Etiquetas

Mostrar mensagens com a etiqueta Escola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Escola. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 30 de março de 2021

DESPEJAR MAIS HORAS E AULAS SOBRE OS ALUNOS NÃO RESOLVERÁ A PANDEMIA NAS APRENDIZAGENS


 "Recuperação das aprendizagens não será com horas a mais!" Parece que alguém começa a  ver claro no governo, a propósito do que está  a correr mal na tentativa de fazer frente aos efeitos negativos da pandemia na educação.

Os alunos seguem, à longos meses, fechados, em casa ou na sala de aulas. São horas e horas em frente ao ecrã ou aos manuais. Precisam de aprender melhor, não serem assoberbados de trabalho e mais trabalho, como se o problema fosse a quantidade e não a qualidade.

Só  não concordo com o secretário de estado João Costa quando ele refere que "o espírito " do plano de recuperação de aprendizagens é garantir que ninguém fica para trás. Infelizmente, ninguém, seriamente, pode garantir isso, porque historicamente isso  nunca aconteceu e porque isso também depende da vontade dos alunos e das famílias. O "espírito" deve ser garantir que todos terão boas oportunidade de não ficar para trás.


O governo diz que tem a intenção de "ouvir, discutir e depois decidir". Parece um bom princípio, embora isto não garante nada. Mais uma vez o governo opta por criar a enésima equipa multidisciplinar para produzir uma proposta de ação. E lá estão os suspeitos do costume: diretores, professores, psicólogos e "personalidades", que é como quem diz a economista Susana Peralta. Só não estão os alunos. Ou seja, os únicos interessados ficam de fora.

Dirão alguns que miúdos de 11 e 14 anos têm pouco de produtivo a acrescentar. Eu acho que têm muito, se não dirigirmos as suas opiniões, se não escolhermos a dedo os seus representantes. Ouvir os alunos. Em massa e sem grandes guiões. Lá encontraríamos muitas respostas.

De qualquer modo, não me parece que a Escola recupere o tempo perdido, com a pandemia, com lamentações ou fórmulas antigas.

A minha sugestão: logo que possível tirar os alunos da sala e promover uma aprendizagem mais prática. Ainda que demore mais tempo. 

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

PASSAR TODA A GENTE É TRAIR O ALUNO E DESRESPONSABILIZAR O ESTADO

Tentar dar tudo a todos é meio caminho para não dar nada a ninguém, aprofundando o fosso entre ricos e pobres. Aliás, devemos ter a noção que há coisas, como a passagem de um ano letivo para outro, que não se dão, pois destinam-se a ser conquistadas. 


Obviamente que passar toda a gente até ao 9.º ano de escolaridade resolve o problema do abandono escolar, da percentagem de "chumbos" que o país tem, e torna a Escola ainda mais barata. No entanto, é resolver um pequeno problema para criar um outro muito maior: a ignorância de sucessivas gerações de pessoas.

Foi este pensamento que durante anos o Estado teve em relação ao tabaco: se o tributarmos fortemente até encontramos uma interessante fonte de receita, esquecendo que a conta seria apresentada, mais tarde, ao Serviço Nacional de Saúde. 

"Investir num plano nacional de não retenções" é brincar com as palavras. Já há planos e mais planos que tentam recuperar os alunos com mais dificuldades, mas estes alunos não deixam de existir simplesmente porque esses planos foram criados. Temos de contar que há alunos que não conseguem mesmo ultrapassar as suas enormes dificuldades de aprendizagens como temos de considerar que também há alunos que, simplesmente, não as querem ultrapassar porque se estão a marimbar para a Escola.

Por outro lado, passar todos os alunos é desistir de ensinar. 
Que aluno estará atento, motivado, comprometido, sabendo que faça o que fizer tem sempre a passagem de ano garantida? 
E mesmo havendo alguns (cada vez menos com a passagem do tempo) interessados em aprender, facilmente o ambiente criado pelos «boicotadores» inviabilizará qualquer aprendizagem com o mínimo de qualidade. 

Em poucos anos, as famílias com alguns recursos económicos retirarão os seus educandos do ensino público, que ficará, deste modo, depauperado, desmotivado, abandalhado. 
A dicotomia social aprofundar-se-á de forma irreversível, com o Estado a ter de pagar dois sistemas de ensino: o miserável (do público) e o remediado (do privado), tal como já acontece, em parte, com o nosso sistema de saúde.

