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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

PROIBIDO FUMAR A CINCO METROS


De tempos a tempos, um qualquer membro do governo ou um deputado ou até um dirigente partidário brinda-nos com uma proposta legislativa hilariante, normalmente inexequível, quase sempre patética, mas que serve para entreter as conversas de café. Normalmente estas brincadeiras cabem ao Bloco de Esquerda, mas a Juventude Socialista não gosta de deixar o Bloco sem troco. Uma vez por outra a doideira sobe à cabeça do grupo parlamentar.
Esta semana, o grupo parlamentar do PS anunciou que está a pensar propor uma lei que proíba fumar na rua (!!!), mas não é em qualquer rua nem na rua inteira. Só naquele espaço que dista menos de cinco metros de hospitais, creches, escolas, ginásios, bares, átrios, bares, restaurantes…


Estou mesmo a ver a polícia a passar a ronda pelos portões das escolas, entradas dos hospitais, estacionamentos dos restaurantes, com fita métrica na mão, dirigindo-se ao utente, ao professor, ao médico, à mãe que acabou de deixar a criancinha no infantário, sacando do bloquinho das multas, talão 653, com aquele ar de felicidade que só um polícia sabe fazer quando se prepara para passar um multa, e anunciar: «O senhor está multado, por ter puxado do cigarro junto à portão da escola! Que mau exemplo!»
Surpreendido, o pai lá refere que ainda não acendeu o cigarro, o polícia consulta novamente a lei, para ver se há alínea para cigarro por acender; o pai, pelo sim pelo não, dá dois passos em frente; o polícia manda-o recuar; os curiosos começam a juntar-se, tomando partido pelo pai que ia fumar mas ainda não acendeu o cigarro; o polícia começa a enervar-se; a canalha aproveita para aglomerar-se junto à vedação do lado de dentro da escola; o pai dá mais uns passinhos para a rua; os automobilistas começam a apitar, porque a estrada está impedida; toda a gente muda de passeio; o pai diz que já está atrasado para o emprego, mas que até está disponível para pagar a multa, no entanto requer que seja medida a distância para o portão da escola; o polícia percebe que se esqueceu da fita métrica no carro patrulha; os alunos riem e deixam-se ficar; o polícia calcula a distância a olho; o pai não aceita e pede nova análise. Entretanto, o pai já não tem o cigarro na mão, nem no bolso do casaco e o polícia não sabe o que há de fazer.


Noutro ponto da cidade, duas mulheres saem do restaurante, entram no carro que está estacionado em frente, colocam o cinto, acendem o cigarro, mas antes de darem a primeira passa já estão com o zeloso polícia à perna, a pedir-lhes os documentos, para as multar por fumarem a menos de cinco metros de um restaurante. Tinham elas poupado na sobremesa! Que tontas!
Numa sociedade que devia prezar o respeito pelo outro não se podem fazer leis em modo “pide dos costumes”, querendo impor aos outros condutas e atitudes que colidam com o exercício da sua liberdade.
Falar-me-ão do exemplo que um professor, um médico, um pai devem dar. É verdade, mas em sociedade todos devem dar exemplo. Não há classes que tenham perante a lei um dever especial de exemplo.
Um dos atributos da lei é a justiça, outro é a igualdade genérica perante a mesma e outro é o bom senso.


Gabriel Vilas Boas

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