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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

MINISTÉRIO DA SOLIDÃO


Não é uma ideia parva ou nascida da cabeça de algum poeta, mas uma inovação do governo inglês de Theresa May. A primeira-ministra inglesa justificou a criação de um Ministério da Solidão no Reino Unido com as “demasiadas pessoas para quem a solidão é a triste realidade da vida moderna”.
Sem hesitações nem preconceitos, May nomeou a mais bizarra ministra do seu executivo, Tracey Crouch, que terá a tarefa de superintender um grupo intergovernamental que atuará sobre a problemática da solidão em todas as parte do governo.
Estou curioso para perceber como os pragmáticos ingleses tratarão  a nível formal esta questão. Que ações levarão a cabo? Como abordarão a questão e em que grupos incidirão a sua ação? E sobretudo como a sociedade reagirá ao trabalho deste grupo.

Não deixa de ser curioso ver como o Reino Unido está a  atuar em contra-mão face ao resto da Europa e até do mundo. Quando todo o mundo se abre ao exterior, arrastado pela locomotiva dos jovens, os ingleses isolam-se no seu Brexit decretado pelos seus velhos.
Quando toda  a gente procura Londres para fazer negócios, para conhecer pessoas, para estar no centro dos acontecimentos, o governo inglês preocupa-se com a solidão de grande parte da sua população.
Um relatório recente refere que cerca de nove milhões de adultos, em Inglaterra, estão quase sempre solitários e que mais de um terço desse assustador número tem na televisão a sua grande companhia.
Não sei como e com que êxito se desenvolverá a ação deste inusitado Ministério da Solidão, mas uma coisa é certa – Theresa May está atenta às pessoas mais velhas, ao drama da sua existência e prefere fazer alguma coisa do que fingir que não vê milhões de olhos tristes, desolados e sem esperança.
Talvez o futuro dos mais novos esteja na resolução do grande problema dos velhos.

GAVB

sábado, 30 de setembro de 2017

LUTA-SE PELA PAZ, MAS NÃO SE MENDIGA A PAZ


A 30 de setembro de 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain dizia aos jornalistas «A resolução do problema da Checoslováquia que agora foi alcançada é, a meu ver, somente o prelúdio de uma decisão mais ampla através da qual a Europa pode encontrar a paz. Esta manhã tive outra conversa com o chanceler alemão, Herr Hitler, e aqui está o documento em que figura o seu nome e o meu. […] Considero que o acordo assinado ontem à noite e o Acordo Naval Anglo-alemão simbolizam o desejo dos nossos dois povos nunca mais entrarem e guerra um com o outro.»
Esta inacreditável inocência prosseguiu, horas mais tarde em Downing Street.
«Esta é a segunda vez na nossa história que a paz volta da Alemanha para Downing Street com honra. Creio que se trata da paz para o nosso tempo. Agradeço-vos do fundo do coração. E agora recomendo-vos que vão para casa e durmam tranquilamente na vossa cama».


Toda a gente sabe o que se passou, na Europa, nos seis anos seguintes, e por isso custa a crer como Chamberlain foi capaz de tanta inocência e ignorância políticas, até porque o Acordo de Munique deu carta-branca ao terrível líder germânico para  absorver a região sudeta, de maioria alemã, na Checoslováquia, apesar de existir uma aliança anterior entre França, Checoslováquia e Reino Unido.

Chamberlain acreditava na palavra de Hitler (como foi possível?!) e julgou que as ambições territoriais deste ao território checo tinham terminado, mas essas promessas revelaram-se falsas em poucos meses: em Março de 1939, Hitler anexou mais território checoslovaco e onze meses depois invadiu a Polónia e precipitou a Segunda Guerra Mundial de que estava tão desejoso.


Nessa altura (1938), este acordo obtido por Chamberlain foi recebido em Londres como uma proeza, mas os meses futuros provaram que fora o engodo perfeito, lançado por Hitler, para apanhar a Grã-Bretanha ainda mais impreparada para a guerra.