Por outro lado, mesmo que haja alguma exigência a partir do ensino secundário, os alunos das escolas públicas já terão perdido por completo o comboio em relação aos colegas que sempre investiram na sua formação e, por isso, ser-lhes-á totalmente impossível competir, em igualdade de circunstâncias, para a entrada no ensino superior.

Gabriel Vilas Boas  

sábado, 19 de outubro de 2019

ALUNOS PORTUGUESES ASSUMEM VIOLÊNCIA NA ESCOLA


Não, não são os professores a dizê-lo, mas os próprios alunos alunos a admiti-lo: a violência e a agressividade nas escolas portuguesas estão a aumentar, atingindo, em alguns casos, patamares nunca vistos.

Num inquérito recentemente realizado aos alunos portugueses, chegou-se às seguintes conclusões:
90% assumem já ter exercido violência psicológica sobre os colegas;
70% admitem ter agredido fisicamente um outro aluno;
11%  não tem pejo em afirmar que essa violência foi particularmente contundente e, em certos casos, envolveu armas;
2% refere que a violência teve contornos de cariz sexual.

Se estes dados não constituem um alerta vermelho para quem pode intervir[Ministério da Educação, Associações de Pais, Direções de Escolas, Professores, Associações de Estudantes, Comunicação Social], então é porque nos estamos a tornar perigosamente autistas perante uma realidade preocupante.

A agressividade e a violência nas escolas aumentou muito e isso deve-se, na minha opinião, a duas grandes causas: o desrespeito generalizado pelo Professor e a falta de auxiliares de ação educativa.
Como o governo, as associações de pais, a comunicação social fizeram crescer despudoradamente a desconsideração pelo Professor, é normal que os alunos tenham absorvido esse padrão comportamental e o tenham replicado. 
Chega a ser constrangedor observar a defesa da autoridade do professor, por parte de alguns alunos, completamente incrédulos com o nível de desrespeito a que alguns dos seus educadores estão sujeitos. 

Por outro lado, a falta de auxiliares de ação educativa é gritante. Os funcionários que se reformaram ou estão de baixa médica prolongada não são substituídos, em regra. O governo assobia para o lado e a população faz o mesmo, a não ser que o problema envolva o querido filhinho ou o querido netinho. 

Os professores já estão cansados de alertar, reclamar e sofrer. Agora apenas se aquietam, silenciosos, esperando que alguém responsável tenha alguma vergonha na cara ou que uma circunstância inusitada faça com que os Pilatos desta história sintam na pele o tamanho do monstrinho que ajudaram a criar.

Estou certo que o tempo fará alguma justiça aos professores e auxiliares de ação educativa, que muito deram e dão à Educação em Portugal, todavia essa momento chegará tarde para muito jovens, cujo futuro estará mais perto da delinquência, da agressividade permanente, do egoísmo selvagem.
O rio da indiferença engrossa e vaio cheio de detritos.
Gabriel Vilas Boas
        

domingo, 31 de março de 2019

UM PROFESSOR INDIFERENCIADO NUMA ESCOLA IRRELEVANTE E INÚTIL


A escola portuguesa vive um momento de viragem perigoso, que a pode tornar irrelevante e inútil para a maioria dos jovens portugueses. A teia está montada e será muito difícil quebrar o ciclo vicioso em que caímos. 
Uma geração de professores competentes e conhecedores,(ainda que muitos deles desfasados face ao modo de conectar Escola com as exigências da sociedade atual) está cansada, desencantada e sem forças para lutar contra a incompetência de quem não sabe fazer nem deixa quem sabe executar o que tem de ser feito. 

Do outro lado da barricada, um conjunto de governantes tecnocratas, que apenas conhecem o eduquês, e que querem tornar a Escola um espaço onde apenas se passa o tempo e se aprende superficialmente alguns conteúdos, na condição de todos obterem aprovação. 

Percebendo que encontraram cada vez menos professores competentes para estar nas escolas, os governantes portugueses tudo farão para retirar "conteúdo" ao ensino, obrigando os professores a aligeirar na avaliação, retirando carga letiva a disciplinas essenciais do currículo com é o caso de História e enchendo o horário dos alunos de atividades multidisciplinares, onde qualquer um pode ser professor. 

Daqui a pouco tempo, teremos um novo tipo de professor na escola - o professor indiferenciado. Aquele que tanto dará aulas de cidadania, como ensinará os alunos a andar de bicicleta ou coordenará as atividades que envolvem a flexibilidade escolar. 

Quando alguns pais olharem bem para o horário dos seus filhos, perceberão finalmente que grande parte do tempo não será ocupado a aprender Química, Biologia, História, Francês ou Geografia. Nenhuma dessas disciplinas terá mais de dois tempos letivos semanais, mas entretanto crescerá o tempo para o professor indiferenciado. 

