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domingo, 13 de junho de 2021

NÃO FOI UM SUSTO, FOI UM AVISO


 Christian Eriksen foi um nome que muitos, ontem, repetiram, num misto de comoção, apreensão e alívio. O mais talentoso futebolista dinamarquês da atualidade esteve a muito pouco de marcar o Europeu do Covid da forma mais negra e dramática que um adepto do futebol poderia supor. 
De um momento para o outro, caiu inanimado no relvado e, por longos/breves minutos, milhões de espetadores temeram a sua morte. O coração teria colapsado, mas a rápida intervenção dos médicos impediu um final trágico.
Eriksen recupera no hospital e os colegas foram induzidos a voltar ao campo, onde perderam com a Finlândia. Nada daquilo fazia sentido já, mas o mundo do futebol há muito deixou de ser intrinsecamente humano. 

Hoje, o selecionador dinamarquês percebeu mais claramente o que ontem intuía  "Se calhar devíamos ter entrado no autocarro e vindo embora, veríamos o que aconteceria noutro dia. Mas foi uma decisão dura, difícil. É fácil olhar para trás e falar, mas tenho a sensação de que foi errado. Mas quero dizer que estou extremamente orgulhoso do grupo de jogadores que lidero e que, ontem, o futebol mostrou a cara certa".

Reagiu com a cara certa, mas anda com a postura errada há muito tempo. O futebol é um desporto e um negócio, mas continua a ser jogado por seres humanos e não por máquinas. Esta época desportiva foi jogada em condições pouco recomendáveis para a saúde dos atletas. Os melhores (aqueles que também estão agora a jogar o Europeu de Futebol) jogaram mais de cinquenta jogos, de grande nível de exigência física e mental, em oito meses, quando a época normal contempla dez.
Num ano de Covid, em que muitos jogadores ficaram infetados, obrigar estes homens a jogar de 4 em quatro dias (às vezes, de três em três), durante oito meses consecutivos, para que todas as competições nacionais e internacionais se cumprissem, foi um ato de insensatez, desumanidade e alta perigosidade para a saúde e para a vida dos jogadores. 


Aquilo que aconteceu ao dinamarquês Eriksen é, na minha opinião, uma consequência deste circo de feras em que se transformou o futebol, em que a morte por exaustão está cada vez mais perto de acontecer. Eriksen sobreviveu e o mundo do futebol respirou de alívio, pois sente a consciência pesada.


Os patrões do futebol precisam de perceber que os adeptos não amam um futebol desumano, ganancioso, ao serviço dos interesses televisivos. 
Podemos ter menos futebol. Se calhar precisamos de menos competição para voltarmos a gostar de futebol, sem nos preocuparmos com os milhões que os jogadores ganham, mas apenas com o bom futebol, com as vitórias, as derrotas e os empates. Precisamos de gostar dos jogadores e das equipas sem detestar os adversários. Diria mesmo que precisamos de reconhecê-los e admirá-los.
O fair play não é, nem pode ser, um quadro que fica bem mostrar numa publicação do Instagram ou do Twitter. 
A saúde mental, física, afetiva do futebol (jogadores, treinadores, adeptos, dirigentes) precisa que  este desporto nunca perca a humanidade.
O que aconteceu a Christian Eriksen não foi um acaso e esteve bem para lá de um susto, foi um AVISO.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 9 de maio de 2021

MOURINHO - O GENERAL NO SEU LABIRINTO

 


Mourinho é uma das figuras mais admiráveis que Portugal contemporâneo já exportou. Eduardo Lourenço, pouco dado a  efusões da bola mas sensível à pegada  de um português pelo mundo, chamou-lhe o nosso Bonaparte.

