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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

NÃO QUERO CONTINUAR A MENTIR

Em direto, na rádio, sem antes avisar o presidente Macron, o ministro francês da Transição Ecológica, Nicolas Hulot, apresentou a demissão do cargo que ocupava.

«Sim, não estamos a fazer avanços no controlo dos pesticidas, na biodiversidade, na qualidade do solo.»

Decidiu fazê-lo sem avisar e em público, para que não houvesse hipóteses de novamente o dissuadir. 
"Se os tivesse avisado, iam tentar, novamente dissuadir-me!" - disse Holut.

Nicolas Holut assume, com frontalidade, a sua impotência para vencer aqueles que boicotam as urgentes reformas ambientais que a França precisa. E como o ambiente é mais importante que qualquer cargo, vaidade ou conveniência política o ministro francês decidiu sair, pois sempre pode surgir alguém que possa fazer algo de positivo, necessário e urgente.

Holut perdeu a batalha ambiental, mas manteve a dignidade pessoal, já que os seus parceiros do governo boicotaram a sua ação política.

Obviamente que as sociedades modernas não precisam de políticos que percam com dignidade e preferem as ações às demissões, no entanto quando a hipocrisia parece uma doença hereditária no meio político, é bom perceber que ainda há gente capaz de um pequeno sacrifício pessoal para que um bem coletivo maior não se perca. 
Ainda que a maioria dos políticos não se tenha dado conta, falar sempre verdade, em público, é o primeiro passo para uma ação política eficaz e produtiva.

GAVB 

domingo, 15 de julho de 2018

VINTE ANOS DEPOIS, OS FRANCESES VOLTAM A VENCER O MUNDIAL DE FUTEBOL




Vinte anos depois, a seleção francesa de futebol volta a pôr a mão numa Jules Rimet, ou numa versão mais moderna, a FIFA WORLD CUP. 
A seleção de Didier Dechamps foi a mais competente do Mundial de Futebol 2018, realizado na Rússia, do «czar» Putin, mas não encantou. Aliás, nenhuma seleção praticou um futebol fabuloso ou que vai ficar na memória dos amantes do futebol.
A mais «africana» seleção gaulesa de sempre venceu, porque foi eficaz, cerebral, conhecedora dos seus limites. As vedetas Mbappé e Griezmann tiveram a humildade de nunca se sobrepor ao coletivo e por aí também se fez a força dos bleus. Outra lição aprendida foi a soberba. Pogba, Matuidi e Kanté não cometeram o erro de desvalorizar uma seleção principiante em finais, como aconteceu em 2016, em Paris, quando perderam o Europeu, em casa, para Portugal.

A vitória do país de Macron e Zidane começou a desenhar-se na forma categórica como passaram a primeira fase da prova, passando pelo modo seguro com que iluminaram Uruguai e Bélgica, até à vitória final, onde sempre pareceram emocionalmente mais adultos que os croatas, apesar de terem uma média de idades inferior. Ter vivido o trauma de Paris, em 2016, enrijeceu psicologicamente a jovem geração francesa.
Esta seleção não é tão espetacular com a equipa de Zidane, Henry ou Dechamps (Mundial de 1998, Europeu de 2000), mas pode atingir o mesmo patamar, sobretudo, porque atinge a glória ainda longe do zénite das suas potencialidades.
Sobre o resto do campeonato, confirmou-se o suave declínio da equipa portuguesa; a total dependência da seleção argentina do astro Messi, que se encolhe em grandes torneios mundiais, ao contrário do que acontecia com Maradona; o esgotamento tático e mental da seleção alemã; a desorganização do futebol brasileiro, que se arrisca a queimar mais uma geração de futebolistas de eleição sem alcançar a glória suprema do desporto preferido dos brasileiros.