E aqueles alunos que querem aprender, onde terão lugar? Nas escolas privadas! O último refúgio de quem queira e possa pagar um ensino com alguma qualidade, organização visão. 
Oficialmente todos terão a oportunidade de andar doze anos na escola, mas só quem tiver dinheiro poderá fugir a uma escola irrelevante, faz de conta e pouco útil. 

O sonho de Abril irá esfarelar-se entre os dedos daqueles que o criaram. Esses mesmos legarão aos netos um simulacro da verdadeira liberdade que tanto sonharam. 
Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 15 de março de 2019

A AUTONOMIA AINDA ESTÁ A COMEÇAR, MAS PROMETE ENCALHAR

É arrasador a auditoria realizada pelo Tribunal de Contas aos contratos de autonomia realizados entre o Ministério da Educação e algumas escolas. 
"Contratos inúteis e desadequados", "sem controlo nem revisão", "mais de 75% dos objetivos definidos não são mensuráveis" - são alguns do mimos que o relatório do Tribunal de Contas dispensa aos projetos de autonomia, em execução na Escola Pública portuguesa.

Para o Tribunal de Contas parece não haver muitas dúvidas quanto ao futuro deste bebé prematuro do ministério de Tiago Brandão Rodrigues - acabar com o atual modelo ou alterar o regime jurídico dos contratos em vigor.

Para homens e mulheres habituados a contas, é muito difícil entender como nem 40% dos objetivos operacionais traçados em cada projeto de autonomia  tenham sido alcançados. Eles não compreendem como não há controle nem planos de revisão de projeto. 

Obviamente os visados ficaram caladinhos que nem ratos. Ministério da Educação e Associação de Diretores Escolares devem estar a digerir «a coisa»e a pensar numa resposta redonda, que disfarce o incómodo. 

Como é que o Tribunal de Contas não percebeu a verdadeira essência de projetos pensados às três pancadas, impostos de cima, onde os professores foram só chamados para executar uma ideia vaga de autonomia?
O Tribunal de Contas está habituado a rigor? A objetivos bem definidos e medidas executadas em consonância? Temos pena!
 Nota-se bem que o Tribunal de Contas não conhece o estilo de governação educativa que domina em Portugal no século XXI. 

Todavia «no passa nada». Houve o relatório e a notícia; seguir-se-á o esquecimento mediático e depois tudo continuará na mesma. Os professores deixarão a banda passar, porque, afinal, quem escreveu a pauta foi alguém que percebe pouco de música. 

GAVB

quarta-feira, 13 de março de 2019

ALUNOS E FUNCIONÁRIAS ASSASSINADOS EM ESCOLA BRASILEIRA


Uma dezena de mortos! É este o primeiro balanço (ainda provisório) dum inusitado ataque levado a cabo por dois jovens, numa escola brasileira, do Estado de São Paulo, no Brasil. 



Os dois assassinos, que eram ex. alunos da escola e tinham dezassete e vinte e cinco anos respetivamente, acabaram por cometer suicídio no final do seu tresloucado ato, que está a deixar a sociedade brasileira em estado choque e grande consternação. 
Ainda antes de chegar à escola, os jovens já tinham denunciado as suas intenções, ao atingir  o dono de um posto de lavagem automóveis, nas imediações do estabelecimento de ensino. 
Mal chegaram à escola, atiraram mortalmente sobre duas funcionárias; depois dirigiram-se ao pátio escolar, onde dispararam dezenas de tiros, matando quatro alunos e ferindo vários (dois viriam a falecer no hospital). A sangria só não prosseguiu porque alguns professores se refugiaram com os seus alunos nas salas de aula. Foi então que os assassinos resolveram pôr fim à próprio vida, deixando atrás de si um rasto de destruição e morte.

A tragédia da escola de Suzano é só mais um sintoma da guerra civil informal em que o Brasil vive há alguns anos, no entanto o crime não tinha ainda chegado à Escola. Chegou hoje! Mais uma barreira psicológica quebrada!

Numa escola brasileira há essencialmente crianças. Umas mais conscientes do que outras em relação à realidade negra que as cerca, mas todas inocentes, e para quem a vida ainda só havia escrito poucos parágrafos. Hoje tombarão cruelmente algumas.  
A resposta ao crime não é (nem nunca poderá ser) armar a população, como defende o presidente brasileiro. 
Estou curioso para perceber qual será a reação de Bolsonoro a este odioso crime!

