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sexta-feira, 2 de abril de 2021

GOVERNO ADMITE REDUZIR PROGRMAS, MAS SÓ EXCECIONALMENTE

 

    "Não vamos assumir que um programa se cumpra independentemente das condições específicas em que é aplicado."  João Costa, secretário de estado da Educação.


    A pandemia começa a produzir alguns efeitos benéficos nos decisores políticos. O mordomo que manda na casa lá vai esclarecendo o óbvio, mas até isso parece uma alegre novidade com esta equipa do Ministério da Educação. 

     Realmente João Costa não gosta de se expor ao ridículo e por isso anuncia aquilo que têm de ser anunciado. Os programas não serão, mais uma vez,  cumpridos este ano letivo. 

     No entanto, esta clarividência pandémica e excecional podia ser uma ótima oportunidade para João Costa aceitar discutir a redução dos programas. É realmente preciso mexer neles, reduzi-los, distinguindo claramente entre aquilo que os alunos precisam de saber como alicerce para conhecimentos futuros e aquilo que os professores têm pena de não ensinar.

     Eu sei que é horrível cortar, especialmente quando crescemos com a ideia que "tudo é importante" e afetivamente não conseguimos dispensar determinados conteúdos, mas alunos e conhecimento são diferentes do que existia há quatro décadas. Há muito mais conhecimento e a cabeça dos alunos funciona de modo diferente daquelas que pensaram estes programas.

     O essencial vai mudando com o tempo, em cada disciplina. Reconhecer isso, fazer a monda necessária pode ser o click necessário para que a desejada viragem na metodologia se faça. Manobrar um petroleiro ou um navio porta aviões é bem diferente de manobrar uma lancha de ação rápida.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 30 de março de 2021

DESPEJAR MAIS HORAS E AULAS SOBRE OS ALUNOS NÃO RESOLVERÁ A PANDEMIA NAS APRENDIZAGENS


 "Recuperação das aprendizagens não será com horas a mais!" Parece que alguém começa a  ver claro no governo, a propósito do que está  a correr mal na tentativa de fazer frente aos efeitos negativos da pandemia na educação.

Os alunos seguem, à longos meses, fechados, em casa ou na sala de aulas. São horas e horas em frente ao ecrã ou aos manuais. Precisam de aprender melhor, não serem assoberbados de trabalho e mais trabalho, como se o problema fosse a quantidade e não a qualidade.

Só  não concordo com o secretário de estado João Costa quando ele refere que "o espírito " do plano de recuperação de aprendizagens é garantir que ninguém fica para trás. Infelizmente, ninguém, seriamente, pode garantir isso, porque historicamente isso  nunca aconteceu e porque isso também depende da vontade dos alunos e das famílias. O "espírito" deve ser garantir que todos terão boas oportunidade de não ficar para trás.


O governo diz que tem a intenção de "ouvir, discutir e depois decidir". Parece um bom princípio, embora isto não garante nada. Mais uma vez o governo opta por criar a enésima equipa multidisciplinar para produzir uma proposta de ação. E lá estão os suspeitos do costume: diretores, professores, psicólogos e "personalidades", que é como quem diz a economista Susana Peralta. Só não estão os alunos. Ou seja, os únicos interessados ficam de fora.

Dirão alguns que miúdos de 11 e 14 anos têm pouco de produtivo a acrescentar. Eu acho que têm muito, se não dirigirmos as suas opiniões, se não escolhermos a dedo os seus representantes. Ouvir os alunos. Em massa e sem grandes guiões. Lá encontraríamos muitas respostas.

De qualquer modo, não me parece que a Escola recupere o tempo perdido, com a pandemia, com lamentações ou fórmulas antigas.

A minha sugestão: logo que possível tirar os alunos da sala e promover uma aprendizagem mais prática. Ainda que demore mais tempo. 

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

O PROBLEMA NÃO É FECHAR ESCOLAS, O PROBLEMA É PROIBIR AS AULAS

        

Quando um político não ouve a ciência e a medicina, fica com uma pnademia incontrolável; quando um político não ouve professores e diretores de escolas, arrisca-se a perder um ano letivo. 


     Atualmente a morte Covid-19 corre à média de uma morte em cada cinco minutos, como a força de um rio em dias de chuva intensa. De braços caídos, os governantes esperam que pare de chover, aceitando as inundações da cave e do primeiro andar como uma inevitabilidade, apesar de todos sabermos que fora possível fazermos descargas controláveis, mas ninguém esteve disponível para controlar o natal, nem impor o fecho das escolas em janeiro. 

    O problema das escolas/aulas só é problema porque a opinião de quem lá trabalha não conta para nada há muito tempo. Tal como alguns estrangeiros ainda pensam que somos um país rural e atrasado, muitos portugueses continuam a achar que os professores queriam que as escolas fechassem para não fazerem nada. Logo eles que já nada faziam. Para muitos, só quando o pai ou o avô morre com o vírus que a filha ou o filho trouxe da escola é que acham que "tinha sido melhor fechar as escolas". São os mesmo que acham que o problema económico de Portugal está nos malandros que recebem o Rendimento mínimo, especialmente se forem ciganos. 

