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sábado, 4 de junho de 2016

LEIS IN / LEIS OUT


Sobre a política e os políticos poucos são aqueles que ainda têm ilusões: hipócritas, oportunistas, materialistas, por vezes, ignorantes. No entanto, são eles que fazem e desfazem o nosso quotidiano, através de leis e “leizinhas” que ora nos indignam ora nos atormentam e algumas vezes nos resolvem problemas.
Esta semana o CDS e o PSD viram rejeitada uma proposta de lei que visava criminalizar o abandono dos idosos pelos seus familiares. A ideia parece-me boa, embora a proposta da direita seja oportunista e tenha muito que ver com a sobrelotação dos hospitais, que amiúde ficam inopinadamente com um problema de segurança social nos braços quando já trataram da saúde do idoso, já que nenhum familiar o vem buscar.

É incompreensível a rejeição deste projeto de lei, por parte dos partidos que sustentam o governo, sobretudo porque os argumentos invocados são fracos: uns dizem que a lei abriria outros problemas no futuro, mas não dizem quais; outros dizem que as instituições e entidades públicas ouvidas acerca deste projeto-lei têm sido muito críticas, mas a verdade é que PS, PCP e BE não dizem taxativamente: é uma má lei ou não é necessária. Se o problema é ter sido apresentada pelo PSD e CDS, então a geringonça está a ser infantil. Se a questão é os problemas futuros que essa criminalização pode causar, isso resolve-se em sede de regulamentação cuidada.
O problema é que os velhos parecem deixaram de contar para os políticos. Se são abandonados, se são violentados, se recebem reformas abaixo do que alguns gastam numa refeição… tudo isso é irrelevante para os partidos políticos. 
Os velhos são um tema out do debate político em Portugal. O que está in e afeta seriamente o desenvolvimento social dos portugueses é a criminalização do abandono dos animais, as barrigas de aluguer, a legalização da prostituição e consumo de droga. 
E aqui ninguém fica isento desta maneira de fazer política muito televisiva com se as leis fossem algum guarda-roupa e houvesse alguns temas absolutamente fora de moda, apear de serem muito importantes e afetarem a vida das pessoas.

Em agosto de 2014, o anterior governo, com maioria absoluta no parlamento, aprovou (e bem) a criminalização do abandono e maus tratos dos animais domésticos, com penas que podem ir de seis meses a três anos. Qual o impacto desta lei no quotidiano das pessoas e animais? Que numerosos problemas resolveu esta lei? A aprovação/regulamentação de uma lei desta natureza não levanta também outros problemas posteriores de enquadramento legal? Pois...
Em agosto de 2014, o mesmo governo de direita, a pouco mais de um mês de eleições, e sabendo que apenas numa nova legislatura este tipo de lei podia ser aprovado, apresentou um projeto-lei que visava a criminalização do abandono dos idosos. Por que não o fez durante os quatro anos do seu mandato em que tinha maioria para fazer passar a lei? Não o fez porque não quis. Apesar da hipocrisia do projeto-lei apresentado e recusado esta semana, concordo com os seus fundamentos genéricos e acho que o tema merecia um amplo debate na sociedade portuguesa. Os idosos já não são uma questão privada de cada família, mas uma questão pública e de urgente resolução, porque a honra de um povo também se vê no modo como defende os seus maiores.

Gabriel Vilas Boas

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