«Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal
precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se
assemelha ao dos videntes (Voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura
inconsciência, para estar à altura de si mesmo.
Poucos povos serão como o nosso
tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho.
Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos
enraíza na realidade está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A
nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem
é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser.
Mas não nos muda os sonhos.»
"Portugal - identidade e imagem" in "Nós e a Europa ou as duas
razões", Eduardo Lourenço
NOTA: Eduardo Lourenço morreu no dia seguinte ao da comemoração da morte do
poeta que mais amava e admirava (Fernando Pessoa) e no dia em que passam 380
anos que Portugal recuperou a sua independência e a sua identidade enquanto
povo. Profundamente simbólico.
Daqui a alguns meses a União Europeia fará chover diariamente milhões de euros sobre o governo português, para recompor a economia, por causa da pandemia.
Enquanto o presidente Marcelo coage a oposição, impedindo-a, indecorosamente, de regatear umas migalhas para as suas reivindicações costumeiras (o que custaria muito pouco ao governo do Partido Socialista) o governo prepara o terreno para usar o dinheiro dos fundos europeus sem grande escrutínio.
Mal soube que os milhões de Bruxelas entrariam durante 2021, o governo português propôs à assembleia da república a alteração das leis que regem a contratação públicas. «Agilizar processos», na linguagem do governo, significa menos vigilância do Tribunal de Contas.
Nos últimos dias o presidente do Tribunal de Contas disse que o a lei, como está a ser desenhada, abre as portas à corrupção. O primeiro-ministro respondeu com a dureza de um ditador: Vítor Caldeira, presidente do Tribunal de Contas, não será reconduzido.
Costa não rebateu as críticas nem demonstrou que as alterações propostas à legislação da contratação pública impediam a corrupção. Não, António Costa mandou embora o presidente do Tribunal de Contas. Não foi um qualquer funcionário, foi o presidente do TC. E o que diz Marcelo a isto? NADA! Diz que não quer crise política! O que ele não quer é democracia, nem escrutínio público e legal daquilo que o governo faz ou se prepara para fazer, usando leis aprovadas sob coação presidencial.
Da oposição já espero pouco, pois fica contentinha com as denúncias estilo facebook, mas de Marcelo esperava mais. Uma enorme desilusão. Cada vez parecido com o ex-amigo de Ricardo Salgado do que com o presidente dos portugueses, que todos os dias veem adiado a concretização de uma país mais desenvolvido, onde haja oportunidades para todos.
Por mais milhões que chovam da Europa continuamos a ser um país do chico espertismo, onde pouca gente investe seriamente. É por isso que a cada ano que passa mais países nos passam a perna. Holanda, Bélgica, República Checa entre outros, também já tiveram os seus problemas nos últimos cinquenta anos, mas venceram-nos e hoje está bem à frente de Portugal.
É que quando lhes deram dinheiro, eles não perderam tempo a criar leis para os desviar para os amigos de sempre, mas concentravam esforço em ter projetos sustentados para desenvolver o país. Os resultados estão à vista.
Se hoje chegasse a Portugal um velhote com setenta anos e procurasse ver onde estão milhões que a UE mandou para cá nos últimos trinta anos, os homens de Soares e Cavaco teriam muito pouco para mostrar.
Se é para continuar o legado de Sócrates, Salgado e Oliveira e Costa não é necessário enviar mais milhões. Mais triste do que não ter oportunidades é desperdiçar gerações por causa de sucessivas corrupções.
P.S. Quando é que Ana Gomes sai do PS? De que vale ser contra os corruptos se foi eurodeputada de Sócrates e é candidata presidencial do PS de Costa?
Primeira lição: o que o povo angolano precisa é de desenvolvimento, empresas e investimento.
De várias Isabeis com dinheiro limpo.
Qual é a raiz da cleptocracia que tudo tolhe?
A ruína da economia angolana começou nas escolhas fundadoras da nova nação.
Cortou-se o pio e desprezou-se uma burguesia nacional com capacidade e experiência e o país foi entregue a quadros marxizantes com anos de atraso em relação à economia que tinham de gerir.
Outra lição:a transparência financeira em Portugal, país pobre e carente de investimento, anda a reboque do que possa ser a transparência angolana.
Poder receber mais de um milhão de jovens de todo o mundo, muitos deles acompanhados das suas famílias, vê-los em interação com o papa Francisco, perceber o seu compromisso com causas tão nobres e fundamentais como a paz, a tolerância, o respeito pelo ambiente é um privilégio, não apenas para Lisboa, mas para todo o país.