Menções honrosas merecem a Croácia e a Bélgica, que alcançaram os restantes lugares do pódio, atingindo igualmente a suas melhores classificações de sempre. No meu entender aa seleção belga foi aquela que melhor futebol praticou ao longo de todo o torneio. A nível individual, o croata Modric foi justamente distinguido como o melhor jogador do Mundial da Rússia; o francê Mbappé arrecadou a estatueta de melhor jovem jogador enquanto o belga Courtois foi eleito o melhor guarda-redes e o inglês Harry Kane sagrou-se o melhor marcador com seis golos. Distinções consensuais, onde as quatro melhores seleções do Mundial Rússia 2018 estiveram também representadas.  
GAVB

domingo, 8 de abril de 2018

MARIA ANTONIETA - A RAINHA QUE CELEBRIZOU A GUILHOTINA


O outono de 1793 tinha poucas semanas e na praça de Liberdade (hoje Praça da Concórdia, em Paris), as tricoteuses aguardavam, àvidas, a chegada da mais odiada rainha que os franceses tiveram. Maria Antonieta era já um espectro fantasmagórico da rainha esplendorosa que reinara nos últimos anos monárquicos em França. Diante do povo ululante e sequioso de sangue estava uma velha de trinta e oito anos, rendida à evidência
de uma condenação à morte, através da guilhotina.

Dois meses antes, «o julgamento» deixara claro que a outrora senhora de Versalhes era apenas uma “sanguessuga dos franceses”, a “dilapidadora dos dinheiros da nação” e a “instigadora de discórdias e orgias”.

Morreria como o marido, num espetáculo público que tanto fez lembrar os Autos de Fé da Inquisição. Não deixa de ser perturbador verificar como tantos seres humanos se deliciam com o espetáculo macabro da execução de outro ser humano. Quanto mais cruel e desumano mais público parece atrair. Não é algo racional, político ou fruto de uma época. Aconteceu no século XVI como no XVIII ou no século XX, incentivado pela Igreja como pelo povo ou pelo Estado.

O julgamento e a morte de Maria Antonieta é um daqueles momentos que fizeram a História, na medida em que marca o princípio do fim da monarquia, enquanto poder absoluto e efetivo, no velho continente, e concomitantemente o início da República. No entanto, para mim, o grande significado deste momento histórico está no facto de também aqueles que clamavam pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade se mostrarem tão animalescos como um qualquer déspota insensível ou um ditador carniceiro.

Maria Antonieta e Luís XVI expiaram muito mais do que os seus pecados e tornaram célebre uma máquina de morte e tortura, que sempre vi como um dos inventos mais infelizes do ser humano.
A bela austríaca, alienada da realidade, insensível à fome do povo, acabou sem luxos nem fausto, impossibilitada de se despedir do marido (guilhotinado em 20 de janeiro de 1793) e dos filhos, porque a revolução da Liberdade, Igualdade e Fraternidade achou mais importante a vingança que a humanidade.
GAVB

sábado, 31 de março de 2018

TORRE EIFFEL - A DAMA DE FERRO FAZ ANOS

Há 129 anos, os parisienses encheram-se de orgulho com a inauguração de um dos mais emblemáticos monumentos do planeta – a Torre Eiffel.
Atualmente recebe mais de sete milhões de visitantes e na altura em que foi inaugurada passou a ser o monumento mais alto do mundo, com os seus imponentes 300 metros (mais 24 se contarmos a imponente antena de rádio).


Neste ícone parisiense, francês e ocidental tudo é admirável e em tamanho XXL: começou em pouco mais de sete mil toneladas e hoje já chega às dez mil. Para isso muito contribuíram os vários upgrades que lhe juntaram ao longo do último século: museu, restaurantes, lojas, milhares de turistas a todas as horas…
Hoje ir a Paris e não subir à Torre Eiffel é como ir a Roma e não ver o Papa. O verdadeiro check-in do turista, em Paris,  faz-se na Torre do senhor Gustave.

E pensar que tudo isto começou por ser um arco de entrada na Exposição Universal de Paris de 1889, ela própria uma homenagem ao centenário da Revolução Francesa.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

IT IS NOT A NICE DAY

Como seria bom que hoje continuássemos a falar do cabeleireiro de Hollande, da azia francesa pela derrota no europeu de futebol, do excesso de cobertura mediática do Euro 2016, pela imprensa portuguesa, das medalhas do atletismo português, das sanções prometidas por Schäuble por termos uma geringonça de esquerda no governo… mas o assunto do dia é mais um atentado terrorista em França.
A comemoração do dia Nacional de França, em Nice, acabou em tragédia, quando um camião se lançou deliberadamente sobre a multidão, causando dezenas de mortos.
Os franceses começam a perceber o drama que os israelitas vivem há décadas. Parece-lhe sum pesadelo sem fim à vista, pois o terrorismo abdica de qualquer justificação.

