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quinta-feira, 1 de março de 2018

"AS PESSOAS NÃO SÃO TELEMÓVEIS"



Tropecei nesta frase, hoje, ao ler um interessantíssimo artigo de Margarida Vieitez, na revista Visão, sobre relações interpessoais, onde a autora enaltece a importância da confiança, do compromisso, da coragem, do respeito e do altruísmo no sucesso das relações amorosas.
O título levou-me o espírito para outros pensamentos. Quase instintivamente deparei-me amargurado com a óbvia conclusão que nos dedicamos muito mais ao telemóvel que às pessoas e que a máquina que domina o nosso quotidiano tem uma importância bem superior à maioria (para não dizer à totalidade) das pessoas que cruzam o nosso quotidiano. 

A nenhum delas dedicamos tanto tempo, atenção, sacrifícios, preocupação. De nenhuma pessoa somos tão dependentes como do telemóvel, nem ninguém nossa comanda de modo tão despótico.

Apesar de “dispensarmos” as pessoas do nosso dia-a-dia, por causa do telemóvel, ele não faz o mesmo por nossa causa. O telemóvel sabe perfeitamente que a sua grande virtude é facilitar a comunicação entre as pessoas. Quando ele deixa de ser intermediário, mas se tornar no “outro”, rapidamente acabará por nos aborrecer e por isso é trocado, por modelo mais recente.

O nosso principal erro relacional é que replicamos o método que usamos com o telemóvel nas pessoas. Há alguém mais novo, com um melhor interface, com um design mais atrativo, que obtém melhores imagens sociais? Então, trocamos imediatamente de relacionamentos. O problema é que as pessoas não aceitam ser trocadas como a mesma facilidade que um telemóvel, porque não são objetos e têm sentimentos.

Impossível fazermos dos outros um telemóvel de versão desatualizada sem rapidamente passarmos pela mesma experiência, porque nem eles nem nós vão para algum cemitério de inutilidades tecnológicas. Continuaremos a existir, a vermo-nos, a sentir e a despertar sentimentos.
Se persistirmos no erro crasso de lidar com as pessoas como lidamos com os telemóveis, em pouco tempo os telemóveis perderão toda a graça, porque deixarão de trazer, lá dentro, pessoas de carne e osso, que nos fazem sonhar, mas apenas um realidade totalmente virtual e tremendamente aborrecida.

GAVB

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

RELACIONAMENTOS INTERPESSOAIS: FALA-SE DE MAIS, VIVE-SE DE MENOS

Um dos aspetos que sempre me seduziu no exercício da docência foi a possibilidade de me relacionar com muita gente: colegas, auxiliares educativos, alunos, pais.
Ao longo de duas décadas de trabalho na escola, fui ganhando uma certeza: a maneira como cada um gere os vários tipos de relacionamento, da sua vida, é fundamental para o seu equilíbrio psicológico, emocional, social. É uma gestão difícil (sempre o será), mas que paulatinamente temos vindo a tornar dolorosa.
Por que é que isto acontece, quando os nossos pensamentos se ocupam tanto dos “relacionamentos”? Encontro dois motivos: somos demasiado teóricos, somos demasiado egoístas.

Começo pelo último problema. Olhamos para os outros como se fossem peças de um xadrez, destinadas a ser manipuladas por nós. Quase sempre pensamos na melhor maneira de tirarmos o máximo partido de determinado relacionamento, sem nos preocuparmos devidamente com o outro. Ora, o outro faz o mesmo, o que resulta numa frustração dupla. Essa visão egoísta e egocêntrica de um relacionamento contradiz a essência de qualquer ligação, não deixando que nenhum tire o melhor partido da relação. 
Facilmente instala-se a desilusão. Depois virá nova tentativa, desilusão maior, incapacidade de compreender, frustração, desistência…

Associado ao egoísmo encontro o excesso de teoria. «O nosso relacionamento devia ser assim... blablá… blablá…». Cada relacionamento tem o seu tempo de descoberta, a sua história, a sua concretização. Não pode haver padrões pré-definidos, como se nós também estivéssemos programados. Não estamos! 
Cada um de nós é um ser único e irrepetível, convém lembrar... Construiremos uma relação única com os nossos filhos, com os nossos pais, com os nossos companheiros, com os nossos colegas, com os nossos amigos, se não perdermos de vista esta premissa. Tentar implementar uma fórmula ou imitar alguém será um erro crasso.