GAVB

domingo, 6 de janeiro de 2019

O VOLUNTARIADO DEVIA SER UMA DISCIPLINA NAS NOSSAS ESCOLAS

    
A falta de uma cultura de voluntariado é uma lacuna evidente na sociedade portuguesa. É certo que, nos últimos anos, os portugueses têm despertado para a importância do voluntariado, procurando inseri-lo no sentido que procuram para as suas vidas e por isso procuram organizações que baseiam a sua atividade cívica e social no voluntariado. No entanto, estamos longe de ter criado uma cultura de voluntariado, porque muitos dos voluntários acabam por desistir ao fim de algum tempo, normalmente quando o motivo específico que os levou ao voluntariado se extingue.  

           Para criar uma verdadeira cultura de voluntariado, na sociedade portuguesa, é essencial que ela nasça e crie raízes na Escola. Já existe o contexto teórico (a disciplina de Formação Cívica), agora há que torná-lo real, consistente e duradoiro.
         
Na minha opinião, todos as crianças/adolescentes abrangidas pela escolaridade obrigatória deviam ter o mínimo de duas horas de voluntariado por mês. E não obrigatoriamente cumprido em horário escolar, pois as instituições locais capazes de acolher estes pequenos exércitos de novos voluntários têm necessidades que vão além do horário escolar. 
Por outro lado, existem largas semanas de férias escolares espalhadas pelo ano civil, que podiam ser aproveitadas para duplicar ou triplicar as horas que os alunos das escolas portuguesas dedicariam ao voluntariado.
      Os locais são vários e existem em todos os concelhos portugueses: misericórdias, centros de acolhimento, lares da terceira idade, hospitais, apoio aos sem-abrigo, vigilância das matas em épocas de grande risco de incêndio, creches, distribuição de comida e medicamentos a idosos acamados em suas casas... As hipóteses são muitas e perfeitamente exequíveis.

        Numa altura em que a escola se transforma, sendo desafiada a uma maioria autonomia e flexibilização de conteúdos e práticas educativas, o voluntariado pode e deve constituir-se como uma proposta charneira dessa mudança.

GAVB



segunda-feira, 19 de novembro de 2018

PROIBIR TELEMÓVEIS NAS ESCOLAS? NINGUÉM APRENDE OU ENSINA NADA COM PROIBIÇÕES


Por princípio, sou avesso a proibições, imposições, coações. É verdade que os exageros ou os abusos levam muitos pais, educadores e professores a adotarem a famosa tática da proibição, mas tento resitir-lhe o mais que posso. 

Nos últimos meses tenho assitido a uma pequena cruzada anti-telemóveis, nas escolas portuguesas. Não pertenço ao grupo e, mais do que uma vez, já declarei que ele deve ser cada vez mais usado na sala de aula, pois é um instrumento que permite multiplas funções e interações.

Acho pobre a justificação de que «os miúdos aproveitam logo para ir a sites de diversão, fazer pesquisas indevidas, fazer um uso virado para o lazer e não orientado para o objetivo da aula». Comigo sempre aconteceu ao contrário. Sempre que autorizei o uso do telemóvel dentro da sala de aula, ele tornou-se útil a grande parte dos alunos, retirando dúvidas momentâneas, permitindo a leiura de livros ou documentos inacessíveis naquele momento, tornando a aula mais interativa e participada. 

Não sou um fundamentalista do uso do telemóvel pelos alunos, mas acho pouco inteligente tentar contrariar uma realidade que já se impôs, que é apresentada como o futuro da comunicação e do ensino, que facilita a interação entre docente e discente. 

O que é necessário é ir libertando  dependência do aluno do telemóvel quando tal não o beneficia de todo: no convívio inter pares, na relação com os pais, quando assitem a espetáculos artísticos ou desportivos. E mesmo aí sem proibir. Fazê-los perceber que há que disfrutar a companhia dos colegas, dos pais, dos irmãos e dos amigos. É o que tenho feito com os meus e tem resultado. 
Obviamente haverá sempre quem se mantenha terrivelmente obcecado e precise de uma intervenção mais enérgica e assertiva, mas esses não são a maioria. 