   

  Agora parece óbvio a muitos pais que os alunos deviam ter ido de férias a meio de dezembro e regressado em fevereiro, mas foi preciso morrer gente à porta do hospital para muitos jornalistas deixarem de dar voz ao presidente da confederação das associações de pais (que representa menos de 10% dos pais e tem um ordenado pago pelo governo) e ouvir o que os médicos lhes diziam. 

    Ninguém, nas escolas, espereva 15 dias de férias forçadas. Atrevo-me a dizer que poucos o desejavam, mas como o governo não sabe o que fazer, impede que aqueles que querem e podem continuar a trabalhar - alunos e professores - o façam, num ambiente de contigência. 

Em duas semanas não aprecerão 200 mil computadores, nem a pandemia abrandará significativamente, nem deixará de se morrer brutalmente por causa da Covid-19, mas ter-se-ão desperdiçado mais de sessenta aulas online para alunos que em junho terão exames.

      Os alunos do ensino secundário já têm os computadores do ministério da educação, mas não podem ter aulas à distância porque o governo não sabe o que há de fazer com os alunos do 1.º ciclo e do 2.º ciclo. O governo espera que a pandemia abrande como alguém que aguarda que haja uma aberta no mau tempo para passar entre os pingos da chuva. Entretanto já vai esaiando desculpas, como o facto de não haver no mercado tantos computadores disponíveis para uma compra do pé para a mão. Obviamente que não há 200 mil computadores para entrega imediata, mas houve nove meses para proceder a essa compra e nada foi feito. 

     

As escolas - professores, diretores, alunos e pais - já não nem pensam nas culpas de quem as tem, porque o momento é de trabalhar e não de lamentar. Em casa e online. Não podem todos? É verdade, mas quem vai fazer exames  pode. Já tem os meios. Não os obriguem a ficar parados para depois terem quatro meses seguidos de aulas, porque isso, sim, destrói a sanidade de qualquer um e prejudica a aprendizagem. 

 Daqui a duas semanas, não haverá computadores. Daqui a 15 dias, a pandemia continuará fortíssima. Não é preciso chegar a meio de Fevereiro para autorizar alunos e professores e continuarem o seu trabalho, nas condições possíveis. Não vamos ter  outras.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

ESCOLAS NÃO FECHAM: OS ALUNOS SÃO DE BAIXO RISCO E OS PROFESSORES NÃO CONTAM

Quando ouço a argumentação hipócrita para não fechar as escolas, apesar de termos uma taxa de transmissibilidade altíssima, a tal ponto que há o real perigo do Sistema Nacional de Saúde colapsar brevemente, fico sempre com a ideia que, para muita gente, os professores e os auxiliares de educação não são pessoas.

A pandemia traz muitos constrangimentos e sofrimentos à vida das pessoas. Algumas delas deixaram de ter dinheiro suficiente para comprar comida, outras estão em risco que isso aconteça dentro de poucas semanas e muitas vivam da caridade de familiares e amigos. No entanto, a defesa da vida impõe-se mesmo a este estado de necessidade.

Quando há um confinamento geral do país, todos sofrem muitíssimo, mas é um preço a pagar para salvar vidas. O raciocínio parece não ser válido para as escolas, onde o facto da classe docente ser envelhecida não é tido em conta.


É verdade que os alunos são jovens e estes têm uma baixa taxa de contágio. Mas isso continua válido com a nova estirpe do vírus? O que têm a dizer os cientistas sobre isso? E sobre o risco de contágio dos adultos que trabalham nas escolas?


Quando se pensa nos lares e na perigosidade que eles representam não se pensa apenas nos idosos, mas também na restante população que lá trabalha, de tal modo que serão esses trabalhadores dos primeiros a receber a nova vacina. O mesmo não se aplica aos professores e funcionários da escola.

É certo que os jovens resistem bem melhor ao vírus que os adultos, mas não deixam de ser um veículo de transmissão privilegiado, pois todos os dias apanham autocarros, convivem, fazem atividades de grupo.

Com o confinamento das escolas, as aprendizagens perdem valor, como perde valor e rendimento o comerciante, o dono da oficina, um empresário da restauração.

Além do problema psicológico que muitos governantes têm com o facto de verem os professores em casa, mesmo que isso seja comum a grande parte da população, a verdadeira questão é económica e de falta planeamento.

O governo não manda os alunos para casa porque tem de pagar a muitos dos seus encarregados de educação para ficar com eles. Além disso, os famosos computadores com internet móvel (prometidos desde Março de 2020) continuam, na sua grande maioria, por entregar.


Dez meses sem colocar um computador, com internet nas mãos dos alunos carenciados, é muito tempo. É falta de planeamento e organização. E não devem ser as vidas dos professores que devem pagar a má preparação do ministério da educação.

Um país solidário não encolhia os ombros perante esta ideia governamental de deixar as escolas de fora do confinamento. E Portugal preciso de ser solidário, exigente consigo, assertivo e comprometido. Tudo coisas que faltam, infelizmente, ao governo de Portugal.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

JÁ NÃO É IMPORTANTE O QUE SABEMOS MAS SIM O QUE FAZEMOS COM O QUE SABEMOS


Para que é que «isto» serve?

Talvez devêssemos começar por aqui! Em primeiro  lugar, os professores; mas também os alunos, que se tornaram "clientes" pouco exigentes, viciados em aprender sem questionar.