Um relacionamento não tem que ser assim ou assado, não vai lá por imposição nem decreto, mas é imperioso que se viva, ou melhor, que se vá vivendo.
Quando passamos demasiado tempo a teorizar como deve ser ou a tentar impor ao outro o nosso método ou o nosso estilo ou os nossos desejos, a relação permanece parada, mas o tempo avança.
Os dias, meses, anos que passaram… passaram; são irrecuperáveis. Mais importante que lamentar o passado, diagnosticar doutamente, pela enésima vez, o que correu mal, talvez não fosse má ideia começar a dar corpo à coisa. Pode não ser tão espetacular como imaginámos, mas será, certamente, muito mais real.

Gabriel Vilas Boas 

terça-feira, 5 de julho de 2016

RELACIONAMENTO(S)


Um relacionamento é entrar na intimidade do outro, ao mesmo tempo que aprofundamos a nossa. Um re-lação não é mais que uma repetição de “laços”, de “nós”, em que cada um mantém e alimenta um aspeto da relação.
Por isso, a relação é uma construção, uma alteridade, uma reciprocidade e não uma indiferença em que aquele(a) com quem nos relacionamos só interessa na medida dos nossos interesses.
O outro é um ser dotado de individualidade e autonomia, que precisam de ser compreendidas e respeitadas. Partindo desta premissa essencial, é possível fazer crescer uma relação, mas é preciso mais… instalar a reciprocidade, ou seja, a capacidade de alimentar permutas, de partilhar.
Em última análise, não é o amor que mantém uma relação, mas a qualidade da própria relação.

Frequentemente confundimos relação com comunicação ou com emoções, ou com sentimentos. Comunicamos com a vizinha, emocionamo-nos com o Ronaldo e nutrimos amor por uma determinar pessoa, mas a verdade é que não nos relacionamos com nenhuma delas.

Relação, comunicação, emoção e sentimentos são coisas bem diferentes. 
No mundo da comunicação em que vivemos, estabelecemos inúmeros contactos diários com várias pessoas, mas isso está longe de determinar um sentimento quanto mais uma relação. 
A justificação de um sentimento vai muito além da mera casualidade sugerida por Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser. O sentimento é também diferente da emoção. Vejo esta como algo momentâneo, com uma causa exterior a nós. Pode caminhar e desenvolver-se num sentimento ou não, mas não se confunde com ele. O sentimento depende de nós, do nosso livre arbítrio, da nossa escolha.

É preciso perceber que um sentimento não é uma relação, mas pode caracterizá-la. Uma relação resulta sempre de uma escolha livre. Acontece quando alguém autodetermina o seu caminho independentemente das suas tendências, da influência dos outros, das circunstâncias.
Autodeterminar-se é das coisas mais complexas e difíceis, porque entre nós deixamos crescer “autossabotadores”. Os autossabotadores alimentam-se de dúvidas, dos medos, da culpabilização permanente, do egocentrismo, da procrastinação… É por causa deles que muitas relações se baseiam no medo e no controlo em vez de se basearem na liberdade e na confiança.

Um relacionamento verdadeiramente livre fundamenta-se na honestidade, no amor incondicional, na confiança absoluta, com compromisso (em primeiro lugar e antes de mais consigo próprio), enquanto um relacionamento nascido no medo vive do segredo, da manipulação, do mistério que causa a dependência, da necessidade de controlo.

A escolha é fácil e óbvia. O problema é que muitas vezes pensamos que somos sócios do primeiro, mas praticamos o segundo.
O medo nunca foi sinónimo de liberdade.

Gabriel Vilas Boas