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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

"GATA EM TELHADO DE ZINCO QUENTE" NO TEATRO NACIONAL SÃO JOÃO



No domingo passado estive no Teatro Nacional São João, no Porto, a assistir à mais importante de peça de Tennessee Williams, “Gata em Telhado de Zinco Quente”, cuja encenação é assinada por Jorge Silva Melo, que dirige um conjunto de atores onde se destacam Catarina Wallenstein, Rúben Gomes e Américo Silva.  
Foi uma extraordinária tarde de teatro, porque o texto do dramaturgo americano é de grande qualidade e também porque a performance das interpretações artísticas dos atores dos “Artistas Unidos” foi superlativa, o que não espanta dada a encenação estar a cargo de Jorge Silva Melo, um dos encenadores com maior cartel no panorama teatral português.
Como o próprio Tennessee Williams reconheceu, “Gata em Telhado de Zinco Quente” é provavelmente o mais extraordinário texto deste autor, aquele onde o texto dramático mais se aproxima da obra de arte. Para quem não conhecia a versão escrita da peça (tal como a grande maioria das pessoas apenas tinha visto o filme homónimo, onde contracenaram Elizabeth Taylor, Paul Newman e Burl Ives), o texto revela-se uma preciosidade. A peça de T. Williams tem consistência; nela as personagens são divertidas, credíveis e comoventes. Além disso, a peça obedece àquele preceito aristotélico segundo o qual, uma tragédia deve ter uma certa unidade de tempo, espaço e uma certa grandeza no seu tema.

Se repararmos bem, o cenário de Gata em Telhado de Zinco Quente nunca muda e o tempo de representação é exatamente o tempo da ação. O tema central é a falsidade generalizada na nossa sociedade.
A peça é longa, mas a qualidade literária e cénica do texto assim como o talento dos atores prende o espetador sem que este dê pela passagem do tempo.
No início, brilha a naturalidade e sensualidade da "gata" Catarina Wallenstein, no papel de Maggie, um jovem mulher que a frustração amorosa tinha levado a seduzir um rapaz que não a desejava. Esse equívoco/desespero é uma das razões da revolta de Brick (Rúben Gomes) que afoga no álcool toda a frustração duma vida falhada. No entanto, a persistência de Maggie há de obrigar, literalmente, Brick a voltar à cama, até porque ela lhe confisca a garrafa…

Com o decorrer da peça vamos percebendo que aquela é a história dum casamento destruído pelo álcool, pela ausência de filhos, pelos mistérios e pela mentira.
No meio do labirinto em que se tornou a vida daquela numerosa e rica família do sul da América do Norte, vive-se sob o espectro da doença incurável do patriarca (Papá Pollit), que levanta o inevitável problema da herança e quem a governaria. Enquanto uns tentavam fugir à morte, declarando amor à vida (Papá Pollit), outros jogavam a cartada oportunista dos filhos para aceder ao domínio da herança (Ema e Gooper), e havia quem fugisse ao encontro consigo e teimasse em manter-se enredado na teia do álcool – Brick.

O nó será desatado no segundo ato, quando o Papá Pollit obriga o filho Brick à conversa de que ele fugia desde o início. É um diálogo fantástico, onde o ator Américo Silva tem uma interpretação muito boa, pois consegue transmitir à sua personagem uma espécie de eloquência em estado bruto que prende a assistência e convence o filho a encarar os seus problemas.
Quando finalmente todos se vêem no espelho da vida, a hipocrisia cede lugar à crueza da realidade e da verdade. E ainda que a morte faça a visita esperada, há uma cama onde se começa a desenhar a vida mais esperada.
Gabriel Vilas Boas   

  

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