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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MIGUEL ÂNGELO ENTREGA O «SEU» DAVID A FLORENÇA


No início do século XVI, um grupo de poderosos mecenas de Florença desafiou o genial Miguel Ângelo a construir uma escultura imponente da figura bíblica de David, para figurar na catedral de Florença, no entanto o seu destino acabou por ser a famosa Piazza della Signoria, em frente ao Palazzo Vecchio pois os artistas florentinos queriam fazer dela o símbolo da defesa das liberdades civis, consagradas na República de Florença, uma cidade-estado que lutavam contra o poder dos Medici e a hegemonia galopante de Roma.

Foram precisos quarenta homens, quatro dias e muitos andaimes, cordas e cilindros para levar a estátua de 5,17 metros até ao coração de Florença. Estávamos a 8 de Setembro de 1504 e Florença encontrava, numa das peças artísticas mais conhecidas de Miguel Ângelo, um motivo de orgulho.


Ao contrário de outras representações de David, Golias é completamente omitido. Miguel Ângelo preferiu destacar a pose confiante de David, própria de quem já tomou a decisão de combater. 
A obra do artista renascentista italiano é também um fabuloso estudo da anatomia humana, pois é possível observa a tensão dos músculos e tendões, a testa franzida, as veias que saltam da sua mão direita. 

A humanidade, a força, a serena decisão de David transpiram da escultura de Miguel Ângelo e levaram a Florença milhões de pessoas, ao longo deste cinco séculos, para a poder apreciar.
No final de 1873, a estátua foi removida da Piazza della Signoria e transportada para a Galleria dell’Accademia de Florença, onde pode ser admirada.

GAVB

sexta-feira, 8 de abril de 2016

DA ARTE, DA PINTURA, DE BOTTICELLI E DE MUSEUS IMPERDÍVEIS

 O Nascimento de Vénus, têmpera sobre tela, 1478, Galleria degli Uffizi

Um vento suave de Primavera emoldurava Florença e ensinava o caminho para os Uffizi. As horas decorriam e tudo se preparava para o encontro mais aguardado por mim. A Galleria estava lá, convidativa, orgulhosa do seu traço Vasariano e dona de preciosas provas do talento e génio artístico do Homem. Sobranceira ao Arno, trocando olhares constantes com a Ponte Vecchio, esta Galleria incontornável em Florença e no Mundo deve a sua existência e a maioria do seu acervo a Anna Maria Luisa de Médici, última herdeira daquela dinastia.

Vista para o Arno a partir da Galleria degli Uffizi
Mulher de visão, compreendeu desde cedo a importância de Florença como cidade fundamental do Grand Tour, já muito praticado pelas elites nobres mundiais como parte integrante da sua formação. O legado de Anna Maria Luísa à cidade, aos florentinos e aos turistas veio contribuir mais ainda para a integração de Florença nos roteiros turísticos culturais italianos e hoje a cidade recebe, em média, seis milhões de turistas anuais. Todos e cada um buscam Florença por um motivo especial. O acervo deste museu é com toda a certeza, um deles. Trabalhos de Giotto, Piero della Francesca, Fra Angelico, Fillippo Lippi, Corregio, Leonardo da Vinci, Rafael, Miguel Ângelo, Caravaggio desfilam perante nós e deliciam-nos. O Corridoio Vasariano de 1565 e que liga o edifício degli Uffizi com o Palazzo Vecchio e com o Palazzo Pitti,alberga uma importante coleção de pintura setecentista e a Collezione degli Autoritratti.
Percorrer este espaço exige preparação física e determinação adequadas; grande dose de concentração também se espera dos visitantes e sobretudo uma enorme força interior. A dimensão do Belo é de tal ordem que os mais incautos ou os mais sensíveis não conseguem evitar chorrilhos de emoções indisfarçáveis… A Sala Botticelli, de que vos quero falar hoje, é particularmente impressionante por isso. Ninguém lhe fica indiferente. A Allegoria della Primavera e Nascita di Venere estão lá, aguardam-nos imponentes, falam connosco, invadem-nos o olhar, cativam-nos pela dimensão, agradam-nos pelo registo da cor, em gradação discreta e paleta suave.

