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domingo, 11 de fevereiro de 2018

PAPA FRANCISCO: UM CORDEIRO NUM COVIL DE LOBOS




Infelizmente, creio que as declarações de Dom Manuel Clemente, cardeal patriarca de Lisboa, não foram um equívoco nem aconteceram por acaso, antes fazem parte de um largo movimento de afrontamento às posições do papa Francisco, no que diz respeito à vida familiar e à sexualidade dos cristãos.
É sabido que entre vários bispos e cardeais, dentro e fora do Vaticano, há grande desagrado com as posições flexíveis do papa Francisco face ao divórcio, à sexualidade, à aceitação das falhas dos cristãos. 
A linha dura do Vaticano continua maioritária e está furiosa e ciumenta com a popularidade do Papa. É essa mesma linha dura que o tem desafiado de diversas formas, procurando uma reação extemporânea do papa argentino, mas Francisco tem sido paciente e misericordioso com os seus críticos.

No entanto, essa conduta não tem obtido grandes resultados. Fazer de cordeiro entre lobos não resolverá nenhum problema, antes os agravará e mais tarde ou mais cedo, Francisco vai ter de os enfrentar, punindo-os ou resignando (Com Bento XVI) ou convocando um novo Concílio clarificador.
O Papa Francisco é muito popular, mas isso não significa que seja poderoso. Acho que ele tem a clara noção disso e tem evitado a todo o custo o confronto com os lobos do Vaticano, esquivando-se a mexer em assuntos sensíveis como o dinheiro que o Vaticano gere ou os casos de pedofilia. Todavia esta misericórdia de Francisco não é suficiente para os bispos e cardeais que julgavam ser os donos da Igreja. 

Eles tinham os cristãos amansados e rendidos a uma doutrina assente no medo, nas restrições e numa visão de sociedade ultrapassada. Francisco convocou a simpatia de quem estava fora e encheu de orgulho e esperança os cristãos. No entanto, estes esperam que Francisco faça tudo, desconhecendo quão ciclópica é a tarefa e ignorando os reais perigos que o papa atravessa.

As reformas de Francisco dentro da Igreja ainda estão em rascunho, necessitando da intervenção clara e inequívoca dos cristãos de todo o mundo, para passar a forma de lei.
Os cristãos precisam do Papa para revitalizar os cristianismo e o papa precisa dos cristãos para vencer a dura batalha que trava no Vaticano com os velhos lobos esfomeados, que querem manter a Igreja como a imaginaram, em meados do século XX, quando a mundo vivia a preto e branco, em plena guerra fria. 
Ao contrário do que possamos supor esses tempos não foram ainda derrotados. Putin reina na Rússia e Trump foi eleito nos EUA.
GAVB

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O CRISTÃO DE VIDA DUPLA E O ATEU


O Papa Francisco volta a atacar um dos grandes cancros da Igreja Católica: a santa hipocrisia. Disse Francisco, sem papas na língua: “O que é um escândalo? É dizer uma coisa e fazer outra, é a vida dupla. Eu sou muito católico, vou à missa, pertenço a esta ou àquela associação, mas a minha vida não é cristã, não pago com justiça aos meus empregados, aproveito-me das pessoas, faço negócios sujos”. (…) “Para ser um católico como esses, era melhor ser ateu.”
Francisco só não tem razão numa coisa: na referência ao ateu. Ser ateu não é um mal menor, mas uma opção (às vezes nem isso) de vida, no que diz respeito à relação do Homem com o transcendente.
Finalmente, o papa Francisco começa a ser duro com os seus, chamando-os à atenção, lembrando-lhes que o pior dos pecados é o pecado consciente e dissimulado.

Francisco fala da sua Igreja, das suas falhas imperdoáveis, da sua responsabilidade social. Ser cristão é assumir uma conduta ética e moral irrepreensível. Claro que pode haver falhas, mas elas têm que ser pontuais e devem ser corrigidas, e muitas vezes isso é possível. Quem não procede assim não pode ser considerado cristão. Quero lá saber se é batizado, se vai à missa ou pertence à Opus Dei. Ele mesmo sabe que Cristo não o reconheceria como um dos seus, por isso não vejo razão para a Igreja o reconhecer.
Ao contrário do que Francisco diz, “aquele que não paga com justiça aos seus empregados, aquele que se aproveita dos outros e faz negócios sujos” não tem uma vida dupla, já que que a única vida que conhece é aquela que pratica. Quando vai à missa, faz o ato de contrição ou comunga como ar angelical só mostra que não tem vergonha na cara, pois caso a tivesse nem lá punha os pés.
Este tipo de gente não é cristã, mas envergonha o cristianismo. E é disso que Francisco tem de tratar. Quanto aos ateus, é rebanho de outro pastor.