Entretanto seria interessante que as escolas ganhassem espaços e divertimentos, onde os alunos pudessem usar a sua criatividade e capacidade de interagir com os colegas offline. Muitas escolas ou agrupamentos de escolas investeram zero em material, equipamentos ou atividades que ocupem os tempos livres dos alunos. 
É confrangedor que em 2018, mil e tal alunos tenham umas mesas de ping-pong sem rede, uns matrecos avariados e uma sala enorme com três ou quatro mesas redondas e uma dúzia de cadeiras numa enorme salão vazio, sombrio, e sem graça para se divertirem nos intervalos, há mais de vinte anos, sem que nenhum responsável (professor, direção,  associação de pais, autarquia) toma a iniciativa de o melhorar o panorama. 
É sempre mais fácil culpar o telemóvel.
GAVB


 

quinta-feira, 15 de março de 2018

A ESCOLA PRECISA DE SE TRANSFORMAR PARA NÃO SE TORNAR IRRELEVANTE



Há trinta anos a Igreja Católica tinha uma grande relevância na sociedade portuguesa; hoje, a sua importância é pouco mais que residual. O que aconteceu? Fechou-se; recusou aceitar as críticas que lhe eram apontadas e cristalizou a mentalidade. Como resultado recolheu o progressivo afastamento das pessoas e sobretudo deixou de influenciar as suas decisões.

A Escola corre um risco semelhante, só que as consequências serão bem piores, porque a sua importância na saúde de qualquer sociedade é elevada. É a Escola que permite pensarmos em igualdade, democracia, justiça, coesão social.

A Escola trabalha as gerações futuras e, por isso, mais do que vergastadas, críticas acintosas, opiniões doutorais sobre como é que se deve ensinar, educar ou aprender, a Escola portuguesa precisa que a ajudem a não perder relevância, porque isso seria desastroso. 

Quem faz a escola assim ou assado são os professores. Hostilizá-los, enxovalhá-los, criar-lhes sistemáticos obstáculos é um erro crasso, mas que nem sempre se tem evitado. Precisámos deles, precisamos de os ajudar a fazer um Escola mais competente, assertiva, inclusiva, responsável, dinâmica.
De que ajuda precisam os professores? Em primeira lugar, que não atrapalhem o seu trabalho, com burocracias inúteis,  com teorias discutíveis, com tentativas parolas de ensiná-los a  fazer o seu trabalho. Eles erram como qualquer profissional, mas a percentagem de acerto é bem mais elevado que em muitas outras profissões.

Outra ajuda que seria bem-vinda era a definição clara dos principais objetivos de cada Escola. Por vezes, numa mesma Escola existem «várias escolas», pois há grupos de alunos que prosseguem objetivos bem diferentes. Os professores têm de perceber essa diferença e dar a cada grupo aquilo que eles precisam, fazendo-os crescer na medida das suas competências e capacidades.
Ajudaria imenso aos professores perceberem que a Escola não é um lugar para ensinar, mas um local para aprender. 
É verdade que são eles os detentores da autoridade, do saber, do conhecimento, da técnica, mas não são eles o objetivo final do seu trabalho. Por isso, não pode ser “à sua maneira”, mas à maneira que é mais útil a quem aprende. Não confundir útil com fácil, como não se deve confundir trabalho com diversão. A escola não é nenhum parque de diversão para só aprendermos de forma divertida.

É verdade que os meios materiais ao dispor dos professores são tão antigos e obsoletos que até mete dó, mas a principal transformação está no modo como se faz, ou seja, no método. Poucos são aqueles que mudam para um método onde não se sentem confortáveis. Ora, muitos professores sentem-se confortáveis no intragável método expositivo, que até a eles lhes daria sono.

Como se muda? O ideal seria que tivéssemos perdido o medo de perder o controlo da aula, através de formação. Como ela não existiu nas últimas décadas, cabe a cada professor não deixar-se fossilizar no que ao método diz respeito. Não sendo uma coisa propriamente fácil, também não é um bicho papão. Largar o domínio absoluto da aula, aceitando que o conhecimento chegue aos alunos por diversos canais e modos (não apenas pelo livro, não apenas por aquilo que o professor diz), deixando que ele seja construído. Ensiná-los a pensar, a ter espírito crítico, a não ter de demonstrar tudo em teste ou por escrito. 

Obviamente que nos primeiros tempos os resultados podem ser frustrantes e ficarmos com um mão cheia de quase nada e com o tempo de aulas dado. No entanto, se o trabalho for feito com critério, rigor e planeamento, os frutos hão de aparecer. Se não for no nosso pomar, será no de outro. O importante é que apareçam e sejam consistentes.
O que não podemos esperar é ter resultados diferentes fazendo sempre do mesmo modo. E se os alunos são diferentes daquilo que eram quando começámos a trabalhar, por que razão continuamos a fazer igual? O comodismo é um luxo caro!    
GAVB

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O PROFESSOR-POMBA

Nas antípodas do professor-águia está o… professor-pomba. 
Conhecem aquele professor que fala num ritmo moderado, atento ao detalhe, claramente amigável e que precisa de planear tudo com calma? Esse é o professor-pomba.
Normalmente, ele não é muito considerado entre os colegas e alguns alunos fazem-lhe a vida negra, transformando a sua sala de aula numa desorganização próxima do caos. Muitas vezes ele perde o controlo da situação, no que ao comportamento diz respeito, mas isso está longe de significar que ele seja um mau professor, como muitos, apressada e injustamente, julgam.

