Etiquetas

Mostrar mensagens com a etiqueta Catarina Wallenstein. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Catarina Wallenstein. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE



«Não vos peço piedade, só peço compreensão – nem sequer isso. Apenas reconhecimento de mim em ti, e do inimigo, o Tempo, em todos nós.»

O Doce Pássaro da Juventude é uma peça de teatro de Tennessee Williams que a companhia de Jorge Silva Melo, Artistas Unidos, leva novamente à cena, em Lisboa, a partir de hoje até ao próximo dia 14. Via-a no passado domingo num Teatro Nacional de São João quase repleto.
À frente de um extenso elenco, brilham os atores Maria João Luís e Ruben Gomes. A peça do dramaturgo norte-americano aborda a questão do tempo e da sexualidade que vão destruindo as relações e a pureza da juventude. Como noutras peças de Tennessee Williams, também em O Doce Pássaro da Juventude está patente aquela que é uma das grandes preocupações do dramaturgo: o tempo inexorável que passa por cima de todos nós.

“O Doce Pássaro da Juventude” envolve triângulos que se intersetam: Chance/Heavenly/Boss Finley (pai de Heavenly) e Chance/Heavenly/Alexandra del Lago (o trio mais relevante). As duas mulheres (Heavenly e Alexandra) nunca se cruzam mas oferecem a Chance as duas possibilidades emocionais e sexuais que ele conhece na peça.
Heavenly é uma miragem, a concha da rapariga que amou, mas Chance acredita que irá recuperá-la e através dela recuperar a sua juventude e inocência. Alexandra del Lago é uma personagem muito real, completa, com as suas gloriosas neuroses e os meios para temporariamente as fazer esquecer.

Chance conheceu um glorioso instante de beleza e amor na cama com Heavenly, num comboio a grande velocidade, e vive para recriar esse momento. Há pureza nesse sonho. No entanto, para os homens no poder na sua terra, St. Cloud, ele é o criminoso degenerado que merece ser castrado, depois de ter inconscientemente infetado Heavenly com a “doença das putas”, adquirida numa das muitas mulheres da vida com que Chance teve, na sua tentativa de arranjar dinheiro e estatuto para estar ao nível daquilo que Boss Finley pretendia para o marido da filha. Na verdade, apenas arranjou um bilhete sem regresso para o inferno.

A certa altura da peça, Alexandra del Lago ou simplesmente “A Princesa” implora pelo corpo de Chance:
“- Chance, preciso desta distração. É o momento de descobrir se és capaz de ma dar. Não podes ficar preso a essa ideia parva de que podes valorizar-te voltando as costas e indo para a janelas quando alguém te quer… eu quero-te… agora mesmo.”  
É esta mercantilização do sexo que deixa Chance emasculado (castrado). Ele é a versão masculina da puta de ouro, um romântico amoroso que se redime a dar voz a juízos patriarcais sobre a renúncia ao poder masculino. A corrupção da personagem é causada pela sua capturada dentro do sistema materialista.

Ao contrário de Alexandra del Lago, Heavenly é uma impossibilidade para Chance. O pai nunca permitirá que Chance a leva e ela torna-se tão somente um “sonho de juventude”, uma jovem despedaçada, tornada estéril pela doença venérea que Chance lhe transmitiu e agora é forçada a casar com o médico que lhe extraiu o útero.
Alexandra oferece a Chance uma forma de escapar à castração e fugir de St. Cloud: continuar ao seu serviço. Mas ele recusa. Quando o seu sonho de juventude acaba, só lhe resta o orgulho e por isso ele prefere a castração a ser um brinquedo de Alexandra. Quando Chance diz a Alexandra que forçá-lo a cumprir sexualmente é uma forma de castração, ela contrapõe: “A idade faz o mesmo com as mulheres” e nós ficamos a pensar quanto certeira é aquela observação.

