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domingo, 6 de janeiro de 2019

O VOLUNTARIADO DEVIA SER UMA DISCIPLINA NAS NOSSAS ESCOLAS

    
A falta de uma cultura de voluntariado é uma lacuna evidente na sociedade portuguesa. É certo que, nos últimos anos, os portugueses têm despertado para a importância do voluntariado, procurando inseri-lo no sentido que procuram para as suas vidas e por isso procuram organizações que baseiam a sua atividade cívica e social no voluntariado. No entanto, estamos longe de ter criado uma cultura de voluntariado, porque muitos dos voluntários acabam por desistir ao fim de algum tempo, normalmente quando o motivo específico que os levou ao voluntariado se extingue.  

           Para criar uma verdadeira cultura de voluntariado, na sociedade portuguesa, é essencial que ela nasça e crie raízes na Escola. Já existe o contexto teórico (a disciplina de Formação Cívica), agora há que torná-lo real, consistente e duradoiro.
         
Na minha opinião, todos as crianças/adolescentes abrangidas pela escolaridade obrigatória deviam ter o mínimo de duas horas de voluntariado por mês. E não obrigatoriamente cumprido em horário escolar, pois as instituições locais capazes de acolher estes pequenos exércitos de novos voluntários têm necessidades que vão além do horário escolar. 
Por outro lado, existem largas semanas de férias escolares espalhadas pelo ano civil, que podiam ser aproveitadas para duplicar ou triplicar as horas que os alunos das escolas portuguesas dedicariam ao voluntariado.
      Os locais são vários e existem em todos os concelhos portugueses: misericórdias, centros de acolhimento, lares da terceira idade, hospitais, apoio aos sem-abrigo, vigilância das matas em épocas de grande risco de incêndio, creches, distribuição de comida e medicamentos a idosos acamados em suas casas... As hipóteses são muitas e perfeitamente exequíveis.

        Numa altura em que a escola se transforma, sendo desafiada a uma maioria autonomia e flexibilização de conteúdos e práticas educativas, o voluntariado pode e deve constituir-se como uma proposta charneira dessa mudança.

GAVB



domingo, 30 de novembro de 2014

BANCO ALIMENTAR CONTRA A FOME



O Banco Alimentar contra a Fome é das projetos mais luminosos, úteis e humanitários que existem em Portugal. Trata-se duma ideia que procura e consegue dar forma aos valores mais básicos do ser humano: solidariedade, partilha e dádiva.
E são poucos os projetos com esta dimensão e utilidade, onde podemos expressar, dum modo simples e eficaz, a nossa cidadania, humanidade e dignidade.
Interessam-me poucas polémicas acerca das infelizes palavras que Isabel Jonet proferiu no passado, porque isso não é o essencial. Relevante é pôr em prática uma ideia de ajuda ao próximo que nos enobrece e nos faz melhores pessoas.


Devemos contribuir na medida das nossas possibilidades, sem pensar em quem ajudamos nem fazer juízos de valor sobre as circunstâncias que ditaram estas condições de extrema necessidade em que vivem mais de quatrocentos mil portugueses.
Fico muito satisfeito ao ver que a dimensão da solidariedade do povo português acompanha as necessidades. Mais de quarenta mil voluntários estiveram envolvidos, neste fim-de-semana, numa ação de recolha de alimentos em cerca de duas mil lojas espalhadas pelo país. Estes números impressionantes dão-nos a real dimensão da carência económica em que vivem os nossos compatriotas.


