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domingo, 18 de fevereiro de 2018

OS PORTUGUESES NÃO QUEREM TRABALHAR? DE GRAÇA, MUITO POUCOS. OBVIAMENTE!



Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade, ganhou protagonismo esta semana com mais uma tirada sobre os trabalhadores portugueses – “As pessoas não querem trabalhar!”

A afirmação é desde logo uma afronta às dezenas de milhares de pessoas que trabalham arduamente todos os dias, fazendo empresários como Ferraz da Costa ganhar imenso dinheiro. É também uma afronta às dezenas de milhares que procuram emprego há vários meses.
O homem que dirigiu a CIP durante vinte anos queria referir-se certamente a um número muito reduzido de desempregados que preferem a quase indigência a um ordenado, mínimo que fosse, pelo seu trabalho. No entanto, estes são poucos, apesar de haver políticos que nos queiram fazer crer que são muitíssimos.

Todavia não é certo que Ferraz da Costa se referisse a esses pobres de espírito. Lamentava-se o senhor engenheiro que “há falta de mão-de-obra qualificada em diversos setores”, da agricultura ao turismo, da indústria aos serviços, e dava como exemplo a sua situação: quisera abrir um centro de engenharia no Porto e não encontrara recursos humanos. Esqueceu-se foi de nos elucidar sobre um pequeno «pormaior»: que ordenados oferecia aos licenciados em engenharia? Não era algo como 700 ou 800 euros, pois não? Eram ordenados ao nível do que os nossos licenciados auferem em Inglaterra, Bélgica, Holanda, França? Pois… ficamos sem saber.
Também ficamos sempre sem saber qual a relação entre o  potencial do negócio e os ordenados propostos aos candidatos.

Ferraz da Costa lamenta-se que Portugal só cresce 2,7% ao ano, quando podia crescer 4%. É verdade, mas Portugal cresce 2,7% mantendo a dignidade dos seus trabalhadores, cresce 2,7% depois de uma grave crise económica e à boleia das ideias e do investimento de gente jovem, que montou o seu próprio negócio e o fez crescer, tendo por base um modelo económico que está nas antípodas do modelo económico que Ferraz da Costa andou a defender durante vinte anos: salários baixos, empregados com baixas qualificações, pouco inovação, quase nula formação profissional.
Ferraz da Costa esteve à frente da CIP durante vinte anos, com governos de maioria absoluta e dinheiro da União Europeia a entrar a rodos. Para onde levou a economia e a indústria portuguesas? Para a insignificância internacional.

Caro, Pedro Ferraz da Costa, não se lamente dos trabalhadores portugueses, mas dos empresários portugueses. Há um milhão de portugueses altamente qualificados que trabalham no estrangeiro, onde os patrões e empresários reconhecem o seu valor e lhes pagam justamente. Eles não dizem que os portugueses não querem trabalhar. A questão é que eles não lhes fazem propostas de salário indecentes. Eles não querem explorar os trabalhadores portugueses, mas apenas contar com o seu esforço e saber.
Não são os trabalhadores portugueses que não querem trabalhadores, mas antes os empresários portugueses que não querem investir, que não querem remunerá-los corretamente, que não sabem que o trabalhador português já não é o analfabeto que aceita tudo porque mal sabe assinar um contrato.
GAVB


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O GOVERNO ADORA TANTO IMPOSTOS QUE ATÉ OS QUER EXPORTAR



O governo português é muito à frente em matéria de inovação política: depois de ter inventado a geringonça como forma de governo, agora sugere a criação de três novos impostos europeus, como forma de contornar o Brexit, ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia e a consequente baixa de receitas a distribuir pelos vários estados membros.
Taxa digital, taxa verde e taxa sobre transações financeiras internacionais. Logo três de uma só vez, para a Europa perceber que esta coisa do milagre português só se fez com a imaginação do costume.

“Taxar até tombar” parece ser a receita do governo socialista sempre que surge um problema. No entanto, esta é uma solução preguiçosa e perigosa. A economia de mercado europeia já está sobrecarregada de taxas e mais taxas, quando o princípio para que foi criada pretendia exatamente o contrário.

Este sinal que o governo português passa para o exterior não me parece positivo nem acho que vá ter o êxito desejado. Primeiro, dá a ideia de um governo sem imaginação e com pouca fé na robustez do seu modelo económico, de tal maneira que tem sempre de lançar mão de medidas excecionais para qualquer contrariedade; por outro lado, grande parte da economia europeia assenta nas transações financeiras internacionais. As maiores e mais poderosas empresas são bancos e seguradoras. Não acho que haja unanimidade em taxá-los mais um pouco.
No fundo, as nossas propostas mostraram apenas o eterno vício português de resolver tudo com impostos. Normalmente só remenda… e mal!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A EFACEC DE ISABEL DOS SANTOS



Quando Isabel dos Santos era a poderosa filha do presidente de Angola, não havia semana que não se falasse dela em Portugal. Que movia influência, que fazia e acontecia, apesar da maioria dos portugueses saber pouco do seu percurso profissional. Agora que Isabel assume apenas o papel de empresária, que investe em Portugal, e pretende reabilitar e relançar uma das mais importantes empresas da indústria portuguesa ninguém lhe liga nenhuma.

