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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

LIÇÕES DE ISABEL


Primeira lição: o que o povo angolano precisa é de desenvolvimento, empresas e investimento.
De várias Isabeis com dinheiro limpo.

Qual é a raiz da cleptocracia que tudo tolhe?
A ruína da economia angolana começou nas escolhas fundadoras da nova nação.

Cortou-se o pio e desprezou-se uma burguesia nacional com capacidade e experiência e o país foi entregue a quadros marxizantes com anos de atraso em relação à economia que tinham de gerir.


Outra lição: a transparência financeira em Portugal, país pobre e carente de investimento, anda a reboque do que possa ser a transparência angolana.
Talvez Luanda venha a ser a nossa capital.

Manuel S. Fonseca

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A EFACEC DE ISABEL DOS SANTOS



Quando Isabel dos Santos era a poderosa filha do presidente de Angola, não havia semana que não se falasse dela em Portugal. Que movia influência, que fazia e acontecia, apesar da maioria dos portugueses saber pouco do seu percurso profissional. Agora que Isabel assume apenas o papel de empresária, que investe em Portugal, e pretende reabilitar e relançar uma das mais importantes empresas da indústria portuguesa ninguém lhe liga nenhuma.

Apesar deste desinteresse dos media, a filha do ex-presidente de Angola esteve na Maia, na sede de Efacec, para inaugurar a nova unidade industrial de mobilidade elétrica da empresa.
Desde que adquiriu cerca de 66% das ações da empresa, a empresária angolana reestruturou a organização da Efacec e agora passa à fase do investimento. Os objetivos da unidade inaugurada [Unidade da Mobilidade Elétrica] são extremamente ambiciosos: atingir os 100 milhões de faturação no prazo de três anos; duplicar o número de empregos associados ao segmento dentro da empresa.
Se o projeto da angolana triunfar, a Efacec será um «player» importante no mercado da mobilidade elétrica. Nesta fase inicial a Efacec propõe-se construir carregadores rápidos para carros elétricos a um preço de mercado competitivo.

Não deixa de ser curioso que Isabel dos Santos resolva marcar presença num ato público empresarial em Portugal, precisamente no momento em que as relações institucionais entre os dois países estão profundamente abaladas por causa da constituição de arguido do ex-vice presidente de Angola, Manuel Vicente. Isabel dos Santos não quer só vincar a sua condição de empresária, mas também deixar claro que agora é apenas isso, ao mesmo tempo que vai furando o bloqueio institucional imposto pelo presidente angolano a Portugal. Também por isso, a presença de Isabel dos Santos na Maia tenha um profundo significado no xadrez político angolano, ou não fosse ela uma putativa candidata à sucessão do João Lourenço.
Sensatamente, António Costa enviou o seu ministro da Economia à Maia, para receber e agradecer à empresária angolana, não vá o atual poder angolano aborrecer-se ainda mais.

GAVB

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

ANGOLA CONTINUA NO CAMINHO ERRADO – GASTA MAIS COM MILITARES DO QUE COM HOSPITAIS


Eis a minha primeira grande desilusão com o Presidente de Angola: a aprovação do Orçamento de Estado para 2018, feita sem votos contra (!!!!), onde se promete gastar com os salários dos militares 1330 milhões de euros enquanto todas a verbas referentes ao setor da saúde não chegarão aos 800 milhões de euros.
O Orçamento de Estado é a confissão pública das verdadeiras intenções de quem manda num país. Ao dizer onde e como vai gastar os recursos disponíveis, cada governo e/ou presidência de um país assume o que pretende para o seu país, independentemente do palavreado da propaganda.


Este OE de Angola é, pois, uma desilusão completa. João Lourenço pode dizer que afastou os filhos do ex-presidente da órbita do poder, mas não afastou o pior dos cancros do regime: a dependência dos militares.
Angola não precisa mais dos militares nem tem para com eles nenhuma dívida de gratidão, antes pelo contrário. O que Angola precisa é de hospitais, escolas, saneamento básico, professores, médicos, engenheiros… profissionais qualificados em todas as áreas, de maneira a reduzir drasticamente o preços dos bens e serviços prestados, pois só assim maior número de pessoas pode ter acesso a eles.


Atualmente, Angola estoura dinheiro com os militares e paga dívidas. O resto são migalhas e migalhas é tudo o que não interesse a um povo ávido de justiça, de paz e “pão”, que é como quem diz “um plano sustentado e realista de crescimento económico, onde todos possam participar e beneficiar”.
Mais do mesmo irá conduzir, inevitavelmente, a resultados semelhantes. E isso não interessa mesmo nada aos angolanos.

GAVB

quarta-feira, 7 de junho de 2017

LUATY BEIRÃO - ISABEL DOS SANTOS: O DUELO QUE ANGOLA AGUARDA E PRECISA


Amanhã, dia 9 de junho, o escritor angolano José Eduardo Agualusa lançará o seu mais recente romance “A sociedade dos sonhadores involuntários”. Apesar de ser um romance sobre sonhos e que procura demonstrar como estes nos preparam para a realidade, organizando as nossas reações, o escritor de “Traidor Simultâneo” assume que o seu novo romance é um romance político. Obviamente sobre Angola, claramente sobre o futuro próximo do país africano que os portugueses mais amam.