Obviamente que o mundo mudou! E os professores precisam de aceitar isso, para depois entender o que se transformou, de modo a preparar a sua ação, a partir dessa nova realidade.
Perdemos demasiado tempo a lamentar a mudança, a queixar-nos da falta de condições e consideração, e pouco ou nenhum tempo a entender a mudança.

Para entender é preciso querer entender! Não é isso, afinal, que dizemos aos alunos, quando este recusam o mais pequeno esforço em aprender o que lhe propomos?
Aprender é ouvir, ser humilde, crítico também, mas sobretudo construtivo, partindo sempre do princípio que vivemos num paradigma social, comportamental, tecnológico e mental diferente daquele em que nos formámos.

É certo que o aluno precisa de saber para fazer, mas antes necessita de uma justificação, uma razão prática e objetiva, para ter que estudar determinado conteúdo e, sobretudo, daquele modo. O modo sempre foi fundamental. Se estamos a ensinar como aprendemos ou como ensinávamos há quinze ou dez anos, estamos, claramente, a ensinar de modo errado. 

Nenhum setor da sociedade funciona já de modo autista.

O professor precisa de procurar a sua reciclagem! Saber exatamente o que quer, ou seja, que valências tem de adquirir ou melhorar para concretizar aulas diferentes e mais produtivas. Não diferentes porque sim, porque os outros querem, mas porque os alunos são pessoas diferentes do que eram há dez anos. 
Eles têm telemóvel, acesso facilitado à internet, o inglês é-lhes familiar, vivem num mundo cheio de apps, a relação com o professor é mais próxima e democrática, o livro deixou de ser a única e mais valiosa fonte de informação.

O professor só lhes é útil, se aceitar e dominar o novo contexto. Dominar o contexto exige aprendizagem, saber trabalhar com a tecnologia, apostar fortemente no trabalho em equipa. 

A Escola não precisa de se submeter à facilidade para vencer os desafios do futuro; muito menos entrar em lutas estéreis sobre quem é mais essencial, o professor ou aluno.
A Escola precisa, sim, de promover a qualidade do trabalho que desenvolve, fundamentar as suas opções, renovar o modo e os procedimentos.

Temos tempo, o que não quer dizer que não haja exigência, porque o pior que nos pode acontecer é fazer que fazemos: nas infraestruturas, no parque tecnológico, na formação de professores, na exigência da avaliação.

GAVB

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

SE OS ALUNOS NÃO APRENDEM NO SEU PRÓPRIO RITMO, ACUMULAM LACUNAS


 Salman Khan, engenheiro eletricista e informático formado em Harvard e pelo MIT, recentemente premiado com o Prémio Péêmio Princesa de Astúrias de Cooperação 2019, conseguiu alterar o panorama educacional. 

Desde que criou em 2009 a Academia Khan, uma plataforma online gratuita de aprendizagem e sem publicidade (sem fins lucrativos), mais de 72 milhões de pessoas de todo o mundo seguiram alguma de suas 7.000 videoaulas, 100 horas de conteúdos que abrangem da aritmética básica à Revolução Francesa. Um dos seus modelos pedagógicos são os chamados mapas de conteúdos - um software que encontra conexões entre os temas e gera exercícios de forma automática. 

O segredo é criar as conexões certas! E estas são aquelas que fazem sentido para os alunos e não aquelas que fazem sentido para os professores ou educadores. 

Para o americano, a “grande falha” da escola tradicional é que o conteúdo é distribuído de forma fragmentada, em temas autoconclusivos, com todas as conexões cortadas. 

Para ela, “é mais fácil entender uma ideia se o aluno puder relacioná-la com outra que já conhece”. 

Pensemos, por exemplo, no estudo da genética na Biologia, sem relação com o cálculo de probabilidades na Matemática, embora sejam duas questões estreitamente relacionadas. Para este informático e estudioso das questões da Educação, “São divisões que limitam a compreensão e dão uma imagem errada de como funciona o universo”. Em sua opinião, essa forma de ensinar marca a diferença entre memorizar uma fórmula para uma prova (o que acontece na escola atual) ou interiorizar a informação e ser capaz de aplicá-la uma década mais tarde. 

Salmon explica que po problema da escola tradicional é que esta não não responde ao funcionamento do cérebro - “as redes neuronais funcionam com a associação de ideias, não com temas estanques”, 

E acrescenta ainda outro problema da escola tradicional: a mentalidade de que é preciso seguir o programa, respeitar o calendário. 

A questão é que a repetição é básica para a aprendizagem, e numa sala de aula normal não se retrocede à espera de que todos os alunos entendam; logo alguns ficam pelo caminho. No entanto, cada um tem um ritmo de aprendizagem diferente e se não aprenderem no seu ritmo, acumulam lacunas. Foi o que aconteceu com sua prima até ele decidiu começar a lhe dar aulas por telefone e a retomar várias vezes os conceitos que ela não assimilava, impedindo-a de entender outras questões matemáticas. Diante do sucesso, outros parentes pediram sua ajuda. O telefone já não era tão útil, então começou a fazer vídeos que publicava na Internet e que são o germe desta escola mundial onde a lousa com os exercícios não é apagada, está sempre na nuvem disponível para o aluno.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

PASSAR TODA A GENTE É TRAIR O ALUNO E DESRESPONSABILIZAR O ESTADO

Tentar dar tudo a todos é meio caminho para não dar nada a ninguém, aprofundando o fosso entre ricos e pobres. Aliás, devemos ter a noção que há coisas, como a passagem de um ano letivo para outro, que não se dão, pois destinam-se a ser conquistadas. 