Apesar deste desinteresse dos media, a filha do ex-presidente de Angola esteve na Maia, na sede de Efacec, para inaugurar a nova unidade industrial de mobilidade elétrica da empresa.
Desde que adquiriu cerca de 66% das ações da empresa, a empresária angolana reestruturou a organização da Efacec e agora passa à fase do investimento. Os objetivos da unidade inaugurada [Unidade da Mobilidade Elétrica] são extremamente ambiciosos: atingir os 100 milhões de faturação no prazo de três anos; duplicar o número de empregos associados ao segmento dentro da empresa.
Se o projeto da angolana triunfar, a Efacec será um «player» importante no mercado da mobilidade elétrica. Nesta fase inicial a Efacec propõe-se construir carregadores rápidos para carros elétricos a um preço de mercado competitivo.

Não deixa de ser curioso que Isabel dos Santos resolva marcar presença num ato público empresarial em Portugal, precisamente no momento em que as relações institucionais entre os dois países estão profundamente abaladas por causa da constituição de arguido do ex-vice presidente de Angola, Manuel Vicente. Isabel dos Santos não quer só vincar a sua condição de empresária, mas também deixar claro que agora é apenas isso, ao mesmo tempo que vai furando o bloqueio institucional imposto pelo presidente angolano a Portugal. Também por isso, a presença de Isabel dos Santos na Maia tenha um profundo significado no xadrez político angolano, ou não fosse ela uma putativa candidata à sucessão do João Lourenço.
Sensatamente, António Costa enviou o seu ministro da Economia à Maia, para receber e agradecer à empresária angolana, não vá o atual poder angolano aborrecer-se ainda mais.

GAVB

quarta-feira, 27 de maio de 2015

SALÁRIO MÍNIMO NACIONAL

 Faz hoje 41 anos que foi instituído o salário mínimo nacional. Na altura fixado em 3300$00, o que corresponderia a cerca de 16,50 euros. No entanto, em 1980, já tinha crescido duas vezes e meia para cerca de 45 euros. Entre 1980 e 1990 quase que quadruplicou. Curiosamente a meia dessa década Portugal viveu uma situação de quase bancarrota, com a intervenção do FMI, mas não havia BPN, BES nem BPP.... Na última década do milénio duplicou, ou seja, de 174 euros, em 1990, passou a 334 euros, em 2001. A partir daí cresceu ao ritmo da teoria da migalha.
Ao fim de quatro décadas de salário mínimo nacional, ele continua a ser preciso, mas continua a ser muito baixo e a não servir de remuneração justa para muito do trabalho realizado em Portugal.
Infelizmente, a mentalidade económica do Portugal democrático é pequenina e vive de expedientes. Depois de todas as teorias económicas terem derrotado a ideia de que a competitividade económica de um país se faz através de baixos salários, a solução política adotada por Portugal é aprofundar esse caminho. Já o vínhamos a seguir mesmo antes da troika ter armado a sua tenda no Terreiro do Paço, mas os gurus do FMI e do BCE insistiram numa receita que cavou desigualdades e atirou para a pobreza e a miséria quase 20% da população portuguesa.

O mais trágico do salário mínimo que temos é que ele é, na prática, inferior àquele que tínhamos há uma década. O salário mínimo nacional não garante a quem o ganha totais condições de dignidade, pois não consegue cobrir todas as necessidades básicas daqueles que o têm como única fonte de rendimento.
Apesar de tudo isto, o salário mínimo é necessário. Tal não é um contra senso, pois em Portugal há gente que pagaria menos que isto se a tal não fosse obrigado.
Sei perfeitamente que um aumento justo do salário mínimo nacional causaria um impacto assinalável nas contas públicas e privadas, que um país em convalescença não pode, de momento, suportar. No entanto, esse aumento, para patamares mais justos (cerca de 600 euros), devia tornar-se numa prioridade político e económica.
Como já referi no dia 1 de maio, se não sabemos valorizar corretamente o trabalho, rapidamente perdemos o norte social. Quando o trabalho não é justamente remunerado, as pessoas tendem a procurar formas menos lícitas de ganharem o dinheiro que precisam.
O salário mínimo nacional não deve deixar de existir, mas deixar de ser tema de conversa, na medida em que aqueles que o ganham sejam em número tão reduzido que não tenham expressão social.  
Não podemos, não nos devemos conformar com a ideia de um salário mínimo cada vez mais mínimo a caminho do miserável.

Gabriel Vila Boas