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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

EDUARDO LOURENÇO AMOU PORTUGAL COM UMA INTELIGÊNCIA SUBLIME





«Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se assemelha ao dos videntes (Voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura inconsciência, para estar à altura de si mesmo. 


Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho. 
Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda os sonhos.»

"Portugal - identidade e imagem" in "Nós e a Europa ou as duas razões", Eduardo Lourenço 


NOTA: Eduardo Lourenço morreu no dia seguinte ao da comemoração da morte do poeta que mais amava e admirava (Fernando Pessoa) e no dia em que passam 380 anos que Portugal recuperou a sua independência e a sua identidade enquanto povo. Profundamente simbólico.


sábado, 29 de dezembro de 2018

A HISTÓRIA REZA POR AMOS OZ


O final do ano traz sempre destas notícias tristes: morreu Amos Oz, escritor israelita insigne e um baluarte na luta pela paz.  
Amos Oz foi um verdadeiro príncipe da palavra e da paz, num contexto marcado pela guerra, pelo ódio, pela incompreensão, como é o cenário do Médio Oriente, desde meio do século XX até aos dias de hoje. 

Apesar de ser um tenaz lutador pela paz, é  guerra que marca a vida deste israelita, nascido em Jerusalém. Desde logo, o ano em que nasceu, 1939, recorda-nos o início  do conflito mais marcante da história da humanidade: a II Guerra Mundial, depois, porque Amos participou como soldado na Guerra dos Seis Dias (1967) e na Yom-Kippur (1973). 

Essa terrível experiência marcou a sua vida tanto quanto a literatura ou a filosofia, de tal forma que dedicou grande parte da sua existência à defesa da convivência pacífica entre israelitas e palestinianos. 

Espírito superior e com um talento ímpar para a escrita, Amos Oz deixou-nos trinta e cinco obras, das quais destaco, obviamente, Uma História De Amor E Trevas (2002). Várias vezes à porta do Nobel da Literatura, sem nunca o ter conquistado, Oz havia de se empenhar na construção da paz, ajudando a formar o movimento PAZ AGORA, em 1977. Essa defesa intransigente do valor da paz criou-lhe muitos anticorpos dentro do estado hebraico, mas Oz não se importou. Numa entrevista recente disse mesmo que considerava um elogio quando lhe chamavam traidor.

 «Acho que traidor pode ser um título honorífico. Muitos grandes homens e mulheres do seu tempo foram chamado traidores simplesmente porque estavam à frente do seu tempo.»

Infelizmente Amos Oz estava à frente de um tempo onde a guerra ainda é vista como solução. Ao morrer, amargurado e derrotado pelo cancro, a poucas horas de finalizar 2018, Amos Oz deixa-nos os seus belos livros (romances, ensaios, contos, histórias para crianças) e sobretudo o seu exemplo de cidadania, civismo, humanidade e coragem. Verdadeiramente foi esse o lema que adotou para a vida e o apelido para o nome, quando aos quinze anos mudou o apelido de Klausner para OZ, que em hebraico significa "Coragem", "Força". 

Gabriel Vilas Boas 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

AO SOM DE... DEMIS ROUSSOS


No dia em que o mundo olhava para a Grécia e para os gregos com incredulidade, por causa da estrondosa vitória da esquerda radical do Syriza, despedia-se da vida um dos cantores gregos mais míticos do século XX: Demis Roussos.
Discretamente, num hospital de Atenas, o cantor de “Forever and ever” e “Goodbye my love, goodbye”, o grego que nasceu em Alexandria, devido ao facto dos pais serem expatriados, encerra definitivamente uma carreira muito bem-sucedida e que marcou a cena musical europeia e americana nos anos setenta do século passado.
Demis Roussos cantou o amor, duma maneira uma tanto ou quanto kitsch, mas que encantou milhões de fãs por toda a europa, que compravam os seus discos e sonhavam histórias românticas ao som da sua música.

 Roussos vendeu cerca de 60 milhões de discos, lotou o Maracanã como apenas Frank Sinatra o fizera e não se importava com as críticas, que o acusavam de fazer uma música ultrapassada, onde as baladas delicodoces revelavam influência gregas e árabes, que um europeu do norte absorvia mal, mas um latino adorava.
Apesar de ver a sua música criticada e até depreciada, o grego nunca negou a sua matriz musical, mas soube evoluir. 

O baixista e guitarrista dos Idols sabia aproveitar as oportunidades e, quando o vocalista da banda lhe deu uma das raras oportunidades de ser a estrela, Roussos não desperdiçou a dádiva e aplicou toda a imponência e beleza da sua voz de tenor para interpretar “when the man loves a woman”, despertando atenção, entre outros, do seu amigo Vangelis, com quem viria a fazer uma sociedade musical muito profícua para ambos, a partir de 1966. Haveriam de seguir caminhos separados a partir de 1972, mas a fama já estava conquistada e Demis, com as suas longas barbas, o seu peso absurdo e as suas lantejoulas, dava passos decisivos para se afirmar como um dos ícones da música dos anos 70 ao lado dos míticos ABBA.

Com músicas como “Velvet morning”, “My friend the wind” ou “My reason”, Demis conquistava a América de norte a sul e consagrou um estilo que viria a ser algo ridicularizado nas décadas seguintes. Os anos 80 ainda trouxeram algum sucesso, em parceria com Vangelis, ao associar-se à extraordinária banda sonora de “Momentos de Glória”, mas a ideologia musical dos anos 80 e 90 caminhava noutras direções. Roussos adaptou-se, recriando a sua música e trazendo influências árabes, gregas e balcânicas aos seus temas, mas o êxito não seria nada parecido com o da década de 70.
O final do século ditou a sua retirada, para gozar a vida e viver tranquilamente junto ao mar. Fez bem. A vida fora muito generosa com ele e, ontem, os gregos decidiram despedir-se dele chamando novamente a atenção do mundo.  

Gabriel Vilas Boas