Entrar ali, naquele dia emoldurado de um vento suave primaveril foi emoção única que irei sempre relembrar. Perfumes singelos emanavam de todas as flores, num claro exercício artístico de representação pura da Natureza, tão cara aos renascentistas; perfiladas em tapete bordado sobre as telas gigantes e avassaladoras de Botticelli, as flores também são personagens principais. De entre elas, uma sobressai, a Rosa. Segundo a mitologia clássica, a Rosa, “… cuja fragância é símbolo do amor e cujos espinhos simbolizam a dor que este pode provocar, é a flor sagrada de Vénus e foi criada ao mesmo tempo que a Deusa…”.Tudo isto, numa conjugação harmoniosa de tons suaves, discretos como a própria Vénus, símbolo do amor puro e inocente, pela postura retraída, onde tapa o seu corpo com as mãos, representadas aqui na perfeição.
A deusa, no centro da composição, numa explosão contida de beleza infinita aparece ladeada por Zéfiro e a sua companheira, Flora, que conduzem Vénus para a margem onde a espera uma das quatro Horas, espíritos que encarnam as estações. As vestes identificam a Primavera, pejadas de flores lindíssimas que também cobrem o manto que lhe há de tapar a nudez.
Este tema da mitologia, tão caro ao Renascimento, tem no Nascimento de Vénus um dos seus melhores exemplos. Quero muito voltar. Olhar de novo aquela sala, sentir-lhe o perfume, mergulhar os olhos naquele mar de ondas calmas e naïfs, deixar que Zéfiro e a Primavera abram alas a um novo renascer, colorir-me com o manto aconchegante quase Gabbana que a Hora oferece…
 Será que volto? E vocês? Lembrem-se que vos disse que este é um museu imperdível.

Rosa Maria Alves da Fonseca

sábado, 1 de agosto de 2015

CENTRO HISTÓRICO DE FLORENÇA


Florença é a cidade italiana que mais me apaixona e a primeira que visitarei. Desde 1982 que a Unesco classificou o seu centro histórico como Património da Humanidade, pois a cidade da Toscânia é um símbolo do renascimento. “Cittá d´Arte”, com o seu Baptistério, as suas icónicas igrejas (Santa Maria Del Fiore, San Miniato, Santa Croce), os mauoléus dos famosos filhos da terra e, claro, o Palazzo Pitti, que guarda obras-primas de Giotto,Botticelli e Michelangelo. No entanto, Florença não é uma cidade fácil. A aristocracia traz beleza e distanciamento.
Dante, impedido de voltar à sua cidade natal, nem sequer foi autorizado a aí encontrar repouso. Só tardiamente a pátria o homenageou com uma lápide em Santa Crocice. Na basílica gótica dos franciscanos, encontram-se os túmulos do pintor Michelangelo, do astrónomo Galileo Galilei, do teorizador político Niccolò Macchiavelli e do compositor Giochino Rossini: um panteão digno da capital do país.


Mas para Florença, tal como para Turim, foi impossível manter esse estatuto. Apesar de tudo, a transferência do rei para Roma em 1871, não provocou uma rutura no desenvolvimento da metrópole toscana como a ocorrida seis antes na cidade de Piemonte. Como uma sólida consciência de si própria, Florença é inabalável.


A cidade que, apesar da abundância de beleza, não é calorosa nem aberta, também não possui a ambição de Milão, que em muitos domínios procura fazer frente a Roma.
Para muitos fiorentini, a sua cidade, inegavelmente esplendorosa e autosuficente, continua a ser a capital secreta de Itália. Este orgulho manifesta-se de forma insuperável nos eventos culturais, como o festival anual “Maggio Musicale”, ou em ocasiões extraordinárias de colóquios internacionais em que a cidade ativa toda a magnificência dos Médicis. Quando, por ocasião de uma festa nos jardins iluminados de Boboli, junto do Palazzo Pitti, o centro da cidade, na outra margem do Arno, a um nível um tanto inferior, brilha à luz dos archotes e até mesmo o Palazzo Vechio causa uma impressão amigável. Florença, orientada para a europa como centro do Renascimento, gosta de se celebrar, por isso parece ser de somenos que a capital efetiva do país se tenha mantido em Roma. 