Mais do que um país que está na moda, Portugal tornou-se um país que muitos querem conhecer e a quem é reconhecida capacidade organizativa para grandes eventos. Atrevo-me a pensar que os estrangeiros nos têm em melhor conta do que nós próprios. Ainda bem.
Mais do que voltar a ter o papa Francisco em Portugal, é ter um segmento fundamental da juventude mundial em território nacional, para refletir sobre algo que ultrapassa a própria Igreja Católica, porque a paz, a tolerância, o respeito pelo próximo e pelo ambiente dizem respeito a todos, interessam a todos.
Se o caminho até 2022 for feito de modo exemplar, os próximos três anos serão a grande oportunidade da Igreja portuguesa tentar reconquistar a juventude e afirmar a relevância da sua mensagem na sociedade portuguesa.
E como a nossa sociedade precisa de um choque vitamíco de juventude com valores, ideias, ação e coragem!
Quando ex-ministros, altos cargos da administração pública e até um ex-primeiro-ministro são envolvidos em casos de corrupção como não achar que Portugal tem um problema reputacional grave? Claro que tem e o governo devia assumi-lo, pois ele é mais do que evidente. No entanto, preocupa-se com a imagem internacional, com o acessório, em vez do essencial, que seria contribuir para eliminar o cancro social, político, social e económico que é a corrupção.
Importa pouco que seja um ex-ministro de Passos Coelho a querer incluir este tópico na análise à economia portuguesa, o que é relevante é que ele tem razão de ser. É nisso que o governo português tem de se concentrar.
Pressionar a OCDE, através da comunicação social, para retirar essa referência (verdadeira) ao clima corrupto em que vive parte da nossa economia é uma patetice, mas revela bem, infelizmente, o estilo de um governação que definha a cada dia que passa.
António Costa, Mário Centeno e Santos Silva devem refletir sobre este relatório da OCDE e garantir que a economia portuguesa fica imune a gente como Pinho, Sócrates, Salgado, Zeinal Bava, Armando Vara e outros artistas, que quase faliram o país.
Leio na imprensa que as "Universidades Privadas crescem com a inscrição dos estrangeiros". Eu diria antes que as "salvaram" e não só as privadas. A Universidade de Coimbra, por exemplo, já tem 20% de alunos estrangeiros, com especial destaque para o exército de brasileiros que procuram Coimbra pela tradição e pelo estatuto proporcionado pela mais antiga universidade portuguesa. A universidade conimbricense foi também pioneira no aproveitamento turístico da Instituição e hoje cerca de 3% das suas receitas provêm do turismo.
As universidades portuguesas não fizeram mais que a restante população: aproveitaram o novo elixir da felicidade - pessoas em permanente trânsito pela Europa - para ultrapassar a grave depressão económica em que políticas ultrapassadas e corruptas nos deixaram.
Foram os estrangeiros e o turismo que estancaram a hemorragia de jovens a sair do país, permitindo a mais baixa taxa de desemprego dos últimos dezasseis anos.
A busca do nosso país pelos estrangeiros permitiu a reabilitação urbana do Porto, Lisboa, Aveiro ou Braga. Também são os estrangeiros que continuam a executar os trabalhos deselegantes que os europeus não querem fazer. No entanto, na Europa cresce o apoio a partidos xenófobos e fecha-se a porta a quem é pobre e é islâmico, com a desculpa de que são potenciais terroristas.
Para sermos acolhedores não temos de ser permissivos, mas é indigno e estúpido ser preconceituoso.
O que acontece na Hungria, em algumas regiões da Itália e da Alemanha é a vitória do preconceito e da incompetência, além da falta de visão de futuro.
Gente incompetente prefere recusar o desconhecido antes de trabalhar uma ordenada incorporação de quem procura um recomeço de vida com urgência.
É muito fácil dizer "Portugal para os portugueses" ou "A Hungria para os húngaros", mas depois queremos Lisboa cheia de turistas chineses, japoneses, árabes ou americanos e contratamos brasileiros e cabo-verdianos para servirem às mesas dos restaurantes, dezasseis horas por dia, pagando-lhes pouco mais que o ordenado mínimo.
Temos a mania da "xico-espertice" no sangue e também é por isso que crescemos de maneira disforme.
«Eu não sei onde Portugal vai
colocar tanto brasileiro, porque é impressionante. Todos querem vir para cá.» Ângelo
Horta, conselheiro permanente das comunidades portuguesas.