É de fome que falamos! Pessoas que não têm qualquer rendimento para fazer uma/duas refeições diárias. Muitas delas juntam a isto outras necessidades: alojamento, vestuário, cuidados básicos de higiene…
O Banco Alimentar Contra a Fome faz coisas simples mas muito importantes. Recolhe as dádivas e distribui-as. Os voluntários fornecem o seu tempo e o seu sorriso, cada um dá o que entende, muitos milhares agradecem.
Nesta altura do ano é mais fácil contribuir, pois a aproximação do Natal enobrece os nossos sentimentos como se houvesse um calendário solidário. É um conceito que temos que contrariar. A solidariedade deve estender-se por todo o ano, pois ela está sempre a ser precisa. Não precisamos de nos preocupar com o putativo merecimento das pessoas que beneficiam desta ajuda. As diversas instituições de solidariedade social estão mais do que habilitadas para avaliar a situação. Haverá todo o ano muita comida que sobra, muito roupa que deixamos de gostar, muito material encostado nas arrecadações que preencheria as necessidades de muitos homens e mulheres que hoje se acolhem num vão de escada e não sabem o que é um banho quente há vários dias.



Sei que chegamos a este estado social porque o Estado que nos governa perdeu o sentido do essencial. Hoje, amanhã ou noutro dia qualquer compete-nos alimentar a luz trémula dum futuro coletivo bem mais risonho.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 18 de maio de 2014

VOLUNTÁRIO À FORÇA


A partir de 2017, os cerca de 320 mil alunos da Universidade de Buenos Aires (UBA) passarão a ter que realizar atividades solidárias para que possam terminar os estudos e obter o seu diploma, de acordo com uma diretiva da própria entidade – que é pública e gratuita. No entendimento dos diretores e professores, a sociedade deve ser “recompensada” por ter permitido aos alunos a oportunidade de usufruírem de um ensino gratuito.


Li esta notícia e não pude deixar de ficar perplexo. Sou totalmente a favor do voluntariado e acho que é uma das pechas da sociedade atual, mas acho bizarra a ideia de voluntariado à força ou, numa versão mais suave, voluntariado por constrangimento.
O voluntariado é uma atitude nobre e não pode ser imposta, pois corremos o risco de matar um conceito que deve ser desenvolvido e acarinhado.

O voluntariado é a maneira que cada um tem de mostrar o seu comprometimento com a sociedade em que se insere; é a forma de mostrar os valores que preza; é o modo de contribuir para um bem comum.


O voluntariado não é um espetáculo, uma atitude extemporânea ou modo de promover uma imagem. O voluntariado faz-se em silêncio, perto de casa e com simplicidade. Tem que ser uma atitude consistente, implicar esforço de quem o faz e ser encarado com espírito de missão. Não pode envolver qualquer sentido de superioridade moral, vaidade intelectual ou aproveitamento pessoal.

Acho que o voluntariado é uma questão de cultura de povo. Os que ainda não o têm enraizado podem adquiri-lo ou implementá-lo através da escola, não na universidade nem com um carácter obrigatório. Defendo que o voluntariado deve ser ensinado desde o 1º ciclo escolar. As crianças devem perceber as suas vantagens e praticá-las, ficando bem claro que a vontade do próprio em executar essas tarefas é muito relevante.


Há dois anos atrás desenvolvi com os meus alunos do 3º ciclo uma atividade em que lhes mostrei os principais centros de apoio social de Amarante (Cerci, Lares, Centros de Dia, Apoio a Invisuais). O trabalho foi feito com dois/três alunos de cada vez, numa tarde sem aulas dos alunos, sem qualquer carácter obrigatório e sem qualquer benefício ao nível da classificação final deles na minha disciplina. Dum total de vinte e sete alunos, só uma aluna recusou participar no projeto. O objetivo foi mostrar-lhes como podiam ajudar aqueles que, perto deles, mais necessitavam, despendendo um pouco do seu tempo livre, uma vez por semana. Todos aqueles que participaram ficaram sensibilizados e gostaram da ideia.

Tenho consciência que o meu trabalho não foi além da consciencialização e muito poucos foram aqueles que continuaram a praticar voluntariado. Todavia, ficou a semente. Espero que ela germine em algum dos meus ex-alunos.

Ainda que o caminho seja longo e difícil, não podemos ir pela imposição. É um contra senso absoluto. As ações solidárias não resultam duma imposição, mas duma vontade. Só assim nascem as sociedades fortes e convictas.

Gabriel Vilas Boas