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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

PROIBIR TELEMÓVEIS NAS ESCOLAS? NINGUÉM APRENDE OU ENSINA NADA COM PROIBIÇÕES


Por princípio, sou avesso a proibições, imposições, coações. É verdade que os exageros ou os abusos levam muitos pais, educadores e professores a adotarem a famosa tática da proibição, mas tento resitir-lhe o mais que posso. 

Nos últimos meses tenho assitido a uma pequena cruzada anti-telemóveis, nas escolas portuguesas. Não pertenço ao grupo e, mais do que uma vez, já declarei que ele deve ser cada vez mais usado na sala de aula, pois é um instrumento que permite multiplas funções e interações.

Acho pobre a justificação de que «os miúdos aproveitam logo para ir a sites de diversão, fazer pesquisas indevidas, fazer um uso virado para o lazer e não orientado para o objetivo da aula». Comigo sempre aconteceu ao contrário. Sempre que autorizei o uso do telemóvel dentro da sala de aula, ele tornou-se útil a grande parte dos alunos, retirando dúvidas momentâneas, permitindo a leiura de livros ou documentos inacessíveis naquele momento, tornando a aula mais interativa e participada. 

Não sou um fundamentalista do uso do telemóvel pelos alunos, mas acho pouco inteligente tentar contrariar uma realidade que já se impôs, que é apresentada como o futuro da comunicação e do ensino, que facilita a interação entre docente e discente. 

O que é necessário é ir libertando  dependência do aluno do telemóvel quando tal não o beneficia de todo: no convívio inter pares, na relação com os pais, quando assitem a espetáculos artísticos ou desportivos. E mesmo aí sem proibir. Fazê-los perceber que há que disfrutar a companhia dos colegas, dos pais, dos irmãos e dos amigos. É o que tenho feito com os meus e tem resultado. 
Obviamente haverá sempre quem se mantenha terrivelmente obcecado e precise de uma intervenção mais enérgica e assertiva, mas esses não são a maioria. 

Entretanto seria interessante que as escolas ganhassem espaços e divertimentos, onde os alunos pudessem usar a sua criatividade e capacidade de interagir com os colegas offline. Muitas escolas ou agrupamentos de escolas investeram zero em material, equipamentos ou atividades que ocupem os tempos livres dos alunos. 
É confrangedor que em 2018, mil e tal alunos tenham umas mesas de ping-pong sem rede, uns matrecos avariados e uma sala enorme com três ou quatro mesas redondas e uma dúzia de cadeiras numa enorme salão vazio, sombrio, e sem graça para se divertirem nos intervalos, há mais de vinte anos, sem que nenhum responsável (professor, direção,  associação de pais, autarquia) toma a iniciativa de o melhorar o panorama. 
É sempre mais fácil culpar o telemóvel.
GAVB


 

domingo, 11 de março de 2018

CADA MAIS ARTISTAS QUEREM PROIBIR TELEMÓVEIS NOS CONCERTOS





Por causa do dinheiro ou da perda de paixão, a verdade é que são cada vez mais os artistas que defendem a proibição do uso de telemóveis durante os seus concertos. A proibição é polémica e até pode ser considerada um atentado à liberdade individual, mas merece ser discutida, quer sob a perspetiva económica (comercial) quer sob a vertente social e cultural.

Começo por aquela que menos me preocupa, a comercial. Kendrick Lamar baniu repórteres fotográficos dos seus concertos e proíbe o uso de telemóveis, por parte dos seus espetadores. A sua preocupação é puramente comercial. Quer ter o controlo absoluto da sua marca e não deixa que imagens dos seus concertos andem a circular pela net sem que lhe paguem por isso. Lamar já é rico suficiente para não se armar em sovina. A sua argumentação não me convence e revela que vê os seus fãs apenas como clientes, a quem procura sugar o maior número de euros ou dólares possível.