Hollande pode reunir os gabinetes de crise que quiser, porque o problema subsistirá. Claro que terá a solidariedade de todos os líderes mundiais, claro que haverá pesarosas declarações de condolências e veemente repúdio destes bárbaros atos de terror, mas creio que será muito difícil encontrar uma política de segurança comum que proteja mais eficazmente os cidadãos europeus. Até porque os terroristas têm alvos bem definidos e a França é o mais fácil de atingir.

Provavelmente Hollande cederá à linha dura e pedirá um controlo mais apertado das fronteiras europeias e deixará passar medidas contra os migrantes. A opinião pública europeia será facilmente convencida que o DAESH chega à europa, com mais facilidade, devido às imensas vagas de migrantes que fogem à guerra e portanto crescerá o ódio e a xenofobia um pouco por todo o lado. Os apoiantes do Brexit, do primeiro-ministro húngaro, da senhora Le Pen encontrarão facilmente novos apoiantes entre o medo que veio para ficar.

Hollande está acossado por todo o lado. Como não é um grande líder, acabará por negar aquilo em que acredita e executará uma política de segurança e emigração dúbias, onde não terá grandes ganhos. Além do mais não contará com a solidariedade da Inglaterra.
Hollande precisa de ideias claras, firmeza e convicção no caminho a percorrer, e sentido de liderança. Ou lidera a resposta ao terrorismo na europa assim como ao problema dos migrantes ou sucumbirá politicamente em poucos meses.
Talvez haja menos gente a apostar no sucesso de François Hollande do que houve na vitória de Portugal no Euro 2016, mas se Eder foi capaz de fazer de herói improvável por que não será Hollande um herói acidental de uma europa em desagregação?

Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

ESTÁTUA DA LIBERDADE


Um dos monumentos que mais admiro é a Estátua da Liberdade. Pelo que ela representa, pela importância que um povo como o americano dá à liberdade, pela imponência do edifício, pela ligação que a sua construção permitiu entre França e EUA, dois bastiões da Liberdade.
A Estátua da Liberdade, oficialmente intitulada “A Liberdade Iluminando o Mundo”, foi construída para comemorar o centenário da declaração de Independência dos EUA.
A sua construção ficou a cargo dos franceses que conceberam uma colossal escultura em bronze. Foi pedido a Gustave Eiffel, autor da célebre Torre Eiffel, que criasse um enorme pilone de ferro e um esqueleto de suporte. Embora permanecesse fixa à sua armação em aço, a estrutura poderia mover-se ao vento. E foi o que aconteceu: desde a sua criação já foram registados ventos na ordem do 80km/hora e sabe-se que a estátua consegue oscilar até 7,6 cm sob pressão.
O pedestal, em que assenta a Estátua, de arenito escocês, foi esculpido nos Estados Unidos. O pedestal é suportado por dois conjuntos de traves de ferro ligados a vigas de ferro que se prolongam até à própria estátua, criando uma ligação forte desde o solo.
Após este ter sido erigido, a estátua foi montada meticulosamente durante quatro meses, peça a peça, como se de uma construção da lego se tratasse. Foram enviadas de França 350 peças individuais, embaladas em 24 caixotes, que formariam a mais célebre monumento à Liberdade do universo.
Com uma altura de 46 metros e um peso de 204 toneladas, a Estátua da Liberdade atrai todos os anos milhões de turistas de todo o mundo que procuram conhecer as entranhas, a história e o simbolismo deste magnífico monumento.
Subindo os seus 354 degraus, chegamos à plataforma de observação, que se situa no topo da estátua e tem espaço para trinta pessoas. Este local fornece uma magnífica vista sobre a lha Liberty, através das 25 janelas da coroa.
Na sua mão direita a Liberdade exibe um facho. Não se trata já do facho original (que se encontra em exposição na entrada), pois em 1986 substituiu-se o antigo facho por um facho iluminado por grandes holofotes que projetam um reflexo assombroso no seu revestimento dourado. Na mão esquerda, a deusa da Liberdade tem a Placa da Lei, na qual está gravada o dia da Independência dos EUA (4-7-1776), em numeração romana.
A Estátua da Liberdade é um dos grandes símbolos dos Estados Unidos e do mundo ocidental, na medida em que elege a Liberdade como um bem essencial e não negociável, que todos devemos respeitar e defender.
Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 1 de julho de 2015