Não se trata apenas de jovens à procura
do eldorado europeu através da porta portuguesa, mas igualmente gente de
quarenta e cinquenta anos, completamente desencantada com um país «sem futuro»,
onde todos os presidenciáveis têm problemas graves com a justiça e o sentimento
de insegurança é tão latente que parece que se tornou numa segunda pele.
Querem Portugal, em primeiro
lugar, por causa da língua, mas também porque pensam que a vida no nosso país será
mais fácil que noutro qualquer país europeu.
Portugal tem ainda lugar para
todos aqueles que o procuram, embora seja hoje um país um pouco diferente da
ideia clássica que o brasileiro faz do velho colonizador.
É um país seguro e talvez seja
este um dos seus maiores trunfos, mas é já um país caro (sobretudo Lisboa,
Porto e Algarve) para grande parte da classe média brasileira. O turismo
colocou Portugal na moda e hoje comprar ou arrendar casa em Lisboa, Porto,
Coimbra ou Aveiro é algo que não está ao alcance da esmagadora maioria dos
portugueses e até de muitos europeus.
É preciso que quem pretende viver
em Portugal perceba que o seu leque de escolha diminuiu, no que diz respeito à
habitação, e ainda não é muito vasto no que diz respeito ao mercado de emprego.
Estamos a sair de uma traumática
crise financeira e a recuperação de postos de trabalho ainda não foi totalmente
alcançada. Por outro lado, ainda somos um país que procura defender a todo o
transe os direitos mais elementares dos trabalhadores e por isso não é muito
bem vista uma empregabilidade sem direitos.
Apesar destes óbices, Portugal é
uma ótima escolha para os brasileiros, porque é uma excelente montra para
outros voos, no continente europeu, e oferece uma excelente base de apoio para
uma adaptação a uma nova cultura e estilo de vida, além de ser sempre um prazer
ter entre nós um povo tão alegre, amigável e simpático como é o povo brasileiro.
Collor de Mello, Dilma, Temer, Lula… - o desfile no Palácio
do Planalto sucede-se e a doença da corrupção parece cancerígena. Não é um
problema da presidência, porque muitos outros políticos brasileiros sofrem do mesmo
problema de pele. Diria até que não é um problema dos políticos brasileiros,
pois eles são eleitos democraticamente, escolhidos pelo povo e muitos regressam
a cargos públicos, porque voltam a ter a confiança da população. O problema
está, obviamente, no povo brasileiro que é muito tolerante com aquilo que é
intolerável.
A corrupção é intolerável, visto que é uma traição absoluta
à Confiança.
O argumento que o outro faz igual, que todos fazem o mesmo é um
péssimo argumento, porque não resolve o problema e ainda por cima é mentiroso.
A corrupção será sempre um atraso civilizacional e um forte
travão ao desenvolvimento económico de um país. Não há nenhum país rico e poderoso
que tenha na corrupção um problema estrutural.
De nada vale investir em infraestruturas, saúde ou educação
se não destruirmos uma mentalidade alicerçada no favorzinho.
Saímos do Brasil e chegamos a Angola e temos o mesmo
problema. Angola podia ser isto e aquilo, mas na verdade é apenas um país
subdesenvolvido, poluído de ricos que sugaram os vastos recursos naturais do
país e preferem gastar o seu excessivo dinheiro em compras no Chiado e na
Avenida da Liberdade.
Cabo Verde e São Tomé poucas ruas alcatroadas têm, as suas
crianças andam descalças e o sistema de saúde e educação são rudimentares, no
entanto são países independentes há mais de quarenta anos e lá ficam alguns dos
resorts mais procurados pela elite portuguesa. A Guiné-Bissau é, provavelmente,
a mais importante plataforma africana de tráfico de pessoas, droga e diamantes.
Uma autêntica offshore do crime a céu aberto.
O que é que há de comum nesta desgraça africana e sul-americana?
Portugal. Pior do que um fraco desenvolvimento económico e social, pior que uma
desorganização congénita, foi esta mentalidade pobre e desgraçada que tolera a
corrupção, que deixamos como herança.
É verdade que disfarçamos melhor quer os brasileiros ou os
angolanos, mas é só isso. Os anos passam e pouco muda. Também é por causa disto
que os mais capacitados dos jovens portugueses almejam mostrar competências no
estrangeiro; também é por causa disto que há pouco investimento estrangeiro em
Portugal.