Acontece que o tempo não faz descontos a ninguém - muito menos a um Bonaparte - e o declínio é patente. Depois do United, escrevi que Mourinho jogava uma cartada de alto risco ao treinar Tottenham, um clube rico mas sem poder contratar jogadores de topo por se ter empenhado a paga um estádio novo. Mas, num novo fôlego, talvez pudesse descobrir um filão qualquer, como o fizera no Porto ou na primeira passagem pelo Chelsea, ou no Inter, quando desafiava a ordem instalada com a confiança dos competentes e a ousadia dos heróis. 

Ora, se há coisa que os clássicos ensinam é que, mais à frente, os heróis acabam por pagar o preço das alturas. Os gregos chamam-lhe hubris. Mourinho perdeu o dom de transformar barro em porcelana, seja porque mudou seja porque a mentalidade dos jogadores também mudou. Tudo muda cada vez mais depressa. Hoje, para dirigir uma equipa, não chega ter um currículo vencedor. 

Os jogadores vêem-se com artistas de cinema, já não morrem em campo pelo treinador nem pela equipa, apenas pela carreira - desde que não magoe muito. Acabou o jogador-adepto, os profissionais mantêm vínculos com colegas de outros clubes via twitter - veja-se o exemplo de Sporar no Braga ou de Marcelo e Hazard no Real Madrid, que tanto irritaram os adeptos. O paradigma alterou-se para acompanhar o processo industrial. Ainda por cima, nas equipas de Mourinho, os jogadores não se divertem a jogar. O sistema é tão desenhado para a vitória que resultou numa sensaboria derrotista.


Na segunda passagem pelo Chelsea, Mourinho já tinha lido mal os sinais dos tempos ao chocar contra a médica Eva Carneiro. No Tottenham, respondendo a uma repórter sobre a ausência de Bale, e deu-se ao desplante de dizer que a pergunta era boa, mas ela não merecia uma resposta.

Tornou-se aí claro que, se alguém não merecia resposta a uma boa pergunta, e deixando transparecer que a razão era ter sido feito por uma mulher, então o seu crédito em Inglaterra tinha chegado ao fim.

Agora desceu outro degrau ao assinar pela Roma. A cidade saudou-o num excelente mural neorrealista, com Mourinho conduzindo uma lambreta com cachecol vermelho ao pescoço. É outro recomeço auspicioso, como no Tottenham. O pior virá depois. Para o baço Calcio, será um tónico ter espetáculo de uma lenda tentando reencontrar a porta do passado glorioso, enquanto a hubris apresenta a sua conta com juros de mora. 

Desejo-lhe que, se não puder ser o Bonaparte de Eduardo Lourenço, não seja a personagem de um livro de Gabriel Garcia Marques -  o General no seu labirinto.  

                                                                                              Carlos Tê

domingo, 15 de julho de 2018

VINTE ANOS DEPOIS, OS FRANCESES VOLTAM A VENCER O MUNDIAL DE FUTEBOL




Vinte anos depois, a seleção francesa de futebol volta a pôr a mão numa Jules Rimet, ou numa versão mais moderna, a FIFA WORLD CUP. 
A seleção de Didier Dechamps foi a mais competente do Mundial de Futebol 2018, realizado na Rússia, do «czar» Putin, mas não encantou. Aliás, nenhuma seleção praticou um futebol fabuloso ou que vai ficar na memória dos amantes do futebol.
A mais «africana» seleção gaulesa de sempre venceu, porque foi eficaz, cerebral, conhecedora dos seus limites. As vedetas Mbappé e Griezmann tiveram a humildade de nunca se sobrepor ao coletivo e por aí também se fez a força dos bleus. Outra lição aprendida foi a soberba. Pogba, Matuidi e Kanté não cometeram o erro de desvalorizar uma seleção principiante em finais, como aconteceu em 2016, em Paris, quando perderam o Europeu, em casa, para Portugal.

