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domingo, 25 de julho de 2021

MENTIROSOS E HIPÓCRITAS SOMOS TODOS NÓS

 

Quem é que não se tem divertido com a revelação de algumas conversas íntimas do presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, que estão a ser divulgadas pelo jornal espanhol El Confidencial? Descontando o caso em que ele dá a entender que Pinto da Costa desviou para contas particulares na Suíça parte do dinheiro da transferência de Pepe para o Real Madrid, o que já foi prontamente esclarecido pelo próprio FC Porto e desmentido pelo próprio Pérez, e que terá sido só uma mau exemplo do que normalmente acontece, foi tudo cómico, acendendo sorrisos por todo o lado. Afinal, é sempre um prazer ver reacender os resquícios de sinceridade tremeluzindo no meio de tanta conveniente hipocrisia.


Diz Florentino Pérez que as suas declarações foram retiradas  do contexto. E em que contexto é que serão aceitáveis frases como «Figo é um filho da p...»? Melhoria seria que apelasse á nossa benevolência, pois, em última análise, todos somos Florentino Pérez, ou não vivêssemos num mundo que baniu a sinceridade da esfera pública, por só servir para gerar conflitos. Só na sua intimidade as pessoas podem entregar-se ao luxo da honestidade e da transparência e dizer o que realmente pensam dos outros. Em público estão obrigadas a colocar a máscara da hipocrisia e a debitarem mentiras convenientes. Verdades privadas, públicas mentiras. O que Florentino Pérez diz naquelas gravações de Figo, Mourinho e Ronaldo, por exemplo, é muito parecido com o que Figo, Mourinho e Ronaldo diziam dele quando chegavam a casa. Só que estes tiveram a sorte de não serem escutados por uma parede com ouvidos, e com um gravador incorporado. 


Quer dizer, não vale a pena esconder que mentirosos e hipócritas somos todos nós. Ou já não estaríamos vivos. Daí que, neste caso, a figura mais antipática acabe por ser o denunciante, que não respeitou esse supremo direito que nos assiste. Qual? O de sermos um bocadinho sinceros quando ninguém nos está a ouvir. Não é pedir muito, pois não?

Temos a sinceridade e a verdade em muito boa conta, mas no nosso trato quotidiano e público, elas presidem a uma ausência. Ou seria impossível a convivência (mais ou menos) pacífica. A mentira e a hipocrisia têm pior fama, mas são mais úteis no meio social, onde funcionam como amortecedores de conflitos e tensões. Graças a essa prática constante, a esse padrão, a capacidade de fingir do ser humano teve um desenvolvimento extraordinário. Ao ponto de a «máscara» (a palavra «hipocrisia» foi originalmente usada para qualificar atores que ocultavam a realidade por trás da máscara) se confundir com o rosto e já não ser possível separá-los. A nossa máscara é o nosso rosto, o nosso rosto é a nossa máscara. Já repararam nisto? E também que é cada vez mais difícil fazer certas distinções?


Cristiano Ronaldo é um imbecil e Mourinho é um anormal. Ambos têm um ego monstruoso e estão sempre com aquele ar de desafio que os torna insuportáveis. 

Isto é mentira, quer dizer, verdade. 

Cristiano Ronaldo é culto, inteligente, e Mourinho é uma simpatia. São ambos muito humildes e cultivam uma simplicidade que os torna cativantes.

Isto é verdade, quer dizer, mentira.

Álvaro Magalhães, escritor.

terça-feira, 15 de junho de 2021

O RONALDO DE QUE PORTUGAL PRECISA

 

Para Portugal, hoje «começa» o Europeu de futebol. A  lógica diz  que a Hungria é o adversário teoricamente menos  difícil, mas os húngaros jogam no seu Puskas Arena, num estádio estranhamente cheio de público. 

Que seleção teremos? Uma equipa que empata com os fortes e ganha aos fracos? Uma equipa que joga para Ronaldo ou uma seleção capitaneada pelo melhor futebolista português de sempre?

Ao final de cinco europeus,  Ronaldo ainda pode ser especial e  fazer a diferença, se tiver a inteligência de perceber que tem de ser diferente. Precisamos que tenha uma atitude de capitão, um pensamento coletivo e esqueça os recordes ainda por bater, por mais sedutores e gloriosos que sejam.

Um capitão disposto a fazer brilhar os colegas, para que estes não se sintam na obrigação de endossar a Ronaldo a glória do golo ou da vitória.

Não é fácil este novo papel de Ronaldo, até porque ele não está (nunca esteve) talhado para ele. Ronaldo é suficientemente inteligente para perceber que já não é o mesmo de há cinco anos, mas também não é certo que seja capaz de ser a mão que embala o campeão. Se o quiser ser, já é uma grande ajuda. Não pode é ficar a meio caminho na sua intenção. E talvez aqui seja a parte em que Fernando Santos tem de entrar. As suas últimas declarações ("A seleção tem de se adaptar ao facto de Ronaldo não defender") não me parecem as mais assertivas e revelam uma subserviência, ao craque madeirense, desnecessária. 

Ronaldo mantém o killer instinct dos predadores, a mentalidade dos vencedores, mas as pernas e o corpo não conseguem iludir os 36 anos. É a ele que cabe a decisão de tentar ser herói com outra capa. 