Obviamente que passar toda a gente até ao 9.º ano de escolaridade resolve o problema do abandono escolar, da percentagem de "chumbos" que o país tem, e torna a Escola ainda mais barata. No entanto, é resolver um pequeno problema para criar um outro muito maior: a ignorância de sucessivas gerações de pessoas.

Foi este pensamento que durante anos o Estado teve em relação ao tabaco: se o tributarmos fortemente até encontramos uma interessante fonte de receita, esquecendo que a conta seria apresentada, mais tarde, ao Serviço Nacional de Saúde. 

"Investir num plano nacional de não retenções" é brincar com as palavras. Já há planos e mais planos que tentam recuperar os alunos com mais dificuldades, mas estes alunos não deixam de existir simplesmente porque esses planos foram criados. Temos de contar que há alunos que não conseguem mesmo ultrapassar as suas enormes dificuldades de aprendizagens como temos de considerar que também há alunos que, simplesmente, não as querem ultrapassar porque se estão a marimbar para a Escola.

Por outro lado, passar todos os alunos é desistir de ensinar. 
Que aluno estará atento, motivado, comprometido, sabendo que faça o que fizer tem sempre a passagem de ano garantida? 
E mesmo havendo alguns (cada vez menos com a passagem do tempo) interessados em aprender, facilmente o ambiente criado pelos «boicotadores» inviabilizará qualquer aprendizagem com o mínimo de qualidade. 

Em poucos anos, as famílias com alguns recursos económicos retirarão os seus educandos do ensino público, que ficará, deste modo, depauperado, desmotivado, abandalhado. 
A dicotomia social aprofundar-se-á de forma irreversível, com o Estado a ter de pagar dois sistemas de ensino: o miserável (do público) e o remediado (do privado), tal como já acontece, em parte, com o nosso sistema de saúde.

Por outro lado, mesmo que haja alguma exigência a partir do ensino secundário, os alunos das escolas públicas já terão perdido por completo o comboio em relação aos colegas que sempre investiram na sua formação e, por isso, ser-lhes-á totalmente impossível competir, em igualdade de circunstâncias, para a entrada no ensino superior.

Gabriel Vilas Boas  

terça-feira, 29 de outubro de 2019

NÃO SÃO PASSAGENS ADMINISTRATIVAS, MAS INSTRUMENTOS PARA QUE NINGUÉM FIQUE PARA TRÁS


Sempre gostei de gente com sentido de humor e que sabe usar figuras de estilo. Em Educação, isso quer dizer ironia, se for professor; hipérbole se o autor for o aluno; eufemismo, se estivermos a falar do Ministério da Educação ou das Associações de Pais; metáforas, se a «coisa» passar para o lado do jornalismo opinativo.

Ontem, o jornal «I» revelou o quarto segredo de Fátima, declarando à nação que o grande objetivo do governo é acabar com os chumbos até ao 9.º ano. Segredo ridículo, indignação nenhuma, pois todos nós já sabemos que esse sempre foi o premissa central do eduquês, que tão bem caracteriza o projeto educacional do Partido Socialista para Portugal.

Como diria Filinto Lima, passar toda a gente é bonito mas é utópico, mas o problema é que as políticas governativas sempre acharam que isto se consegue com um estalar de dedos, impondo aos professores as suas teorias desfasadas da realidade. 
Trocado por miúdos, o projeto do PS resume-se a isto: "é para passar toda a gente (ou quase) e não quero saber como o fazem, desde que o façam. 
Obviamente que se isto correr mal a culpa é dos professores! Para tal já temos a nossa bateria de jornalistas e comentares pronta a disparar todas as culpas nos professores retrógrados, reaccionários e incompetentes, que tanto ensinam de mais como ensinam de menos ou ensinam mal."


É curioso constatar que sempre que o governo aparece a propor algo que vai contra o mais elementar bom senso e que a população pode censurar, logo aparece a brigada da Confap a dizer que sim, que é muito moderno, que temos de fazer algo, que como está é que está mal. 
Mas quem são os pais que a Confap representa? Os pais das crianças, adolescentes e jovens que costumam chumbar sistematicamente? Os pais dos alunos problemáticos, agressivos ou com necessidades educativas especiais? Naaa, que eles não estão para resolver problemas, mas só para dizer como se faz e para censurar os professores que deviam operar todos os dias o milagre de ensinar quem não quer aprender. 