Portugal não é um país de catástrofes naturais. Terramotos, tsunamis, tornados, meses a fio sem chover, inundações frequentes são fenómenos que não acontecem em Portugal. Apesar disso, não há um ano em os jornais e as televisões não noticiem uma qualquer catástrofe, que deu cabo de não sei quantos hectares de floresta ou desalojou centenas de pessoas. No inverno é porque chove, no verão é porque faz calor.
Não chove intensamente durante muito tempo, nem dura uma semana o calor africano, mesmo assim o país não resiste a uma calamidade sazonal.
É verdade que as calamidades acontecem, mas em Portugal surgem com muita facilidade.
A capacidade de resposta da protecção civil, dos bombeiros, das autoridades policiais é muitas vezes insuficiente. Deve soar muito mal ás centenas de famílias desalojadas ou aos agricultores que perderam campos e animais ouvir dizer que todos foram excepcionais no combate ao fogo ou às inundações mas não se conseguiu evitar a calamidade.
Das duas três: ou não são assim tão bons ou qualquer tempestade de água ou fogo nos derrota ou as circunstâncias que construímos nos deixam irremediavelmente nas mãos da sorte.
Há uns anos havia umas almas inocentes que tinham dúvidas sobre a origem criminosa dos fogos até que um fogo acendeu e reacendeu às quatro da madrugada ao pé da porta.
Há ainda muita gente que acha que na Madeira, o incêndio chegou ao centro do Funchal só por causa do vento como achou que há alguns anos houve inundações na baixa funchalense por causa de três horas de chuva furiosa. Não foi.
O ordenamento do território é tão mau que garante, à partida, 30% de taxa de sucesso, a qualquer incêndio. Depois os meios são escassos. Faça sol ou faça chuva, faltam bombeiros, autotanques, apoio de retaguarda. Adianta pouco que os bombeiros trabalhem até à exaustão se não têm quem os renda. O fogo nem precisa de ser intenso para os vencer, precisa é de quem o ateie consecutivamente em vários sítios mais ou menos distantes entre si.
Agora muitos falam de prevenção! É bonito e cai bem, mas sabem quanto custa e como se faz? Não é pasar umas multas, estilo ASAE, a quem não limpa as matas que a prevenção se faz. Custa dinheiro, muito dinheiro; exige tempo, algum tempo; e paciência para aceitar algumas derrotas durante alguns anos.
Nós próximos anos podemos almejar "perder melhor" e isso já será uma vitória.
Ao que parece a União Europeia pode multar Portugal porque
excedeu o deficit previsto para 2015 em 0,2% do orçamento. Ainda que António
Costa tenha retorquido que era ridículo penalizar um país por uma falha de
0,2%, Maria Luís Albuquerque tinha razão: o problema é não era o deficit, mas o
titular da pasta das Finanças. É verdade: se fosse ela ministra das Finanças de
Portugal, o nosso país jamais seria sancionado. Durante quatro anos, Portugal
sempre “furou” o deficit e nunca foi penalizado. A chave era a cor política do
governo: a Alemanha jamais deixaria que um governo de direita, que cumpria com
todas as ordens emanadas de Berlim sofresse qualquer penalização, não fosse o
povo desse país acordar para a vida e perguntar-se “Que mais quer Merkel e a
Alemanha, se já somos governados pela «sua gente»?”
Costa bem pode dizer que está a cumprir com a execução
orçamental, que o problema foi do governo de Passos e Maria Luís, que 0,2% é um
desvio ridículo, que o tratado orçamental já sofreu mais transgressões que o
código da estrada, que o resultado será o mesmo.
Lentamente as peças vão-se encaixando e tudo se torna mais
claro, agora com dados vindos de dentro do governo, ainda que oficiosamente.
Hoje o DN, dizia que a maior ameaça ao deficit público deste ano vinha da
banca. Mas havia de vir de onde? Do extraordinário aumento de 70 cêntimos por
dia do salário mínimo? Os cortes que o governo teve de impor aos portugueses
foram por causa dos BPN, dos BES, dos BCP, dos Montepio e dos Banif's desta vida. Foi por causa
deles e das PPP que houve resgate. Mas nunca a troika, a União Europeia, o
Bundesbank, o FMI exigiu que os conselhos de administração desses bancos ou
dessas empresas público-privadas prestassem contas, fossem afastadas ou
respondessem criminalmente. Para eles um banco “perder” milhões (na verdade “perder”
é um eufemismo de desvio) é perfeitamente aceitável; como é aceitável que o
país se endivide mais e mais para pagar esses “desvios” colossais. E como o
país já não tem dinheiro para manter a gula dos “Goldman Sachs” da nossa perdição, há
que privar os portugueses de mais uma fatia dos míseros ordenados /reformas que
recebem.