A vitória do país de Macron e Zidane começou a desenhar-se na forma categórica como passaram a primeira fase da prova, passando pelo modo seguro com que iluminaram Uruguai e Bélgica, até à vitória final, onde sempre pareceram emocionalmente mais adultos que os croatas, apesar de terem uma média de idades inferior. Ter vivido o trauma de Paris, em 2016, enrijeceu psicologicamente a jovem geração francesa.
Esta seleção não é tão espetacular com a equipa de Zidane, Henry ou Dechamps (Mundial de 1998, Europeu de 2000), mas pode atingir o mesmo patamar, sobretudo, porque atinge a glória ainda longe do zénite das suas potencialidades.
Sobre o resto do campeonato, confirmou-se o suave declínio da equipa portuguesa; a total dependência da seleção argentina do astro Messi, que se encolhe em grandes torneios mundiais, ao contrário do que acontecia com Maradona; o esgotamento tático e mental da seleção alemã; a desorganização do futebol brasileiro, que se arrisca a queimar mais uma geração de futebolistas de eleição sem alcançar a glória suprema do desporto preferido dos brasileiros.

Menções honrosas merecem a Croácia e a Bélgica, que alcançaram os restantes lugares do pódio, atingindo igualmente a suas melhores classificações de sempre. No meu entender aa seleção belga foi aquela que melhor futebol praticou ao longo de todo o torneio. A nível individual, o croata Modric foi justamente distinguido como o melhor jogador do Mundial da Rússia; o francê Mbappé arrecadou a estatueta de melhor jovem jogador enquanto o belga Courtois foi eleito o melhor guarda-redes e o inglês Harry Kane sagrou-se o melhor marcador com seis golos. Distinções consensuais, onde as quatro melhores seleções do Mundial Rússia 2018 estiveram também representadas.  
GAVB

sexta-feira, 2 de junho de 2017

PARA SEMPRE (IM)PURO


O Beitar de Jerusalém é um dos mais populares clubes de Israel. Há cerca de uma década foi comprado pelo magnata russo Arcadi Gaydamak. Homem habituado aos negócios (lícitos e ilícitos), Gaydamak resolveu, em 2012, contratar dois jogadores chechenos muçulmanos para a equipa de futebol.
As reações foram brutais. A principal claque do clube – La Famiglia – ficou em polvorosa com a medida do novo proprietário e resolveu retaliar.  Quando o checheno Sadayev marcou o seu primeiro golo pelo Beitar, dando a vitória ao clube israelita, os membros da La Famiglia abandonaram o estádio em protesto contra aquela vitória ultrajante. Como poderiam ganhar um jogo que fosse graças a um golo de um muçulmano?


Jogo após jogo o boicote ao apoio à sua própria equipa tornou-se cada vez mais intenso e os jogadores ressentiram-se disso, pois as derrotas foram-se acumulando e começou a pairar o perigo de descida de divisão. Nem assim os adeptos voltaram. Entre os poucos que assistiam aos jogos podia ouvir-se o grito “Morte aos muçulmanos” e em várias zonas do estádio figurava a faixa odiosa: “Para sempre puros”.
Como não lembrar Hitler e uma das principais razões evocadas para o Holocausto: a pureza da raça! Ora os filhos dos sobreviventes do Holocausto evocam o mesmo princípio para proclamar a morte aos árabes. Como é irónica e paradoxal a História e... o ser humano!

O boicote dos ultra do Beitar só foi interrompido num jogo crucial e altamente simbólico para o Beitar – a partida contra o Bnei Saknin, o único clube árabe da primeira divisão israelita. O empatou salvou o Beitar da descida, mas nem assim a Famiglia abrandou no seu terrorismo sobre os chechenos do clube.
Depois dessa época negra, nada ficou igual no Beitar: os chechenos, obviamente, foram jogar para outro clube; Gaydamak vendeu a equipa, o treinador e o capitão foram despedidos e a claque tornou-se num movimento político xenófobo.

