracol, com as suas dependências para monges, assim como a igreja abacial, com um coro em estilo tardio-gótico.
Este mosteiro alcançado num rochedo e aparentemente retirado do mundo é o mais impressionante de todo o ocidente.

A acreditar na tradição cristã, em 708, o arcanjo São Miguel teria incumbido São Aubert, bispo de Avranches, de construir uma capela sobre um rochedo que se elevava do mar como um cone de granito.
Mais de duzentos anos depois, em vez de uma capela, nasceu um mosteiro, cujo desenvolvimento foi incentivado pelos duques normandos. Década após década, o Monte de Saint-Michael foi crescendo, pois nele se construiu e reconstruiu até que o monte se ergueu como sublime santuário.
Durante a Guerra dos Cem Anos, o Mosteiro foi dotado de uma muralha fortificada, o que em nada afetou o carácter sagrado do edifício. Muitas vezes o Monte de Saint-Michel parece uma cortina de fogo sobrenatural, um monte de granito coroado por uma torre resplandecente à luz do sol poente.

Contudo, a situação isolada e o mar circundante encerravam também um grande risco para os devotos romeiros, que tinham de atravessar o baixio por sua conta e risco para alcançar o monte do mosteiro. O que, tendo em conta as traiçoeiras areias movediças e um desnível entre marés que ronda os 13 metros, significava um grande perigo. O conselho dado, com humor negro, “ Se fores ao Monte, não te esqueças de fazer testamento” alude aos numerosos peregrinos que encontraram a morte na ressaca. Só desde o século XIX o Monte da Abadia de Saint-Michel está ligado a terra firme por um dique. No entanto, isto levou ao progressivo assoreamento da baía. Por isso só duas vezes por mês, na lua cheia e na lua nova, o Monte fica cercado pelas águas.

Se na Idade Média os peregrinos vinham aos milhares, hoje em dia são mais de dois milhões de turistas que anualmente se deixam atrair pela magia do Monte-Mosteiro. Em consequência, é grande movimentação na rua principal da aldeia homónima, cujas casas, apertadas umas contra as outras se colam às muralhas da fortificação. Só depois do sol se pôr, quando os poucos habitantes da aldeia e os trinta ou quarenta visitantes instalados nos hotéis, deambulam pelas ruas, o ambiente convida à reflexão.
Para se chegar ao mosteiro tem de se empreender a árdua escalada de numerosos degraus até se chegar ao portão de acesso. A coroar o ponto mais alto do monte encontra-se a igreja abacial tardo-gótica, cujo portal principal dá para um terraço panorâmico. Contudo, a pérola arquitetónica do conjunto é o claustro com as suas graciosas arcadas ogivais – um lugar de meditação que parece flutuar entre o céu e o oceano. O claustro faz a ligação dos edifícios góticos de três andares que compõem a abadia com o refeitório de abóbada cilíndrica e a sala do capítulo. Este complexo é denominado “la merveille de l’Occident”, tributando um reconhecimento ilimitado à mestria arquitetónica da construção. E, na verdade, o encadeamento e a sobreposição labiríntica das salas e das criptas são uma maravilha da arquitetura.

Já é praticamente inimaginável que, depois da Revolução Francesa, a “ilha devota” tivesse servido, durante várias décadas, como prisão estatal. Em conformidade com a máxima “Medo da Lei em vez de medo de Deus; célula prisional em vez de célula monacal”, o estado francês esperava que os edifícios sagrados contribuíssem para formar “pessoas melhores”. Só devido a uma iniciativa do escritor Vítor Hugo a prisão foi encerrada em 1863 e o Monte Saint-Michel declarado património nacional de França. Porém, foi preciso que voltassem a passar mais um século para que, no monte do mosteiro, se viesse de novo estabelecer meia dúzia de monges beneditinos.     

  

quarta-feira, 1 de julho de 2015

CASTELO DE CHAMBORD NO LOIRE


Nunca à humanidade fora dado observar um telhado de castelo tão espantoso: turrículas afuniladas, chaminés e lucarnas debruadas a mármore emprestavam ao edifício, todo ele pompa e esplendor, a aparência de uma emaranhada floresta de pedra, cuja silhueta bizarra se recortava no céu, contrastando com a paisagem primitiva da Sologne. Em toda a parte desabrochava uma plenitude de flores em pedra e, pelo meio, ninfas, faunos e cupidos alados rodopiavam como bacantes.