No entanto, já sou mais sensível aos argumentos dos The Lumineers, dos Indie Folk, Guns N’ Roses, Alicia Keys ou Jack White. Realmente os espectadores tornaram-se muito mais passivos durante os concertos; as mãos estão ocupadas com o smartphone, a cabeça divide-se entre a foto espetacular que se quer tirar para de imediato postar no Insta ou no Face e assim provar quanto top está a ser a nossa noite, fazendo disparar os likes, e a performance do artista.


Esta obsessão ridícula com a vaidade está a matar até o prazer dos momentos em que somos (ou éramos) felizes por causa de uma música, de uma interpretação. Sem pudor fazemos dos nossos ídolos musicais objetos decorativos da nossa vaidadezinha tonta, que apenas gera inveja dispensável, até arruinarmos por completo com a fruição do objeto artístico.
Obviamente que os artistas sentem a pobreza de tais comportamentos e indignam-se com o modo como desrespeitamos o seu trabalho, a sua paixão e dedicação aos fãs.

Proibir não é o caminho, ainda que educar seja uma estrada muito difícil de percorrer. Alguns escolhem a via do negócio e até já há uma start up que criou uma bolsa, Yondr, onde, os espectadores são “convidados” a deixar os seus telemóveis, à entrada dos concertos livres de telemóveis, pelos diversos assistentes que controlam as entradas dos espectáculos de artistas como Lamar ou Jack White.
Antes que o Yondr entre na moda é necessário criar a moda de prescindir, em algumas circunstâncias, do smartphone, porque estamos a permitir que ele nos torne num objeto decorativo do seu despotismo.
GAVB

quinta-feira, 1 de março de 2018

"AS PESSOAS NÃO SÃO TELEMÓVEIS"



Tropecei nesta frase, hoje, ao ler um interessantíssimo artigo de Margarida Vieitez, na revista Visão, sobre relações interpessoais, onde a autora enaltece a importância da confiança, do compromisso, da coragem, do respeito e do altruísmo no sucesso das relações amorosas.
O título levou-me o espírito para outros pensamentos. Quase instintivamente deparei-me amargurado com a óbvia conclusão que nos dedicamos muito mais ao telemóvel que às pessoas e que a máquina que domina o nosso quotidiano tem uma importância bem superior à maioria (para não dizer à totalidade) das pessoas que cruzam o nosso quotidiano. 

A nenhum delas dedicamos tanto tempo, atenção, sacrifícios, preocupação. De nenhuma pessoa somos tão dependentes como do telemóvel, nem ninguém nossa comanda de modo tão despótico.

Apesar de “dispensarmos” as pessoas do nosso dia-a-dia, por causa do telemóvel, ele não faz o mesmo por nossa causa. O telemóvel sabe perfeitamente que a sua grande virtude é facilitar a comunicação entre as pessoas. Quando ele deixa de ser intermediário, mas se tornar no “outro”, rapidamente acabará por nos aborrecer e por isso é trocado, por modelo mais recente.

O nosso principal erro relacional é que replicamos o método que usamos com o telemóvel nas pessoas. Há alguém mais novo, com um melhor interface, com um design mais atrativo, que obtém melhores imagens sociais? Então, trocamos imediatamente de relacionamentos. O problema é que as pessoas não aceitam ser trocadas como a mesma facilidade que um telemóvel, porque não são objetos e têm sentimentos.

Impossível fazermos dos outros um telemóvel de versão desatualizada sem rapidamente passarmos pela mesma experiência, porque nem eles nem nós vão para algum cemitério de inutilidades tecnológicas. Continuaremos a existir, a vermo-nos, a sentir e a despertar sentimentos.
Se persistirmos no erro crasso de lidar com as pessoas como lidamos com os telemóveis, em pouco tempo os telemóveis perderão toda a graça, porque deixarão de trazer, lá dentro, pessoas de carne e osso, que nos fazem sonhar, mas apenas um realidade totalmente virtual e tremendamente aborrecida.

GAVB