Muitas vezes o futebol não é mais do que a caricatura da sociedade em que nos tornámos. As claques assumem um protagonismo e um poder ilegítimo, impuro e perigoso. A princípio parece apenas uma brincadeira de gente malformada e boçal, mas rapidamente aqueles atos trogloditas se tornam em algo perigoso e descontrolado que mancha a essência de fair play que caracteriza o jogo bem como o respeito pelo outro em todas as suas dimensões.
“Para Sempre Puro” é o reflexo de um ódio que não entendo; de um ódio brutal  e bruto que domina dois povos há centenas de anos e que contamina tudo por onde passa.
Desisti de entendê-lo, porque a irracionalidade não se entende, combate-se. Sem armas, sem retaliações, apenas com exemplos de paz e respeito.

GAVB

sábado, 13 de maio de 2017

ACABOU A TRETA, CHEGOU O TETRA!



11 de Maio de 2013, Estádio do Dragão -  a poucos segundos do final jogo, Kelvin “saca” um pontapé fabuloso e inesperado e marca o golo da vitória do Porto sobre o Benfica, fazendo Jesus ajoelhar, e o Porto escancara as portas do seu último campeonato de futebol. Qualquer benfiquista tem este momento cravado na memória e essa dor não se apaga, apenas cicatrizou.

Levantando-se dessa amarga lição do destino, o Sport Lisboa e Benfica encetou uma série de vitórias memorável com 10 títulos oficiais (4 campeonatos nacionais, 3 taças da liga, 2 e uma taça de Portugal), havendo ainda a possibilidade de conquistar mais um título brevemente.
Hoje conquistou o seu quarto campeonato de futebol consecutivo – o famoso TETRA – um feito inédito na centenária história do Clube.

Um feito que muito orgulha os milhões de benfiquistas espalhados por todo o mundo e que se deve ao trabalho de muitas pessoas, desde os jogadores, treinadores, dirigentes até aos fabulosos adeptos, que acompanharam a equipa quer nos jogos no Estádio da Luz quer nos jogos fora de casa, com um fervor, alegria e presença fora do comum.
Há, claro, alguns heróis que merecem destaque – Ederson, Luisão, Jardel, Pizzi, Jonas, Mitroglou, Maxi Pereira, Eliseu, Salvio, Gaitan, Lima, Fejsa… - mas seria injusto não destacar o papel de dois treinadores excecionais como são Jorge Jesus e Rui Vitória.  E acima destes todos, o presidente Luís Filipe Vieira.

Durante quatro anos, eles construíram um sonho de várias gerações de benfiquistas e por isso ficaram na história do clube, a não ser que eles próprios se ultrapassem e daqui por um ano nos deem o extraordinário penta.
Por agora, resta-me agradecer-lhes as inúmeras alegrias que me deram ao longo destes quatro anos. Desejo que saibam ser grandes na vitória, respeitando os valerosos adversários que tudo fizeram para os contrariar, como souberam ser determinados em reagir à derrota.
O futebol desperta as nossas paixões e a nossa irracionalidade; é capaz de fazer rir, chorar, pular, gritar, porque junta arte e emoção, porque nos faz gregários, porque transpira Vida.

GAVB


sábado, 15 de abril de 2017

LEGALIZAR AS CLAQUES? NÃO! ILEGALIZÁ-LAS E JÁ.


Quando é que uma claque de futebol é notícia? Quando faz porcaria!
Quase ninguém se lembra de uma coreografia ou de um cântico dos Super Dragões, dos No Name Boys ou da Juve Leo que não contenham um insulto ao adversário ou ao árbitro. Todas as mensagens que passam tresandam a desprezo, ódio, estupidez no seu estado mais puro.
Alguns condescendem e dizem que criam ambiente, outros referem que estão legalizadas.


Legalizar as claques? Não! Ilegalizá-las e rapidamente. Elas são ilegais, imorais e anormais, por natureza. Uma claque legalizada é uma nódoa feia na lei.
Quando legalizamos uma claque de futebol não fazemos mais do que colocar o rótulo de “gente” a um bando de marginais que rouba e vandaliza estações de serviço; que insulta, amedronta e agride adeptos rivais; que vão de cidade em cidade descarregar o seu mau perder nas montras, cafés e restaurantes; que rouba descaradamente e impunemente; que só circula nos estádios dos clubes rivais enjaulados numa caixa de segurança formada pela polícia de intervenção; que usa, abusa e conspurca o nome de cubes centenários com práticas desprezíveis.