Somos uns tolos e uns cobardes. Deixamo-nos enredar nesta teia
e agora não conseguimos sair dela sem dor, uma grande dor. Eles também nos
causam dor, mas é lenta. Morrer em câmara lenta deve ficar bem na fotografia.
Entretanto vamos sendo gozados de toda a forma e feitio:
hoje, a "belíssima" Christine Lagarde vem dizer que os bancos portugueses são um
risco para a economia mundial! Uau! Então os nossos banquinhos falidos e
corruptos são um perigo para a economia mundial? A alta finança mundial deve
estar já a tremer… de riso, só pode!
Quando se trata de justificar o injustificável, até o
ridículo e o burlesco não têm limite.
Realmente, Portugal tem um enorme deficit estrutural: não pensa.
Obedece e é tudo. O grande deficit deste país é mental.
As televisões portuguesas bombardeiam-nos a todo a hora, há
um mês, com imagens sem interesse jornalístico sobre a presença da seleção
portuguesa em França. Os jogos, nós vemos com gosto, apesar das exibições serem
bem piores que o resultado; os comentários dos jogadores e do treinador também,
mas aqueles diretos tontos, a toda a hora do dia, para ouvir a comunidade
portuguesa em França falar de coisa nenhuma não fazem qualquer sentido a não ser gastar o tempo de antena, em que ninguém trabalhou para preencher de outra
maneira.
No entanto, há uma flor que desabrocha desta imensa
preguiça e mediocridade: o genuíno orgulho daquela gente em ser português.
Aquele frenesim, aquela emoção sem razão, aquelas horas e horas à espera de um
aceno do Ronaldo e companhia podem parecer bacocos ou simplesmente tontos, mas
traduzem um incrível sentimento de orgulho em ser português.
Um orgulho que
nunca detetamos em Portugal (onde o normal é dizer mal de nós), um orgulho que
a situação financeira, económica e social do país não explicam, um orgulho que
o desporto (muito menos o futebol) autoriza, um orgulho que não se baseia nos
muitos anos passados em Portugal e que as saudades fazem perceber, pois grande parte
daqueles emigrantes pertence a uma segunda, terceira ou mesmo quarta geração de
portugueses e, portanto, sem grande contacto com o
território nacional.
Todavia… todavia aprenderam a amar a terra dos pais ou dos
avós, têm gosto em se afirmar portugueses, embora tenham nascido em França,
apesar de todas as humilhações que o país e os pais sofreram ao longo de
décadas, num país, que tem tanto de acolhedor quanto de chauvinista.
Não deixa de ser uma lição de portugalidade para todos,
emigrantes ou não, aquilo que pressentimos nos despropositados diretos de
Marcoussis.
Não é apenas emoção, não é apenas o futebol nem o Ronaldo, é um
sentimento profundo que fez com que uma rapariga de vinte e poucos anos (Sónia Carneiro),
nascida em França mas descendente de portugueses, jornalista do jornal “20
Minutes” (onde um colega escreveu “Este Portugal é nojento, mas está nos
quartos-de-final”) saísse publicamente em defesa de Portugal, com uma
veemência e contundência tal que o colega foi obrigado a engolir toda aquela
nojeira que tinha vomitado.
Ainda que seja entre estranhos, é sempre bom sentir que os
nossos têm orgulho em pertencer à família e que não há fronteiras nem língua ou
tempo que destrua esse orgulho em ser português. Uma das melhores heranças do
Portugal antigo.
Em 12 de Junho de 1875 Rafael Bordalo
Pinheiro fazia nascer a figura do Zé Povinho para ilustrar como o governo português carregava
o povo de impostos, deixando-o cada vez mais pobre.
A caricatura ganhou lastro social e
Bordalo Pinheiro alargou o âmbito da sua crítica, apresentando Zé Povinho como
uma figura resignada perante a corrupção e a injustiça, ignorante e obediente.
Algumas décadas depois, Portugal mudou da monarquia para a república e pouco
depois resignou-se à ditadura para acabar com a rebaldaria. No entanto, o Zé
continuava parvinho e a caricatura de Bordalo Pinheiro, infelizmente,
continuava a ter atualidade.
Em nome do Zé, um século depois do
desenho de Rafael Bordalo Pinheiro, acabou-se com o Estado Novo que sempre
cheirou a velho e restabeleceu-se a democracia.