O professor-pomba sabe ouvir. É aquele tipo de professor que fala menos e ouve mais. Por isso, deteta com enorme facilidade as emoções não-verbais que os seus alunos emitem, sendo capaz de perceber antes de qualquer outro quando determinado aluno anda com algum problema extra-aula.
O professor-pomba é excelente para unir grupos, fazendo nascer ótimas equipas de trabalhos e sendo uma enorme ajuda para os outros colegas quando é preciso fazer a ponte com famílias problemáticas.

O professor-pomba ocupa pouco espaço. Não é um professor confiante, capaz de impor a sua presença, as suas ideias, as suas vontades aos colegas. 
Com facilidade permite que alguns colegas tenham com ele certas deselegâncias desnecessárias, mas ele jamais terá essa atitude com quem quer que seja. É um professor que valoriza a estabilidade e por isso é capaz de aguentar uma situação profissional desfavorável mais tempo que a generalidade dos colegas.
Com ele, aprendemos a capacidade de resiliência que qualquer professor deve ter e que falta ao professor-águia, por exemplo.
A emoção-base deste tipo de professor é o amor. Talvez por isso acabe por se focar excessivamente no aluno, deixando de lado algumas legítimas preocupações consigo e com a sua situação profissional.

O professor-pomba é um professor sensível, que privilegia o afeto e a estabilidade.
No entanto, este tipo de professor deve estar atento, para não cometer erros típicos da sua personalidade: ser demasiado acomodado e não conduzir os alunos para além das suas limitações autoimpostas; não desafiar suficientemente os alunos-águia ou não andar suficientemente depressa para corresponder às características do aluno-papagaio (saberemos as suas características num destes dias).

O professor-pomba é tão importante e necessário como o professor-águia. Desconsiderá-lo, relegá-lo para tarefas menos vistosas ou até troçar da sua personalidade é um erro crasso, pois ele resolve problemas tão complexos dentro duma escola como qualquer outro professor. Apenas usa um método diferente, porque sente de maneira diferente.

Gabriel Vilas Boas 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

OS ALUNOS SÓ SE PORTAM MAL COM OS PROFESSORES MAIS VELHOS?


Claro que não. Os alunos não fazem esse tipo de distinção perversa: eles portam-se mal ou bem com todo o tipo de professores: os mais velhos, os mais novos, as mulheres, os homens, os efetivos, os contratados, o que estão na escola há décadas, o que chegaram na semana passada…

A única verdade do estudo sobre indisciplina, de que alguns órgãos de comunicação social fizeram eco, é que os professores mais velhos se queixam mais da indisciplina dos seus alunos do que os professores mais novos. E não é fácil perceber as razões. 

No meu ponto de vista, a primeira e mais importante razão é que a maioria dos professores mais antigos tem uma noção mais rígida de indisciplina que os professores mais novos. Há determinados comportamentos, atitudes, palavras que um professor com trinta anos de casa não tolera a um adolescente, apesar de este não o ter feito com intenção ou não ter consciência da gravidade ou má criação que esse gesto, palavra, atitude constituiu para o seu professor.

Há também que considerar o cansaço, o desânimo que invade os professores seniores. São muitos anos de expectativas frustradas, muitas situações de indisciplina vividas, muitas angústia e tristeza acumuladas com injustiças cometidas sobre eles, com agressões verbais e faltas de consideração por parte de alunos, pais, colegas, órgãos diretivos, ao longo de vários anos. Ao fim de décadas de ensino isso produz o seu efeito no modo com toleram ou não os comportamentos irreverentes dos alunos.


Convém ainda recordar que quanto maior é o afastamento etário entre professor e aluno maior é a diferença de mundividência e maior a incompreensão face ao outro. O professor mais velho tem mais dificuldade em entender as atitudes dos alunos como irreverência própria da idade, achando-as à partida indisciplina grosseira, como os jovens não fazem qualquer esforço em perceber que aquele professor mais antigo foi educado com outro código de conduta na escola e portanto a sua noção de disciplina é mais rígida. Quando ninguém se esforça por entender o outro, o choque é mais rápido e violento.