A seleção nunca foi tão coletiva e coesa, respeitada e consciente das suas forças e fraquezas. A Ronaldo, apenas se pede que seja o capitão de um grupo que ainda precisa muito dele para o fazer sair em glória.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 14 de março de 2017

UM FILHO POR ENCOMENDA


Notícias desta semana (não confirmadas, mas também não desmentidas) dão conta que Ronaldo contratou os serviços de uma barriga de aluguer americana para assumir a paternidade de dois gémeos. Talvez por ser o Ronaldo, poucos comentários negativos houve, mas a mim a ideia está para lá do bizarro. Até porque Ronaldo não é apenas mais um bom jugador de futebol, como ele bem sabe e todos os dias lhe lembra o homem do marketing e da imagem.

Se bem me lembro, em 2010, quando nasceu o seu primeiro filho, Ronaldo namorava com Irina, mas a criança proveio de uma relação ocasional com uma americana. Ronaldo pagou o silêncio da mãe e ficou com a criança, numa espécie de acordo económico muito censurável do ponto de vista ético e moral. Pareceu não ter sido um caso pensado, mas uma reação a algo que o futebolista não estava a contar.

Seis anos volvidos, a imprensa anuncia que Cristiano Ronaldo será pai novamente. Novamente Ronaldo tem namorada e novamente não parece ser ela a mãe. O que há de novo? Agora parece que não foi um acidente, mas um caso planeado.

Um filho não é um fato, a playstation ou um carro desportivo – agora apetece-me um, posso pagar, vou ali e já está. Um filho tem direito a ter pai e mãe, acima de todo o luxo e bem-estar. Se ninguém ainda disse isto a Ronaldo, já o devia ter feito.
Ronaldo acha que o seu filho precisa de irmãos? Então, faça as coisas com a dignidade que um filho merece: encontre alguém que ame o suficiente para a fazer mãe dos seus filhos.


É verdade que isto é um assunto privado e a vida pessoal do Ronaldo ao Ronaldo diz respeito, mas Cristiano Ronaldo escolheu ser uma figura pública e uma figura pública não pode apenas colher os benefícios da sua popularidade, mas também tem de ser confrontado com a irreflexão de alguns atos. E este, a confirmar-se, não fica nada bem no seu currículo.
P.S. Obviamente a notícia ainda não está confirmada, mas já passou demasiado tempo para Ronaldo a desmentir e ele não o fez. E este é um assunto sobre o qual ele devia tomar uma posição firme desde o início, sob pena de pensarmos que apesar de não o ter feito ou não o ir fazer, não se importava nada de o concretizar.
GAVB

sábado, 24 de maio de 2014

CHAMPIONS LEAGUE IN LISBON



Dez anos depois a magia do melhor futebol europeu regressou a Lisboa. Há dez anos atrás foi o EURO 2004, com essa tragédia grega na final que Portugal devia ter ganho, depois daquele jogo memorável contra Inglaterra em que vencemos nos penaltis. Agora é a final da Champions League entre duas equipas espanholas: o Real Madrid e o Atlético de Madrid.
As duas equipas mais importantes de Madrid procuram a glória futebolística em… Lisboa. Os adeptos madrilenos trouxeram para a capital portuguesa a sua paixão pelos seus clubes e pelo futebol. Invadiram Lisboa com as suas cores, a sua alegria e a ilusão de viverem a festa da vitória.
          Durante dois dias os espanhóis encheram os restaurantes e os hotéis da capital portuguesa, pagando generosamente aquilo que a gula dos portugueses quis pedir. A quase tudo disseram que sim. Vieram mais de 100 mil para um recinto onde só cabem 65 mil. Infelizmente, a UEFA guarda cerca de 40% dos bilhetes para amigos e patrocinadores, ignorando os adeptos que tornam este jogo tão irracionalmente apaixonante.
             Os portugueses viveram este jogo de forma especial. Não apenas porque ele se disputava em Lisboa, mas porque no Real Madrid jogam os “nossos” Ronaldo, Fábio Coentrão e Pepe, enquanto do lado do Atleti atua Tiago. O Atlético procurava a sua primeira Champions League, já o Real Madrid tentava ganhar a mítica décima. Dez vitórias na prova mais importante da UEFA confirmavam o Real como o maior clube do mundo.

            O jogo não foi um primor na arte de bem jogar futebol, mas teve tudo o que uma final deve ter: adeptos entusiasmados, equipas a dar o melhor de si, incerteza no resultado até ao fim, uma equipa quase a conseguir levar a taça (Atlético de Madrid), outra a lutar e a conseguir empatar o jogo e forçar assim o prolongamento (Real Madrid). Incerteza, nervos, um golo nos descontos e… mais trinta minutos de jogo. No prolongamento, a equipa de Ronaldo foi mais forte e marcou três golos, vencendo o jogo por 4-1. Ronaldo, mesmo não deslumbrando, como o fez Angel Di Maria, acabou por marcar o golo final.
            O estádio inteiro em delírio aplaudiu os vencedores e honrou os vencidos que lutaram até ao limite das suas forças.  

              A desejada décima vai morar em Madrid. O Clube de Di Stefano, Gento, Puskas, Butragueño, Hugo Sanches, Raul Gonzalez e… Cristiano Ronaldo, o português que os madrilenos veneram, atingia a glória em Lisboa. E não foi porque nos conquistaram. Eles apenas conquistaram a Champions League. Assim podemos beber um copo com eles e alguns até dirão Hala Madri!

Gabriel Vilas Boas