Em 1547, o rei Francisco I (verdadeiro precursor do absolutismo francês) viu concluído o seu castelo de sonho, a que mais tarde o escritor Bourdeille chamou “uma das maravilhas do mundo”.
Como nenhum outro castelo do Loire, Chambord foi a expressão, em pedra, de uma vontade férrea de autoafirmação. O gigantesco monumento arquitetónico, cujas fachadas ainda se espelham na água dos canais artificiais, era outrora considerado a mais respeitável imagem da realeza.
Contrariando a vontade do arquiteto, Francisco I decidiu instalar o seu castelo de sonho numa zona pantanosa na orla da Sologne, região rica em caça e florestas. Nesse local, onde foram precisos efetuar penosos trabalhos de secagem, o monarca pretendia erguer algo radicalmente novo, ainda mais grandioso e impressionante do que o castelo de Blois e Amboise que provinham dos seus antecessores.

Quanto à identidade do genial criador do Castelo, tudo o que se pode dizer é especular. É provável que o rei Francisco I tenha escolhido o arquiteto renascentista italiano Domenico Cortona. Também Leonardo Da Vinci, que viveu os últimos anos da sua vida em Amboise a convite de Francisco I, deve ter igualmente participado nos projetos.   
Maciças torres circulares encimadas por telhados cónicos, em ardósia, conferem a este exemplar da arquitetura francesa do século XVI a aparência de uma fortaleza medieval.
No entanto, o carácter defensivo do castelo não passa de uma alusão irónica, atendendo às paredes fragmentadas por pilares lisos e às janelas altas segundo o estilo italiano. O objetivo era celebrar, de forma impressiva, o esplendor do poder.

A verdadeira inovação esteve na planta: em forma de cruz grega, do dogon (torre de menagem), com três andares, na medida em que esta configuração fora apenas usada, até aí, em edifícios de arte sacra.
No ponto de interseção dos corredores que definem o traçado, os construtores colocaram uma escada em espiral, provavelmente concebida por Leonardo Da Vinci, em que dois lances se entrançam de forma requintada. Este primor do génio da engenharia permitia aos visitantes do castelo subir e descer escadas sem que os seus caminhos se cruzassem.
Mal se tinham concluído as obras de edificação do corpo central, já Francisco I conseguia convencer o seu maior adversário, o imperador Carlos V, a fazer-lhe uma visita. O rei de França que havia duas décadas se candidatara infrutiferamente ao trono imperial e na sequência de uma ultrajante derrota em Pavia, em 1525, fora prisioneiro de Carlos V, durante algum tempo, recebeu o imperador pomposamente, com jovens donzelas vestidas de ninfas da floresta a semear de flores o percurso do soberano. Carlos V ficou impressionado e viu em Chambord a “súmula do que o talento humano é capaz de realizar”.

Se os sucessores de Francisco I não souberam tirar grande partido do Castelo, já Luis XIV viu em Chambord um local apropriado para representar eficazmente o esplendor do seu poderio como “rei-Sol”. Desabitado desde o século XVIII, Chambord foi extensamente pilhado durante a revolução francesa e, na qualidade de “massa gigantesca de peças inúteis”, quase transformado numa pedreira.
Nos dias de hoje, só um número escasso de salas voltaram a exibir um mobiliário e ornamentos murais que, na sua maioria, provêm dos acervos museológicos, pelo que não transmitem uma imagem genuína da vida na corte de Francisco I. O vasto parque, à volta do qual o estado francês mandou levantar um muro alto, voltou a servir de coutada de caça, mas apenas para altas individualidades convidadas pelo presidente da República Francesa.
Felizmente, em 1981, a UNESCO decidiu promover o Castelo de Chambord, no Loire, a Património da Humanidade. O maior castelo do Loire, com 154 metros de comprimento por 117 metros de largura, tem 440 salas e tantos fogões de sala como dias do ano. Classificado como uma obra-prima do renascimento francês, tem na escada de caracol dupla uma proeza da engenharia ainda hoje é admirada por todos.
Ir ao loire e não ver o Castelo de Chambord é um pouco como ir a Roma e não ver o Papa.
  