CASTELO DE CHAMBORD NO LOIRE


Nunca à humanidade fora dado observar um telhado de castelo tão espantoso: turrículas afuniladas, chaminés e lucarnas debruadas a mármore emprestavam ao edifício, todo ele pompa e esplendor, a aparência de uma emaranhada floresta de pedra, cuja silhueta bizarra se recortava no céu, contrastando com a paisagem primitiva da Sologne. Em toda a parte desabrochava uma plenitude de flores em pedra e, pelo meio, ninfas, faunos e cupidos alados rodopiavam como bacantes.

Em 1547, o rei Francisco I (verdadeiro precursor do absolutismo francês) viu concluído o seu castelo de sonho, a que mais tarde o escritor Bourdeille chamou “uma das maravilhas do mundo”.
Como nenhum outro castelo do Loire, Chambord foi a expressão, em pedra, de uma vontade férrea de autoafirmação. O gigantesco monumento arquitetónico, cujas fachadas ainda se espelham na água dos canais artificiais, era outrora considerado a mais respeitável imagem da realeza.
Contrariando a vontade do arquiteto, Francisco I decidiu instalar o seu castelo de sonho numa zona pantanosa na orla da Sologne, região rica em caça e florestas. Nesse local, onde foram precisos efetuar penosos trabalhos de secagem, o monarca pretendia erguer algo radicalmente novo, ainda mais grandioso e impressionante do que o castelo de Blois e Amboise que provinham dos seus antecessores.

Quanto à identidade do genial criador do Castelo, tudo o que se pode dizer é especular. É provável que o rei Francisco I tenha escolhido o arquiteto renascentista italiano Domenico Cortona. Também Leonardo Da Vinci, que viveu os últimos anos da sua vida em Amboise a convite de Francisco I, deve ter igualmente participado nos projetos.   
Maciças torres circulares encimadas por telhados cónicos, em ardósia, conferem a este exemplar da arquitetura francesa do século XVI a aparência de uma fortaleza medieval.
No entanto, o carácter defensivo do castelo não passa de uma alusão irónica, atendendo às paredes fragmentadas por pilares lisos e às janelas altas segundo o estilo italiano. O objetivo era celebrar, de forma impressiva, o esplendor do poder.

A verdadeira inovação esteve na planta: em forma de cruz grega, do dogon (torre de menagem), com três andares, na medida em que esta configuração fora apenas usada, até aí, em edifícios de arte sacra.
No ponto de interseção dos corredores que definem o traçado, os construtores colocaram uma escada em espiral, provavelmente concebida por Leonardo Da Vinci, em que dois lances se entrançam de forma requintada. Este primor do génio da engenharia permitia aos visitantes do castelo subir e descer escadas sem que os seus caminhos se cruzassem.
Mal se tinham concluído as obras de edificação do corpo central, já Francisco I conseguia convencer o seu maior adversário, o imperador Carlos V, a fazer-lhe uma visita. O rei de França que havia duas décadas se candidatara infrutiferamente ao trono imperial e na sequência de uma ultrajante derrota em Pavia, em 1525, fora prisioneiro de Carlos V, durante algum tempo, recebeu o imperador pomposamente, com jovens donzelas vestidas de ninfas da floresta a semear de flores o percurso do soberano. Carlos V ficou impressionado e viu em Chambord a “súmula do que o talento humano é capaz de realizar”.