Há um provérbio latino – Si vis pacem, para bellum (Se queres a paz, prepara-te para a guerra)  - que encaixa na perfeição naquilo que o primeiro-ministro inglês não fez e devia ter feito.
É meritório, louvável e desejável lutar pela paz, mas isso não pode ser confundido com mendigar paz. A paz é um valor nobre, não se mendiga, conquista-se, impõe-se. Infelizmente, há pessoas, como Hitler, que só conhecem o conceito de paz armada.

GAVB

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O PRIMEIRO ENCONTRO INTERNACIONAL DE FUTEBOL


O primeiro de todos os encontros internacionais de futebol foi disputado entre equipas representantes de Inglaterra e Escócia, num campo de críquete (imagine-se), a 30 de novembro de 1872.
Quatro mil espectadores assistiram a um empate sem golos. Embora tivesse havido encontros anteriores, em Londres, entre as duas nações, a equipa escocesa integrava apenas escoceses residentes na capital inglesa e por isso o carácter internacional desses desafios ficava um pouco comprometido.

Para contrariar as críticas a esta situação a Football Association lançou um desafio aos escoceses e este foi aceite. Toda a equipa escocesa foi formada por jogadores do Queen´s Park, o clube líder na Escócia (não existia uma associação de futebol escocesa e os restantes clubes a norte da fronteira jogavam, naquela época, na associação de futebol inglesa).
Quanto ao jogo propriamente dito, na primeira parte, os escoceses controlaram o jogo e chegaram mesmo a marcar um golo, mas este foi controversamente anulado. Na segunda parte, os ingleses dominaram, mas também não conseguiram marcar qualquer golo.  Pouco antes do apito final do árbitro, um remate escocês caiu sobre a fita que na época era usada em vez da trave. Foi a segunda melhor situação de golo durante todo o jogo.

A partir desta data (30-11-1872), este jogo passou a disputar-se anualmente e tornou-se fonte de muita rivalidade entre escoceses e ingleses. Só mais de cem anos depois (1989), esta tradição foi abandonada.
A pátria do futebol é mesmo o Reino Unido e não admira que o seu campeonato seja seguido em todo o mundo, por povos que não têm grande ligação ao futebol ou à Grã-Bretanha. Os ingleses criaram o jogo mais popular e apaixonante do mundo do desporto e souberam exportar a sua paixão para o resto da Europa, pela América do sul, em África e na Ásia, onde apesar de não serem especialmente dotados para a prática da modalidade há legiões de fãs que seguem os melhores campeonatos da Europa.
Em 1972 nasceram os jogos internacionais de países que durante o século XX se haviam de tornar em campeonatos do mundo e da Europa, transformando o futebol num dos espetáculos desportivos mais apreciados durante todo o século XX e o verdadeiro desporto do povo.

Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A BATALHA DE TRAFALGAR, 1805



«Sua Senhoria veio ter comigo à popa, e depois de ordenar o envio de certos sinais, por volta de um quarto para o meio-dia, disse: “Senhor Pasco, quero transmitir à armada que A INGLATERRA TEM CONFIANÇA QUE TODOS CUMPRIRÃO O SEU DEVER.” E acrescentou: “Tem de ser rápido, pois tenho mais um a enviar, que não pode demorar.” Respondi: “Se vossa senhoria me permitir que substitua confiança por expectativa, o sinal será enviado em breve porque o termo expectativa, consta do vocabulário, e o termo confiança tem de ser soletrado.” Sua Senhoria respondeu à pressa e com aparente satisfação: “Pode ser, Pasco, faça isso já.” – John Pasco, Sinaleiro, Hms Victory, 1805.