Houve quem falasse em triplo D (Democratizar, Descolonizar e
Desenvolver), mas ficámo-nos pelos dois mais fáceis e talvez por isso, a 12 de Junho de 1982, Portugal assinou o tratado de adesão à CEE. O Zé cantava,
alegre, que queria ver Portugal na CEE… e viu! O Zé já não era inculto, o Zé já
não era tolo, o Zé já nem era povo… era cidadão!
Agora já não havia rei, já não havia
ditadura, agora é que era! Não foi! Ingénuo como sempre, o Zé continuou
parvinho, agora enganado por outros Zés, que fizeram uma interpretação muito
própria do verbo “desenvolver”: governar-se.
Mais uma vez ludibriado, mais uma vez
gozado, o Zé passou a rir de si próprio, queixando-se de tudo, de todos e
também da sorte, à boa maneira dos calimeros.
Passaram-se cento e quarenta anos e o Zé nunca deixou de ser parvinho, nunca deixou de ser povinho.
Não tem piada, não me apetece rir. São
décadas e décadas a cometer os mesmos erros, a ver outros povos crescer, cair e
tornar a erguer-se enquanto os portugueses continuam a contar piadas sobre o Zé,
ou seja, sobre si.
Rafael Bordado Pinheiro criou uma
caricatura para arrumar com uma realidade opressora. Está mais que na hora de
acabar com a caricatura de povo que, muitas vezes, somos.
Não foi preciso Cristo descer à Terra nem voltar a mergulhar no Tejo frio e poluído: aos sessenta e sete anos Marcelo Rebelo de Sousa torna-se no vigésimo Presidente da República Portuguesa. Numa corrida
eleitoral com dez candidatos mas sem nenhum interesse político, o professor
Marcelo atingiu finalmente o objetivo e o sonho de toda uma vida.
Enfrentando uma panóplia de candidatos
menores e usufruindo da simpatia de uma população descrente na classe política
que a governou nas últimas duas décadas, Marcelo conseguiu o extraordinário
feito de ser eleito sem precisar do apoio de nenhum partido político. Depois de mais de vinte anos a fazer comentário político na rádio e na televisão,
a ser escutado como nenhum outro português o foi, a ser seguido com atenção por
sucessivos decisores políticos, Marcelo ganhou finalmente coragem para se
candidatar à Presidência da República.
Chega demasiado tarde. Há dez anos faria
mais sentido e temo que estejamos a repetir o erro que cometemos com Cavaco
Silva, quando procuramos dar ao outro professor mais famoso da democracia
portuguesa uma espécie de prémio de final de carreira e obtivemos em troca um
presidente imóvel, partidário, incoerente, sem reação nem determinação para orientar o país
na grave crise económica, social e política que ainda atravessamos.
Chega ao mais alto cargo da nação um dos
mais bem preparados e informados cidadãos do país, um homem que consegue ser
das elites e ao mesmo tempo amado pelo povo; um homem que simplificou a política todos os domingos
à noite, explicando-a. No entanto...
Talvez Marcelo não tenha reparado mas, nos
últimos anos, tornou-se muito consensual, muito politicamente correto,
condescendendo com algumas práticas políticas que tinham de ter sido obstruídas. Não sei se o fez por tática ou poque a idade sénior o tornou
menos irrequieto, mas não foi esse Marcelo que a minha geração ouvia com
atenção na TSF, nas temidas notas semanais que dava aos governantes e outras
figuras públicas da sociedade portuguesa.
Não sei se Marcelo terá força ou vontade
de voltar a ser o enérgico professor “Martelo” que mereceu um boneco do Contrainformação,
mas sei que Portugal precisa de um Presidente da República que seja mais do que
um velhinho consensual que ameaça usar a bomba atómica da dissolução da
Assembleia da República. Governar o país está difícil, mas ser um bom presidente
não está mais fácil. Portugal precisa de um presidente com sabedoria e com
golpe de asa, que una geracionalmente o país e o torne respeitado no
estrangeiro, que nos faça ter orgulhe em sermos portugueses e termine de vez com o
fado do desgraçadinho que já ninguém tem pachorra para mais desculpas, para mais
um “mas”, para um outro “para o próximo é que é”.
Este é um excerto da letra da canção de Jorge Palma que mais gosto e traduz, no meu entender, o pensamento dominante em Portugal e também, um pouco, no resto da europa.