Se os sucessores de Francisco I não souberam tirar grande partido do Castelo, já Luis XIV viu em Chambord um local apropriado para representar eficazmente o esplendor do seu poderio como “rei-Sol”. Desabitado desde o século XVIII, Chambord foi extensamente pilhado durante a revolução francesa e, na qualidade de “massa gigantesca de peças inúteis”, quase transformado numa pedreira.
Nos dias de hoje, só um número escasso de salas voltaram a exibir um mobiliário e ornamentos murais que, na sua maioria, provêm dos acervos museológicos, pelo que não transmitem uma imagem genuína da vida na corte de Francisco I. O vasto parque, à volta do qual o estado francês mandou levantar um muro alto, voltou a servir de coutada de caça, mas apenas para altas individualidades convidadas pelo presidente da República Francesa.
Felizmente, em 1981, a UNESCO decidiu promover o Castelo de Chambord, no Loire, a Património da Humanidade. O maior castelo do Loire, com 154 metros de comprimento por 117 metros de largura, tem 440 salas e tantos fogões de sala como dias do ano. Classificado como uma obra-prima do renascimento francês, tem na escada de caracol dupla uma proeza da engenharia ainda hoje é admirada por todos.
Ir ao loire e não ver o Castelo de Chambord é um pouco como ir a Roma e não ver o Papa.
  


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

LUÍS XVI, A GUILHOTINA E OS FRANCESES

  
 A 21 de janeiro de 1793, Luís Bourbon, antigo rei Luís XVI – que perdera o trono de França quando a monarquia fora abolida em setembro do ano anterior -, subiu ao cadafalso e pôs, serenamente, a cabeça debaixo da guilhotina. Depois do golpe fatal, o mais novo dos guardas, um rapaz com cerca de dezoito anos, agarrou imediatamente na cabeça e mostrou-a ao povo, dando a volta ao cadafalso. A princípio fez-se um silêncio terrível, mas por fim alguém gritou «Vive la République». A pouco e pouco, as vozes multiplicaram-se e em menos de dez minutos este grito tornou-se o brado universal da multidão e todos os chapéus se ergueram no ar.
   Este foi o momento culminante de mais de três anos de agitação em França, ou seja, todo o período que se seguiu à revolução francesa.

 A sentença de morte tinha ficado decidida a 9 de dezembro de 1792, dois dias depois de Robespierre ter declarado que «Luís tem de morrer para que o país possa viver». Ainda que à tangente, a Convenção Nacional votou a favor da execução do anterior rei. No cadafalso, Luís recusou ser amarrado e instou os carrascos a cumprirem a ordem que lhes tinha sido dada.
   A execução do antigo rei de França chocou toda a monarquia europeia e poucos anos mais tarde já a França andava em guerra com Espanha, Inglaterra, Holanda, Prússia e Áustria.  A política de terrorismo de Estado levada a cabo por Robespierre, segundo ele para proteger a República, foi das maiores manchas sobre os ideais da revolução francesa.
   Lembrei-me disto, porque duzentos e vinte anos depois a França aparece como a grande guardiã dos valores da tolerância, da liberdade de expressão, da igualdade e da fraternidade.



   Há poucos mais de duzentos anos, Luís XVI tornou a guilhotina a máquina de morte mais conhecida de sempre. Nesses anos loucos, em Paris, foram decapitadas quase 2800 pessoas! Que número assombroso!
   No país da liberdade, dos ideais iluministas, a revolução da igualdade, liberdade e fraternidade fazia-se com decapitações. Calcula-se que entre 1792 e 1799 tenham sido decapitadas mais de quarenta mil pessoas!
  Não há culturas superiores! O que há é culturas com valores diferentes e, desejavelmente, complementares. A arrogância cultural é facilmente desmentida pela História e, caso pretendamos que outros povos atinjam patamares superiores de humanidade, o melhor é investir no exemplo, na colaboração e paciência.

Gabriel Vilas Boas        

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O VÉU ISLÂMICO



Quarenta e oito horas após os atentados de Paris, a Europa vai ganhando consciência do pesado simbolismo destes tristes acontecimentos. As mortes dos jornalistas do “Charlie Hebdo” trazem novamente à ribalta um problema por resolver e de que França será sempre o palco: a intolerância civilizacional. Há uns anos Sarkozy lançou o debate com a polémica proibição do véu islâmico, mas a sociedade francesa não apoiou cabalmente o seu presidente e o debate essencial ficou, no essencial, por fazer.
O aparecimento do Estado islâmico, durante 2014, aprofundou a deriva terrorista dos radicais islâmicos, perante o lamentável silêncio dos principais líderes mundiais do Islão, que preferiram (preferem?) esperar para ver. Os americanos reagiram tarde por causa dos seus homens, a Europa lamentou e foi só. Agora a França sangra onde mais lhe dói: a liberdade de imprensa e de expressão.