Hoje, o cobarde ministério da educação que temos mandou Jorge Ascensão dizer que "não se está a dizer que os alunos vão passar mesmo que não saibam, vamos é encontrar instrumentos para eles não ficarem para trás."
Jorge Ascensão, não te preocupes, o teu subsídio por este mês está justificado. Além disso, quanto ao chumbos, também não precisas de stressar, pois os «profs» há muito que aprenderam a lição de Jorge Palma: 


"Se ainda me queres vender

Se ainda me queres negociar

Isso já pouco me interessa
Perdemos o gozo de viver
Eu a obedecer e tu a mandar
Os dois na mesma triste peça
Os dois à espera do fim"


Entretanto, querido Ascensão, sempre podes ir preparando o discurso e o argumentário para o facto de ser no secundário que os alunos "chumbam mais". Eu sei que é difícil convencer a população que um aluno entre na universidade sem saber o básico do básico, mas se esta cantilena já serviu para os trazer até ao 9.º ano sem retenções como não há de resultar para o 12.º ano? Afinal a escolaridade obrigatória já está nos doze anos...

domingo, 20 de outubro de 2019

DE QUE SERVE DÉFICE ZERO COM ESCOLAS A FECHAR?

A pergunta é de Filinto Lima, o eterno presidente da associação nacional de diretores de agrupamentos de escolas públicas.
Para Mário Centeno (e António Costa, por omissão) a pergunta é, obviamente, outra Que me interessam escolas a fechar por alguns dias ou semanas, se o défice público caminha para o zero?

É muito triste que um homem experimentado como Filinto Lima ande tão distraído. Então, não foi este o pensamento que levou Centeno a adiar vergonhosamente a ala pediátrica do Hospital de São João? Não é este o expediente, próprio de um vendedor de aldrabices, que o senhor presidente do conselho (qual Salazar dos tempos modernos) usa para manter as contas aparentemente em dia?

Por isso é que os serviços do Ministério da Educação só vão uma vez por semana recolher os pedidos de substituição de professores e de auxiliares de ação educativa.

A Educação como a Saúde, a Administração Interna ou a Cultura, além dos salários, só terão dinheiro quando for contabilisticamente possível. Não vale a pena alguém indignar-se, sobretudo quando andou anos a ter um discurso mole e comprometido com o poder, fosse ele qual fosse. 

Obviamente ninguém precisa de lamentos, mas de ações e essa ficou bem clara no dia 6 de Outubro: a maioria prefere nem participar nas eleições e a minoria que participa está mais ou menos satisfeita com esta forma de governar. 

Há uns anos, Costa justificou a sua candidatura à liderança do PS, espetando a faca nas costas de António José Seguro, dizendo que não se contentava com uma vitória por poucochinho. Na verdade, ele não tem feito outra coisa que não gerir vitórias por poucochinho, porque ele sabe perfeitamente que aquilo que melhor define o português é que se contenta com poucochinho. E quem se contenta com poucochinho acaba sempre com zero.

GAVB

sábado, 19 de outubro de 2019

ALUNOS PORTUGUESES ASSUMEM VIOLÊNCIA NA ESCOLA


Não, não são os professores a dizê-lo, mas os próprios alunos alunos a admiti-lo: a violência e a agressividade nas escolas portuguesas estão a aumentar, atingindo, em alguns casos, patamares nunca vistos.

Num inquérito recentemente realizado aos alunos portugueses, chegou-se às seguintes conclusões:
90% assumem já ter exercido violência psicológica sobre os colegas;
70% admitem ter agredido fisicamente um outro aluno;
11%  não tem pejo em afirmar que essa violência foi particularmente contundente e, em certos casos, envolveu armas;
2% refere que a violência teve contornos de cariz sexual.

Se estes dados não constituem um alerta vermelho para quem pode intervir[Ministério da Educação, Associações de Pais, Direções de Escolas, Professores, Associações de Estudantes, Comunicação Social], então é porque nos estamos a tornar perigosamente autistas perante uma realidade preocupante.

A agressividade e a violência nas escolas aumentou muito e isso deve-se, na minha opinião, a duas grandes causas: o desrespeito generalizado pelo Professor e a falta de auxiliares de ação educativa.
Como o governo, as associações de pais, a comunicação social fizeram crescer despudoradamente a desconsideração pelo Professor, é normal que os alunos tenham absorvido esse padrão comportamental e o tenham replicado. 
Chega a ser constrangedor observar a defesa da autoridade do professor, por parte de alguns alunos, completamente incrédulos com o nível de desrespeito a que alguns dos seus educadores estão sujeitos. 

Por outro lado, a falta de auxiliares de ação educativa é gritante. Os funcionários que se reformaram ou estão de baixa médica prolongada não são substituídos, em regra. O governo assobia para o lado e a população faz o mesmo, a não ser que o problema envolva o querido filhinho ou o querido netinho. 

Os professores já estão cansados de alertar, reclamar e sofrer. Agora apenas se aquietam, silenciosos, esperando que alguém responsável tenha alguma vergonha na cara ou que uma circunstância inusitada faça com que os Pilatos desta história sintam na pele o tamanho do monstrinho que ajudaram a criar.

Estou certo que o tempo fará alguma justiça aos professores e auxiliares de ação educativa, que muito deram e dão à Educação em Portugal, todavia essa momento chegará tarde para muito jovens, cujo futuro estará mais perto da delinquência, da agressividade permanente, do egoísmo selvagem.
O rio da indiferença engrossa e vaio cheio de detritos.
Gabriel Vilas Boas
        

quarta-feira, 12 de junho de 2019

GRANDE REPORTAGEM ANTENA 1 "Quem Quer Ser Professor?"