GAVB

domingo, 20 de abril de 2014

SER CRISTÃO: CONSTRANGEDOR OU DESAFIADOR?

Hoje os cristãos assinalam a Páscoa, ou seja, a ressurreição de Jesus Cristo. Trata-se da principal festa religiosa dos cristãos, pois através da ressurreição, Cristo assume-se como verdadeiro Deus e deste modo o cristianismo ganha uma dimensão de religião.
A palavra Páscoa deriva do hebraico “Pessach” que significa passagem. Os judeus comemoram, através dela, a libertação e fuga do seu povo do Egito; os pagãos ligam-na à passagem do inverno para a primavera; para os cristãos é a passagem da morte à vida. É isso que a ressurreição de Cristo significa para os cristãos. Verdadeiramente, o cristianismo começa aí.

Ora, os portugueses são um povo sem religião oficial, mas, culturalmente, são  na sua maioria cristãos e católicos. A questão que hoje, no meu entender, se coloca é que espécie de cristãos e de católicos são os portugueses, atualmente? Qual o papel da religião na vida das pessoas? E o da Igreja?
Acho que é um papel cada vez mais secundário. As decisões mais importantes da vida de cada um não têm em conta os ensinamentos cristãos nem as recomendações da Igreja.
Hoje, há uma certa vergonha em se assumir cristão. E por que é que isto acontece? O ideário cristão é profundamente humanista e geralmente considerado muito recomendável, no entanto, uma grande parte das pessoas acham-no duma inocência racional inaceitável, outros acusam-no de semelhanças com um conto de fadas, pois contém evidentes falhas de explicação racional. Pois contém e terá sempre de conter. A Igreja nem deve preocupar-se em refutar tal acusação.
A força da religião não é a razão, mas sim a fé! E a fé não é acessória para o ser humano. Ele acredita no sobrenatural e no transcendente.
Então, por que se afasta o Homem da religião (cristã) a quem reconhece méritos? Porque ela o interpela, porque lhe aponta diretamente os erros e lhe sugere caminhos a seguir, “obrigando-o” a mudar, sem vacilar. Como isso implica esforço, normalmente, o cristão cultural sorri amarelo e prefere apontar as falhas da Igreja e, se isso não for suficiente, do próprio cristianismo.

A isto acresce que ser da Igreja é conotado como ser alguém fora de moda, algo rústico, tonto e naïf. Nessa visão desfocada das coisas, ser da Igreja impede as pessoas de usufruir da vida, de a aproveitar.
O problema não é esse. O problema é que ser-se cristão obrigar-nos-ia a confrontarmo-nos com os nossos defeitos e a ser melhores pessoas. Ora isso dá muito trabalho! Isto aplica-se aos cristãos, porque há cada vez mais pessoas a declarar-se “sem religião”. Ao contrário de há cinquenta anos, o normal, o aceitável e expectável é não ser-se religioso.
Eu acho que o bom seria cada um pensar pela sua própria cabeça. Conhecer e avaliar a proposta de vida que uma religião como o cristianismo faz e verificar se ela faz sentido ou não na sua vida. Verdadeiramente desafiante para um cristão cultural era tornar-se num cristão praticante.
E qual o papel do Papa Francisco no contexto atual do cristianismo e da Igreja católica?
O grande e surpreendente herói dos cristãos é um fenómeno pela sua sincera simplicidade, pela maneira desconcertante como diz o óbvio que a Igreja não dizia nem praticava, por fazer a Igreja regressar à simplicidade e humildade da fé de Cristo.

O Papa Francisco conseguiu travar o processo de erosão que a Igreja Católica passava e fê-la olhar-se ao espelho. Motivo de orgulho para os cristãos, de admiração para os não praticantes e de respeito para os não crentes, o Papa Francisco tem um enorme desafio pela frente.
 Ele deve atrair gente à Igreja Católica, recuperando os não praticantes, seduzindo os não crentes. Depois ele deve tornar a voz e o papel da Igreja relevantes quer no contexto das diversas sociedades quer nas decisões de cada pessoa.
Mais que simpático, o Papa Francisco precisa de ser ainda mais assertivo e incisivo, sem se tornar pretensioso ou querer decidir pelas pessoas. Ele tem que seduzir como Cristo. Tem de ter opinião sobre os assuntos que afetam as pessoas no dia-a-dia, sem impor uma visão meramente religiosa. Ele tem de mostrar que algumas visões humanistas da vida têm muito de cristianismo.

Gabriel Vilas Boas