Se há coisa onde os franceses não transigem é no valor da liberdade. Não há interesse económico que os faça engolir sapos vivos e ainda bem que assim é. A liberdade de imprensa é um pilar fundamental dessa liberdade, não havendo cláusulas de exceção. O “Charlie Hebdo” era a expressão radical dum jornalismo ousado, polémico, provocador e… livre, por isso os franceses nunca hesitaram em defendê-lo. Firmes na sua convicção, os franceses arrastaram o resto da Europa onde a palavra tolerância não é apenas uma ideia bonita.
Fiéis aos seus valores fundamentais, os franceses não reclamam vingança e continuam a acolher aqueles que não aceitam a diferença. No entanto, essa generosidade não foi suficiente. Evocando a defesa da honra de Alá, um bando de radicais islâmicos assassinou o coração da liberdade, mostrando o lado negro duma fação do Islamismo. Podemos afirmar convictamente que o Islão “não é aquilo”, mas a verdade é que também é aquilo.

Aqueles homens mostraram que há uma fação do mundo islâmico que revela um profundo desrespeito pela vida humana. Lamento muito que os mais importantes líderes islâmicos não tenham percebido que nada faz pior à religião do profeta Maomé do que atos como os ocorridos em Paris. Como muito bem notou José Saramago, “Matar em nome de Deus é converter Deus num assassino.”


Os atentados de 7 de janeiro, em Paris são um desafio civilizacional enorme quer ao mundo islâmico quer à cultura europeia de tolerância e liberdade de expressão.
A tarefa dos Xeiques não é nada fácil: ensinar a tolerância num meio duma cultura intolerante, sob pena de tornar o islamismo uma religião odiada por milhares de pessoas, tal a sua permanente ligação a casos como o de Paris. Os chefes religiosos islâmicos precisam de fazer algo objetivo e claro, porque não fazer nada, não dizer nada é uma resposta errada, perante a urgência do momento.
A França tem de vencer o medo, despir a raiva da alma e afastar os ímpetos de vingança indiscriminada sobre tudo o que usa véu. E tem ainda um trabalho de Hércules para fazer: fazer-se respeitar, fazendo respeitar a sua cultura.
Mais importante do que converter um radical é não deixar que um extremista nos radicalize! 


  Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O EUROTÚNEL


    
                    Em 1751, a Academia De Amiens abriu um concurso para o estudo da ideia de unir a França e Inglaterra através do canal da Mancha.
                Surgiram muitas ideias, mas não havia meios técnicos – de engenharia civil e geotecnia – para construir uma das mais obras de sempre da engenharia e arquitetura mundiais. Foi preciso esperar pelo século XX, para a ideia ser, finalmente, equacionada em termos reais.
             Em 1957, foi nomeado um grupo para estudar os possíveis locais de construção e averiguar os problemas geológicos e geofísicos, nomeadamente, ao nível da dureza e consistência do tipo das rochas e a necessidade de eliminar os detritos resultantes da perfuração.
                Em 1987, sob os governos de Mitterrand e Thatcher, começaram os trabalhos que, durante sete anos, envolveram mais de treze mil trabalhadores. Duas enormes escavadoras começaram a perfurar setenta metros por dia, com o objetivo de unir, com um túnel com cinquenta e um quilómetros, Cheriton, perto de Folkstone, a Sangatte, perto de Calais.


               Esta obra causa muita controvérsia e polémica e o seu custo ascendeu a astronómicos 13400 milhões de euros.
              O Eurotúnel é formado por duas galerias paralelas, uma para cada sentido dos comboios. Existe ainda uma terceira galeria, de diâmetro inferior, destinada à livre circulação de veículos de socorro em caso de acidente.
                 Atualmente, o comboio de alta velocidade «Eurostar» assegura a ligação entre Paris e Londres em cerca de três horas.
                O Eurotúnel também conhecido como o «Túnel da Mancha» uniu a Inglaterra ao continente europeu e tornou-se num dos maiores feitos da engenharia do século XX. Mais de duzentos anos depois de sonhado, o túnel sobre a Mancha tornou-se realidade. 2014 assinala duas décadas sobre esse momento histórico. Apesar do custo astronómico e da pouca rentabilidade do projeto, dos incêndios, dos imigrantes ilegais que o usam para entrar ilegalmente no Reino Unido, o Eurotúnel valeu a pena. O Homem corre por utopias e esta é uma daquelas que valem a pena.