Foi isso que alguém legalizou há uns anos e que muitos defendem como solução para os dias de hoje. Eu não quero ver os No Name Boys legalizados! Eu quero alguns deles bem longe do estádio da Luz. O seu benfiquismo é doentio, porque jamais foi desportivismo.
Por que tenho de tolerar que trafiquem droga e não sejam presos? Por que tenho de pagar polícias que os escoltem para não andar à pancada com gangues rivais? Por que tenho de aceitar ou justificar que desejem a morte a jogadores ou adeptos rivais em cânticos ignóbeis?


Tenho, porque há gente que lhes passa a mão no pêlo, que lhes acha graça, que lhes paga as viagens e as portagens, que lhes compra bilhetes que obtiveram de graça, que os defende nas redes sociais e nos jornais, que acha que a sua animalidade congénita é só uma sátira de mau gosto. Não é. È um abuso da nossa liberdade, uma degradação da nossa cidadania.

As claques não fazem falta ao futebol nem ao desporto em geral. Não procurem legalizar os No Name Boys, mas antes ilegalizar as outras claques. Eles não nos permitem ser adeptos saudáveis, antes nos tornam, a cada dia que passa, pessoas profundamente irracionais.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O EXCENTÊNTRICO E LOUCO MUNDO DA BOLA


Recentemente uma investigação do Football Leaks revelou parte dos contratos de alguns dos jogadores  de futebol mais conhecidos na Europa. Além das pornográficas somas que estes jogadores auferem, ressalta desta investigação alguns cláusulas neles contidas que deixam qualquer um estarrecido face à excentricidade de algumas exigências, quer de jogadores quer de clubes.

Há de todo o tipo, desde as divertidas, às esperadas como às revoltantes.
Começo pela mais divertida – NEYMAR, o mais mediático jogador brasileiro da atualidade tinha uma cláusula no seu contrato que lhe permitia receber 46 mil euros se assinasse 600 cromos seus. Neymar ficou com o braço cansado de tanto assinar…

A cláusula excêntrica mais esperada tinha de estar, obviamente, no contrato de Mário Bolotelli. O italiano tem no seu contrato um prémio adicional de um milhão de euros se durante toda a época não for expulso mais de três vezes por protestos ou atitudes estúpidos em relação a colegas ou ao árbitro.

O prémio de cláusula excêntrica mais revoltante vai para Fábio Canavarro, o defesa transalpino que atuou no Real Madrid, Juventus e AC Milan, campeão do mundo pelo seu país em 2006, teve a lata de exigir 75 mil euros para fazer de treinador num jogo de Beneficência entre Os Amigos de Messi e O Resto do Mundo. Como o jogo não se realizou e porque Canavarro aprecia a caridade, apenas cobrou 50 mil euros pela deslocação.

O guardião da seleção francesa, Lloris, também "ganha por fora" mesmo quando perde ou empata. O seu empresário conseguiu colocar no seu contrato uma cláusula muito interessante: além do ordenado, o clube londrino Tottenham deve pagar-lhe oito mil euros por cada vitória e … quatro mil euros por cada empate ou derrota, desde que jogue!

Quando jogou em Espanha, o holandês Van der Vaart teve de enfrentar umaa cláusula sui generis no seu contrato, imposta pelo presidente do Bétis de Sevilha: jamais poderia calçar chuteiras vermelhas (os jogadores negoceiam à parte com as marcas de chuteiras o seu contrato individual), pois esta era a cor do rival do Bétis, o Sevilha. Bruno de Carvalho deve ter-se inspirado aqui para proibir os jogadores do Sporting de conduzir carros vermelhos, usar chuteiras vermelhas…