Nas últimas semanas, no twitter, Isabel dos Santos e Luaty Beirão discutiam abertamente sobre que tipo de líder deve ter Angola no futuro. Ainda que acuse Luaty Beirão, há na intervenção da mulher mais poderosa de África o reconhecimento implícito da liderança cívica que Luaty corporiza junto da juventude angolana. 
Quando Isabel dos Santos cita a antiga primeira-dama norte-americana Eleonor Roosevelt “Grandes mentes discutem ideias; mentes medianas discutem eventos; mentes pequenas discutem pessoas” queria atingir Luaty, mas na verdade apenas o chamou para a luta mediática e ideológica que ela quer travar com ele. O que na verdade ela pensa de Luaty é aquilo que o seu marido disse, quando o elogiou como um exemplo de verticalidade e coragem do homem angolano.

A resposta de Luaty não se fez esperar, também através do twitter, e evocando outra autoridade moral – William Ellary Channing – “A grandes mentes fazem os outros grandes!”
Angola está a precisar deste debate. Era bom que o MPLA deixasse Isabel dos Santos ir à luta e que o regime permitisse que Luaty pudesse enfrentar a filha do presidente em campo aberto e leal. Talvez seja uma oportunidade para Angola deixar que os dois se defrontem, a começar pelas redes sociais, depois através da imprensa internacional e finalmente nas urnas, em eleições livres e democráticas.

Isabel prepara-se para assumir a herança do pai, mas não tem que assumir a herança do MPLA, Luaty Beirão representa o sonho da juventude angolana, que rejeita os jogos de poder, o nepotismo e a corrupção do regime.

Hoje a democracia reside no modo irreprimível como as ideias passam através das redes sociais, da imprensa estrangeira, da coragem de quem escreve sobre a realidade servindo-se ou não da capa da ficção. Isabel dos Santos já descobriu isso e desafiou Luaty Beirão para a luta. 
Era bom que mantivesse o desafio até ao fim, porque Angola precisa urgentemente de voltar a sonhar consigo. E como diria José Eduardo Agualusa “Lutar contra os sonhos é como lutar contra a correnteza de um rio”. 
GAVB

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

AGOSTINHO NETO, PRIMEIRO PRESIDENTE ANGOLANO

"Não basta que seja pura e justa a nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós." Agostinho Neto



  Ouvi pela primeira vez falar de Agostinho Neto pela voz do meu pai, quando ainda criança me falou fugazmente de Angola, da guerra a que felizmente sobreviveu e do direito dos povos africanos à autodeterminação. Singelamente, o meu pai explicou-me e ensinou-me que todos os povos com identidade cultural, uma língua, uma terra têm direito a escolher o seu futuro, especialmente quando isso significa ser livre para escolher quem os deve governar e a forma como isso deve acontecer. 

   Ainda hoje recordo a generosidade do pensamento do meu pai, um homem que foi obrigado a lutar contra aqueles a quem reconhecia o direito a escolher outro caminho que não o dele. Começou aí a minha simpatia com aqueles povos que outrora foram portugueses, mas que quiseram escolher outro caminho, mais genuinamente seu. 



   Regresso a Agostinho Neto que então me foi apresentado sucintamente como o Primeiro Presidente de Angola. Com o tempo, fui estudando a sua biografia…

   O começo é encantador. Estudante angolano em Lisboa, apreciador da liberdade em país de ditadura, sonhou para os seus uma vida livre do jugo do colonialismo. Médico e poeta, rapidamente passou à atividade política. Esteve na génese do MPLA. Com a ajuda de muitos angolanos levou o país à independência e o MPLA ao poder. Pessoalmente, atingiu o auge ao tornar-se o Primeiro Presidente angolano, com pouco mais de cinquenta anos. 

   No entanto, quando subiu ao poder, Agostinho Neto esqueceu a poesia que aqueceu o seu coração nos anos difíceis da luta. Soam a falso aqueles famosos versos: “Não basta que seja pura e justa a nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós."



   Agostinho Neto impôs aos seus camaradas de Partido a via soviética no que isso tinha de pior. Partido Único, repressão sangrenta de todos aqueles que se lhe opunham, mesmo dentro do MPLA, naquilo a que se chamou Fraccionismo. Seguiram-se perseguições, mortes, ditadura. 

   Nada desilude mais quando acabamos por fazer tudo aquilo contra o qual lutámos uma vida. E nisso Agostinho Neto desiludiu os seus e marcou um estilo de divisionismo na sociedade angolana que ainda hoje perdura.

Agostinho Neto com os pais e irmãos


   Ainda há dois anos, o escritor José Eduardo Agualusa lembrava a propósito de Agostinho Neto que “Agostinho Neto deixou atrás de si um país em chamas. Não era só Angola que vivia uma guerra civil. O MPLA também. Na cadeia de São Paulo, em Luanda, e em campos de concentração espalhados por diversos pontos do território angolano, antigos militantes e dirigentes do MPLA, que se haviam oposto à liderança de Agostinho Neto - dos simpatizantes de Nito Alves aos intelectuais da Revolta Activa -, partilhavam celas e desditas com os jovens da Organização Comunista de Angola, OCA, com mercenários portugueses, ingleses e americanos, militares congoleses e sul-africanos, e gente da UNITA e da FNLA.”

   O grande herói não é aquele que conduz o povo até à liberdade ou até ao topo, mas sim aquele que o mantém longos anos no cimo da montanha, desfrutando calmamente das vitórias alcançadas, e sabe retirar-se discretamente, pois a missão terminou. Além de Lenine, Agostinho Neto devia ter lido George Washington e dado uma vista de olhos pela biografia de Nuno Álvares Pereira. 


Gabriel Vilas Boas