No entanto, tudo isto que acabo de referir não deve tirar o foco do essencial: a indisciplina na escola é um fenómeno transversal a todo o tipo de professor. A generalidade das atitudes de indisciplina são-no assim entendidas por todos os professores. Claro que as escolas, os professores, os pais devem engendrar estratégias que façam diminuir a violência nas escolas portuguesas, mas convém não ignorar o principal: o maior erro é de quem é violento e malcriado. Se esse não mudar radicalmente de atitude não há estratégia que se salve nem professor que esteja a salvo.

GAVB  

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O MENINO FALTA, O PAI PAGA MULTA?


Uma recente notícia do periódico espanhol El Mundo conta que os pais de uma menina espanhola vão ter de pagar uma multa de 1440 euros pela falta de assiduidade recorrente da sua filha entre 2007 e 2014. 
O tribunal de Palma de Maiorca considerou que aqueles “pais” incorreram em dois crimes: desobediência (tinha sido alertados pela escola para a falta de assiduidade da sua filha e nada fizeram para reverter a situação, apesar de estarem obrigados a mandar a menina à escola) e abandono (a criança ficou abandonada à sua sorte, fazendo o que muito bem lhe apeteceu sem ter maturidade para tal).
Quem lida constantemente com alunos poucos assíduos e encarregados de educação que se demitem da sua função, já pensou muitas vezes, em desespero, nesta medida. 

Como exemplo, como sinal das autoridades judiciárias ao pouco caso que muitos pais fazem dos seus filhos, parece-me uma medida bem aplicada, mas não replicável muitas vezes.
A maioria destes pais não quer saber dos filhos, não reconhece importância à Escola e costuma desafiar a Justiça. Por norma, os seus rendimentos não vêm do trabalho, mas de ajudas de familiares, de amigos ou do Estado. Vivem em casas camarárias e aquilo que os filhos comem, calçam ou vestem provém da caridade pública ou do apoio social do Estado. Como esse apoio está cotado por parâmetros de sobrevivência, não é possível retirar-lhe qualquer fatia relevante para pagar uma multa deste calibre.

Apesar de não se conseguir cobrar a multa, a medida faz sentido e tem eficácia, pois funciona como efeito dissuasor para outros pais/encarregados de educação negligentes., já que estes pais têm receio que o subsidiozinho que recebem fique em perigo.
Saber que o Estado está atento e pode atuar sobre o seu pobre pecúlio talvez produza mais efeito do que dezenas de discursos do Diretor da Escola ou da Assistente Social.
 A educação dos filhos continuará a não lhes interessar nada, a não ser que o seu maço de cigarros fique em perigo ou não haja dinheiro para uns copos na taberna.
Gabriel Vilas Boas

sábado, 30 de abril de 2016

A ESCOLA É A IDENTIDADE DE UM POVO



A Europa é o mais lindo tesouro multicultural do planeta. Nela habitam línguas, culturas, costumes e climas tão diversificados quanto complementares que atraem continuamente gente dos quatro cantos do mundo. É certo que na Europa há paz, há democracia, há riqueza e as mais variadas formas de expressar as mil e uma facetas da alma humana, mas também há uma grande importância atribuída à Escola como fator primordial de afirmação pessoal e coletiva.
Apesar de toda a multiculturalidade, cada país mantém a sua pegada genética e a escola é o local onde tal se começa a notar. Recentemente li um trabalho patrocinado pela Unicef sobre o dia-a-dia das crianças em várias escolas espalhadas pelo mundo. Trago hoje três exemplos europeus: uma rapariga belga, outra italiana, um rapaz polaco.


A belga tinha oito anos e frequentava uma escola internacional, onde os colegas provinham um pouco de todo o mundo. Era-lhe familiar ouvir falar italiano, espanhol, alemão, mas tal não impedia a realização de trabalhos em conjunto nem as brincadeiras sem fronteiras. Claro que falamos de Bruxelas, centro administrativo da União Europeia, uma das capitais mais poliglotas da Europa. Aí, mais do que uma obrigação, é uma necessidade ser versado em línguas. Talvez por isso essa destreza linguística seja um traço fundamental da escola belga.