Em Portugal cerca de 1% dos professores do ensino obrigatório têm menos de 30 anos e cada vez mais jovens fogem da profissão.

Recentemente um estudo revelou que 75% dos professores portugueses apresentam níveis preocupantes de exaustão emocional e que apenas 1% dos docentes têm menos de 30 anos. As escolas estão a ficar grisalhas e os jovens fogem, cada vez mais, da profissão de professor.

Na grande reportagem "Quem quer ser professor?", o jornalista João Torgal ouve os desabafos de quem sonhou ensinar e agora já só pensa em desistir. 


"Quem quer ser professor?” é a Grande Reportagem Antena1 de João Torgal com sonoplastia de Paulo Cavaco.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

RELIGIÃO E MORAL SÃO FUNDAMENTAIS NA EDUCAÇÃO DOS JOVENS. QUANDO ASSUMIREMOS ISSO SEM PRECONCEITOS?


Assumimos facilmente que a Escola deve dar ao jovem um formação robusta, eficiente, completa sobre áreas tão diversas como História, línguas, matemática, geografia, ciências naturais e sociais, ambiente, consumo, tecnologia... mas quando a conversa chega à religião ou à moral muitos acham que a Escola deve abster-se de ensinar, embora muito poucos saiba realmente o que se ensina numa aula de religião e moral. A maioria ainda acha que os alunos vão aprender catequese, que aquilo é um feudo de "padres e afins", que usa e abusa de uma tradição a que não tem direito nem legitimidade. 

A ignorância é pródiga na crítica. Sempre foi e sempre o será. 
Muitos pais e educadores acham que a os jovens não têm valores, mas em vez de os ensinarem e exemplificarem, preferem retirar os filhos da única aula onde eles são ensinados, praticados e encorajados. 


Vários pais acham que os seus filhos não têm de se submeter aos ditames de nenhuma Religião ou Igreja, mas saberão eles o que realmente aprendem os filhos nas aulas de Educação Moral Religiosa e Católica? Já perguntaram aos seus filhos os temas que lá discutem com o seu professor(a)? Se não o fizeram, deviam fazê-lo com urgência, pois é lá que muitos aprendem valores como a verdade, a coerência, o respeito pelo próximo, o respeito por quem pensa diferente, o significado do amor, da responsabilidade, a diferença entre o certo e errado.

É lá que os alunos ouvem algo sobre religião. Não apenas sobre cristianismo, mas sobre as outras também. E claramente é lá que recebem melhor informação. 

Muitos peroram sobre religião e religiões, mas poucos cuidam de se documentar, de fazer uma avaliação correta do que foi feito no passado e do que é feito no presente. Pior: há muitos pais que, do alto da sua ignorância, decretam que os seus filhos não podem conhecer nada sobre religião, nada sobre moral, como se isso fosse um vírus perigoso. Decidem por eles, baseados apenas num preconceito ou na sua noção, muito própria, de liberdade. Os que os distingue dos fanáticos seguidores do islamismo ou dos judeus inflexíveis? 

Grande parte dos valores do cristianismo são valores humanistas, em que a sociedade portuguesa se revê. Uma aula de moral não é a catequese, mas uma aula da moral e sobre moral. E como ela anda arredia da sociedade, com as consequências que verificamos dia após dia!

A educação religiosa é fundamental em qualquer Educação. Também para os agnósticos, também para os ateus. Só podemos questionar aquilo que conhecemos.
Uma aula de EMRC é uma mais-valia na educação de um jovem, mesmo que ele não seja católico, pois todas as outras dimensões permanecem intactas e são importantíssimas.

A aula de Moral não é um local aborrecido, nem uma disciplina onde se vai "sacar" um cinco para arredondar a média. A aula de Moral é um espaço onde nos podemos enriquecer sobre duas dimensões importantes do ser humano: a religião e a moral. Quem frequenta estas aulas sai de lá mais rico e mais preparado. E normalmente as aulas são de grande qualidade. Não acreditam? Perguntem aos vossos filhos.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 31 de março de 2019

UM PROFESSOR INDIFERENCIADO NUMA ESCOLA IRRELEVANTE E INÚTIL


A escola portuguesa vive um momento de viragem perigoso, que a pode tornar irrelevante e inútil para a maioria dos jovens portugueses. A teia está montada e será muito difícil quebrar o ciclo vicioso em que caímos. 
Uma geração de professores competentes e conhecedores,(ainda que muitos deles desfasados face ao modo de conectar Escola com as exigências da sociedade atual) está cansada, desencantada e sem forças para lutar contra a incompetência de quem não sabe fazer nem deixa quem sabe executar o que tem de ser feito. 

Do outro lado da barricada, um conjunto de governantes tecnocratas, que apenas conhecem o eduquês, e que querem tornar a Escola um espaço onde apenas se passa o tempo e se aprende superficialmente alguns conteúdos, na condição de todos obterem aprovação. 

Percebendo que encontraram cada vez menos professores competentes para estar nas escolas, os governantes portugueses tudo farão para retirar "conteúdo" ao ensino, obrigando os professores a aligeirar na avaliação, retirando carga letiva a disciplinas essenciais do currículo com é o caso de História e enchendo o horário dos alunos de atividades multidisciplinares, onde qualquer um pode ser professor. 