Por último, refiro o caso do argentino Lavezzi que foi para o Hebei China Fortune (China) ganhar 52 milhões de euros em 23 meses (Os números estão mesmo certos, já verifiquei!), mas exigiu que metade desse valor fosse pago... antes de aterrar.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O PRIMEIRO ENCONTRO INTERNACIONAL DE FUTEBOL


O primeiro de todos os encontros internacionais de futebol foi disputado entre equipas representantes de Inglaterra e Escócia, num campo de críquete (imagine-se), a 30 de novembro de 1872.
Quatro mil espectadores assistiram a um empate sem golos. Embora tivesse havido encontros anteriores, em Londres, entre as duas nações, a equipa escocesa integrava apenas escoceses residentes na capital inglesa e por isso o carácter internacional desses desafios ficava um pouco comprometido.

Para contrariar as críticas a esta situação a Football Association lançou um desafio aos escoceses e este foi aceite. Toda a equipa escocesa foi formada por jogadores do Queen´s Park, o clube líder na Escócia (não existia uma associação de futebol escocesa e os restantes clubes a norte da fronteira jogavam, naquela época, na associação de futebol inglesa).
Quanto ao jogo propriamente dito, na primeira parte, os escoceses controlaram o jogo e chegaram mesmo a marcar um golo, mas este foi controversamente anulado. Na segunda parte, os ingleses dominaram, mas também não conseguiram marcar qualquer golo.  Pouco antes do apito final do árbitro, um remate escocês caiu sobre a fita que na época era usada em vez da trave. Foi a segunda melhor situação de golo durante todo o jogo.

A partir desta data (30-11-1872), este jogo passou a disputar-se anualmente e tornou-se fonte de muita rivalidade entre escoceses e ingleses. Só mais de cem anos depois (1989), esta tradição foi abandonada.
A pátria do futebol é mesmo o Reino Unido e não admira que o seu campeonato seja seguido em todo o mundo, por povos que não têm grande ligação ao futebol ou à Grã-Bretanha. Os ingleses criaram o jogo mais popular e apaixonante do mundo do desporto e souberam exportar a sua paixão para o resto da Europa, pela América do sul, em África e na Ásia, onde apesar de não serem especialmente dotados para a prática da modalidade há legiões de fãs que seguem os melhores campeonatos da Europa.
Em 1972 nasceram os jogos internacionais de países que durante o século XX se haviam de tornar em campeonatos do mundo e da Europa, transformando o futebol num dos espetáculos desportivos mais apreciados durante todo o século XX e o verdadeiro desporto do povo.

Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 3 de julho de 2015

EUSÉBIO NO PANTEÃO NACIONAL



Um ano e meio depois da sua morte, os restos mortais de Eusébio são transladados para o Panteão Nacional, o lugar onde repousam definitivamente alguns dos heróis da pátria. Ultimamente, foram lá colocando alguns dos que o povo amou verdadeiramente e que personificaram a Portugalidade mais genuína e bela: Humberto Delgado, Amália Rodrigues, Sophia de Mello Breyner e, agora, Eusébio da Silva Ferreira. 

Claro que o melhor panteão, onde devem morar estas figuras, é a nossa memória e o nosso coração. E Eusébio passa com distinção esses dois critérios. Deixou de jogar há quatro décadas e só no final da sua vida apareceu alguém a disputar-lhe o trono supremo. Os seus golos, as vitórias e alegrias que deu a um Portugal amordaçado e triste cintilam na memória de várias gerações.

Infelizmente não o vi jogar. Logo a ele que tornou monstruosa a popularidade do meu clube. Tenho os livros, os relatos radiofónicos e, sobretudo, as imagens televisivas que me mostram quão grande foi. 
As correrias loucas com a bola, perfeitamente dominada, de vinte/ trinta metros até desferir o seu potente e certeiro remate, que fazia benfiquistas e portugueses pularem de alegria; a correção com companheiros e adversários; a simplicidade no trato; a afabilidade; o virtuosismo aliado à força numa combinação tão admirável que muito poucos se igualaram. Artur Agostinho, esse ícone da rádio e da televisão, batizou-o de pantera negra, pela maneira felina e cheia de estilo como corria, atacava, marcava.
Os golos, as vitórias, os prémios, os títulos não o tornaram mediático nem rico, mas profundamente amado. E não há maior riqueza de que ser amado assim. 

