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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

IGREJA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS, de Nuno Teotónio Pereira


A dez dias de completar 94 ano de vida, o arquiteto Nuno Teotónio Pereira faleceu hoje em Lisboa. Arquiteto excecional, Teotónio Pereira gostava de dizer que a arquitetura era a mais importante e bela das artes. Durante mais de cinco décadas de projetos, Nuno Teotónio Pereira pensou a arquitetura para todos, ricos e pobres, pois gostava de associar à arte que amava uma dimensão ética.

Talentoso, começou desde de cedo desenhar projetos cujo valor era reconhecido. Venceu o prestigiado Prémio Valmor, por três vezes, a última das quais com o projeto da Igreja do Sagrado Coração de Jesus (1962-1975), que desenhou em parceria com os arquitetos Nuno Portas e Pedro Vieira de Almeida.
Nesse projeto singular, temos de destacar desde logo como marco do tempo e de inovação a organicidade da sua implantação, que a obriga a desmultiplicar-se em incisivos elementos volumétricos hierarquizados.
Neste projeto, Teotónio Pereira consegue o regresso a uma certa monumentalidade silenciosa que se manifesta na expressividade dos materiais e que tem no pátio “vazio”, o primeiro momento de “respiração” e um lugar de encontro.

A nave da igreja é o espaço onde se concentra a densidade do projeto porque é a razão de ser do edifício. Nela cruzam-se duas dimensões: uma horizontal, que reflete o peso da assembleia dos fiéis; e outra vertical, comunicando com o absoluto. Entre elas sente-se a força do espaço enquanto valor material, saturado, envolvendo todos aqueles que participam nas celebrações em fortes contrastes de luz e sombra. Contra o ecrã cru dos blocos de betão coloca-se o celebrante.
Há propositadamente uma luz clara que dramatiza o plano do altar. A assembleia inclina-se por entre as galerias e o chão.
A funcionalidade desta igreja não sai prejudicada do projeto de Teotónio Pereira e parceiros, mas este acrescenta-lhe outros valores que a “humanizam” e que se jogam no recurso dos materiais (betão e madeiras) e da estrutura, assumidos na sua significação mais justa.

Projeto vencedor de um concurso, em 1962, a Igreja do Sagrado Coração de Jesus corresponde ao aprofundamento das teses programáticas e estéticas do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (1953) que em Portugal pensou ligar os conteúdos das artes e da arquitetura ao espaço litúrgico católico. 

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