Se o governo privatiza os Correios porque dão lucro ou “dá” a TAP pois cria prejuízo, isso pouco nos abala. Alguns ainda se dão ao trabalho de escrever uns artigos de indignação, outros “lamentam profundamente” a perda de mais um símbolo nacional e… passa-se adiante porque daqui a umas semanas o governo que elegemos e voltaremos a eleger fará mais um ajuste direto para vender os STCP no Porto ou a Carris em Lisboa, enquanto ainda houver compradores, ainda que todos saibamos que fecharão linhas e haverá populações às portas de Lisboa e do Porto apenas com um/dois autocarros por dia.
Importará tanto como importou ao Banco de Portugal a regulação da atividade dos bancos privados na última década. Um após outro lá foram todos caindo no mar da própria corrupção, tanto mais descarada quanto mais fracos nos tornamos ao eleger marionetas para fazer e executar as leis.
Guterres já nos tinha avisado na viragem do milénio que “isto é que era a vida”, ou seja, este pântano onde nos deixou, preferindo os refugiados de todo o mundo ao lodaçal que os amigos de Peniche lhe criaram.
Perdemos o gozo de viver, deixamos de acreditar na vida e em nós, porque nos rendemos à peçonha neoliberal e individualista que nos conspurca a alma. Os programas de televisão, as revistas do social, os gurus da economia seduziram-nos com promessas irrealistas de um futuro risonho, onde governaríamos, sem esforço, uma nova legião de escravos. Entretanto teríamos de nos tornar tontos e súbditos, ganhando apenas o suficiente para a sobrevivência e uma ou outra extravagância low cost ou de marca branca.
Como canta Jorge Palma, amargurado, “invertemos a ordem do fatores: pusemos números à frente de amores” e de valores, aceitando um mundo a preto e branco, quando, afinal, ele é a cores! Mas agora já não há cor nenhuma. Desejamos deixar de ser “pretos” e passar a “brancos”. A oportunidade é perfeita: chegam-nos marés de novos negros à europa. A nossa hipocrisia solidária vai acolhê-los… se nos pagarem, como diria Passos Coelho.
Choraremos apenas se os mortos forem crianças, porque apenas esses merecem a nossa dor, as nossas capas de jornais, os nossos artigos de opinião, os nossos posts no facebook. Realmente a humanidade naufragou, mas foi a nossa!
Como muito bem notou o jornalista do Finantial Times, Martim Sandbu, “a crise dos refugiados mostra aquilo em que nos tornamos”.
A foto é horrível. Somos uma alma opaca, cinzenta e vazia, rendidos ao photoshop e ao narcisismo das selfies. Perdemos a noção do estético e do ético.
Todavia estamos vivos! Paralisados, mas vivos. A sorrir estupidamente para a fotografia que os outros vão adorar ou invejar, mas vivos. Não sei se isso é uma boa ou uma má notícia. Cada um decidirá! Sempre podemos continuar a fazer como a maioria:
“Andando por aí
Sobrevivendo à bebedeira e ao comprimido,
Dizendo sim à engrenagem,
Andando deprimido…
E é difícil encontrar quem não o esteja,
Quando o sistema nos consome e aleija”
Ou então aceitamos o desafio da Adriana Calcanhotto e entrar pela porta da frente da nossa vida. Pode ser que não reste mais de meia hora para a mudar...
A solução não está nos outros, a solução está em nós: em ti e em mim!
Um ano e meio depois da sua morte, os restos mortais de Eusébio são transladados para o Panteão Nacional, o lugar onde repousam definitivamente alguns dos heróis da pátria. Ultimamente, foram lá colocando alguns dos que o povo amou verdadeiramente e que personificaram a Portugalidade mais genuína e bela: Humberto Delgado, Amália Rodrigues, Sophia de Mello Breyner e, agora, Eusébio da Silva Ferreira.
Claro que o melhor panteão, onde devem morar estas figuras, é a nossa memória e o nosso coração. E Eusébio passa com distinção esses dois critérios. Deixou de jogar há quatro décadas e só no final da sua vida apareceu alguém a disputar-lhe o trono supremo. Os seus golos, as vitórias e alegrias que deu a um Portugal amordaçado e triste cintilam na memória de várias gerações.
Infelizmente não o vi jogar. Logo a ele que tornou monstruosa a popularidade do meu clube. Tenho os livros, os relatos radiofónicos e, sobretudo, as imagens televisivas que me mostram quão grande foi.
