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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O EUROTÚNEL


    
                    Em 1751, a Academia De Amiens abriu um concurso para o estudo da ideia de unir a França e Inglaterra através do canal da Mancha.
                Surgiram muitas ideias, mas não havia meios técnicos – de engenharia civil e geotecnia – para construir uma das mais obras de sempre da engenharia e arquitetura mundiais. Foi preciso esperar pelo século XX, para a ideia ser, finalmente, equacionada em termos reais.
             Em 1957, foi nomeado um grupo para estudar os possíveis locais de construção e averiguar os problemas geológicos e geofísicos, nomeadamente, ao nível da dureza e consistência do tipo das rochas e a necessidade de eliminar os detritos resultantes da perfuração.
                Em 1987, sob os governos de Mitterrand e Thatcher, começaram os trabalhos que, durante sete anos, envolveram mais de treze mil trabalhadores. Duas enormes escavadoras começaram a perfurar setenta metros por dia, com o objetivo de unir, com um túnel com cinquenta e um quilómetros, Cheriton, perto de Folkstone, a Sangatte, perto de Calais.


               Esta obra causa muita controvérsia e polémica e o seu custo ascendeu a astronómicos 13400 milhões de euros.
              O Eurotúnel é formado por duas galerias paralelas, uma para cada sentido dos comboios. Existe ainda uma terceira galeria, de diâmetro inferior, destinada à livre circulação de veículos de socorro em caso de acidente.
                 Atualmente, o comboio de alta velocidade «Eurostar» assegura a ligação entre Paris e Londres em cerca de três horas.
                O Eurotúnel também conhecido como o «Túnel da Mancha» uniu a Inglaterra ao continente europeu e tornou-se num dos maiores feitos da engenharia do século XX. Mais de duzentos anos depois de sonhado, o túnel sobre a Mancha tornou-se realidade. 2014 assinala duas décadas sobre esse momento histórico. Apesar do custo astronómico e da pouca rentabilidade do projeto, dos incêndios, dos imigrantes ilegais que o usam para entrar ilegalmente no Reino Unido, o Eurotúnel valeu a pena. O Homem corre por utopias e esta é uma daquelas que valem a pena.

Gabriel Vilas Boas   

domingo, 21 de setembro de 2014

EUROPA: AMEAÇA DE FRAGMENTAÇÃO


Há uns meses largos, o primeiro-ministro escocês Alex Salmond reivindicou junto do seu homólogo inglês mais autonomia para o seu governo dentro do Reino Unido. David Cameron disse que não e fez-se de forte: se Salmond queria mais autonomia, mais valia pôr a questão de independência da Escócia aos escoceses através de referendo. Estava mais que convencido da rejeição de tal proposta. Nos últimos dias deve ter amargurado tanta jactância, só possível em quem não conhece bem os orgulhosos escoceses. Há uma semana, os escoceses estavam mais inclinados para a cisão, mas à última hora, o coração british e o medo de perder a libra fê-los recuar.
Acho que fizeram bem. A alma grandiosa e nobre da Escócia pertence ao Reino Unido. Eles não queriam sair! Eles “apenas” queriam ser respeitados e considerados um parceiro igual à Inglaterra e não um parente de segundo que tinha que ficar agradecido de ser súbdito de Sua Majestade.


Não duvido que o medo da saída da União Europeia e a dúvida quanto à permanência da libra como moeda fizeram pender a balança para o lado do "Não", mas também estou certo que os escoceses estavam mentalmente preparados para amarrarem sozinhos o seu futuro.
Muita gente comparou o caso escocês ao catalão, referindo que o caso escocês abriria a caixa de Pandora da fragmentação europeia, sendo a Catalunha a próxima a “exigir” a sua libertação de Espanha.
Acho que os dois casos têm pouco em comum. Os escoceses queriam ficar… com mais respeito e consideração; os catalães querem sair debaixo do jugo de Madrid porque não suportam que a capital seja Madrid e que tenham de lhe prestar vassalagem. Os escoceses estavam preparados para assumir a rutura apesar de não a quererem; os catalães, ou melhor, os barcelonistas não estão preparados nem economicamente nem mentalmente para sair de Espanha.

Barcelona acha-se rica e autossuficiente, mas esquece que a sua riqueza lhe vem das inúmeras multinacionais que lá se instalaram e que não suportariam ficar fora do espaço da moeda única como certamente aconteceria à Catalunha. Por outro lado, Barcelona é profundamente cosmopolita e não estou a ver os catalães odiaram assim tanto Madrid para abdicarem da sua “dolce vita”. Se estivéssemos a falar dos bascos já não diriam o mesmo… 
Por falar em bascos: o que acharão eles desta ideia catalã de independência? Provavelmente o seu longo sorriso irónico se lembrará de como os “amigos” de Barcelona foram contra o desejo basco de sair de Espanha.
Além disto, ainda não estou convencido que a maioria da Catalunha almeje abandonar a grande Espanha. Julgo que essa vontade é muito maior em Barcelona que na região da Catalunha.
Reconheço a específica cultura catalã, a sua língua, a sua riqueza económica, mas não encontro “boas e fortes razões” para a sua saída do Reino de Filipe VI e Letizia.
Se a Catalunha se separar, será impossível impedir os bascos de “ir embora” e, nessa altura, a Espanha implodirá e a Europa terá outro desenho, pois a pequena Bélgica deixará de existir e outros casos surgirão para atormentar a União Europeia…