Em Itália o foco é outro. Recordo Chiara, uma adolescente de onze anos que vive perto de Milão. O centro da sua educação estava nas artes: aprender música, visitar museus ou observar in loco obras de arte faziam parte do menu educacional dessa adolescente transalpina. A cultura e a mentalidade italianas tinham sido transportadas para a Escola de uma maneira mais vincada do que acontecia em Bruxelas, com a jovem Flora.
Já na Polónia, o menino Marek, natural de Cracóvia, passa os seus dias na escola, onde tem aulas regulares, atividades extracurriculares (dança) e faz todas as refeições importantes do dia. A escola proporciona-lhe o contacto com a natureza, a religião, a arte e o desporto. Não notei nenhuma preocupação em internacionalizar o ensino nem um forte pendor da cultura polaca nos conteúdos ou métodos de ensino, mas “apenas” a vontade de relacionar as crianças com a natureza, de oferecer um ensino diversificado, de equilibrar atividade física e motora com a parte intelectual.

Decidi então viajar no tempo e procurar Marek, Chiara e Flora vinte anos depois. Não encontrei um, encontrei milhares. Os traços que a escola começara a esboçar estavam agora bem definidos e transformaram-se em peças únicas com dois encaixes que formam o puzzle europeu. A identidade de cada povo estava neles e havia começado na escola.
Quando um país leva a sério a «sua» Escola, a sua identidade mantém-se uma identidade inconfundível e necessária para que o puzzle esteja completo; quando despreza a educação, qualquer multinacional compra a patente e transforma-a em produto descartável de marca branca.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 3 de janeiro de 2016

OS TPC DA ESCOLA


Ontem, o meu amigo e colega, Miguel Moreira, relançou o tema replicando um breve vídeo do psicólogo Eduardo Sá sobre os T.P.C.
Acho o tema interessante, porque a minha experiência de professor e de pai ajudou-me a concluir que cada cabeça sua sentença. E não deveria ser assim. Obviamente que cada pessoa e sobretudo cada professor tem uma opinião sobre o assunto, mas o uso dos T.P.C. na escola devia ter uma utilização uniforme pelos vários professores dessa comunidade educativa, depois de feito um amplo debate e ponderados os custos e benefícios da sua implementação.

E quem devia suscitar o debate pedagógico? Claramente as direções das escolas, impondo aos professores uma prática comum obrigatória, com regras bem definidas e do conhecimento de todos.
Sobre o assunto, penso que os T.P.C. deviam ser uma exceção e não uma regra, como ferramenta do processo de ensino aprendizagem dos alunos. Por norma, deviam ser feitos na escola, durante o tempo em que os alunos lá permanecem, sob orientação dos professores e não deviam obrigar ao dispêndio de mais de uma hora.
Em casa, os alunos devem estar com a família e com os amigos, divertir-se, brincarem…

Quando marcados, os T.P.C. devem ser pensados em função do tipo de alunos que cada professor tem, do modo como o discente os encara e do tempo que ele demora a fazê-los. Conheço alunos que, por dia, demoram 90 minutos a fazer os T.P.C. de quatro disciplinas. Se a situação se repetir durante os cinco dias da semana, trabalharão 7/8 horas em casa, o que equivale a mais um dia de aulas, ou seja, têm aulas ao sábado.
Os professores alegam que, sem os T.P.C., não conseguem consolidar a matéria dada ou até mesmo cumprir o programa. É óbvio que os programas são demasiado extensos e isso é um grande problema, mas também é verdade que continua a má prática de aulas muito teóricas, em que toda a prática é empurrada para os T.P.C., onde o aluno fica sem supervisão.

O professor fala tempo demais durante as aulas e isso é absolutamente contraproducente. Os docentes devem ganhar a arte de se reinventarem, mudando de método, focando o discurso sobre o essencial e colocando os alunos a fazer aquilo que lhes vão exigir nos testes.
Os T.P.C. não podem ser vistos como um castigo nem serem desproporcionados à idade nem ao tempo da aula. Não devem ser usados para cobrir matéria lecionada de modo incompleto. Se não foi possível lecionar determinada matéria e consolidá-la em tempo útil para dado teste, paciência! Testa-se no próximo. E também era conveniente existir sempre sensibilidade na marcação dos T.P.C. Entupir os alunos de trabalhos para casa nas semanas em que colecionam três/quatro testes e chegam a casa por volta das 18h 30m é tudo menos pedagógico e produtivo. Claro que depois os alunos ou não estudam ou não fazem os T.P.C. e as notas não podem ser boas.
Os T.P.C. são necessários? Por vezes sim, mas há que ponderar sempre o custo/benefício e colocar-se no lugar do aluno. E não deveria ser preciso ter filhos em idade escolar para perceber isto…
Gabriel Vilas Boas