As correrias loucas com a bola, perfeitamente dominada, de vinte/ trinta metros até desferir o seu potente e certeiro remate, que fazia benfiquistas e portugueses pularem de alegria; a correção com companheiros e adversários; a simplicidade no trato; a afabilidade; o virtuosismo aliado à força numa combinação tão admirável que muito poucos se igualaram. Artur Agostinho, esse ícone da rádio e da televisão, batizou-o de pantera negra, pela maneira felina e cheia de estilo como corria, atacava, marcava.
Os golos, as vitórias, os prémios, os títulos não o tornaram mediático nem rico, mas profundamente amado. E não há maior riqueza de que ser amado assim.
Hoje, oficialmente, Eusébio subiu, justamente, ao panteão. A sua entrada na elite dos heróis nacionais consagra o futebol como um agente da cultura. Nada mais justo. A cultura é um exercício sobre a identidade e nos últimos anos o desporto em geral e o futebol em particular têm sido dos setores que mais têm contribuído para a nossa identidade coletiva.
Há ano e meio, despedi-me do rei Eusébio. Uma semana depois da sua morte, um estádio da Luz repleto ergueu-se para a última homenagem.
Sinatra cantava o «My Way», quase todos se levantaram para te rever mais uma vez. E havia tanta saudade nos nossos olhos brilhantes que nenhum aplauso consegue afagar.
Custou imenso levantar aquela cartolina negra e nem o hino que nos unia teve o sabor de tantas tardes e noites.
Depois virámos a cartolina e estádio ficou com as cores que nos ensinaste amar. Corremos, saltámos, marcámos, apoiámos, ganhámos. Era o mínimo que podíamos fazer para te dizer "Obrigado!"
Desde quinta-feira e até
amanhã, o coração de Lisboa está tomada pelo Festival da Máscara Ibérica.
Trata-se de um certame que se realiza pela décima vez e que traz à capital
portuguesa 690 participantes, divididos em 30 grupos, que revelam à população
um dos traços mais profundos da cultura ibérica.
A Máscara Ibérica é uma
máscara típica de Portugal e Espanha, muito ligada aos cultos celtas que
assinalavam o solstício de inverno. Outras máscaras ligam-se a rituais de
fertilidade e outras ligam-se ao Entrudo.
A Máscara Ibérica é um
projeto conjunto da PROGESTUR (associação de cultura e turismo) e da EGEAC que
engloba um grandioso desfile de Máscaras Ibéricas (realizado durante a tarde de
hoje), exposições e produção bibliográfica sobre a Máscara Ibérica.
Durante várias horas, a
baixa lisboeta foi invadida por Caretos de Podence, Lazarim, Lagoa (Mira), Aveleda;
Diabos, Sécias, Zangarrões, Galdrapas, Velhos, Marafonas, Chocarreiros da
Bemposta e da Val de Porco e também máscaras de algumas zonas da Galiza e norte
peninsular, onde devemos destacar os Boteiros, Pantallas, Peliqueiros, Cigarróns,
Vergalleiros, Felos, que permitem ao espectador um festim de cor, movimento,
som, alegria durante várias horas. Tudo se torna ainda mais interessante porque
este festival permite que as regiões donde estas máscaras são oriundas tragam
até à capital o que de melhor há na sua gastronomia. Os doces, os enchidos, os
vinhos de Trás-os-Montes e da Galiza possibilitam ao visitante desfrutar, de
modo mais completo, as raízes da cultura ibérica.
A Gastronomia Ibérica, com shoxcookings, workshops, e os vinhos ibéricos são sempre muito apreciados, como se viu em edições anteriores, onde o público que marcou presença no certame da Máscara Ibérica atingiu o meio milhão de visitantes. Além da gastronomia, este Festival traz aos olhos dos lisboetas e muitos turistas estrangeiros que visitam a cidade, neste fim-de-semana, peças artesanais portuguesas e espanholas únicas, numa das trinta espaços comerciais do Festival.
A animação de rua é assegurada pelos Sidros de Valdesoto (Astúrias),Gaiteiros de Viana do Bolo (Espanha) e Os Caçulas (Portugal).
O Palco Ibérico apresenta concertos de música folk de raiz tradicional europeia com elementos de fusão o tradicional, ska-folk e o rock.
Paralelamente organiza-se uma vez mais o concurso de fotografia "Desfile com a Máscara Ibérica". As fotos vencedoras do ano passado estão patentes no Rossio.
O Festival da Máscara Ibérica é uma sinfonia de história, cor, movimento, sons e sabores que nos faz viajar na máquina do tempo.