A única coisa positiva que vejo nesta nefasta deriva fragmentária da Europa é que tudo está a ser feito pacificamente e em democracia. E é assim que deve ser. Não podemos viver novamente tempos de violência como a sangrenta guerra nos balcãs, onde a Jugoslávia acabou da pior maneira.   
 Gabriel Vilas Boas


quinta-feira, 10 de abril de 2014

ACORDO DE BELFAST


Se há coisa de que a História se lembra pouco é da paz, dos acordos, da reconciliação. Poucos se lembram das suas datas, menos ainda são aqueles que as assinalam. Hoje é um dia desses. Passam 16 anos sobre o acordo de Belfast, também conhecido como “Acordo da sexta-feira santa”, assinado pelo governo britânico e irlandês e apoiado por grande parte dos partidos políticos norte-irlandeses. O acordo pôs fim a um conflito que durou mais de trinta anos e que opunha nacionalistas e unionistas sobre a questão da união da Irlanda do Norte com a República da Irlanda ou da sua continuação como parte do Reino Unido. Alguns meses após a assinatura do acordo, os cidadãos da República da Irlanda e da Irlanda do Norte ratificaram este acordo.

A partir do centésimo dia do ano de 1998, o futuro constitucional da Irlanda do Norte passou a estar nas mãos dos seus cidadãos. Criou-se uma Assembleia da Irlanda do Norte com poder legislativo, o poder passou a ser partilhado, havendo ministros dos principais partidos. As armas calaram-se e foram entregues pelo IRA, os prisioneiros foram libertados à medida que as armas foram entregues; nova legislação sobre policiamento foi aprovada e adotada. 
 


Desde o final dos anos 60 até à assinatura do Acordo de Belfast, em 1998, a Irlanda do Norte enfrentou um período de grande violência política entre grupos armados republicanos e as forças de segurança do Reino Unido, também apoiadas por grupos armados locais. Os grupos armados republicanos – dos quais o mais famoso é o Exército Republicano Irlandês (IRA) – eram compostos maioritariamente por católicos, que desejavam a separação da Irlanda do Norte do Reino Unido e a unificação das duas Irlandas. Por outro lado, os grupos que apoiavam a permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido eram maioritariamente protestantes.

Desgraçada e incompreensivelmente esta guerra que durou trinta anos teve a religião como pano de fundo. Protestantes contra católicos. Mais de 3600 pessoas foram assassinadas, cerca de 40000 mil ficaram feridas. Ao décimo dia de abril de 1998, os políticos conseguiram apagar a fogueira que durante décadas a religião ateou. No entanto, as feridas eram profundas e ficaram no coração das pessoas. Ainda hoje perduram. Não são as assinaturas dos líderes, o cansaço das bombas, a vitória da razão sobre o fanatismo que as apagam facilmente. Mais uma vez a inação das Igrejas é chocante.

Ainda há um ano atrás a Amnistia Internacional apelava à criação de um mecanismo que analisasse as décadas de conflito na Irlanda do Norte, de maneira a acabar com as divisões sociais no país. Segundo esse relatório era necessário acabar com a impunidade e responsabilizar quem cometeu violações de direitos humanos. As tentativas de reparar os erros do passado têm falhado na Irlanda do Norte, uma região que ainda hoje está bastante dividida. A falta de vontade política tem impedido que se estabeleça a verdade e a justiça sobre as violações de direitos humanos que foram cometidas por todas as partes envolvidas no conflito.

O acordo de Belfast quis passar uma borracha por cima do que se tinha passado. Não é possível fazê-lo escondendo a verdade das pessoas. A Irlanda do Norte precisa de paz. A paz só se conseguirá com perdão. O perdão implica assumir culpas. O perdão só se consegue com verdade. O tempo ajuda a fechar cicatrizes mas também a desenvolver temores. 

Se a convivência e o pacto entre os líderes políticos têm sido possíveis, o mesmo não ocorre em relação às comunidades. A divisão entre elas ainda permanece acentuada. Em Belfast, protestantes e católicos concentram-se em áreas diferentes da cidade. Bandeiras (da Irlanda ou do Reino Unido) e murais pintados no lado externo das casas identificam e demarcam os territórios.

Há uma década, o investigador Roger MacGinty, da Universidade de Manchester, classificava o processo de paz da Irlanda do Norte como uma situação de “nem guerra, nem paz”, ou seja, existe um tratado de paz formal, mas esse acordo não consegue transformar a sociedade, reconciliá-la. Segundo ele, o acordo pode terminar com a violência direta, propiciar segurança e governança, mas não a confiança entre as pessoas. Segundo este investigador “O fracasso em dar conta das bases estruturais do conflito pode levar à volta da guerra civil. Aceitar essa situação pode condenar os habitantes à violência indireta e à pobreza”. As suas palavras continuam atuais, infelizmente.

Hillary Clinton há um ano deixou a receita: os políticos locais devem trabalhar mais junto às comunidades, nos lugares onde ainda não há o sentimento de esperança com o processo de paz. O processo precisa agora de se tornar mais inclusivo, enraizar-se na sociedade.

E se as Igrejas, Católica e Protestante, fizessem alguma coisinha, também ajudava…

Gabriel Vilas Boas