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quinta-feira, 21 de maio de 2015

DA ARTE, DA PINTURA, DO MUSEU ARPAD SZENES-VIEIRA DA SILVA


“Quero pintar o que não existe como se existisse.”


Maria Helena Vieira da Silva

Nesta semana que é de festa para os Museus, nada melhor do que vos trazer hoje um, muito especial, “pensado” para um sítio mais especial ainda.
O edifício pombalino que acolhe a memória e a arte de Vieira da Silva e Arpad Szenes, à sombra do romântico Jardim das Amoreiras, foi uma escolha plena de afetividade, justificada pela harmonia, pelo jogo de proporções e simplicidade que tão bem caraterizam Vieira.
Vieira da Silva bem se pode considerar a mais destacada artista plástica nascida no nosso país, no séc. XX, pelo que era urgente um espaço digno que testemunhasse o seu génio, que divulgasse as suas obras, em diálogo permanente com amigos, intelectuais e artistas que se constituíram referências incontornáveis no seu percurso pessoal e artístico. Arpad Szenes, o grande amor da sua vida, também lhe dá o nome e bem. Este espaço, inaugurado em 1994 na antiga Fábrica de Tecidos de Seda acolhe regularmente exposições temporárias de ambos, dando-lhes um lugar de relevo no panorama da arte internacional.
É igualmente possível o acesso ao centro de documentação e investigação, a colóquios, a conferências, a palestras que visam o desenvolvimento da cultura e da educação artística.
Arpad Szenes nasce em Budapeste, Hungria, em 1897.Maria Helena Vieira da Silva,nasce em Lisboa, em 1908.Ambos originários de famílias da alta burguesia, cedo manifestam apetência para as artes. Conhecem-se em Paris e casam em 1930.Convivem com os surrealistas Miró, Tanguy e Max Ernst.
Vieira expõe no nosso país, pela primeira vez, em 1935,pela mão do surrealista António Pedro, na Galeria UP. Szenes expõe no ano seguinte, no atelier das Amoreiras.
A II Guerra Mundial obriga os dois a regressarem a Portugal,de onde partem para o Brasil e onde continuam a desenvolver o seu trabalho de sempre.
Em 1956, estes dois apátridas que viram recusada pelo nosso país a nacionalidade portuguesa, naturalizam-se franceses e a partir da década de 60 é notório o reconhecimento mundial da sua obra e Vieira é cumulada de prémios internacionais.
As exposições e as retrospetivas sucedem-se-Londres, Nova Iorque, Amesterdão… Lisboa…. as suas originalíssimas composições geométricas são aclamadas por todos.
As obras de Vieira da Silva figuram em grandes museus mundiais como o Centre Georges Pompidou, o MoMA, o Guggenheim (Nova Iorque), o SFMoMA (São Francisco) e muitas outras são pertença de colecionadores privados.
A venda da sua obra Saint-Fargeau (1965), em 2011, pela “módica” quantia de 1,54 milhões de euros, é prova do reconhecimento incontestado do seu talento. Orgulho português é também o facto de a NASA ter dado o nome da artista a uma cratera em Mercúrio, que não nos deve surpreender dada a dimensão da sua obra.
Para os gregos, a palavra Museu definia o templo das Musas. O séc.XIX vê nascer os Museus como instituições que reforçam a referência identitária das novas nações emergentes. O Museu cria e constrói Património Cultural e hoje, a moderna Museologia abandonou já a prática de simples armazém e depósito de peças e objetos, dando lugar à criação, em constante interação, de espaços de serviço à comunidade. Assim, o museu converte-se num meio de comunicação de ideias, de identidades, de valores.
Fiquem hoje com o templo desta Musa que foi Vieira da Silva. Apreciem Ville Forte (1960),quadro pertencente à Coleção Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, que me agrada particularmente. Testemunho de uma temática repetitiva e recorrente em Vieira da Silva, as cidades, o registo cromático da presença do Homem, da Civilização.”Je suis une femme de ville”, dizia Vieira frequentemente.
Esta é uma obra da sua maturidade artística. Cor, luz, geometria pura. Paleta discreta, mas intensa e forte, como o nome da pintura sugere. O olhar do observador é convidado a pousar suavemente no ponto de fuga, visível na metade inferior esquerda do quadro. Os brancos lembram a luz de Lisboa, que ela insiste em não esquecer.
Lisboa é a cidade onde podemos apreciar a sua obra. Vieira da Silva é conhecida pelas suas cidades vertiginosas, Arpad pelas suas paisagens contemplativas. Não receiem viajar até Lisboa, beber daquela luz inconfundível que invade também a Praça das Amoreiras, observar o edifício singelo que alberga tantas e tantas obras de beleza ímpar. Percorram o espaço intimista, desvendem a coleção e deixem-se seduzir pelas histórias que ela nos conta…ou apenas deixem correr a vossa imaginação. Perscrutem e entendam o amor que uniu estes predestinados, dialoguem com outras correntes, mais marialvas e sedutoras que influenciaram as nossas personagens de hoje. E, depois de um chá bem retemperador, em gesto de despedida, voltem à cidade e desfrutem daquela que foi fonte inspiradora para a obra de Vieira da Silva e que ela escolheu para receber a sua Fundação. Ainda bem.

Ville Forte,1960
Maria Helena Vieira da Silva, óleo sobre tela,
Coleção Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva

Rosa Maria Fonseca

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