Daqui a pouco tempo, teremos um novo tipo de professor na escola - o professor indiferenciado. Aquele que tanto dará aulas de cidadania, como ensinará os alunos a andar de bicicleta ou coordenará as atividades que envolvem a flexibilidade escolar. 

Quando alguns pais olharem bem para o horário dos seus filhos, perceberão finalmente que grande parte do tempo não será ocupado a aprender Química, Biologia, História, Francês ou Geografia. Nenhuma dessas disciplinas terá mais de dois tempos letivos semanais, mas entretanto crescerá o tempo para o professor indiferenciado. 

E aqueles alunos que querem aprender, onde terão lugar? Nas escolas privadas! O último refúgio de quem queira e possa pagar um ensino com alguma qualidade, organização visão. 
Oficialmente todos terão a oportunidade de andar doze anos na escola, mas só quem tiver dinheiro poderá fugir a uma escola irrelevante, faz de conta e pouco útil. 

O sonho de Abril irá esfarelar-se entre os dedos daqueles que o criaram. Esses mesmos legarão aos netos um simulacro da verdadeira liberdade que tanto sonharam. 
Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 15 de março de 2019

A AUTONOMIA AINDA ESTÁ A COMEÇAR, MAS PROMETE ENCALHAR

É arrasador a auditoria realizada pelo Tribunal de Contas aos contratos de autonomia realizados entre o Ministério da Educação e algumas escolas. 
"Contratos inúteis e desadequados", "sem controlo nem revisão", "mais de 75% dos objetivos definidos não são mensuráveis" - são alguns do mimos que o relatório do Tribunal de Contas dispensa aos projetos de autonomia, em execução na Escola Pública portuguesa.

Para o Tribunal de Contas parece não haver muitas dúvidas quanto ao futuro deste bebé prematuro do ministério de Tiago Brandão Rodrigues - acabar com o atual modelo ou alterar o regime jurídico dos contratos em vigor.

Para homens e mulheres habituados a contas, é muito difícil entender como nem 40% dos objetivos operacionais traçados em cada projeto de autonomia  tenham sido alcançados. Eles não compreendem como não há controle nem planos de revisão de projeto. 

Obviamente os visados ficaram caladinhos que nem ratos. Ministério da Educação e Associação de Diretores Escolares devem estar a digerir «a coisa»e a pensar numa resposta redonda, que disfarce o incómodo. 

Como é que o Tribunal de Contas não percebeu a verdadeira essência de projetos pensados às três pancadas, impostos de cima, onde os professores foram só chamados para executar uma ideia vaga de autonomia?
O Tribunal de Contas está habituado a rigor? A objetivos bem definidos e medidas executadas em consonância? Temos pena!
 Nota-se bem que o Tribunal de Contas não conhece o estilo de governação educativa que domina em Portugal no século XXI. 

Todavia «no passa nada». Houve o relatório e a notícia; seguir-se-á o esquecimento mediático e depois tudo continuará na mesma. Os professores deixarão a banda passar, porque, afinal, quem escreveu a pauta foi alguém que percebe pouco de música. 

GAVB

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

POST-IT PARA PROFESSOR

PROFESSOR...

ensina com amor, 
pois não sabes por quais tormentos 
passam teus alunos.

Talvez, para alguns, o único lugar seguro
seja a tua sala.
E a única moral seja o teu Exemplo.

Pensa nisto, com carinho!

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

REDUZIR APENAS AS PROPINAS É POUCO E É POBRE

A grande ideia do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, para a próxima década parece ser o fim gradual das propinas. O ministro fala numa eliminação gradual, a dez anos, quando lhe restam apenas dez meses de governação. Pura propaganda eleitoral e de baixa qualidade.

Cobrar propinas ou deixar de cobrar parece mais uma preocupação de adjunto de ministro das finanças do que de um ministro do ensino superior. Não que o financiamento das universidades não mereça debate ou suscite polémica, mas esse é um problema de opção política do primeiro-ministro face às contingências financeiras e económicas do país e não uma questão onde o ministro tenha real poder de decisão.  Em matéria de dinheiro (investimento), o poder dos ministros, em Portugal, é residual.

O que Manuel Heitor não disse, e fazia sentido que tivesse opinado, foi o que pensa sobre o modelo de acesso ao ensino superior. As universidades querem escolher quem acolhem, impondo os seus critérios e fazendo tábua rasa dos resultados do secundário. O ministério da educação, pela voz de Alexandra Leitão (verdadeira ministra da educação), pensa que o atual modelo de acesso ao ensino superior está bem como está, porque garante "universalidade e transparência". É capaz de ter razão. No entanto, também é verdade que este modelo garante muita mediocridade nas universidades e é isso que os reitores querem erradicar. Não conseguirão tão cedo os seus intentos, sobretudo enquanto continuarem , ano após ano, a ter de mendigar dinheiro para pagar salários aos professores e outras despesas de financiamento. 

A ideia dos reitores merece debate, mas é pouco viável nos próximos tempos. Faria do ensino secundário uma inutilidade, onde todos passariam e os melhores deixariam de investir. Ora isso retiraria poder ao ministério da educação (que faz os exames nacionais de acesso ao ensino superior) e colocaria muito poder nos reitores. Nem pensem nisso!