sexta-feira, 29 de maio de 2015

EL ESCORIAL – O PODER ABSOLUTO E O RIGOR INQUISITORIAL



Em 1984, a UNESCO classificou o Escorial como Património da Humanidade. Situado nos arredores de Madrid, El Escorial é um monumento da monarquia espanhola do tempo de Filipe II. Palácio, mausoléu de todos os réus espanhóis de Carlos V a Afonso XII e, simultaneamente, Mosteiro da Ordem dos Jerónimos, sendo o conjunto dedicado a São Lourenço.
No meu reino, o sol nunca se põe”, dizia Filipe II, que sucedeu ao imperador Carlos V, senhor dum imenso império que incluía Espanha, os Países Baixos, a Sicília, a Sardenha, Nápoles, Milão e alguns territórios na América do Sul.
Quando subiu ao trono, em 1556, a Espanha encontrava-se no auge do seu poder mundial. Depois de ter promovido a unidade religiosa, espiritual e política na europa, através do Concílio de Trento, era conveniente construir um edifício que desse expressão a tamanha abundância de sol  - “El Escorial”.
Num tempo recorde de 21 anos, concluiu-se o monumento de todas as vaidades que ficou pronto em 1584. No entanto, nada nele evoca a jovialidade soalheira. Diante dele sente-se o poder e o fervor religioso na sua dimensão absoluta.

A ideia de dedicar um mosteiro a São Lourenço já obtivera as graças do monarca, católico convicto, depois da vitória militar sobre a França em 10 de agosto de 1557.
Do juramento feito na altura, saiu um edifício multifuncional: local de oração, sede do governo, centro administrativo, reserva artística e científica, cemitério.
Com a sua estrutura de linhas direitas, completamente despida de ornamentos, El Escorial tem mais de 2.500 janelas e 1200 portas. O complexo sugere, logo a nível exterior, a grelha onde o mártir São Lourenço foi imolado pelo fogo no tempo dos romanos.
A planta do edifício, da responsabilidade dos arquitetos Juan de Toledo e Juan de Herrera, inspira-se na forma desse instrumento de tortura, cuja “pega” corresponde ao palácio privado de Filipe II, que se destaca da estrutura em rectângulo. As quatro torres de esquina representam os apoios da grelha. Não é de beleza que se trata, mas sim de monumentalidade.

Rígido e intransigente, como o sistema repressivo da inquisição que se viveu no reinado absolutista de Filipe II, El Escorial ergue-se no meio de uma paisagem montanhosa, com os seus dois elementos fundamentais: palácio e mosteiro.
As irregularidades do terreno são compensadas com a adição de caves suplementares. Sob o telhado do Escorial estão reunidas 12 claustros, 300 celas monacais, 16 pátios interiores, 86 escadarias e 88 fontes – mais do que se encontra em algumas cidades. Em todos os locais se sente a ambição de monumentalidade que esteve na génese deste projeto arquitectónico.
A aparência ascética contrasta violentamente com o fausto e luxo do interior. Filipe II não olhou a despesas e convidou os melhores artistas para criar tetos abobadados, telões de tapeçaria e pinturas magníficas que decoram as paredes de modo extraordinário. Do círculo de pintores eleitos fizeram parte Velasquez, El Greco, Goya, Hieronymus Bosch, Piter Paul Rubens.

Na basílica, na sacristia, nas salas do capítulo e na biblioteca tem-se a sensação de estar no museu do Prado, na secção das melhores pinturas antigas.
Para a decoração interior trabalhou-se «apenas» com materiais preciosos: mármores de diversas cores, madeiras nobres seleccionadas, marfim, ouro, prata e bronze esmaltado. No palácio real dos Boubons, Filipe II deixou que o seu designer desse largas ao seu pessoalíssimo gosto pelo rococó, por isso aí se podem ver valiosos Gobelins, castiçais, candelabros, porcelanas, espelhos e relógios. Na biblioteca há mais de 3000 preciosidades bibliográficas das áreas da ciência e da cultura.

O quarto do rei, que sofria de gota, está situado mesmo ao lado da igreja, permitindo-lhe assim assistir à missa da própria cama.
No frio coração da necrópole em granito encontra-se o marmóreo Panteão dos Reis, no qual repousam os restos mortais de quase todos os monarcas espanhóis.
O granito cinzento é também o material usado na construção do mosteiro. Este material foi extraído dos flancos da Serra de Guadarrama, em cujo sopé se encontra o Escorial, cercado por florestas de carvalhos e extensões de salgueiros.

