Etiquetas

terça-feira, 8 de abril de 2014

GIL VICENTE

   Gil Vicente é muito mais do que o pai do teatro português. Ele é a verdadeira alma da dramatologia nacional, o melhor e mais fecundo criador de peças de teatro nascido em Portugal, aplaudido e admirado pelos seus contemporâneos e seguido por milhões de pessoas ao longo de mais de cinco séculos.
     O nome de Gil Vicente confunde-se com o do teatro português. Se perguntarmos a um português médio qual o nome do dramaturgo nacional que conhece, a resposta será, invariavelmente, “Gil Vicente”. E mestre Gil atingiu há vários anos a maior glória que um escritor pode almejar: entrar na escola, ou seja, fazer parte do programa de português que todos os anos é ensinado aos alunos do 9º ano. Isto quer dizer que todos os portugueses, pelo menos uma vez na sua vida, leram uma obra de Gil Vicente e estudaram-na com alguma profundidade.

                No meu entender, esta imortalidade da obra vicentina encontra justificação em dois eixos fundamentais: a intemporalidade da sua sátira e a natural comicidade da sua crítica. Gil Vicente faz sentido hoje, como fazia há duzentos anos ou há quinhentos, porque a crítica social das suas obras atinge tipos sociais e não pessoas individualmente. É fácil encontrar no político, no banqueiro, no comerciante, no médico, na pessoa comum do povo, algumas das características descritas nas personagens do Auto da Barca do Inferno. Os temas do adultério, da degradação moral e dos costumes, da busca vã da riqueza no estrangeiro presentes no Auto da Índia são visíveis na atualidade com muita nitidez.
                À crítica intemporal, mestre Gil juntou um cómico diversificado (de situação, personagem e de linguagem) que faz rir em primeiro lugar e só depois é mordaz. Consegue aquela coisa fantástica de pôr os próprios a rir dos seus defeitos.
                Apesar das suas personagens não terem nomes próprios, o público identificava-se naturalmente com o seu teatro, porque se via nele e percebia que Gil Vicente era   um dramaturgo que não tinha medo de atingir os poderosos, ainda que o fizesse com a cautela que o humor permite. Embora fosse muito religioso e as suas peças fossem, na sua maioria, moralidades, Gil Vicente era extremamente profano nos temas das suas peças. Colocar uma criada a dizer da sua patroa “Quantas artes, quantas manhas/que sabe fazer minha ama! Um na rua, outro na cama!” era uma ousadia (ainda para mais feita em plena corte) só ao alcance de quem tinha atingido um estatuto cultural quase intocável junto das classes privilegiadas.
          O homem medieval que ajudou Portugal a tornar-se renascentista, e cujos primeiros passos biográficos nunca foram totalmente determinados, haveria de terminar acossado pela inquisição e por uma moral hipócrita que minava a sua alma. Felizmente deixou filhos que souberam reunir a sua inestimável obra dramática que nos legaram como tesouro. E este foi um tesouro que aproveitámos. Nas escolas, nos teatros, na música e na literatura. Milhões de portugueses conhecem um teatro, assistiram a uma peça, leram um texto dramático por causa de Gil Vicente. As suas peças continuam a ser um desafio para atores e encenadores, atraentes para o público, alvo de estudo em universidades.
               Eu gostava apenas que pegassem num manual escolar antigo, que tenham esquecido numa estante qualquer, e o abrissem num Auto qualquer de Gil Vicente e o voltassem a ler.

Gabriel Vilas Boas


6 comentários:

  1. LER ,GIL VICENTE... AO SOM DE RUI VELOSO, É... SIMPLESMENTE... MARAVILHOSO!!! ADOREI. VOU VOLTAR A LER: "O AUTO DA BARCA DO INFERNO" E "A FARSA DE INÊS PEREIRA", DUAS DAS SUAS OBRAS, BEM CONHECIDAS! PARABÉNS GABRIEL.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O trabalho do Rui Veloso está muito bom. É como dizes, Ana, a obra de Gil Vicente ganha se for lido ao som do Auto da Pimenta.

      Eliminar
  2. Vi, há pouco, o Auto da Barca do Inferno. De facto, as tipologias satirizadas continuam vivinhas da silva entre nós.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A grande imortalidade dum autor passa pela sua intemporalidade, Anabela Magalhães.

      Eliminar
  3. Gosto muito de Gil Vicente. É dele uma das primeiras peças que vi representada ("A farsa de Inês Pereira". se não estou em erro), ainda na escola secundária. Há uns tempos que me ocorre reler alguns dos seus textos.
    Gosto também bastante deste disco do Rui Veloso. Boas escolhas. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E eu gosto muito de te ver novamente por cá, Deep. Os textos do Gil Vicente são como os grandes vinhos de qualidade ou as músicas de todos os tempos: nunca morrem!

      Eliminar