Em noites quentes, os degraus da igreja renascentista do Santo Spirito, com a sua fachada extravagante, estão cheios de gente como cadeiras de uma casa de espetáculo com lotação esgotada. Um teatro insólito porque atores e espetadores são uma e a mesma coisa. Ver e ser visto, discorrer e dar à língua, estar sentado e ir-se embora – não se passa nada de especial. Mas é assim que a cidade é habitada, ocupada, como se as pessoas se sentissem seres especiais por fazerem parte dela. O mesmo acontece noutros pontos de Florença, como por exemplo a Piazza Santissima Annunziata com os estudantes da vizinha Universidade e a Academia de Arte.
Florença é cumulada de superlativos. Em que outro sítios podemos encontrar tantas atrações turísticas no estreito espaço de rígidos quadrados que atestam a origem clássica (romana) do planeamento urbano? Em que outro lugar foram contratados tantos artistas de excelência para tomar parte na obra de outros artistas de excelência e a concluir?
A Catedral Santa Maria del Fiore, imponente entre ruas menos grandiosas domina, de longe, o perfil da cidade, quer seja vista de fora quer contemplada do terraço da Piazzale Michelangelo. A grandiosa cúpula de Fillippo Brunelleschi parece ser a resposta arquitetónica às colinas na orla da cidade. Mesmo defronte da catedral, que nasceu lentamente entre o estilo gótico e renascentista, o campanile de Giotto e as portas de bronze da autoria da Ghiberti provocam a nossa atenção.
Os ricos senhores da cidade não se deram por satisfeitos ao criar a beleza ou incubir alguém de a fazer. A sua febre de colecionar era proverbial e, aparentemente, ilimitada. Com um mecenato tão vaidoso, muitos curiosos foram atraídos a Florença. Fica alguma coisa deste excesso de beleza? Terá o espectador capacidade de absorção? Ou será a que a cidade pode levar à doença como escreveu Thomas Mann há mais de um século em “Morte em Veneza” ou dar a volta ao juízo, como anotou o francês Stendhal há quase dois séculos?

Após duas semanas na cidade, o poeta alemão Rainer Maria Rilke escreveu: “Florença não se abre com quem passa, como é o caso de Veneza.” Palazzi sombrios, lojas elegantes e caras, o dinamismo do artesanato já antigo, mas sobretudo uma esforçada atividade  de verrestauro são indícios de que Florença não é uma cidade calorosa. Nesta civilização reina o sentido da medida, da racionalização, mas este rigor é atenuado pela omnipresente ironia toscana.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

GALLERIA DEGLI UFFIZI - FLORENÇA


Visitar Florença é por si só uma experiência cultural única, mas sair de lá sem ver o tesouro que os Medici deixaram ao mundo é como caminhar de olhos vendados sobre a beleza do mundo.
A GALLERIA DEGLI UFIZZI alberga desde 1973, parte da coleção de autorretratos de pintores (a maior no mundo no seu género), juntamente com uma série de quadros de Caravaggio.
A sugestão oferecida pela arquitetura acompanha o visitante dos Ofícios ao longo de todo o percurso, fazendo deste um museu único no mundo. Passeando no extraordinário miradoiro sobrelevado, que atravessa Florença no seu mais genuíno centro, fica-se com a impressão de se estar num espaço não fechado, mas antes concebido como uma estrutura aberta, capaz de criar um equilíbrio perfeito entre a beleza artística, arquitetónica e paisagística.


A história dos Ofícios é a mesma história do colecionismo dos Medici e dos reinantes que os sucederam, os Lorena. A Galeria conserva ainda hoje intacto, apesar das alterações e acrescentos, o seu carácter único de síntese das vicissitudes políticas, dos enredos familiares e das preferências culturais, de um poder que, através de duas dinastia, e de dois séculos de existência, marcou profundamente a identidade da civilização florentina e toscana.
Enriquecido, no decurso dos tempos, por dotes, heranças, permutas e campanhas maciças de aquisições, o museu foi-se qualificando progressivamente como galeria de pintura. De facto, entre setecentos e oitocentos, os principais núcleos de objetos de natureza não pictórica foram-se transferindo para outros locais, dando origem a novos museus.


Os Ofícios apresentam-se hoje, portanto, como uma das maiores coleções de pintura italiana e europeia, do século XII ao XVII, não deixando, por isso, de acolher preciosíssimas coleções de outro tipo, espelho do interesse de vários membros das casas reinantes da Toscana: miniaturas, estátuas antigas, autorretratos de figuras ilustres, desenhos e estampas. A viagem através dos Ofícios constitui, para qualquer pessoa uma inestimável experiência estética e cultural.
Percorrendo as salas que se sucedem ao longo dos dois braços opostos do edifício, unidos sobre o Arno, podem admirar-se segundo critério cronológico e de divisão por escalas, obras que vão de Cimabué a Giotto e Botticelli, de Simoni Martini a Masaccio, de Piero della Francesca a Dürer,de Miguel Ângelo a Pantormo, de Tiziano a Caravaggio e a Rembrandt.


Aos Medici é tributada a gratidão dos visitantes dos dias de hoje, que lhes reconhecem não apenas a qualidade e a inteligência das opções em matéria de colecionismo, como também o sábio alcance da decisão de Anna Maria Luísa, Eleitora Platina e última representante da dinastia, a qual, em 1737, legou perpetuamente à cidade de Florença, “para ornamento do Estado, para a utilidade do público e para atrair a curiosidade dos forasteiros”, tudo quanto hoje se conversa no interior da Galeria e de muitos outros museus estatais florentinos.