P. S. ainda a propósito das propinas, o governo quer descê-las 10% ao ano, apresentando isso como uma medida social para ajudar as famílias, mas é pouco provável que as famílias paguem realmente menos para ter os filhos nas universidades, porque essa diminuição terá como contrapeso o aumento do preço dos mestrados e doutoramentos. E hoje, sem mestrados, os jovens ficam com uma formação superior coxa.

Gabriel Vilas Boas 

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

FELIZ É O PROFESSOR QUE APRENDE ENSINANDO


Professor, “sois o sal da terra e a luz do mundo”.
Sem vós tudo seria baço e a terra escura.
Professor, faz de tua cadeira,
a cátedra de um mestre.
Se souberes elevar teu magistério,
ele te elevará à magnificência.
Tu és um jovem, sê, com o tempo e competência,
um excelente mestre.

Meu jovem Professor, quem mais ensina e quem mais aprende?
O professor ou o aluno?
De quem maior responsabilidade na classe,
do professor ou do aluno?
Professor, sê um mestre.

Há uma diferença subtil
entre este e aquele.
Este leciona e vai prestes a outros afazeres.
Aquele mestreia e ajuda seus discípulos.
O professor tem uma tabela a que se apega.
O mestre excede a qualquer tabela e é sempre um mestre.

Feliz é o professor que aprende ensinando.
A criatura humana pode ter qualidades e faculdades.
Podemos aperfeiçoar as duas.
A mais importante faculdade de quem ensina
é a sua ascendência sobre a classe
Ascendência é uma irradiação magnética, dominadora
que se impõe sem palavras ou gestos,
sem criar atritos, ordem e aproveitamento.
É uma força sensível que emana da personalidade
e a faz querida e respeitada, aceita.
Pode ser consciente, pode ser desenvolvida na escola,
no lar, no trabalho e na sociedade.
Um poder condutor sobre o auditório, filhos, dependentes, alunos.
É tranquila e atuante. É um alto comando obscuro
e sempre presente. É a marca dos líderes.

A estrada da vida é uma reta marcada de encruzilhadas.
Caminhos certos e errados, encontros e desencontros
do começo ao fim.
Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
O melhor professor nem sempre é o de mais saber,
é sim aquele que, modesto, tem a faculdade de transferir
e manter o respeito e a disciplina da classe….

Cora Coralina, em “Ainda Aninha…”, no livro “Vintém de cobre: meias confissões de Aninha”

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

PROIBIR TELEMÓVEIS NAS ESCOLAS? NINGUÉM APRENDE OU ENSINA NADA COM PROIBIÇÕES


Por princípio, sou avesso a proibições, imposições, coações. É verdade que os exageros ou os abusos levam muitos pais, educadores e professores a adotarem a famosa tática da proibição, mas tento resitir-lhe o mais que posso. 

Nos últimos meses tenho assitido a uma pequena cruzada anti-telemóveis, nas escolas portuguesas. Não pertenço ao grupo e, mais do que uma vez, já declarei que ele deve ser cada vez mais usado na sala de aula, pois é um instrumento que permite multiplas funções e interações.

Acho pobre a justificação de que «os miúdos aproveitam logo para ir a sites de diversão, fazer pesquisas indevidas, fazer um uso virado para o lazer e não orientado para o objetivo da aula». Comigo sempre aconteceu ao contrário. Sempre que autorizei o uso do telemóvel dentro da sala de aula, ele tornou-se útil a grande parte dos alunos, retirando dúvidas momentâneas, permitindo a leiura de livros ou documentos inacessíveis naquele momento, tornando a aula mais interativa e participada. 

Não sou um fundamentalista do uso do telemóvel pelos alunos, mas acho pouco inteligente tentar contrariar uma realidade que já se impôs, que é apresentada como o futuro da comunicação e do ensino, que facilita a interação entre docente e discente. 

O que é necessário é ir libertando  dependência do aluno do telemóvel quando tal não o beneficia de todo: no convívio inter pares, na relação com os pais, quando assitem a espetáculos artísticos ou desportivos. E mesmo aí sem proibir. Fazê-los perceber que há que disfrutar a companhia dos colegas, dos pais, dos irmãos e dos amigos. É o que tenho feito com os meus e tem resultado. 
Obviamente haverá sempre quem se mantenha terrivelmente obcecado e precise de uma intervenção mais enérgica e assertiva, mas esses não são a maioria. 

Entretanto seria interessante que as escolas ganhassem espaços e divertimentos, onde os alunos pudessem usar a sua criatividade e capacidade de interagir com os colegas offline. Muitas escolas ou agrupamentos de escolas investeram zero em material, equipamentos ou atividades que ocupem os tempos livres dos alunos. 
É confrangedor que em 2018, mil e tal alunos tenham umas mesas de ping-pong sem rede, uns matrecos avariados e uma sala enorme com três ou quatro mesas redondas e uma dúzia de cadeiras numa enorme salão vazio, sombrio, e sem graça para se divertirem nos intervalos, há mais de vinte anos, sem que nenhum responsável (professor, direção,  associação de pais, autarquia) toma a iniciativa de o melhorar o panorama. 
É sempre mais fácil culpar o telemóvel.
GAVB