Gabriel Vilas Boas   

segunda-feira, 21 de julho de 2014

AO SOM DE JACQUES BREL


Celebra-se hoje o Dia Nacional da Bélgica, que coincide com a data da elevação de Leopoldo I, em 1831, ao cargo de rei dos belgas, um ano após a revolução que deu origem ao surgimento de um novo país independente no centro da Europa. Na Bélgica há três línguas oficiais, sendo uma delas o francês, falado por cerca de 40% da população. 


Em 1929 nasce em Schaerbeek, região de Bruxelas, Jacques Brel que se imortalizaria como um dos maiores nomes da canção francesa. Em casa de Brel sempre se falou francês pois apesar do pai ser flamengo, era de ascendência francófona, assim como a mãe. Decidido a não seguir os negócios de família, ligados à cartonaria, e tentado a conseguir uma carreira no mundo da música, muda-se para Paris nos anos 50. Aí vai compor os grandes sucessos que ainda hoje ouvimos com muito agrado, pois Brel concilia belíssimos textos poéticos com não menos belas músicas e uma voz única na forma de interpretar. Este conjunto de fatores proporciona uma força impressionante às músicas que compôs, entre as quais podemos destacar as mais conhecidas Ne me quitte pas ou La valse à mille temps. Contemporâneo de Georges Brassens, Léo Ferré, Yves Montand e Edith Piaf, nunca foi um conformista, pelo contrário, era um inconformado, um revolucionário, mas ao mesmo tempo um perfeccionista, de um profissionalismo irrepreensível. Talvez cansado de uma certa rotina que não tinha nada a ver com a sua maneira de ser, a certa altura da vida, Jacques Brel compra um veleiro que o levará numa viagem à volta do mundo até ao seu destino final, as Ilhas Marquesas na Polinésia francesa. Voltou à Europa em 1977 para a gravação do seu último disco que foi um extraordinário sucesso. Já então padecia de um cancro no pulmão que o vitimaria em 1978 com apenas 49 anos. Nessa altura o seu amigo Georges Brassens diria: “Jacques Brel não está morto. Para revivê-lo, basta que escutemos os seus discos”. Entre as suas músicas, há uma dedicada ao seu país de origem, a Bélgica, com um poema tão bonito que decidi partilhá-lo neste blogue.

Le plat pays

Avec la mer du Nord pour dernier terrain vague
Et des vagues de dunes pour arrêter les vagues
Et de vagues rochers que les marées dépassent
Et qui ont à jamais le cœur à marée basse
Avec infiniment de brumes à venir
Avec le vent de l'ouest écoutez-le tenir
Le plat pays qui est le mien

Avec des cathédrales pour uniques montagnes
Et de noirs clochers comme mâts de cocagne
Où des diables en pierre décrochent les nuages
Avec le fil des jours pour unique voyage
Et des chemins de pluie pour unique bonsoir
Avec le vent d'ouest écoutez-le vouloir
Le plat pays qui est le mien

Avec un ciel si bas qu'un canal s'est perdu
Avec un ciel si bas qu'il fait l'humilité
Avec un ciel si gris qu'un canal s'est pendu
Avec un ciel si gris qu'il faut lui pardonner
Avec le vent du nord qui vient s'écarteler
Avec le vent du nord écoutez-le craquer
Le plat pays qui est le mien

Avec de l'Italie qui descendrait l'Escaut
Avec Frida la Blonde quand elle devient Margot
Quand les fils de novembre nous reviennent en mai
Quand la plaine est fumante et tremble sous juillet
Quand le vent est au rire quand le vent est au blé
Quand le vent est au sud écoutez-le chanter
Le plat pays qui est le mien

Que hino mais bonito ao seu país natal, ao seu país plano, que este, Le Plat Pays? 

Margarida Assis