Hoje, oficialmente, Eusébio subiu, justamente, ao panteão. A sua entrada na elite dos heróis nacionais consagra o futebol como um agente da cultura. Nada mais justo. A cultura é um exercício sobre a identidade e nos últimos anos o desporto em geral e o futebol em particular têm sido dos setores que mais têm contribuído para a nossa identidade coletiva. 


Há ano e meio, despedi-me do rei Eusébio. Uma semana depois da sua morte, um estádio da Luz repleto ergueu-se para a última homenagem. 
Sinatra cantava o «My Way», quase todos se levantaram para te rever mais uma vez. E havia tanta saudade nos nossos olhos brilhantes que nenhum aplauso consegue afagar. 
Custou imenso levantar aquela cartolina negra e nem o hino que nos unia teve o sabor de tantas tardes e noites. 
Depois virámos a cartolina e estádio ficou com as cores que nos ensinaste amar. Corremos, saltámos, marcámos, apoiámos, ganhámos. Era o mínimo que podíamos fazer para te dizer "Obrigado!"

Gabriel Vilas Boas


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

CRISTIANO "BOLA DE OURO" RONALDO


“Hoje é o teu dia! Hoje é o nosso dia!”
Ronaldo ganhou a Bola de Ouro, como melhor jogador do mundo em 2014, num prémio atribuído pela FIFA. Parabéns, Cristiano Ronaldo. Acima de tudo porque é um prémio justíssimo! Ronaldo foi, de facto, o melhor jogador de futebol do planeta nos últimos 365 dias.
Aos 29 anos de idade, o madeirense está numa forma fabulosa, marcando golos atrás de golos, levando o Real Madrid às conquistas mais desejadas, como a Liga dos Campeões ou o Mundial de Clubes.
O capitão da seleção portuguesa teve um ano extraordinário que confirmou o que tem vindo a fazer na última década quer no Real Madrid quer no Manchester United.



Ouvi falar pela primeira vez dele há treze anos, quando jogava futebol com um dos meus alunos, o Abel Coelho. Tinha estado na Academia do Sporting e vinha siderado com um miúdo com quem tivera oportunidade de jogar: "o Ronaldo". Segundo ele, muito superior ao craque do momento, Ricardo Quaresma, que já fazia os seus cruzamentos de trivela para esse mago do golo (entretanto caído em desgraça, por causa da cocaína) chamado Mário Jardel.



Um ano mais tarde, quando Portugal ardia por todo o lado e o Sporting inaugurava o seu novo estádio, frente ao grande Manchester United, Ronaldo fartou de driblar os consagrados jogadores da melhor equipa inglesa dos últimos trinta anos. Gary Neville, Paul Scholes e companhia estavam impressionados com a qualidade técnica do jovem prodígio sportinguista. Alex Ferguson determinou a sua compra por astronómico valor de (para a altura) quinze milhões de euros, mas Ronaldo fez render muito bem esse investimento.
Em Inglaterra perdeu a mania das fintas inconsequentes e com os melhores foi marcando golos atrás de golos, ganhando títulos, recebendo elogios. Esteve seis anos em Inglaterra, onde jogou quase trezentas partidas e assinou 118 golos. Chegou há cinco anos a Madrid, como uma vedeta internacional, polvorizando o recorde de dinheiro pago pela transferência dum jogador de futebol: foram quase 100 milhões de euros gastos pelo Real Madrid ao Manchester, mas mais uma vez Ronaldo haveria de provar que não era um jogador caro.


