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domingo, 9 de maio de 2021

MOURINHO - O GENERAL NO SEU LABIRINTO

 


Mourinho é uma das figuras mais admiráveis que Portugal contemporâneo já exportou. Eduardo Lourenço, pouco dado a  efusões da bola mas sensível à pegada  de um português pelo mundo, chamou-lhe o nosso Bonaparte.

Acontece que o tempo não faz descontos a ninguém - muito menos a um Bonaparte - e o declínio é patente. Depois do United, escrevi que Mourinho jogava uma cartada de alto risco ao treinar Tottenham, um clube rico mas sem poder contratar jogadores de topo por se ter empenhado a paga um estádio novo. Mas, num novo fôlego, talvez pudesse descobrir um filão qualquer, como o fizera no Porto ou na primeira passagem pelo Chelsea, ou no Inter, quando desafiava a ordem instalada com a confiança dos competentes e a ousadia dos heróis. 

Ora, se há coisa que os clássicos ensinam é que, mais à frente, os heróis acabam por pagar o preço das alturas. Os gregos chamam-lhe hubris. Mourinho perdeu o dom de transformar barro em porcelana, seja porque mudou seja porque a mentalidade dos jogadores também mudou. Tudo muda cada vez mais depressa. Hoje, para dirigir uma equipa, não chega ter um currículo vencedor. 

Os jogadores vêem-se com artistas de cinema, já não morrem em campo pelo treinador nem pela equipa, apenas pela carreira - desde que não magoe muito. Acabou o jogador-adepto, os profissionais mantêm vínculos com colegas de outros clubes via twitter - veja-se o exemplo de Sporar no Braga ou de Marcelo e Hazard no Real Madrid, que tanto irritaram os adeptos. O paradigma alterou-se para acompanhar o processo industrial. Ainda por cima, nas equipas de Mourinho, os jogadores não se divertem a jogar. O sistema é tão desenhado para a vitória que resultou numa sensaboria derrotista.


Na segunda passagem pelo Chelsea, Mourinho já tinha lido mal os sinais dos tempos ao chocar contra a médica Eva Carneiro. No Tottenham, respondendo a uma repórter sobre a ausência de Bale, e deu-se ao desplante de dizer que a pergunta era boa, mas ela não merecia uma resposta.

Tornou-se aí claro que, se alguém não merecia resposta a uma boa pergunta, e deixando transparecer que a razão era ter sido feito por uma mulher, então o seu crédito em Inglaterra tinha chegado ao fim.

Agora desceu outro degrau ao assinar pela Roma. A cidade saudou-o num excelente mural neorrealista, com Mourinho conduzindo uma lambreta com cachecol vermelho ao pescoço. É outro recomeço auspicioso, como no Tottenham. O pior virá depois. Para o baço Calcio, será um tónico ter espetáculo de uma lenda tentando reencontrar a porta do passado glorioso, enquanto a hubris apresenta a sua conta com juros de mora. 

Desejo-lhe que, se não puder ser o Bonaparte de Eduardo Lourenço, não seja a personagem de um livro de Gabriel Garcia Marques -  o General no seu labirinto.  

                                                                                              Carlos Tê

domingo, 11 de fevereiro de 2018

PAPA FRANCISCO: UM CORDEIRO NUM COVIL DE LOBOS




Infelizmente, creio que as declarações de Dom Manuel Clemente, cardeal patriarca de Lisboa, não foram um equívoco nem aconteceram por acaso, antes fazem parte de um largo movimento de afrontamento às posições do papa Francisco, no que diz respeito à vida familiar e à sexualidade dos cristãos.
É sabido que entre vários bispos e cardeais, dentro e fora do Vaticano, há grande desagrado com as posições flexíveis do papa Francisco face ao divórcio, à sexualidade, à aceitação das falhas dos cristãos. 
A linha dura do Vaticano continua maioritária e está furiosa e ciumenta com a popularidade do Papa. É essa mesma linha dura que o tem desafiado de diversas formas, procurando uma reação extemporânea do papa argentino, mas Francisco tem sido paciente e misericordioso com os seus críticos.

No entanto, essa conduta não tem obtido grandes resultados. Fazer de cordeiro entre lobos não resolverá nenhum problema, antes os agravará e mais tarde ou mais cedo, Francisco vai ter de os enfrentar, punindo-os ou resignando (Com Bento XVI) ou convocando um novo Concílio clarificador.
O Papa Francisco é muito popular, mas isso não significa que seja poderoso. Acho que ele tem a clara noção disso e tem evitado a todo o custo o confronto com os lobos do Vaticano, esquivando-se a mexer em assuntos sensíveis como o dinheiro que o Vaticano gere ou os casos de pedofilia. Todavia esta misericórdia de Francisco não é suficiente para os bispos e cardeais que julgavam ser os donos da Igreja. 

Eles tinham os cristãos amansados e rendidos a uma doutrina assente no medo, nas restrições e numa visão de sociedade ultrapassada. Francisco convocou a simpatia de quem estava fora e encheu de orgulho e esperança os cristãos. No entanto, estes esperam que Francisco faça tudo, desconhecendo quão ciclópica é a tarefa e ignorando os reais perigos que o papa atravessa.

As reformas de Francisco dentro da Igreja ainda estão em rascunho, necessitando da intervenção clara e inequívoca dos cristãos de todo o mundo, para passar a forma de lei.
Os cristãos precisam do Papa para revitalizar os cristianismo e o papa precisa dos cristãos para vencer a dura batalha que trava no Vaticano com os velhos lobos esfomeados, que querem manter a Igreja como a imaginaram, em meados do século XX, quando a mundo vivia a preto e branco, em plena guerra fria. 
Ao contrário do que possamos supor esses tempos não foram ainda derrotados. Putin reina na Rússia e Trump foi eleito nos EUA.
GAVB