As célebres palavras de encorajamento do Vice-almirante Lord Nelson à sua armada, transmitidas no recém-introduzido sistema de sinalização por telégrafo, foram seguidas pelas suas igualmente famosas: «Envolvam mais o inimigo», quando comandava a primeira das duas linhas britânicas num ataque pela direita ao centro da linha franco-espanhola.
A sua tática, destinada a dispersar a armada inimiga e a tirar partido do seu poder de fogo superior, alterou os pressupostos tradicionais em relação à guerra naval e transformou a napoleónica batalha naval de Trafalgar, perto de Gibraltar, numa série de combates individuais.  

A nau capitaneada por Nelson, HMS Victory, envolveu-se numa luta cerrada com o segundo navio da linha francesa, o Redoutable. Quando os navios se embrenharam na luta, Lorde Nelson foi atingido na espinha por um tirador empoleirado no cordame francês. Transportado para baixo, a sua morte tornou-se lendária.
Entre as suas últimas palavras, tal como contou o cirurgião de bordo William Beattie, contam-se um apelo a favor da sua amante Emma Hamilton (“Tomem conta da pobre Lady Hamilton”). Já as suas derradeiras palavras foram sobre a sua vida na Royal Navy: «Graças a Deus, cumpri o meu dever.»

O corpo de Lord Nelson regressou a Inglaterra para o funeral, e a sua reputação como herói, que garantira o domínio naval britânico durante um século, consolidou-se de forma definitiva e até lendária.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

BLOODY SUNDAY


O dia 30 de janeiro é um dia manchado de más notícias nos anais da História. Hitler é nomeado chanceler alemão em 1933, Mahatma Gandhi é assassinado em 1948, catorze irlandeses são alvejados mortalmente pela polícia britânica na Irlanda do Norte, quando faziam uma manifestação pacífica, naquele que ficou para a História como o domingo sangrento.
Fiquei a saber o que fora o Domingo Sangrento de 72 através da tocante música dos U2 “SUNDAY BLOODY SUNDAY”, editada em 1983.
A meio da letra, Bono e companhia interrogam-nos
And the battle's just begun
There's many lost, but tell me who has won?

Obviamente ninguém! Mas houve muitas perdas!

The trenches dug within our hearts
And mothers, children, brothers, sisters torn apart

Onze anos depois daquelas tristes notícias que enchiam de dor o seu coração de irlandês, o líder dos U2 perguntava:

How long, how long must we sing this song?

Talvez nem Bono imagina-se que teriam de passar quase quarenta anos para que o governo britânico reconhecesse que os soldados britânicos procederam de maneira errada e apresentasse as suas desculpas aos familiares das vítimas.
O Domingo Sangrento de 1972 foi a chama que alimentou o IRA durante anos, foi a gasolina dum ódio que matou muita gente e no qual várias gerações de norte-irlandeses e ingleses cresceram e viveram.



E quando penso que isto partiu duma disputa entre católicos e protestantes, duas igrejas da mesma religião, mais revoltado fico. Tenho sempre muita dificuldade em perceber como quem prega a paz, a concórdia, a harmonia entre povos, dá tão péssimos exemplos.
Quando as igrejas desfocam a sua ação do essencial, rapidamente se tornam num exemplo perverso daquilo que nunca se deve fazer.
O “Domingo Sangrento” de Derry jorrou sangue durante muito tempo. Nesse longo inverno de dor, incompreensão e revolta fermentaram-se terroristas, cavaram-se fossos históricos entre dois povos que tinham tudo para se entenderam.
Foi a passagem do tempo que construiu a paz. E o tempo que se perdeu entretanto…
A vida dos povos e até dos indivíduos está cheia de “dias sangrentos”, onde a ira humana provoca danos consideráveis à paz desejada. A inteligência humana revela-se na capacidade de apreender o óbvio: só há uma saída quando se faz algo de muito errado, é fazer algo de muito certo. Assumir os erros, reparar o que é possível reparar são premissas fundamentais para seguir em frente.
Era magnífico que a História tivesse razões para desenhar uma flor por cima destas cicatrizes sangrentas.

Gabriel Vilas Boas