Desde que está em Madrid, Ronaldo marca golos com a regularidade dum extraterrestre, ganhou a Bola de Ouro (prémio anual para o melhor jogador do mundo) três vezes, ajudou o Real a vencer a tão desejada 10.ª Liga dos Campeões, ajudou a quebrar a hegemonia duma das melhores equipas de sempre: o Barcelona, treinado por Pep Guardiola.
Cristiano Ronaldo é, com toda a justiça, o orgulho dos portugueses. Ele que nunca se recusa a jogar, ele que mesmo magoado quer sempre dar o seu contributo, ele que nunca se cansa de procurar sempre mais e mais e mais!
É verdade que Ronaldo é vaidoso, é verdade que a sua carreira na seleção está bem longe do que seria desejado, mas o futebol é um desporto coletivo e Ronaldo nasceu numa geração pós ouro.

Hoje Ronaldo arrecadou a sua terceira bola de ouro em seis anos. Já não tem mãos para as suas bolas, mas continua a ter ambição suficiente para almejar mais! Também por isso ele é um farol de inspiração que devemos seguir!

Gabriel Vilas Boas  

sábado, 24 de maio de 2014

CHAMPIONS LEAGUE IN LISBON



Dez anos depois a magia do melhor futebol europeu regressou a Lisboa. Há dez anos atrás foi o EURO 2004, com essa tragédia grega na final que Portugal devia ter ganho, depois daquele jogo memorável contra Inglaterra em que vencemos nos penaltis. Agora é a final da Champions League entre duas equipas espanholas: o Real Madrid e o Atlético de Madrid.
As duas equipas mais importantes de Madrid procuram a glória futebolística em… Lisboa. Os adeptos madrilenos trouxeram para a capital portuguesa a sua paixão pelos seus clubes e pelo futebol. Invadiram Lisboa com as suas cores, a sua alegria e a ilusão de viverem a festa da vitória.
          Durante dois dias os espanhóis encheram os restaurantes e os hotéis da capital portuguesa, pagando generosamente aquilo que a gula dos portugueses quis pedir. A quase tudo disseram que sim. Vieram mais de 100 mil para um recinto onde só cabem 65 mil. Infelizmente, a UEFA guarda cerca de 40% dos bilhetes para amigos e patrocinadores, ignorando os adeptos que tornam este jogo tão irracionalmente apaixonante.
             Os portugueses viveram este jogo de forma especial. Não apenas porque ele se disputava em Lisboa, mas porque no Real Madrid jogam os “nossos” Ronaldo, Fábio Coentrão e Pepe, enquanto do lado do Atleti atua Tiago. O Atlético procurava a sua primeira Champions League, já o Real Madrid tentava ganhar a mítica décima. Dez vitórias na prova mais importante da UEFA confirmavam o Real como o maior clube do mundo.

            O jogo não foi um primor na arte de bem jogar futebol, mas teve tudo o que uma final deve ter: adeptos entusiasmados, equipas a dar o melhor de si, incerteza no resultado até ao fim, uma equipa quase a conseguir levar a taça (Atlético de Madrid), outra a lutar e a conseguir empatar o jogo e forçar assim o prolongamento (Real Madrid). Incerteza, nervos, um golo nos descontos e… mais trinta minutos de jogo. No prolongamento, a equipa de Ronaldo foi mais forte e marcou três golos, vencendo o jogo por 4-1. Ronaldo, mesmo não deslumbrando, como o fez Angel Di Maria, acabou por marcar o golo final.
            O estádio inteiro em delírio aplaudiu os vencedores e honrou os vencidos que lutaram até ao limite das suas forças.  

              A desejada décima vai morar em Madrid. O Clube de Di Stefano, Gento, Puskas, Butragueño, Hugo Sanches, Raul Gonzalez e… Cristiano Ronaldo, o português que os madrilenos veneram, atingia a glória em Lisboa. E não foi porque nos conquistaram. Eles apenas conquistaram a Champions League. Assim podemos beber um copo com eles e alguns até dirão Hala Madri!

Gabriel Vilas Boas