O Doce Pássaro da Juventude decorre num domingo de Páscoa, sugerindo uma redenção que a peça não admite. A Páscoa funciona aqui ironicamente, pois não há como escapar ao tempo ou à mortalidade.
A peça celebra a tenacidade de Alexandra del Lago, capaz de ser honesta consigo e com os outros, e capaz de momentos luminosos de compaixão e até de amor. No entanto ela sabe que, fundamentalmente, estamos sós numa terra de ogres.
No final, Chance só abdica das suas vãs ilusões quando Alexandra o confronta com a dura verdade sobre ele próprio e Heavenly. O que ganhará ele com a castração? Não será mais heroico suportar a inevitabilidade do tempo, esse inimigo, do que claudicar diante dele?
Alexandra é o verdadeiro centro da peça e não Chance. As últimas palavras que dirige a Chance propõem uma filosofia de persistência e adaptabilidade: “Então, anda, temos de continuar.”


Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

"GATA EM TELHADO DE ZINCO QUENTE" NO TEATRO NACIONAL SÃO JOÃO



No domingo passado estive no Teatro Nacional São João, no Porto, a assistir à mais importante de peça de Tennessee Williams, “Gata em Telhado de Zinco Quente”, cuja encenação é assinada por Jorge Silva Melo, que dirige um conjunto de atores onde se destacam Catarina Wallenstein, Rúben Gomes e Américo Silva.  
Foi uma extraordinária tarde de teatro, porque o texto do dramaturgo americano é de grande qualidade e também porque a performance das interpretações artísticas dos atores dos “Artistas Unidos” foi superlativa, o que não espanta dada a encenação estar a cargo de Jorge Silva Melo, um dos encenadores com maior cartel no panorama teatral português.
Como o próprio Tennessee Williams reconheceu, “Gata em Telhado de Zinco Quente” é provavelmente o mais extraordinário texto deste autor, aquele onde o texto dramático mais se aproxima da obra de arte. Para quem não conhecia a versão escrita da peça (tal como a grande maioria das pessoas apenas tinha visto o filme homónimo, onde contracenaram Elizabeth Taylor, Paul Newman e Burl Ives), o texto revela-se uma preciosidade. A peça de T. Williams tem consistência; nela as personagens são divertidas, credíveis e comoventes. Além disso, a peça obedece àquele preceito aristotélico segundo o qual, uma tragédia deve ter uma certa unidade de tempo, espaço e uma certa grandeza no seu tema.

Se repararmos bem, o cenário de Gata em Telhado de Zinco Quente nunca muda e o tempo de representação é exatamente o tempo da ação. O tema central é a falsidade generalizada na nossa sociedade.
A peça é longa, mas a qualidade literária e cénica do texto assim como o talento dos atores prende o espetador sem que este dê pela passagem do tempo.
No início, brilha a naturalidade e sensualidade da "gata" Catarina Wallenstein, no papel de Maggie, um jovem mulher que a frustração amorosa tinha levado a seduzir um rapaz que não a desejava. Esse equívoco/desespero é uma das razões da revolta de Brick (Rúben Gomes) que afoga no álcool toda a frustração duma vida falhada. No entanto, a persistência de Maggie há de obrigar, literalmente, Brick a voltar à cama, até porque ela lhe confisca a garrafa…

Com o decorrer da peça vamos percebendo que aquela é a história dum casamento destruído pelo álcool, pela ausência de filhos, pelos mistérios e pela mentira.
No meio do labirinto em que se tornou a vida daquela numerosa e rica família do sul da América do Norte, vive-se sob o espectro da doença incurável do patriarca (Papá Pollit), que levanta o inevitável problema da herança e quem a governaria. Enquanto uns tentavam fugir à morte, declarando amor à vida (Papá Pollit), outros jogavam a cartada oportunista dos filhos para aceder ao domínio da herança (Ema e Gooper), e havia quem fugisse ao encontro consigo e teimasse em manter-se enredado na teia do álcool – Brick.

O nó será desatado no segundo ato, quando o Papá Pollit obriga o filho Brick à conversa de que ele fugia desde o início. É um diálogo fantástico, onde o ator Américo Silva tem uma interpretação muito boa, pois consegue transmitir à sua personagem uma espécie de eloquência em estado bruto que prende a assistência e convence o filho a encarar os seus problemas.
Quando finalmente todos se vêem no espelho da vida, a hipocrisia cede lugar à crueza da realidade e da verdade. E ainda que a morte faça a visita esperada, há uma cama onde se começa a desenhar a vida mais esperada.
Gabriel Vilas Boas