A escolha de Filipe II para erigir o seu palácio recaiu na povoação de San Loureço de El Escorial e a Silla del Rey (uma colina na Serra de Guadarrama) passou a ser o local onde o rei seguia os trabalhos de construção. Nos nossos dias, são também os madrilenos que se refugiam no Escorial quando querem virar as costas à cidade.     

sexta-feira, 22 de maio de 2015

RUÍNAS DE PALMYRA, NA SÍRIA


Quando no século VII, os árabes muçulmanos entraram em Palmyra, a cidade das Palmeiras, as grandiosas ruínas desta urbe, no oásis, colocaram-lhes uma série de questões.
Quem edificara tão poderosa arquitetura com as suas numerosas colunas? Acharam que dificilmente se poderia atribuir a mão humana tão grandiosa obra, daí que se pensasse no bíblico rei Salomão como construtor, de quem se julgava ter espíritos demoníacos às suas ordens. Esta crença prolongou-se até ao século XX.

O Ocidente redescobriu Palmyra por volta de 1620, através do italiano Pietro de la Valle. A grandiosidade das suas ruínas sempre causou um grande impacto entre os visitantes, e muitos deles teceram as mais variadas considerações acerca de como Palmyra havia chegado àquele estado.
Desde tempos imemoriais que o oásis a que os Árabes chamam Tadmur oferecia uma fonte abundante de água potável, tornando possível a vida em pleno deserto. E durante o século I a.C., com o poder nas mãos de abastadas famílias de mercadores, Palmyra ascendeu a um estatuto de metrópole do deserto. Caravanas de camelos transportavam até aqui mercadorias da China, Arábia e Índia, e partiam de Palmyra com produtos oriundos de vários pontos do império romano. Graças aos tributos que lhe era imposto, este rendoso comércio encheu os cofres da famosa Cidade das Palmeiras.

A sua riqueza tomou forma numa impressionante arquitetura monumental, que contrasta com a aridez do deserto circundante, dando-lhe ainda um encanto suplementar.
Contemplando o oásis em 1917, o arqueólogo alemão Wiegrand referiu entusiasmado: “Palmyra é a paisagem heróica mais grandiosa que alguma vez vi na minha vida”.
A realização arquitetónica mais importante da cidade era o Templo de Baal, um antigo deus sírio considerado como o senhor dos céus. Esta maravilha da arte sacra, cuja edificação exigiu mais de um século, era cercada por uma imponente muralha. Quem a pretendesse contornar teria de percorrer mais de um quilómetro.    
No centro do recinto sagrado erguia-se o templo do deus, construído sobre um pódio e cercado de colunatas.
Apesar de a arquitetura seguir o cânone grego, o rito manteve-se estritamente oriental, representando, de algum modo, a união entre o oriente e o ocidente.

A grande via de colunas, com a sua porta de arco e o tetrápilo diverge do modelo greco-romano, devido às suas múltiplas mudanças de direção.
Apesar da adoção das regras clássicas, os habitantes de Palmyra permitiram-se uma certa abertura em termos urbanísticos. Templos consagrados a Nabu, deus mesopotâmico da sabedoria e da arte da escrita, ou a Baal Chamim, integram-se num reticulado de ruas que seguem o modelo grego.
Fontes ornamentais, termas e um teatro eram lugares de receção à moda mediterrânea.
Da “espargata cultural” da cidade de Palmyra no oásis dá testemunho o acampamento de Diocleciano, na parte oeste da cidade: no centro deste campo bélico com blocos de casernas, terreiro de paradas e um santuário de militar, erguia-se um templo dedicado à antiga deusa árabe, Allat.

A autonomia política foi sempre uma preocupação menor de Palmyra, comparada com a busca da independência económica. Contudo, depois de se ter separado de Roma, e, mediante campanhas vitoriosas, ter alargado as fronteiras do seu reino até ao Egito e à Anatólia Central, a rainha Zanóbia reclamou para o filho o título de imperador romano. A esta reivindicação, Roma respondeu com um contra-ataque: em agosto de 273, Palmyra foi saqueada e destruída e a poderosa rainha foi feita prisioneira e levada à força para Roma.
Seguiram-se centenas de anos de um certo adormecimento, antes de Palmyra se converter, nos séculos XVIII e XIX, num local de peregrinação para exploradores românticos e arqueólogos amadores.

Em 1980 as Ruínas de Palmyra, na Síria, foram classificadas como Património da Humanidade, dada a sua importância como um dos mais relevantes centros culturais da Antiguidade. Há dois dias, o autoproclamado Estado Islâmico tomou o controle total de Palmyra, fazendo todo o mundo temer pela integridade de um dos mais belos e bem preservados tesouros arquitetónicos do Médio Oriente.