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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

«AVOZINHO, SE TU FICARES EU TAMBÉM FICO»


Disse um puto de sete anos ao avô, quando o fogo ameaçava consumir a casa e todos os haveres amealhados durante uma vida de trabalho, sentindo que o avô se preparava para desistir.
Há nesta frase do João Pedro uma enorme coragem, determinação desprendimento, inconsciência até, mas acima de tudo isso um AMOR que comove qualquer um.
Entalado entre o fogo, o medo, a cobarde desistência e aquele enorme amor corajoso, o senhor Cristiano lá abandonou “aquele tudo” que afinal era tão pouco e fugiu das chamas que consumiram, em Outubro de 2017, a povoação de Barril da de Alva, em Arganil, concelho de Coimbra.
Neste domingo, família, Associação SOS Arganil e Fundação Benfica concretizaram o pequeno sonho do miúdo de sete anos: entrar no relvado do estádio da Luz com os seus ídolos.

Ao ler esta pequena notícia, perdida numa página interior dum jornal de hoje, desfoquei a minha objetiva de todas as personagens que o rodeavam. Ele era a única pessoa que passou a me interessar naquela foto cheia de craques que admiro. Não sei se o Pizzi tinha consciência, mas o herói ali era o João Pedro e a honra de lhe dar a mão e entrar em campo, perante mais de cinquenta mil pessoas, era do Pizzi.


O João Pedro salvou mais de que uma vida; a sua coragem e determinação, alicerçadas num forte amor ao avô, devolve-nos a esperança e enche de alegria o nosso coração.
O avô Cristiano dizia que, apesar de tudo o que foi perdido, do muito que ainda há que reconstruir, "o que interessa verdadeiramente é que estamos todos bem”. 
Essa agudeza de espírito, essa definição clara de valores, em momentos de stress máximo e angústia, teve-a o João Pedro. 
Ele não sabe, mas a sua história encheu de ternura, comoção e amor o dia de muitos como eu.

GAVB

domingo, 8 de outubro de 2017

QUANDO REGRESSAM OS GUARDAS-FLORESTAIS?



Era esta a pergunta que gostava de fazer ao primeiro-ministro de Portugal, António Costa, ou não fosse ele o responsável político pela extinção de uma carreira que tanto fez pela proteção da nossa floresta.
Foi há mais de dez anos e desde então Portugal perde assustadoramente floresta, tem as populações rurais em constante sobressalto, gasta dinheiro em indemnizações e ajudas às populações consecutivamente afetadas com os incêndios e conforma-se com a morte de centenas de pessoas.

Quanto custou ao país este péssima medida administrativa do então (2006) Ministro da Administração Interna, António Costa? Será que não há por aí uma consultora para fazer o cálculo das perdas ou isso não interessa nada?
O guarda-florestal vivia na floresta, conhecia-a, interagia com ela e protegia-a. As matas estavam limpas, os acessos facilitados, além de se fazer um aproveitamento económico muito mais interessante da floresta.

Os tostões que se pouparam nestes últimos dez anos nem devem ter chegado para a água que os bombeiros gastam anualmente para tentar acorrer a todos os fogos. Perdemos o serviço do guarda-florestal, mas convém lembrar que lhe continuámos a pagar, já que os guardas-florestais foram integrados na GNR. Resumidamente, a medida foi uma perfeita estupidez. Pior ainda foi o não emendar da mão. Há um ano, o secretário de estado da administração interna, Jorge Gomes, disse aos jornalistas, a propósito de mais uma onda de incêndios, que estava fora de questão reativar a carreira de guarda-florestal. Argumento: já tinham passados dez anos e não estava para pagar suplementos remuneratórios a tão específica carreira da administração pública, em vias de reativação.

A floresta e os bombeiros agradecem tão lúcida visão governamental. Entretanto vai  pelo país uma fumarada monumental, o ar está irrespirável, há populações em perigo, mas no pasa nada


GAVB

sábado, 13 de agosto de 2016

NO INVERNO É PORQUE CHOVE, NO VERÃO É PORQUE FAZ SOL


Portugal não é um país de catástrofes naturais. Terramotos, tsunamis, tornados, meses a fio sem chover, inundações frequentes são fenómenos que não acontecem em Portugal. Apesar disso, não há um ano em os jornais e as televisões não noticiem uma qualquer catástrofe, que deu cabo de não sei quantos hectares de floresta ou desalojou centenas de pessoas. No inverno é porque chove, no verão é porque faz calor.
Não chove intensamente durante muito tempo, nem dura uma semana o calor africano, mesmo assim o país não resiste a uma calamidade sazonal.

É verdade que as calamidades acontecem, mas em Portugal surgem com muita facilidade.
A capacidade de resposta da protecção civil, dos bombeiros, das autoridades policiais é muitas vezes insuficiente. Deve soar muito mal ás centenas de famílias desalojadas ou aos agricultores que perderam campos e animais ouvir dizer que todos foram excepcionais no combate ao fogo ou às inundações mas não se conseguiu evitar a calamidade.
Das duas três: ou não são assim tão bons ou qualquer tempestade de água ou fogo nos derrota ou as circunstâncias que construímos nos deixam irremediavelmente nas mãos da sorte.

Há uns anos havia umas almas inocentes que tinham dúvidas sobre a origem criminosa dos fogos até que um fogo acendeu e reacendeu às quatro da madrugada ao pé da porta.
Há ainda muita gente que acha que na Madeira, o incêndio chegou ao centro do Funchal só por causa do vento como achou que há alguns anos houve inundações na baixa funchalense por causa de três horas de chuva furiosa. Não foi.
O ordenamento do território é tão mau que garante, à partida, 30% de taxa de sucesso, a qualquer incêndio. Depois os meios são escassos. Faça sol ou faça chuva, faltam bombeiros, autotanques, apoio de retaguarda. Adianta pouco que os bombeiros trabalhem até à exaustão se não têm quem os renda. O fogo nem precisa de ser intenso para os vencer, precisa é de quem o ateie consecutivamente em vários sítios mais ou menos distantes entre si.

Agora muitos falam de prevenção! É bonito e cai bem, mas sabem quanto custa e como se faz? Não é pasar umas multas, estilo ASAE, a quem não limpa as matas que a prevenção se faz. Custa dinheiro, muito dinheiro; exige tempo, algum tempo; e paciência para aceitar algumas derrotas durante alguns anos.
Nós próximos anos podemos almejar "perder melhor" e isso já será uma vitória.
Gabriel Vilas Boas